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Capítulo 11 de 30

Ante os Tempos Novos — parte 11 de 29

Missionários da Luz · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Alexandre pensou um momento e continuou: - Admitamos, contudo, a sua hipótese. Ainda que a mesa doméstica estivesse rodeada de entidades indignas, estranhas aos laços consangüíneos, resta a certeza de que as almas se reúnem obedecendo às tendências que lhes são características e à circunstância de que cada Espírito tem as companhias que prefere. E, desejoso de fornecer bases sólidas ao meu aprendizado, considerou: - A mesa familiar é sempre um receptáculo de influenciações de natureza invisível. Valendo-se dela, medite o homem no bem, e os trabalhadores espirituais, nas vizinhanças do pensador, virão partilhar-lhe o serviço no campo abençoado dos bons pensamentos; conserve-se a família em plano superior, rendendo culto às experiências elevadas da vida, e os orientadores da iluminação espiritual aproximar-se-ão, lançando no terreno da palestra construtiva as sementes das idéias novas, que então se movimentam com a beleza sublime da espontaneidade. Entretanto, pelos mesmos dispositivos da lei de afinidade, a maledicência atrairá os caluniadores invisíveis e a ironia buscará, sem dúvida, as entidades galhofeiras e sarcásticas, que inspirarão o anedotário menos digno, deixando margem vastíssima à leviandade e à perturbação.

Indicando o grupo à mesa, Alexandre acentuou: - Aqui, os tristes inveterados atraem os familiares desencarnados de análoga condição. E. O vampirismo recíproco. Ouça você o que falam. Agucei meus ouvidos e, com efeito, observei que a conversação era das mais lastimáveis: - Nunca pensei que viria a sofrer tanto neste mundo! - exclamava a velha tia de Éster, queixando-se amargamente. - Agostinho e eu trabalhamos tanto na mocidade!...

Agora, chegados à velhice, sem recursos para enfrentar a vida, somos obrigados a sobrecarregar uma pobre sobrinha viúva! Ó que doloroso destino!... E enquanto as lágrimas lhe corriam nas faces de cera, o ancião fazia coro: - É verdade! Para uma vida laboriosa e difícil, tão amargosa compensação! Jamais esperei uma velhice tão escura!...

As entidades vestidas em túnicas de sombra, ao ouvirem semelhantes declarações, pareciam também mais comovidas, abraçando-se aos velhos com fervor. A viúva, todavia, embora tristonha, acrescentou, resignada: J - De fato, nossas provações têm sido cruéis; entretanto, devemos confiar na Bondade de Deus. Alexandre fixou nela toda a sua atenção e notei que na alma da viúva se fazia disposição singular. De olhos brilhantes, como se percebesse, de muito longe, a nossa influenciação espiritual, recordou o sonho da noite, de modo vago, acentuando: - Graças à Providência, amanheci hoje muito mais confortada. Sonhei que a prima Etelvina m conduziu à presença de um mensageiro celestial que me abençoou o coração, aliviandome as pesadas dores destes últimos dias!

Ó como me rejubilaria se pudesse reconstituir esse sonho de luz! - Ora, mamãe, conte-nos! - exclamou a filhinha de sete anos presumíveis, que até ali se mantivera em silêncio. A senhora, de bom grado, comentou: - Minha filha, não se pode descrever as grandes sensações. Não me lembro precisamente de tudo, mas recordo-me de que o emissário de Jesus me ouviu com paciência e, em seguida, disse-me palavras de encorajamento e amor. Longe de me repreender, acolheu-me, bondoso, e. revelando divina tolerância, escutou minhas queixas até ao fim, qual médico abnegado. Inegavelmente, levantei-me hoje com outro ânimo.

Estejamos conformados, pois Deus nos auxiliará. Logo que me refaça completamente, ganharei nosso pão com o trabalho honesto. Tenhamos esperança e fé. Em face das afirmativas encorajadoras de Éster, os meninos entreolharam-se, sorridentes, enquanto os velhinhos calavam a amargura que lhes era própria. Desejei fazer-me visível aos companheiros desencarnados, sem luz, que se movimentavam no recinto, de maneira a palestrar com eles, sondando-lhes as experiências, mas Alexandre dissuadiu-me: - Seria perder tempo - disse -, e se você deseja beneficia-los, venha até aqui noutra oportunidade, porque as cristalizações mentais de muitos anos não se desfazem com esclarecimentos verbais dum dia.

No momento, nosso objetivo é diverso. Precisamos obter informações sobre Raul. Além disso, se nos valêssemos da hora, a fim de ouvir nossos irmãos desencarnados, presentes, verificaríamos de pronto que eles poderiam apenas relacionar dolorosas lamentações, sem proveito construtivo. E revelando reduzido interesse pela conversação dos encarnados, em vista do objetivo essencial do momento, considerou: - Procuremos algum de nossos irmãos visitadores. Temos necessidade de informes iniciais para dar uma feição imediata ao nosso trabalho intercessório.

Porque Alexandre demandasse outros aposentos, deixei igualmente a modesta sala de refeições, embora desejasse continuar observando. O instrutor, porém, não tinha muito tempo para gastar. Depois de rápidos minutos, fomos defrontados por uma entidade de aspecto humilde, mas muito digno, a quem Alexandre se dirigiu afavelmente: - Meu amigo é visitador em função ativa? - Sim, para servi-lo - respondeu, atencioso, o interpelado. O orientador expôs-lhe, com franqueza e em poucas palavras, o que desejávamos. Então, o irmão visitador explicou-se razoavelmente: conhecera Raul, de perto, auxiliara-o muitas vezes, prestando-lhe continuada assistência espiritual; todavia, não pudera, nem ele e nem outros amigos, evitar-lhe o suicídio friamente deliberado. - Suicídio? - interrogou Alexandre, procurando informar-se de maneira completa. - A viúva acredita em assassínio. - Entretanto - ponderou o novo amigo -, ele soubera dissimular com cuidado.

Meditara por muito tempo o ato infeliz e, no último dia, fizera a aquisição de um revólver para o fim desejado. Alvejando a região do coração, atirou a arma à pequena distância, depois de utilizá-la, cautelosamente, para evitar as impressões digitais e, desse modo, conseguira burlar a confiança dos familiares, fazendo-os supor tivesse havido doloroso crime. - E chegou a vê-lo nos derradeiros minutos da tragédia? - indagou Alexandre, paternal. - Sim - esclareceu o interlocutor -, alguns amigos e eu tentamos socorrê-lo, mas, em vista das condições da morte voluntária, friamente deliberada, não nos foi possível retirá-lo da poça de sangue em que se mergulhou, retido por vibrações pesadíssimas e angustiosas. Permanecíamos em serviço com o fim de ampará-lo, quando se aproximou um «bando» de algumas dezenas, que abusou do infeliz e deslocou-o, facilmente, em virtude da harmonia de forças perversas. Como pode compreender, não nos foi possível arrebatá-lo das mãos dos salteadores da sombra, que o carregaram por aí... O instrutor parecia satisfeito com as elucidações, e, quando vi que se dispunha a terminar a palestra, ousei perguntar: - Mas...

E a causa do suicídio? Não será interessante ouvir o visitador? - Não - explicou Alexandre, tranqüilamente -. Indagaremos do próprio interessado. Despedimo-nos. Determinada indagação, todavia, atormentava-me o cérebro.

Não a contive por muitos instantes, dirigindo-me ao generoso orientador: Um «bando» ? Mas o que significa? - interroguei. Alexandre, que me parecia agora mais preocupado, esclareceu: - O «bando» a que se refere o informante é a multidão de entidades delinqüentes, dedicadas à prática do mal. Embora tenham influenciação limitada, em virtude das defesas numerosas que rodeiam os núcleos de nossos irmãos encarnados e as nossas próprias esferas de ação, levam a efeito muitas perturbações, concentrando os impulsos de suas forças coletivas. Porque fosse muito grande a minha estranheza, o instrutor aduziu: - Não se surpreenda, meu amigo.

A morte física não é banho milagroso, que converta maus em bons e ignorantes em sábios, dum instante para outro. Há desencarnados que se apegam aos ambientes domésticos, à maneira da hera às paredes. Outros, contudo, e em vultoso número, revoltam-se nos círculos da ignorância que lhes é própria e constituem as chamadas legiões das trevas, que afrontaram o próprio Jesus, por intermédio de obsidiados diversos. Organizam-se diabolicamente, formam cooperativas criminosas e ai daqueles que se transformam em seus companheiros! Os que caem na senda evolutiva, pelo descaso das oportunidades divinas, são escravos sofredores desses transitórios, mas terríveis poderes das sombras, em cativeiro que pode caracterizar-se por longa duração. -- Mas o visitador regional, como guarda destes sítios - inquiri, espantado -, não poderia defender o suicida infeliz? - Se ele fosse vítima de assassínio, sim respondeu o instrutor -, porque, na condição real de vítima, o homem segrega determinadas correntes de força magnética suscetíveis de pô-lo em contacto com os missionários do auxílio; mas no suicídio previamente deliberado, sem a intromissão de inimigos ocultos, como este sob nossa observação, o desequilíbrio da alma é inexprimível e acarreta absoluta incapacidade de sintonia mental com os elementos superiores. - Mas - indaguei, assombrado - as sentinelas espirituais não poderiam socorrer independentemente?

Esboçou Alexandre um gesto de tolerância fraterna e acentuou: - Sendo a liberdade interior apanágio de todos os filhos da Criação, não seria possível organizar precipitados serviços de socorro para todos os que caem nos precipícios dos sofrimentos, por ação propositada, com plena consciência de suas atitudes. Em tais casos, a dor funciona como medida de auxílio nas corrigendas indispensáveis. Mas... E os maus que parecem felizes na própria maldade? Perguntará você, naturalmente.

Esses são aqueles sofredores perversos e endurecidos de todos os tempos, que, apesar de reconhecerem a decadência espiritual de si mesmos, criam perigosa crosta de insensibilidade em torno do coração. Desesperados e desiludidos, abrigando venenosa revolta, atiram-se à onda torva do crime, até que um novo raio de luz lhes desabroche no céu da consciência. O assunto oferecia ensejo a valiosos esclarecimentos, mas Alexandre esboçou um gesto de quem não podia gastar muito tempo com palavras e, depois de ligeiro intervalo, acrescentou: - André, mantenha-se em oração, ajudando-me por alguns momentos. Agora, que tenho informações positivas do visitador, preciso mobilizar minhas possibilidades de visão, sindicando quanto ao paradeiro do irmão infeliz. Não obstante conservar-me em prece, observei que o orientador entrava em profundo silêncio.

Daí a alguns minutos, Alexandre tomou a palavra e exclamou como quem estivesse voltando de surpreendente excursão: - Podemos seguir adiante. O pobre irmão, semi-inconsciente, permanece imantado a um grupo perigoso de vampiros, em lugarejo próximo. O instrutor pôs-se a caminho; segui-o, passo a passo, em silêncio, apesar de minha intensa curiosidade. Em pouco tempo, distanciando-nos dos núcleos suburbanos, encontramo-nos nas vizinhanças de grande matadouro. Minha surpresa não tinha limites, porque observei a atitude de vigilância assumida pelo meu orientador, que penetrou firmemente a larga porta de entrada.

Pelas vibrações ambientes, reconheci que o lugar era dos mais desagradáveis que conhecera, até então, em minha nova fase de esforço espiritual. Seguindo Alexandre de muito perto, via numerosos grupos de entidades francamente inferiores que se alojavam aqui e ali. Diante do local em que se processava a matança dos bovinos, percebi um quadro estarrecedor. Grande número de desencarnados, em lastimáveis condições, atiravam-se aos borbotões de sangue vivo, como se procurassem beber o líquido em sede devoradora... Alexandre percebera o assombro doloroso que se apossara de mim e esclareceu-me com serenidade: - Está observando, André?

Estes infelizes irmãos que nos não podem ver, pela deplorável situação de embrutecimento e inferioridade, estão sugando as forças do plasma sanguíneo dos animais. São famintos que causam piedade. Poucas vezes, em toda a vida, eu experimentara tamanha repugnância. As cenas mais tristes das zonas inferiores que, até ali, pudera observar, não me haviam impressionado com tamanho amargor. Desencarnados à procura de alimentos daquela espécie?

Matadouro cheio de entidades perversas? Que significava tudo aquilo? Lembrei meus reduzidos estudos de História, remontando-me à época em que as gerações primitivas ofereciam aos supostos deuses o sangue de touros e cabritos. Estaria ali, naquele quadro horripilante, a representação antiga dos sacrifícios em altares de pedra? Deixei que as primeiras impressões me incandescessem o cérebro, a ponto de sentir, como noutro tempo, que minhas idéias vagueavam em turbilhão.

Alexandre, contudo, solícito como sempre, acercou-se mais carinhosamente de mim e explicou: - Porque tamanha sensação de pavor, meu amigo? Saia de si mesmo, quebre a concha da interpretação pessoal e venha para o campo largo da justificação. Não visitamos, nós ambos, na esfera da Crosta, os açougues mais diversos? Lembro-me de que em meu antigo lar terrestre havia sempre grande contentamento familiar pela matança dos porcos. A carcaça de carne e gordura significava abundância da cozinha e conforto do estômago.

Com o mesmo direito, acercam-se os desencarnados, tão inferiores quanto já o fomos, dos animais mortos, cujo sangue fumegante lhes oferece vigorosos elementos vitais. Sem dúvida, o quadro é lastimável; não nos compete, porém, lavrar as condenações. Cada coisa, cada ser, cada alma, permanece no processo evolutivo que lhe é próprio. E se já passamos pelas estações inferiores, compreendendo como é difícil a melhoria no plano de elevação, devemos guardar a disposição legítima de auxiliar sempre, mobilizando as melhores possibilidades ao nosso alcance, a serviço do próximo. A advertência fora utilíssima.

As palavras do instrutor caíram-me n’alma a preceito, retificando-me a atitude mental. Encarei sereno o quadro sob meus olhos e, notando que me reequilibrara, Alexandre mostrou-me uma entidade de aspecto lamentável, semelhante a um autômato, a vaguear em torno dos demais. Depois de fixar-lhe os olhos quase sem expressão, reparei que a sua vestimenta permanecia ensangüentada. - É o suicida que procuramos - exclamou o instrutor, claramente. - Quê? – perguntei, espantado - porque precisariam dele os vampiros? - Semelhantes infelizes - elucidou Alexandre - abusam de recém-desencarnados sem qualquer defesa, como este pobre Raul, nos primeiros dias que se sucedem à morte física, subtraindo-lhes as forças vitais, depois de lhes explorarem o corpo grosseiro... Estava atônito, lembrando as antigas informações religiosas sobre as tentações diabólicas, mas o orientador, firme na missão sagrada de auxílio, obtemperou: - André, não se impressione em sentido negativo.

Todo homem, encarnado ou desencarnado, que se desvie da estrada reta do bem, pode vir a ser perigoso gênio do mal. Não temos tempo a perder. Vamos agir, socorrendo o desventurado. Seguindo o prestimoso mentor, aproximei-me também do infeliz. Alexandre alçou a destra sobre a fronte de Raul e envolveu-o em vigoroso influxo magnético.

Dentro de poucos instantes, Raul permanecia cercado de luz, que foi vista imediatamente pelos seres da sombra, observando eu que a maioria se afastou, lançando gritos de horror. Vendo a claridade que rodeara a vitima, estavam lívidos, espantados. Um dos algozes mais corajosos replicou em voz alta: - Deixemos este homem entregue à sua sorte. Os «espíritos poderosos» estão interessados nele. Larguemo-lo!

Enquanto se retiravam os verdugos, apressadamente, como se temessem algo que eu não podia compreender ainda, em face da aproximação bendita daquela luz que vinha de Mais Alto, perdia-me em dolorosas interrogações intimas. O quadro era típico das velhas lendas de demônios abandonando as almas prisioneiras de seus propósitos infernais. As palavras «espíritos poderosos» haviam sido pronunciadas com indisfarçável ironia. Pela claridade que envolvera o suicida, sabiam eles que estávamos presentes e, embora fugissem, medrosos, alvejavam-nos com zombarias. Aos poucos, o matadouro de grandes proporções estava deserto de vampiros vorazes.

Alexandre, dando por finda a operação magnética, tomou a mão do amigo sofredor, que parecia imbecilizado pela influenciação maligna, e, conduzindo-o para fora, a caminho do campo, falou-me, bondoso: - Não guarde no coração as palavras irônicas que ouvimos. Esses irmãos desventurados merecem a nossa maior compaixão. Vamos ao que nos possa interessar. Recomendou-me amparar o novo amigo, que parecia inconsciente de nossa colaboração, e, depois de alguns minutos de marcha, estacionávamos sob árvore frondosa, depondo o irmão enfraquecido e cambaleante sobre a relva fresca. Impressionado com o seu olhar inexpressivo, solicitei os esclarecimentos do orientador, cuja palavra amiga não se fez esperar: - O pobrezinho permanece temporariamente desmemoriado.

O estado dele, depois de tão prolongada sucção de energias vitais, é de lamentável inconsciência. Em face da minha estranheza, Alexandre acrescentou: - Que deseja você? Esperaria por aqui o processo de menor esforço? O magnetismo do mal está igualmente cheio de poder, mormente para aqueles que caem voluntariamente sob os seus tentáculos. Em seguida, inclinou-se paternalmente sobre o desventurado suicida e indagou: - Irmão Raul, como passa? - Eu...

Eu... - Murmurou o infeliz, como se estivesse mergulhado em profundo sono - Não sei... Nada sei... - Lembra-se da esposa? - Não... - respondeu o suicida, de modo vago. O instrutor levantou-se e disse-me: - A inconsciência dele é total. Precisamos despertá-lo. Em seguida, determinou que eu permanecesse ali, em vigilância, enquanto buscaria recursos necessários. - Não poderemos acordá-lo por nós mesmos? - interroguei, admirado.

O orientador sorriu e considerou: - Bem se reconhece que você não é veterano em serviços «intercessórios». Esquece-se de que vamos despertá-lo não só para a consciência própria, senão também para a dor? Romperemos a crosta de magnetismo inferior que o envolve e Raul regressará ao conhecimento da situação que lhe é própria; entretanto, sentirá o martírio do peito varado pelo projétil, rugirá de angústia ao contacto da sobrevivência dolorosa, criada, aliás, por ele mesmo. Ora, em tais casos, as primeiras impressões são francamente terríveis e escoam-se algumas horas antes de seguro alivio. E como outras obrigações esperam por nós, será conveniente entregá-lo aos cuidados de outros amigos.

As observações calaram-me fundamente. Decorridos vinte minutos, aproximadamente, Alexandre voltou acompanhado de dois irmãos que se prontificaram a conduzir o infeliz e, dai a algum tempo, encontrávamo-nos numa casa espiritual de socorro urgente, localizada na própria esfera da Crosta. Via-se que a organização atendia a trabalhos de emergência, porqüanto o material de assistência era francamente rudimentar. Adivinhando-me o pensamento, Alexandre explicou: - No circulo de vibrações antagônicas dos habitantes da Crosta, não se pode localizar uma instituição completa de auxílio. O trabalho de socorro, desse modo, há de sofrer incontestável deficiência.

Esta casa, porém, é um hospital volante que conta com a abnegação de muitos companheiros. Deposto Raul num leito alvo, o devotado instrutor começou a aplicar-lhe passes magnéticos sobre a região cerebral. Não se passou muito tempo e o infeliz lançou um grito Éstertoroso e vibrante, dilacerando-me o coração. ; - Eu morro! Eu morro!... - Gritava Raul, em suprema aflição, tentando, agora, escalar as paredes. - Acudam-me por caridade: E comprimindo o peito com as mãos, exclamava, em tom lancinante: - Meu coração está partido! Ajudem-me!...

Não quero morrer... Enfermeiros solícitos amparavam-no com atenção, mas o paciente parecia tomado de horror. Olhos esgazeados em máscara de sofrimento indefinível, continuava gritando estentoricamente, como se houvesse acordado de pesadelo angustioso. - Éster! Éster!... - chamou o infeliz, recordando a esposa devotada - venha em meu auxilio pelo amor de Deus! Socorra-me!

Meus filhos!... Meus filhos!... Alexandre acercou-se dele paternalmente e obtemperou: - Raul, tenha paciência e fé no Divino Poder! Procure enfrentar corajosamente a situação difícil que você mesmo criou e não invoque o nome da companheira dedicada, nem chame pelos filhos amados que deixou na sua antiga paisagem do mundo, porque a porta material de sua casa se fechou com os seus olhos. Se você tivesse cultivado o amor cristão, prezando as oportunidades que O Senhor lhe confiou, fácil seria, num momento destes, regressar ao ninho afetuoso para rever os entes amados, ainda que eles não conseguissem identificar a sua presença.

Mas... Agora, meu amigo, é muito tarde... É necessário aguardar outro ensejo de trabalho e purificação, porque a sua oportunidade, com o nome terrestre de Raul, está finda... Imenso pavor a estampar-se-lhe no semblante, o interpelado revidou: - Estarei morto, porventura? Não sinto O coração varado de dor?

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.