Voltar ao livro Médiuns e Mediunidades

Capítulo 7 de 31

XIV

Médiuns e Mediunidades · Cairbar Schutel

Perigos da mediunidade - Fé e assistência espírita - A prática da virtude

No núcleo espírita que freqüentamos, nunca observamos um só caso de obsessão ou desarranjo mental, nem tampouco, desequilíbrios de médiuns pois, na verdade, não nos tem faltado ótima assistência espiritual. Além disso, acresce que aqueles com quem realizamos as nossas experiências, honra lhes seja feita, eram pessoas humildes, simples, de bons sentimentos e crentes em Jesus. Isto vem confirmar as palavras do Mestre: aquele que crer em mim, será salvo. Pensamos que não há perigo no desenvolvimento e exercício da mediunidade, desde que se não faça mau uso desse dom, e que dele se utilize com critério. Um médium desenvolvido torna-se um aparelho pronto para funcionar; mas, existe como que uma chave que abre e fecha o aparelho; é o próprio médium que, utilizando-se de sua liberdade e de sua vontade, pode ou não consentir que o seu instrumento seja utilizado por outro. Aqui admiramos ainda a Providência Divina, cujas leis sábias não excluem por forma alguma o livre-arbítrio do homem, que é sempre respeitado.

Não se diga, portanto, que o médium desenvolvido está sujeito à obsessão, porque tem o seu aparelho pronto para funcionar. Os maiores físicos e químicos possuem as melhores balanças de precisão e instrumentos de mais perfeição para uso de seus trabalhos, e estão menos sujeitos a vê-los prejudicados do que o taverneiro, cuja balança ronceira vive desprezada no balcão. O uso da mediunidade não oferece perigo; o abuso, sim, é perigoso. O ácido sulfúrico dá excelente limonada febrífuga, mas, se for ingerida em dose alta, é veneno. Tudo precisa ser bem aplicado: o próprio alimento com que nos alimentamos, tomado em excesso, produz indigestão. O querosene é combustível útil, mas incendeia; o ácido nítrico tem utilidade extraordinária; a glicerina, não só tem diversas aplicações terapêuticas, como também é boa substância alimentícia; mas o ácido nítrico com a glicerina forma substância explosiva.

Desde que as intenções do leitor sejam boas, os estudos sejam feitos com atenção e se dirija com critério, tome sem medo o lápis, chame seu Espírito Protetor, implore a proteção de Deus, e verá que se desenvolverá sua mediunidade. Primeiramente um ligeiro tremor, depois algumas contrações no braço, depois ainda um pequeno adormecimento, e manifestar-se-á sua mediunidade escrevente, e a sua mão será arrastada com o lápis. Faça esse exercício por espaço de meia hora; todos os dias ou três vezes por semana. Findo o tempo determinado de cada experiência, deixe o lápis e agradeça a Deus o auxilio que lhe concedeu. Verificada a mediunidade, pode também o estudante dirigir-se a um espírita prático, pois hoje os há em toda parte, e, com ele, fazer suas experiências. A prática das virtudes é um excelente preservativo contra a influência dos Espíritos inferiores.

XV

Orientação aos descrentes - Contribuição para espiritualistas - Lei Espírita - Causa do insucesso nas invocações - necessidade do estudo - perigos aparentes

Pelo que temos escrito o leitor compreenderá muito bem este trabalho se divide em duas partes: estudos experimentais para descrentes; e estudos auxiliares para espiritualistas. Façamo-nos compreender: os primeiros experimentem sem espírito preconcebido, como quem deseja encontrar a porta que dá acesso ao Caminho da Verdade; iniciados que sejam, e, portanto, já espiritualizados, devem obedecer às recomendações feitas aos últimos para que obtenham bons resultados em seus trabalhos. É indispensável que todos se compenetrem de que os fenômenos espíritas obedecem a uma Lei que não pode ser burlada. Seria ridículo que um estudante ou amador da arte fotográfica, rebelando-se contra os raios actínicos, quisesse à viva força revelar uma chapa em plena luz; ou que um estudante de eletricidade teimasse em iluminar uma lâmpada em cuja ampola penetrasse o ar. Assim, para todas as coisas é preciso obedecer as regras, a influência do meio, os modos de se obter o que se deseja; também as grandes verdades estão por sua vez submetidas a leis irrevogáveis, que o homem precisa estudar. Todos os Juízos aprioristicos devem ser postos à margem em face de uma ocorrência desconhecida.

O fato de não crermos numa coisa, não destrói absolutamente a existência daquilo que julgamos não existir; e se os descrentes chegam pelos seus estudos e experiências ao conhecimento da verdade, é porque se despem do orgulho de saber, do juízo preconcebido que tinham e são auxiliados por seus amigos invisíveis para chegarem ao conhecimento da verdade. A prova do que afirmamos se deduz das observações que se verificam: uns experimentam, cheios de orgulho, de insubmissão, e nada obtêm; outros obtêm o que não julgavam obter, para que também não se diga haver sugestão ou auto-sugestão. As condições, o meio têm uma influência considerável para a produção do fenômeno; só os Espíritos Guias conhecem bem os fenômenos que se podem produzir em certos meios e em certas condições. A mesma coisa se dá com as invocações: invocamos um parente, um amigo, e se apresenta um desconhecido! Por que assim acontece?

Porque o parente, ou amigo não pode atender, seja devido à lei de assimilação de fluidos, seja porque uma ocupação no Mundo Espiritual impediu o comparecimento à reunião, ou por outros motivos ainda ignorados por nós. Mas se inquirirmos com cortesia e atenção o Espírito que se comunica, podemos obter dele provas de identidade, que nos serão de maior proveito do que se comparecesse o nosso amigo ou parente. Todos no Mundo Espiritual têm os seus afazeres, sua missão, seu trabalho, sendo possível que o parente ou o amigo não possa comparecer à hora em que o chamamos. Aqui mesmo na Terra, entre encarnados, dá-se a mesma coisa. Dissemos já sobre a Lei de afinalidades: é bem possível também que o Espírito evocado não possa assimilar seus fluidos aos do médium evocador, ou este aos do Espírito.

Estamos em face de uma ciência nova, que precisa ser estudada com toda a boa vontade, com toda a atenção, não nos cabendo, a nós estudantes, formular as leis a que ela se deve submeter; nós é que nos devemos submeter ao seu método experimental. A abstenção do estudo e da experimentação de um fenômeno, sob pretexto de perigo, não é consentânea com a razão, nem com a Ciência, como também é um entrave à lei do progresso e da Verdade. Quando se resolveria o problema da navegação aérea, se todos os homens deixassem de estudá-lo, pretextando a queda das aeronaves ou a explosão dos motores? Ninguém ignora o perigo que existe nos trabalhos com os raios X; entretanto, os raios X têm dado excelentes resultados e podemos já evitar o perigo. Neste mundo tudo é perigoso. Haverá maior perigo do que um lampião de vidro aceso sobre a mesa? Quantas mortes tem produzido o querosene?

Não pertencemos ao número dos que evitam o fenômeno espírita e sé abstém das relações com os Espíritos, mas aconselhamos a todos que experimentem, estudem, para poderem prosseguir as suas relações espirituais com os que indevidamente chamamos mortos. Como nos dói a alma ao sabermos de uma casa assombrada e sobre a qual em seguida se diz: lá compareceram os espíritas e cessaram as manifestações! Não seria mais lógico, mais racional, mais religioso que os espíritas, após a verificação da autenticidade do fenômeno estimulassem a intensificação do mesmo, para que todos pudessem verificá-lo, e expusessem, então, aos circunstantes, a sublime Filosofia Espírita, que tem mesmo como base esses fatos, já bem constatados por grande número de sábios em todo o mundo? O estudo, o trabalho e a boa vontade são indispensáveis à obtenção dos conhecimentos espíritas.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.