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Capítulo 2 de 31

III

Médiuns e Mediunidades · Cairbar Schutel

As leis naturais - O livre arbítrio - Os novos descobrimentos

Tudo o que existe no Universo é natural; as leis de Deus são eternas e irrevogáveis, mas o homem só começa a compreendê-las quando para elas volta suas vistas: quando examina, quando estuda quando trabalha. O livre arbítrio nos foi concedido para a realização da evolução espiritual, com o conseqüente mérito dos nossos esforços. Os fatos espíritas, já conhecidos em todo o mundo, e que servem de base a esta filosofia sem igual que nos dá tanta luz e tanta consolação, vêm patentear o instrumento de que nós precisamos utilizar para que possamos entreter estreitas relações com esses seres inteligentes, cujos ensinamentos e cujas manifestações se elevam muitas vezes acima do saber humano. Assim como a luz das estrelas provocou a invenção do telescópio; assim como para se estudar o infinitamente pequeno foi necessário o microscópio, assim também a averiguação da existência dos Espíritos, ou daqueles que impropriamente chamamos mortos, não dispensa um instrumento, e esse instrumento não poderia ser mais aperfeiçoado do que o próprio corpo humano, o mesmo de que se servem os Espíritos quando encarnados na Terra. O médium é, pois, uma criatura humana, seja homem ou mulher, velho ou moço, que tem aptidões físicas e cujo corpo carnal é suscetível de sofrer a influência de outra criatura, ou a de um Espírito.

IV

Médiuns e Mediunidades

Há tanta variedade de médiuns como de mediunidades, visto que não é pequena a variedade de corpos e de aptidões; depende, portanto, de cada um, estudar essas aptidões em si mesmo, bem como nos que o cercam, para liberar a causa produtora dos fenômenos e assim reconhecer a sua utilidade. É isto que pretendemos despertar no animo dos leitores, garantido-lhes, de antemão, êxito completo em seus estudos se, renunciando os fins de curiosidade tola e dos vãos interesses da Terra, elevarem suas vistas para mais amplos horizontes, qual o da perfeição espiritual. Aqueles que pretenderem descobrir tesouros ocultos, ou seja, fazer dos Espíritos instrumentos do seu egoísmo, repetimos a frase de Gibier: Sigam o seu caminho, isto não foi escrito para eles. Não escrevemos para espíritos superficiais, tresloucados e presos às ninharias terrenas, assim como não queremos conduzir fanáticos ao pórtico do invisível. Dirigimo-nos aos humildes e simples, "os que sabem que não sabem" e precisam aprender, os que querem se conhecer, os que anseiam por uma solução categórica do problema da imortalidade e da vida futura.

A estes é que recomendamos as experiências que procuramos metodizar em nossos escritos, estabelecendo comparações para facilitar a aprendizagem. Não deixaremos de indicar os escolhos inevitáveis, para que com facilidade sejam vencidos e não corra o estudante o menor risco de decepção. A prática da mediunidade exige muita seriedade, muito boa vontade, muita perseverança e ao mesmo tempo muita perspicácia. O Espiritismo é uma ciência profunda e os seus fenômenos estão sujeitos à observação das inteligências livres, às quais não queremos impor o resultado de nossa própria experiência: aos pesquisadores conscienciosos cumpre estudar esses fenômenos mediante a observação direta e o exame das teorias existentes; depois de longa meditação e acurado estudo, terão, por certo, as suas conclusões. Vê, pois, o leitor, que nem de leve embaraçamos a liberdade de pensar de quem quer que seja. De acordo com a doutrina que propagamos, limitamo-nos a convidar ao estudo: indicamos o método, apontamos as leis, lembramos os escolhos e aconselhamos os meios de os evitar.

Aclaração das mediunidades segundo o apóstolo Paulo - Diversidade de médiuns

O Apóstolo Paulo, na 1.ª Epístola aos Coríntios, cap. XII, lembra a diversidade de dons, e, portanto, a diversidade de operações; lembra, conseqüentemente, a diversidade de médiuns, e acrescenta: "A manifestação do espírito é dada a cada um para o que for útil." No final do capítulo recomenda a todos procurarem os melhores dons, vale dizer, mediunidades, e aponta o caminho mais excelente para que sejam bons os resultados experimentais. É assim que, depois de um eloqüente discurso sobre a Caridade, faz realçar esta virtude em sua forma espiritualizada, ou seja, caracterizada por benevolência, tolerância, humildade, paciência, perseverança, desinteresse, condições estas de que devem revestir os médiuns. Estamos, pois, com o Apóstolo da Luz, quando dissemos que os nossos escritos eram dirigidos aos espíritos simples e humildes, aos homens de boa vontade, que não têm a vaidade de se julgarem possuidores de toda a ciência, e que, portanto, precisam estudar para encontrarem a verdade.

O Espiritismo não impõe a quem quer que seja a crença na existência e comunicação dos Espíritos, ou na existência de Deus, porque é a prática do Espiritismo que dá a crença lógica e positiva dessas verdades, que têm por base os fatos. É preciso, porém, que cada um procure conhecer a si mesmo, para saber o dom que possui, ou seja, a mediunidade que tem, para começar os seus estudos. O apóstolo citado diz em sua Carta Doutrinária: Uns tem a palavra da sabedoria, outros da fé, outros promovem a operação de maravilhas, outros têm os dons de curar, outros a variedade de línguas, outros a interpretação das línguas, outros o DOM DE DISCERNIR OS ESPÍRITOS. (1 Cor., XII, 4 a 9.) A todas essas mediunidades e a todos esses médiuns devemos acrescentar que - uma mesma mediunidade pode ser mais acentuada, mais vigorosa em uns do que em outros; a força psíquica não é sempre a mesma para todos os médiuns, que a possuem em graus diferentes.

Se passarmos agora uma vista ligeira em O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, mesmo que seja nas três últimas páginas, no índice da 2.ª parte, veremos os DONS mencionados pelo Doutor das Gentes amplamente explicados pelos Espíritos da Verdade, que vêm reconstruir a obra do Cristianismo. Distinguiremos então na mediunidade, duas formas distintas: manifestações físicas e manifestações inteligentes; o que nos induz a classificar os médiuns em médiuns de efeitos físicos e médiuns de efeitos inteligentes. Não quer isto dizer que as manifestações físicas não sejam inteligentes, mas que as inteligentes ou espirituais inteligentes, termo que empregamos por falta de outro mais apropriado, estão isentas da materialidade das primeiras. (*) (*) Classificam-se também como manifestações físicas e manifestações intelectuais. A classificação dos fenômenos não é difícil e o estudante dotado de um pouco de discernimento, pelas manifestações, distinguirá a forma de mediunidade que possui, ou a daquele com quem faz experiências.

Entretanto, é difícil especificar com precisão matemática onde terminam as manifestações físicas e onde começam as inteligentes, assim como é difícil dizer onde acaba o reino vegetal e onde começa o reino animal, ou onde termina este e começa o reino hominal. Não há lacunas nas manifestações do Alto - natura non facit saltus. Isto, porém, em nada atrapalha o estudante, que procurará observar as manifestações que for obtendo para caracterizá-las, mais ou menos, dentro dos limites da ordem a que elas pertencem. Médiuns de efeitos intelectuais: são aqueles mais especialmente dotados para receberem e transmitirem as comunicações inteligentes. Médiuns de efeitos físicos: são aqueles mediante os quais se podem obter efeitos materiais, ou manifestações ostensivas. Estas variedades se ligam muitas vezes uma à outra, e médiuns há que possuem ambos os dons... Exemplo de médiuns de efeitos intelectuais: aqueles que transmitem pela palavra ou pela escritas mensagens de ordem moral ou científica: é o que Paulo chama a palavra da sabedoria, a palavra da ciência.

Exemplo de médiuns de efeitos físicos: os que provocam fenômenos de levitação, batidas, materializações, transportes, etc. É o que Paulo chama - operações de maravilhas. Se procurarmos, pois, conhecer, estudar sem espírito preconcebido os princípios evangélicos, os ensinos apostólicos, veremos que estão de pleno acordo com os ensinos espíritas; na época atual, como nos albores do cristianismo, realçam os dons da fé, a variedade de línguas, os dons de curar, além dos que citamos: a palavra da sabedoria, a operação de maravilhas. Todas estas variedades de DONS nos dão uma idéia nítida das relações que os primitivos cristãos mantinham com o Mundo Invisível.

VI

Primeiras Experiências - Abc do Espiritismo Experimental - Sessões de mesinha

Para satisfazer a curiosidade do leitor e proporcionar-lhe desde já algum meio de experimentação, vamos tratar das sessões de mesinha, ou das mesas girantes, antes de fazermos a especificação das mediunidades mais usuais. "Este fenômeno alimentou por muito tempo a curiosidade dos salões, mas depois cansaram-se dele para se dedicarem a outras distrações, vistos que o limitavam a um mero passatempo. "Aqueles, porém, que o estudaram com o fim de utilidade moral, viram coroados de êxito os seus esforços. "Como quer que seja, as mesas girantes foram o ponto de partida da Doutrina Espírita, mesmo porque sendo esses fenômenos muito simples, o estudo das causas seria mais fácil, e estabelecida a teoria, teríamos a chave dos efeitos mais complicados. "Para a produção do fenômeno é preciso a intervenção de uma ou mais pessoas dotadas de mediunidade. "O número dos cooperadores é indiferente; a alternativa de sexos, na ordem, aconselhada por alguns, assim como o contacto dos dedos para formar a corrente em nada influem.

A forma da mesa, a substância de que é feita, a presença dos metais, da seda nas vestes dos assistentes, etc., também nenhuma influência tem. O volume da mesa influi mas no caso que a força mediúnica seja insuficiente para vencer o obstáculo, a resistência. "Lembramos ao leitor que a força psíquica não é sempre a mesma em todos os médiuns, que a possuem em graus diferentes. "Tem-se dado o fato de um médium, dotado de pouco fluido mediúnico, mal fazer oscilar um pequeno móvel, ao passo que, por intermédio de outros, tem-se levantado uma mesa de 100 quilogramas. "Convém, em vista disto, e para facilitar as experiências, fazê-las com uma pequena mesa semelhante a esses de centro de sala, de três pés. "A pessoa ou as pessoas que vão experimentar devem sentar-se em roda da mesa, e colocar as mãos sobre ela, sem pressão nem esforço muscular.

Quando o efeito principia a manifestar-se, ouve-se quase sempre um pequeno ruído na mesa; senti-se como que um estremecimento que é o prelúdio do movimento; o móvel parece esforçar-se para desprendesse, depois começa a oscilar. É neste momento que se deve inquirir a causa, convencionando-se por exemplo: uma pancada para a resposta SIM; e duas pancadas para a resposta NÃO; assim como convencionar para cada letra do alfabeto um certo número de pancadas: a - uma pancada; b - duas; c - três; d - quatro; e - cinco, e assim por diante, até z - vinte e cinco." O exemplo seguinte vai facilitar a compreensão do leitor. É a reprodução de uma das sessões que realizamos no começo dos nossos estudos espíritas. Alguns amigos e eu, rodeávamos uma pequena mesa, entre os quais - Q.A. e C.O.; este servia de médium. Depois de alguns minutos de espera, a mesa começou a oscilar. Perguntamos à entidade invisível se queria dar o seu nome, e convencionamos os sinais para a resposta, sinais que acima designamos. A mesa levantou-se de um lado e bateu uma pancada: Sim.

Pedimos que desse as pancadas conforme convencionamos; bateu: 10-15-1-14-14-1. Depois de curto intervalo continuou: 18-15-4-18-9-7-21-5-19. Outro intervalo e prossegui: 3-15-14-3-5-9-3-1-15. Transformando estes algarismos em letras obtivemos os nomes: Joana Rodrigues Conceição. Q. A. disse ser este o nome de sua sobrinha, já falecida. Perguntamos o que desejava. A mesa respondeu pelo alfabeto convencional: 18-5-25- 5-13. Nova pausa e perseguiu: 16-15-18. Outra pausa e mais: 13-9-13. Quer dizer: rezem por mim.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.