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Capítulo 12 de 30

Ante os Tempos Novos — parte 12 de 29

Missionários da Luz · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Não tenho as vestes ensangüentadas? Será isto morrer? Absurdo!... Muito sereno, o bondoso instrutor voltou a falar: - Não empunhou sua arma contra o próprio peito? Não localizou o coração para exterminar a própria vida?

Ó meu amigo, podem os homens enganar uns aos outros, mas nenhum de nós poderá iludir a Justiça Divina. Revelando extrema vergonha, ao sentir-se a descoberto, o suicida prorrompeu em soluços, murmurando: - Ah! Desventurado que sou! Mil vezes infeliz!... Alexandre, contudo, não tornou a falar-lhe naquela circunstância.

Depois de recomendá-lo carinhosamente aos cuidados dos irmãos responsáveis pelos serviços de assistência, dirigiuse a mim, explicando: - Vamos, André! Nosso novo amigo está em crise cuja culminância não cederá antes de setenta horas, aproximadamente. Voltaremos mais tarde a vê-lo. De regresso aos meus trabalhos, esperei, ansioso, o instante de reatar as observações educativas. Impressionava-me a complexidade do serviço «intercessório».

As simples orações de uma esposa saudosa e dedicada haviam provocado atividades numerosas para o meu orientador e valiosos esclarecimentos para mim. Como agiria Alexandre na fase final? Que revelação teria Raul para os nossos ouvidos de companheiros interessados no seu bemestar? Conseguiria a esposa consolar-se nos círculos da viuvez? Abrigando interrogações numerosas, aguardei o momento azado.

Decorridos quatro dias, o instrutor convidou-me a tornar ao assunto, o que me fez exultar de contentamento pela possibilidade de prosseguir, aprendendo para a minha própria evolução. Encontramos Raul cheio de dores; todavia, mais calmo para sustentar a conversação esclarecedora. Queixava-se da ferida aberta, do coração descontrolado, dos sofrimentos agudos, do grande abatimento. Sabia, porém, que não se encontrava mais no círculo da carne, embora semelhante verdade lhe custasse angustioso pranto. - Tranqüilize-se - disse-lhe o meu orientador, com inexprimível bondade -, sua situação é difícil, mas poderia ser muito pior. Há suicidas que permanecem agarrados aos despojos cadavéricos por tempo indeterminado, assistindo à decomposição orgânica e sentindo o ataque dos vermes vorazes. - Ai de mim! - suspirou o mísero – porque, além de suicida, sou igualmente criminoso.

E demonstrando infinita confiança em nós, Raul contou a sua história triste, procurando justificar o ato extremo. Na mocidade, viera do interior para a cidade grande, atendendo ao convite de Noé, seu camarada de infância. Companheiro devotado e sincero, esse amigo apresentara-o, certa vez, à noiva querida, com quem esperava tecer, no futuro, o ninho de ventura doméstica. Ai! Desde o dia, porém, que vira Éster pela primeira vez, nunca mais pôde esquecê-la.

Personificava a jovem o que ele. Raul reputava como seu mais alto ideal para o matrimônio feliz. Em sua presença, sentia-se o mais ditoso dos homens. Seu olhar alimentava-lhe o coração, suas idéias constituíam a continuidade dos seus próprios pensamentos. Como, porém, fazer-lhe sentir o afeto imenso?

Noé, o bom companheiro do passado, tornara-se-lhe o empecilho que precisava remover. Éster seria incapaz de traição ao compromisso assumido. Noé mostrava-se infinitamente bondoso e estimável para provocar um rompimento. Foi então que lhe nasceu no cérebro a tenebrosa idéia de um crime. Eliminaria o rival.

Não cederia sua felicidade a ninguém. O colega deveria morrer. Mas como efetuar o plano sem complicações com a Justiça? Enceguecido pela paixão violenta, passou a estudar minuciosamente a realização de seus criminosos propósitos. E encontrou uma fórmula sutil para a eliminação do companheiro dedicado e fiel.

Ele, Raul, passou a usar conhecido e terrível veneno em pequeninas doses, aumentando-as vagarosamente até habituar o organismo com quantidades que para outrem seriam fulminantes. Atingido o padrão de resistência, convidou o companheiro para um jantar e propinou-lhe o veneno odioso em vinho agradável que ele próprio bebeu, sem perigo algum. Noé, porém, desaparecera em poucas horas, passando por suicida à apreciação geral. Guardou ele, para sempre, o segredo terrível, e, depois de cortejar gentilmente a noiva chorosa, conseguiu impor-lhe simpatia, que culminou em casamento. Atingira a realização do que mais desejava: Éster pertencia-lhe na qualidade de mulher; vieram os filhinhos enfeitar-lhe o viver, mas...

A sua consciência fora ferida sem remissão. Nas mais íntimas cenas do lar, via Noé, através da tela mental, exprobrando-lhe o procedimento. Os beijos da esposa e as carícias dos filhos não conseguiam afastar a visão implacável. Ao invés de decrescerem, seus remorsos aumentavam sempre. No trabalho, na leitura, na mesa de refeições, na alcova conjugal, permanecia a vítima a contemplá-lo em silêncio.

A certa altura do destino, quis entregar-se à justiça do mundo, confessando o crime hediondo; entretanto, não se sentia com o direito de perturbar o coração da companheira, nem deveria encher de lodo o futuro dos filhinhos. A sociedade respeitava-o, acatando--lhe o ambiente doméstico. Companheiros distintos de trabalho prezavam-lhe a companhia. Como esclarecer a verdade em semelhantes contingências? Não obstante amar ternamente a esposa e os filhos, achava-se esgotado, ao fim de prolongada resistência espiritual.

Receava a perturbação, o hospício, o aniquilamento, fugindo à confissão do crime que, cada dia, se tornava mais iminente. A essa altura, a idéia do suicídio tomou vulto em seu cérebro atormentado. Não resistiu por mais tempo. Esconderia o último ato do seu drama silencioso, como ocultara a tragédia primeira. Comprou um revólver e esperou.

Certo dia, após o trabalho diário, absteve-se do caminho de volta ao lar e empunhou a arma contra o próprio coração, agindo cautelosamente para evitar as marcas digitais. Atingido o alvo, num supremo esforço desfizera-se do revólver homicida e não teve a atenção voltada senão para o intraduzível padecimento do tórax estrangulado... Dificilmente, como se os seus olhos permanecessem anuviados, sentiu que algumas pessoas tentavam socorrê-lo e, em seguida, verdadeira multidão de criaturas, que ele não pôde ver, arrebatava-o do local de dor... Desde então, um enfraquecimento geral tomara-o por completo. Sentia-se presa de um sono pesado e angustioso, cheio de pesadelos cruéis.

E. por fim, somente recuperara a consciência de si mesmo, ali naquele quarto modesto, depois de Alexandre restaurar-lhe as energias em prostração... Terminando a confissão longa e amargurosa. Raul tinha o peito opresso e lágrimas pesadas a lhe lavarem o rosto. Comovidíssimo, não sabia, por minha vez, o que externar. Aquele drama oculto daria para impressionar corações de pedra.

Alexandre, contudo, demonstrando a grandeza de suas elevadas experiências, mantinha respeitável serenidade, e falou: - Nos maiores abismos, Raul, há sempre lugar para a esperança. Não se deixe dominar pela idéia de impossibilidade. Pense na renovação de sua oportunidade, medite na grandeza de Deus. Transforme o remorso em propósito de regeneração. E após ligeira pausa, enquanto o infeliz se debulhava em pranto, o mentor prosseguiu: - Em verdade, seus males de agora não podem desaparecer milagrosamente.

Todos faremos a colheita compatível com a semeadura, mas também nós, que hoje aprendemos alguma coisa, já passamos, vezes inúmeras, pela lição de recomeçar. Tenha calma e coragem. Em seguida, Alexandre passou a notificá-lo, relativamente à causa de nosso interesse, explicando-lhe que o trabalho de auxílio fraterno fora iniciado através de orações da esposa carinhosa e desolada. Deu-lhe notícias dela, dos filhinhos e dos velhos tios; falou-lhe das saudades de Éster e de sua ansiedade para vê-lo, ainda que fosse em ligeiro minuto, em ocasião de sono do veículo físico. Em ouvindo as derradeiras informações, o suicida pareceu reanimar-se vivamente e observou: - Ai!

Não sou digno! Minha miséria acentuar-lhe-ia as dores!... O orientador, porém, afagando-lhe paternalmente a fronte, prometeu intervir e solucionar o problema. Retiramo-nos, de novo, e, percebendo-me a profunda admiração, Alexandre ponderou: - No pequeno drama em observação, meu amigo, você pode calcular a extensão e complexidade de nossas tarefas nos serviços «intercessórios». Os nossos companheiros encarnados pedem-nos, por vezes, determinados trabalhos, muito distantes do conhecimento das verdadeiras situações.

Para a sociedade humana, Raul é uma vítima de sicários ocultos, quando é apenas vitima de si mesmo. Para a companheira é o marido ideal, quando foi criminoso e suicida. Compreendi as dificuldades morais em que nos achávamos para atender a petição que nos conduzira ao semelhante serviço. As palavras do instrutor não evidenciavam outra coisa. Entendendo assim, ousei perguntar: - Acredita esteja a irmã Éster preparada para o realismo de nossas conclusões?

Alexandre abanou a cabeça, negativamente, e redargüiu: - Somente são dignos da verdade plena os que se encontrem plenamente libertados das paixões. Éster é profundamente bondosa, mas ainda não alcançou o próprio domínio. Não possui as emoções, antes é possuída por elas. Em vista disso, de modo algum lhe poderíamos dar o conhecimento completo do assunto. Está preparada para a consolação, não para a verdade.

As afirmativas do instrutor chocaram-me de certo modo. De que maneira omitir os pormenores da tragédia? Não seria faltar à realidade? Por que processo confortar a esposa saudosa, ocultando-lhe o sentido verdadeiro dos acontecimentos? Alexandre, porém, compreendeu-me a indagação e observou: - Com que direito perturbaríamos o coração de uma pobre viúva na Crosta, a pretexto de sermos verdadeiros?

Por que motivo tisnar a esperança tranqüila de três crianças adoráveis, envenenando-lhes, talvez, o destino, tão-só para nos exibirmos como campeões da realidade? Haverá mais alegria em mostrar a sombra do crime, que em descobrir a fonte do conforto? André, meu irmão, a vida pede muito discernimento! Cada palavra tem sua ocasião, como cada revelação o seu tempo! Não podemos compreender um serviço de socorro com o esmagamento do suplicante.

A oração de Éster não lhe poderia ser portadora de desalento. Por isso mesmo, nem todos recebem, quando querem, a delegação de Mais Alto para os serviços de assistência. Registrei a observação. Nesse dia. Alexandre dirigiu-se em minha companhia às autoridades do Auxílio, pedindo a colaboração de uma das irmãs que funcionavam nas Turmas de Socorro, para concurso mais eficiente ao coração de Éster.

Foi destacada Romualda, criatura dedicada e bondosa, que desceu para a Crosta, junto de nós, recebendo, atenciosamente, as recomendações do prestimoso amigo. Alexandre não se alongou em muitas instruções. Romualda deveria preparar a viúva, espiritualmente, para visitar, na noite próxima, o esposo desencarnado e, em seguida, demorar-se junto dela, duas semanas, colaborando no reerguimento de suas energias psíquicas e cooperando para que se lhe reorganizasse a vida econômica, através de colocação honesta e digna. Era de ver-se o carinho que o delicado instrutor dedicou a todas as providências em curso. Quase no momento aprazado para o reencontro dos cônjuges, comparecemos ao hospital volante de socorro espiritual, onde o instrutor cuidou pessoalmente de todas as medidas.

Recomendou a Raul o melhor ânimo, insistindo para que não pronunciasse a menor expressão de queixa e para que se abstivesse de qualquer gesto que pudesse traduzir impaciência ou aflição. Em seguida, mandou velar a chaga aberta e sanguinolenta, muito visível na região dilacerada do organismo perispiritual, para que a esposa não recebesse qualquer impressão de sofrimento. O próprio Raul, admirado pela lição de boas maneiras, atendia, satisfeito e reanimado, a todas as instruções. Daí a minutos, Romualda entrou em companhia de Éster, cujo olhar deixava entrever angústia e expectação. Alexandre tomou-a pelo braço e mostrou-lhe o companheiro estendido no leito alvo. - Raul!

Raul! - gritou a viúva desolada, provisoriamente liberta do corpo carnal, dilacerando-me o coração pelo doloroso tom de voz. A comoção dela era extrema. Quis prosseguir e não pôde. Dobraram-se-lhe os joelhos e encontrou-se, genuflexa, junto ao leito do esposo, soluçando. Reparei que os olhos dele permaneciam marejados de pranto que não chegava a cair.

Alexandre fixava-o, com firmeza, dando-lhe a entender a necessidade de coragem para o angustioso testemunho. Como a criança interessada em conhecer as recomendações paternas, o suicida acompanhava os menores gestos do nosso generoso orientador. E porque Alexandre lhe fizera ligeiro sinal, Raul tomou a destra da companheira em lágrimas e falou: - Não chores mais, Éster! Tem confiança em Deus! Vela pelos nossos filhinhos e ajuda-me com a tua fé!

Vou indo muito bem... Não há razão para que nos lamentemos! Querida, a morte não é o fim. Aceita a vontade do Pai, como estou procurando aceitar... Nossa separação é temporária...

Nunca te esquecerei! Estarás em meu coração, onde eu estiver! Também estou saudoso de tua companhia, de tua dedicação, mas o Altíssimo nos ensinará a transformar saudades em esperanças! As palavras do suicida, bem como a doce inflexão de sua voz, surpreendiam-me as observações. Raul demonstrava um potencial de delicadeza e finura psicológica, que até aí não revelara a meus olhos.

Foi então que, aguçando a percepção visual, notei que fios tenuíssimos de luz ligavam a fronte de Alexandre ao cérebro dele e compreendi que o instrutor lhe ministrava vigoroso influxo magnético, amparando-o na difícil situação. Ouvindo-lhe as expressões consoladoras, a viúva pareceu reanimar-se, exclamando, lacrimosa: - Ó Raul, eu sei que agora estamos separados pelos abismos da sepultura!... Sei que devo esperar a decisão suprema para unir-me contigo para sempre... Ouve! Auxilia-me na Terra, na viuvez inesperada e dolorosa!

Levanta-te e vem para a nossa casa, dar-me esperança ao espírito abatido! Defende-nos ainda contra os maus... Não me deixes sozinha com os nossos filhinhos, que tanto precisam de ti... Pede a Deus essa graça e vem ajudar-nos até ao fim!... Embora continuasse estirado no leito, o interpelado afagou-lhe carinhosamente os cabelos e respondeu: - Tem coragem e fé!

Lembra-te, Éster, de que existem padecimentos maiores que os nossos e conforma-te... Vou fortalecer-me e trabalharei ainda por nós... Assim como me esperas a assistência, esperar-te-ei a confiança. O Senhor não nos confia problemas dos quais não sejamos dignos! Volta para nossa casa e alegra-te!

Não tenhas medo da necessidade; nunca nos faltará a bênção do pão! Procura a alegria do trabalho honesto e semeia o bem através de todas as oportunidades que o mundo te ofereça! A prática do bem dá saúde ao corpo e alegria ao espírito! E Deus, que é bom e justo, abençoará nossos filhinhos para que eles sejam felizes ao teu lado... Não te demores mais!

Volta confiante! Guarda a certeza de que eu estou vivo e de que a morte do corpo é somente a necessária transformação!... Compreendendo que a oportunidade do reencontro estava a esgotar-se, revelou a ansiosa esposa extrema curiosidade e aflição, fitando o companheiro através das lágrimas, e perguntou: - Raul, antes que me vá, dize-me francamente... Que aconteceu? Quem te roubou a vida?

Notei que o interpelado mostrou no olhar terrível angústia, ante a indagação inesperada. Quis, talvez, confessar a verdade, fazer luz em torno de suas experiências extintas, mas o socorro magnético de Alexandre não se fez esperar. Jato de intensa luminosidade partiu da mão do orientador, que, a essa altura da conversação, mantinha sobre a fronte do suicida a destra protetora. Transformou-se-lhe a expressão fisionômica, restabelecendo-se-lhe a serenidade e a coragem. Novamente calmo, Raul falou à companheira: - Éster, os processos da Justiça Divina não se encontram ao dispor de nossa apreciação...Guarda contigo a certeza de que estamos sendo instruídos todos os dias e em todos os acontecimentos...

Aprende a procurar, antes de tudo... À vontade de Deus... A pobre viúva desejou prolongar a palestra; adivinhava-se-lhe, através dos olhos aflitos, o intenso propósito de continuar bebendo as sublimes consolações do momento, mas Alexandre tomou-lhe c braço e recomendou-lhe a necessidade de despedir-se. A esposa chorosa não relutou. Concentrando toda a sua capacidade afetiva nas palavras, disse adeus ao suicida e beijou-lhe as mãos com infinito carinho.

Algo distante da organização hospitalar de emergência, confiou-a o instrutor aos cuidados de Romualda e regressou em minha companhia. Não conseguia ocultar minha enorme admiração por semelhante serviço de assistência. Alexandre percebeu-me o estado d’alma e falou comovidamente: - Segundo observa, o trabalho de socorro pede muito esforço e devotamento fraterno. Não podemos esquecer que Raul e Éster são dois enfermos espirituais e, nessa condição, requer muita compreensão de nossa parte. Felizmente, a viúva regressa cheio de novo ânimo e o nosso amigo, sentindo a extensão dos cuidados de que está sendo objeto, e notando por si mesmo quanto pode auxiliar a companheira encarnada, dar-se-á pressa em criar novas expressões de estímulo e energia no próprio coração. 1 Impressionado, contudo, em vista do dilaceramento havido em seu organismo espiritual, indaguei: - E a região ferida?

Raul experimentará semelhantes padecimentos até quando? - Talvez por muitos anos - respondeu o instrutor, em tom grave. - Isso, porém, não o impedirá de trabalhar intensamente no campo da consciência, esforçando-se pela reaproximação da bendita oportunidade regeneradora. Outros problemas afloravam-me à idéia. No entanto, o instrutor precisava ausentar-se, em demanda de incumbências difíceis, nas quais não poderia eu acompanhá-lo. Pedi-lhe permissão para seguir, de perto, o trabalho de assistência levado a efeito por Romualda, recebendo-lhe a generosa aprovação. Desejava saber até que ponto se confortara a viúva aflita e observar-lhe o proveito daquele reencontro, que traduzia elevada concessão.

No dia seguinte, voltei ao lar modesto, justamente por ocasião do almoço familiar. Romualda andava ativa. O ambiente interno adquirira novo aspecto. As entidades viciadas não haviam desaparecido totalmente, mas o seu número fora consideravelmente reduzido. Amparando a sua protegida, a irmã auxiliadora recebeu-me com amabilidade.

Notificou-me que a viúva amanhecera muito melhor e que ela, Romualda, fizera o possível por manter-lhe a recordação plena do sonho. Como era natural, a pobrezinha não poderia lembrar-se de todas as minúcias; entretanto, fixara as impressões culminantes, suscetíveis de acordar-lhe à divina esperança e restaurar-lhe o bom ânimo. Recomendou-me verificar, por mim mesmo, o efeito maravilhoso da providência. De fato, o semblante da viúva ganhara nova expressão. De olhos límpidos e brilhantes, narrava aos tios e aos filhinhos o sublime sonho da noite.

Todos a escutavam sob forte interesse, mormente as crianças, que pareciam participar de seu júbilo interior. Éster terminara a narrativa, emocionada. Observei, então, que a velha tia esboçava um gesto de incredulidade, perguntando-lhe: - E você acredita ter visitado Raul no outro mundo? - Como não? - Redargüiu a viúva, sem pestanejar - tenho ainda a impressão de suas mãos sobre as minhas e sei que Deus me concedeu semelhante graça para que eu readquira minhas forças para o trabalho. Despertei hoje profundamente reanimada e feliz! Enfrentarei o caminho com novas esperanças!

Esforçar-me-ei e vencerei. - Ó mamãe, como nos consolam as suas palavras! - murmurou um dos pequenos, de olhos muito vivos - como desejaria estar com a senhora para ouvir o papai nesse sonho maravilhoso!... Nesse instante, o velhinho, que se alimentava em silêncio, ponderou, na qualidade de excelente representante da descrença humana: - E. interessante notar que tendo Raul consolado tanto o seu coração de mulher, nada tenha elucidado sobre o crime que o atirou no sepulcro. Éster, que sentiu a ironia da observação, influenciada pela benfeitora que ali se mantinha, respondeu prontamente: - Muitas vezes, meu tio, não sabemos ser gratos às bênçãos divinas. Recordo-me desta verdade, ao lhe ouvir semelhante raciocínio. Envergonho-me, quando me lembro haver feito interrogação desta natureza ao pobre Raul, abatido e pálido no leito.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.