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Capítulo 10 de 30

Ante os Tempos Novos — parte 10 de 29

Missionários da Luz · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

A respiração dele, em semelhante estado, emite venenos. Noutro núcleo poderia ser tratado caridosamente, mas aqui, atendendo-se à função especializada do recinto, os princípios etílicos que exterioriza pelas narinas, boca e poros são eminentemente prejudiciais ao nosso trabalho. Como vemos, há necessidade de preparação moral para qualquer trato. A viciação, em qualquer sentido, antes de tudo, deprime o viciado, mas perturba igualmente os outros. Recordei a função do álcool no organismo humano, mas bastou que a lembrança me aflorasse, de leve, para que o instrutor me esclarecesse, imediatamente: - Você compreende que as doses mínimas de álcool intensificam o processo digestivo e favorecem a diurese, mas o excesso é tóxico destruidor.

As emanações de álcool de cana, ingerido pelo nosso irmão, em doses altas, são altamente nocivas aos delicados elementos de formação plástica que serão agora conferidos ao nosso esforço, além de constituírem sério perigo às forças exteriorizadas do aparelho mediúnico. De fato, pouco a pouco se sentia, embora vagamente, o cheiro característico de fermentação alcoólica. Reparei que o Sr. P... Foi cercado pelas entidades operantes e neutralizado pela influenciação delas, à maneira do detrito anulado por abelhas laboriosas, em plena atividade na colméia.

Prosseguiram os serviços normalmente. Entre os votos de êxito dos companheiros encarnados semiconfiantes, a médium foi conduzi da ao pequeno gabinete improvisado, fazendo-se, em seguida, ligeira oração. Via-se, no entanto, que, como acontecia em outras reuniões, os amigos terrestres emitiam solicitações silenciosas, entrando as vibrações mentais em conflito ativo, desservindo ao invés de auxiliar no trabalho da noite, o qual requisitava a mais elevada percentagem de harmonia. À claridade fraca e suave da luz vermelha que substituíra a forte lâmpada comum, notavam-se as emissões luminosas do pensamento dos amigos encarnados. Francamente, não havia na pequena comunidade o espírito de entendimento divino do serviço em curso.

Ninguém ponderava a expressão do fato para a Humanidade ter rena, sequiosa de revelação celeste. Via-se que a reunião era profundamente dominada pelo «eu». Enquanto uns exteriorizavam exigências, outros determinavam as criaturas desencarnadas que deveriam comparecer nos fenômenos de materialização, procurei, contudo, coibir minhas impressões de desagrado, porque todos os trabalhadores de grande elevação, no recinto, portavam-se calmamente, tratando os companheiros carnais com desvelado carinho, quais sábios em face de crianças queridas ao coração. Diversos servidores espirituais começaram a combinar as radiações magnéticas dos companheiros terrenos, a fim de constituírem material de cooperação, enquanto Calimério, projetando seu sublime potencial de energias sobre a médium, operava-lhe o desdobramento que durou alguns minutos. Verônica e outras amigas amparavam a jovem, parcialmente libertada dos veículos físicos, mas algo confusa e inquieta ao lado do corpo, já mergulhado em profundo transe.

Em seguida notei que, sob a ação do nobre orientador da tarefa, se exteriorizava a força nervosa, à maneira dum fluxo abundante de neblina espessa e leitosa. Notando a perturbação vibratória do ambiente, em vista da atitude desaconselhável dos companheiros encarnados, disse Calimério ao controlador mediúnico: - Alencar, é necessário extinguir o conflito de vibrações. Nossos amigos ignoram ainda como auxiliar-nos, harmonicamente, através das emissões mentais. É mais razoável se abstenham da concentração por agora. Diga-lhes que cantem ou façam música de outra natureza.

Procure distrair-lhes a atenção deseducada. Alencar, porém, que se encontrava sob preocupações fortes, diante das múltiplas obrigações que deveria desempenhar no momento, pediu a colaboração de Alexandre, que se colocou à disposição dele, imediatamente: - André - falou o meu orientador, em tom grave -, improvisemos a garganta ectoplásmica. Não podemos perder tempo. E, identificando-me a inexperiência, acrescentou: - Não precisa inquietar-se. Bastará ajudar-me na mentalização das minúcias anatômicas do aparelho vocal.

Estava aturdido, mas o instrutor considerou: - A força nervosa do médium é matéria plástica e profundamente sensível às nossas criações mentais. Logo após. Alexandre tomou pequena quantidade daqueles eflúvios leitosos, que se exteriorizavam particularmente através da boca, narinas e ouvidos do aparelho mediúnico, e, como se guardasse nas mãos reduzida quantidade de gesso fluido, começou a manipulá-lo, dando-me a impressão de estar completamente alheio ao ambiente, pensando, com absoluto domínio de si mesmo, sobre a criação do momento. Aos poucos, vi formar-se, sob meus olhos atônitos, um delicado aparelho de fonação. No intimo do esqueleto cartilaginoso, esculturado com perfeição na matéria ectoplásmica, organizavam-se os fios tenuíssimos das cordas vocais, elásticas e completas na fenda glótica e, em seguida, Alexandre experimentava emitir alguns sons, movimentando as cartilagens aritenóides.

Formara-se, ao influxo mental e sob a ação técnica de meu orientador, uma garganta irrepreensível. Com assombro, verifiquei que através do pequeno aparelho improvisado e com a cooperação dos sons de vozes humanas, guardados na sala, nossa voz era integralmente percebida por todos os encarnados presentes. Parecendo-me satisfeito com o êxito de seu trabalho, Alexandre falou pela garganta artificial, como quem utilizava um instrumento vocal humano: - Meus amigos, a paz de Jesus seja convosco! Ajudem-nos, cantando! Façam música e evitem a concentração!...

Fez-se música no ambiente e vi que o Irmão Alencar, depois de ligar-se profundamente à organização mediúnica, tomava forma, ali mesmo, ao lado da médium, sustentada por Calimério e assistida por numerosos trabalhadores. Aos poucos, valendo-se da força nervosa exteriorizada e de vários materiais fluídicos, extraídos no interior da casa, aliados a recursos da Natureza. Alencar surgiu aos olhos dos encarnados, perfeitamente materializado. Surpreendido, reconheci que a médium era o centro de todos os trabalhos. Cordões tenuíssimos ligavam-na à forma do controlador e, quando tocávamos levemente na organização mediúnica, o amigo corporificado demonstrava evidentes sinais de preocupação, o mesmo acontecendo à jovem médium em relação a Alencar.

Os gestos incontidos de entusiasmo dos assistentes, que tentavam cumprimentar diretamente o mensageiro materializado, repercutiam desagradavelmente no organismo da intermediária. O Irmão Alencar entreteve pequena palestra, diante dos companheiros terrestres extasiados. Não eram, todavia, as palavras trocadas entre ele e os assistentes que me impressionavam o coração, e, sim, a beleza do fato, a realidade da materialização, dando ensejo a dilatadas esperanças no futuro humano, quanto à fé religiosa, à filosofia confortadora da imortalidade e à ciência enobrecida, a serviço da razão iluminada. Alexandre aproximou-se de mim e considerou: - Repare na grandeza do acontecimento. O médium desempenha o papel de entidade maternal, enquanto Alencar, sob a influência positiva de Calimério, permanece em temporária filiação ao organismo mediúnico.

Todas as formas que se materializarem serão «filhas provisórias» da força plástica da intermediária. O amigo que conversa com os encarnados é Alencar, mas os seus envoltórios do momento são nascidos das energias passivas da médium e das energias ativas de Calimério, o mais elevado diretor desta reunião. Se forçarmos o médium em nosso plano, feriremos Alencar em processo de materialização; se os companheiros terrenos violentarem o mensageiro, repentinamente corporificado, esfacelarão a médium, acarretando conseqüências funestas e imprevisíveis. Perplexo, ante o fenômeno, indaguei: - Mas esta força nervosa é apenas propriedade de alguns privilegiados na Terra? - Não - replicou Alexandre -, todos os homens a possuem com maior ou menor intensidade; entretanto, é preciso compreender que não nos encontramos, ainda, no tempo de generalizar as realizações. Você sabe que este domínio exige santificação.

O homem não abusará no setor do progresso espiritual, como vem fazendo nas linhas de evolução material, onde se transformam prodigiosas dádivas divinas em forças de destruição e miséria. Meu amigo: neste campo de realizações sublimes, a que nos sentimos ligados, a ignorância, a vaidade e a má-fé permanecem incapacitadas por si próprias, traçando fronteiras de limitação para si mesmas. Impressionado com as maravilhas sob meus olhos, notei que, ao apelo de Alencar e com o concurso generoso de Calimério, materializaram-se mãos e flores, à maneira de mensagens afetuosas para os assistentes da reunião. Reinava grande alegria entre todos, com exceção do Sr. P...

Que revelava intraduzível mal-estar, sob o controle direto de vários trabalhadores espirituais que lhe neutralizavam a nociva influência. Depois de maravilhosos minutos de serviço e júbilo, com significativas demonstrações de agradecimento a Deus, terminaram os trabalhos da noite, cooperando todos nós para que a médium fosse perfeitamente reintegrada no seu patrimônio psicofísico. Meu coração transbordava de contentamento e esperança; todavia, era forçoso confessar que, para tamanhas manifestações de serviço e tão sublimes bênçãos, era muito reduzido o entendimento dos encarnados. Semelhava-se a crianças afoitas, mais interessadas no espetáculo inédito que desejosas de consagração ao serviço divino. Francamente, estava desapontado.

Tantos emissários celestes a se esforçarem por meia dúzia de pessoas que pareciam distantes do propósito de servir à causa da Verdade e do Bem? Expus minha opinião ao devotado instrutor, mas Alexandre respondeu, tranqüilo: - E Jesus? Considera você que Ele tenha trabalhado somente para os galileus que o não compreendiam? Julga que tenha ensinado tão-só no templo de Jerusalém? Não, meu amigo: convença-se de que todos os nossos atos, no bem ou no mal, estão sendo praticados para a Humanidade inteira.

Por agora, os nossos companheiros terrestres não nos entendem, nem cresceram devidamente para a completa consagração a Jesus, mas a semeadura é viva e produzirá a seu tempo. Nada se perde. E, sorrindo, rematou, depois de longa pausa: - É verdade que você, no mundo, foi médico sempre interessado em ver o resultado de seu trabalho, mas não se esqueça do esforço silencioso dos semeadores do campo e recorde que as sementes depositadas nos sarcófagos egípcios, há alguns milhares de anos, estão começando a produzir maravilhosamente no solo da Terra. 11 - Intercessão Certa noite, finda a dissertação que Alexandre consagrava aos companheiros terrenos, meu orientador foi procurado por duas senhoras, que foram conduzidas, em condições especialíssimas, àquele curso adiantado de esclarecimentos, porqüanto eram criaturas que ainda se encontravam presas aos veículos de carne e que procuravam o instrutor, temporariamente desligadas do corpo, por influência do sono. A mais velha, evidentemente Espírito mais elevado, pelas expressões de luz de que se via rodeado, parecia muito conhecida e estimada de Alexandre, que a recebeu com indisfarçáveis demonstrações de carinho. A outra, porém, envolvida num circulo escuro, trazia o semblante lacrimoso e angustiado. - Ó meu amigo! - exclamou a entidade mais simpática, dirigindo-se ao benévolo orientador, depois das primeiras saudações - trago-lhe minha prima Éster, que perdeu o esposo em dolorosas circunstâncias.

E enquanto a senhora indicada enxugava os olhos, em silêncio, acabrunhadíssima, a outra continuava: - Alexandre, conheço a elevação e a urgência de seus serviços; entretanto, ouso pedir sua ajuda para os nossos pesares terrestres! Se houver absurdo em nossa rogativa, desculpenos com o seu coração clarividente e bondoso! Somos mulheres humanas! Perdoe-nos, pois, se batemos à sua porta de benfeitor, para atender a problemas tristes!... - Etelvina, minha amiga - falou o instrutor, com entonação de ternura -, em toda parte, a dor sincera é digna de amparo. Se há sofrimentos na carne, existem eles também aqui, onde nos encontramos sem os despojos grosseiros e, em todos os lugares, devemos estar prontos à cooperação legítima.

Diga, portanto, o que desejam e ponham-se à vontade! Ambas as senhoras demonstraram-se aliviadas e passaram a conversar calmamente. Etelvina, satisfeita, apresentou então a companheira que começou a relatar seu doloroso romance. Casara-se, fazia doze anos, com o segundo noivo que o destino lhe reservara, esclarecendo que o primeiro, ao qual amara muito, suicidara-se em circunstâncias misteriosas. A princípio, preocupara-se intensamente com a atitude de Noé, o noivo primeiro, bem-amado de seu coração; todavia, o devotamento de Raul, o esposo que o Céu lhe enviara, conseguira desfazer-lhe as mágoas do passado, edificando-lhe a ventura conjugal, com amoroso entendimento.

Haviam recebido três filhinhos da Providência Divina e viviam em harmonia completa. Raul, conquanto melancólico, era dedicadó e fiel. Quanta vez a desejara balsamizar-lhe, em vão, as chagas recônditas! O companheiro, todavia, nunca se lhe revelara plenamente! Apesar disso, a existência corria-lhe venturosa e calma, no santuário da mútua compreensão.

Não obstante, porém, viverem para o desempenho das sagradas obrigações domésticas, apareceram inimigos ocultos que lhes haviam subtraído a felicidade. Raul fora assassinado inexplicavelmente. Amigos anônimos recolheram-lhe o cadáver na via pública, trazendo-lhe a casa a terrível surpresa. Tinha ele o coração varado por um tiro de revólver, que, embora encontrado junto do corpo exangue, não lhe pertencia. Que mistério envolveria o hediondo crime?

Diversos populares e policiais acreditavam tratarse de suicídio, tanto assim que todas as diligências da justiça criminal se encontravam interrompidas; entretanto, em sua convicção de mulher, admitia O assassínio. Que motivos conduziriam um homem probo e trabalhador ao suicídio sem causa? Porque se mataria Raul, quando tudo lhes era favorável, relativamente ao futuro? Inegavelmente, seus recursos financeiros não eram extensos, mas sabiam equilibrar, com decência, a despesa doméstica e a receita comum. Não, não.

O companheiro, a seu parecer, teria partido da Crosta por imposição de tenebroso crime. Mas, em sua generosidade feminina, Éster, em lágrimas, não desejava positivar a culpabilidade de ninguém, não desejava vingar-se e. sim, acalmar o coração em desalento. Seria possível, por intermédio de Alexandre, sonhar com o companheiro, no sentido de obter-lhe as notícias diretas e fazer-lhe sentir o carinhoso interesse do lar? Em vista dos filhos pequenos e de dois velhos tios que estavam dependentes de seus préstimos, a angustiada viúva encontrava-se em péssimas condições financeiras, na viuvez inesperada; todavia, acrescentava em pranto, estava disposta a trabalhar e consagrar-se aos filhinhos, recomeçando a vida, mas, antes disso, desejava algum conforto para o coração, anelava inteirar-se do ocorrido e conhecer a situação do esposo, para conformar-se. E, no fim da longa e sentida exposição, rematava, lacrimosa, dirigindo-se ao meu orientador: - Por piedade, generoso amigo!

Nada me podeis dizer? Que terá sido feito de Raul? Quem o teria assassinado? E porquê? A viúva sofredora parecia alucinada de dor e internava-se através das mais descabidas indagações; Alexandre, porém, longe de se desgostar com as perguntas intempestivas, assumira atitude paternal e, carinhosamente, tomou as mãos da interlocutora, respondendolhe: - Tenha calma e coragem, minha amiga!

Neste momento, não é fácil esclarecê-la. É imperioso sindicar, com cuidado, a fim de solucionar o problema com o critério devido. Volte, pois, ao lar e descanse a mente oprimida... Ansiedades existem que não se curam à força de raciocínios do mundo. E. indispensável conhecer o refúgio da oração, confiando-as ao Supremo Pai.

Ampare-se à fé sincera, confie na Providência e veremos o que é possível fazer no setor da informação e do socorro fraterno. Examinaremos o assunto com atenção! Ambas as senhoras teceram ainda alguns comentários dolorosos, em torno do acontecimento, e despediram-se, mais tarde, com palavras de gratidão e conforto. A sós comigo e sentindo, talvez, a minha necessidade de preparação e conhecimento, o orientador explicou: - Nossos amigos encarnados muitas vezes acreditam que somos meros adivinhos e. pelo simples fato de nos conservarmos fora da carne, admitem que já somos senhores de sublimes dons divinatórios, esquecidos de que o esforço próprio, com o trabalho legítimo, é uma lei para todos os planos evolutivos. Mas, sorrindo paternalmente, acrescentou: - Entretanto, é forçoso considerar que nós outros, quando na Crosta, em face das mesmas circunstâncias, não procederíamos de outra forma.

No dia imediato, porque podia eu dispor de mais tempo, convidou-me Alexandre a acompanhá-lo até à residência de Éster. Tomaria o lar da interessada como ponto de partida para as averiguações que desejava levar a efeito. - Como? - ponderei - não seria mais prático invocar diretamente o esposo desencarnado, através de nossos poderes mentais? Raul poderia, desse modo, ser ouvido sem dificuldade, observando-se posteriormente o que se poderia fazer em favor da viúva. O instrutor, todavia, sem desprezar minha idéia, considerou: - Sem dúvida, esse é o método mais fácil e, em muitos casos, devemos mobilizar semelhantes recursos; entretanto, André, o serviço intercessório, para ser completo, exige alguma coisa de nós mesmos. Concedendo à nossa irmã Éster algo de nosso tempo e de nossas possibilidades, seremos credores de mais justos conhecimentos, respeito à situação geral, enriquecendo, simultaneamente, os nossos valores de cooperação.

Quem dá o bem é o primeiro beneficiado, quem acende uma luz é o que se ilumina em primeiro lugar. Como quem não desejava dilatar a conversação, Alexandre silenciou, pondo-nos ambos a caminho, compreendendo eu, mais uma vez, que, como na Terra, o serviço de colaboração fraternal no plano dos Espíritos reclama esforço, tolerância e diligência. A casa da pobre viúva localizava-se em rua modesta e, embora relativamente confortável, parecia habitada por muitas entidades de condição inferior, o que observei sem dificuldade, pelo movimento de entradas e saídas, antes mesmo de nossa penetração no ambiente doméstico. Entramos sem que os desencarnados infelizes nos identificassem a presença em virtude do baixo padrão vibratório que lhes caracterizava as percepções. O quadro, porém, era doloroso de ver-se.

A família, constituída da viúva, três filhos e um casal de velhos, permanecia à mesa de refeições, no almoço muito simples. Entretanto, um fato, até então inédito para mim, feriu-me a observação: seis entidades envolvidas em círculos escuros acompanhavam-nos ao repasto, como se estivessem tomando alimentos por absorção. - O. meu Deus! – exclamei, aturdido, dirigindo-me ao instrutor - será crível? Desencarnados à mesa? Alexandre replicou, tranqüilo: - Meu amigo, os quadros de viciação mental, ignorância e sofrimento nos lares sem equilíbrio religioso, são muito grandes.

Onde não existe organização espiritual, não há defesas da paz de espírito. Isto é intuitivo para todos os que estimem o reto pensamento. Após ligeira pausa em que fixava, compadecido, a paisagem interior, prosseguiu: - Os que desencarnam em condições de excessivo apego aos que deixaram na Crosta, neles encontrando as mesmas algemas, quase sempre se mantêm ligados a casa, às situações domésticas aos fluidos vitais da família. Alimentam-se com a parentela e dormem nos mesmos aposentos onde se desligaram do corpo físico. - Mas chegam a se alimentar, de fato, utilizando os mesmos acepipes de outro tempo? - indaguei, espantado, ao ver a satisfação das entidades congregadas ali, absorvendo gostosamente as emanações dos pratos fumegantes. Alexandre sorriu e acrescentou: - Tanta admiração, somente por vê-los tomando alimentos pelas narinas?

E nós outros? Desconhece você, porventura, que o próprio homem encarnado recebe mais de setenta per cento da alimentação comum através de princípios atmosféricos, captados pelos condutos respiratórios? Você não ignora também que as substâncias cozidas ao fogo sofrem profunda desintegração. Ora, os nossos irmãos, viciados nas sensações fisiológicas, encontram nos elementos desintegrados o mesmo sabor que experimentavam quando em uso do envoltório carnal. - No entanto - ponderei -, parece desagradável tomar refeições, obrigando-nos à companhia inevitável de desconhecidos e, mormente desconhecidos da espécie que temos sob os olhos. - Mas você não pode esquecer - aduziu o orientador - que não se trata de gente anônima. Estamos vendo familiares diversos, que os próprios encarnados retêm com as suas pesadas vibrações de apego doentio.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.