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Capítulo 19 de 31

XXVIII

Médiuns e Mediunidades · Cairbar Schutel

Charlatanismo - Mistificação - Fraudes espíritas - Médiuns interesseiros

O charlatanismo tem se aproveitado de todas as verdades novas para deturpar-lhes os fins em proveito dos embusteiros que não trepidam, a bem dos seus interesses, em menosprezar mesmo as coisas mais sagradas. O amor ao ouro, às glórias, ao domínio, tem se colocado, em todos os tempos, acima do amor a Deus e ao próximo, prejudicando sobremaneira este princípio básico da Religião, da Ciência, da Filosofia, da Arte. No círculo da Religião, que deveria constituir os liames de ininterrupta solidariedade do Espírito humano, abrangendo todas as demais ramificações dos conhecimentos da Humanidade, vemos as múltiplas chamadas "religiões" estabelecendo a desunião, a discórdia, a divisão da família humana; "religiões" que têm à sua frente homens que se dizem eruditos, de moral e da viva fé, mas que outra coisa não são que adoradores das grandezas terrenas, déspotas que trazem em algema a alma do povo, sonegando-lhe os princípios básicos da Verdade que já deveria ter felicitado o nosso mundo.

A Lei Divina, até hoje, permanece oculta aos olhos das gentes, como a luz abafada sob o alqueire da má fé que impera sob a ação sacerdotal. O Espírito do Evangelho, sufocado pela letra que mata não tem acesso às inteligências. Cada "religião", sob a direção de homens astutos e interesseiros, faz realçar o dogma, os sacramentos, seus próprios mandamentos, em detrimento dos Mandamentos Divinos. A ciência, a seu turno, deixou há tempo de ser uma escada ascensional do progresso do Espírito para aparecer tal como se vê, um bazar de quinquilharias, onde a mercancia é o objeto dominante. Haja vista a Medicina com os seus múltiplos soros e vacinas, xaropes e elixires, fonte corrosiva para a saúde pública, e ao mesmo tempo fonte de riqueza para os seus "sacerdotes". Esta justa consideração que lembramos, não atinge os verdadeiros médicos, que são, positivamente, em número diminuto. Nem tampouco queremos menosprezar a terapêutica alopata, homeopata, ou a dosimétrica, porque em todas elas existe um fundo de verdade, prejudicado pelos abusos da Medicina exploradora e mercantil.

Não pensem os leitores, portanto, que execramos a Medicina em suas modalidades físicas, para abraçá-la em sua ação psíquica. Estão longe ainda os tempos de adoção geral da fluidoterapia, dadas a deficiência mediúnica e a materialidade em que se encontra a Humanidade. Os próprios Espíritos Superiores prescrevem medicamentos, e é por esse motivo que existem os médiuns receitistas, diversidade de médiuns de que nos lembramos agora, depois de havermos enumerado as demais faculdades. Estes diferem dos médiuns curadores, porque se limitam a transmitir, pela palavra ou pela escrita, fórmulas medicinais para o tratamento dos doentes. A mediunidade receitista é uma faculdade como as demais, suscetível de desenvolvimento e sujeita às mesmas regras que devem orientar os médiuns escreventes e falantes. Mas, dizíamos, a ciência deturpada, mercantilizada, materializada em todas as suas manifestações, inutiliza, abate, destrói todo o caráter da sabedoria, mas aquela sabedoria que vem do Alto e que é uma das asas que a Deus conduzem.

A Arte, não fala ao Espírito condensando a letra morta dos Evangelhos, quando os escultores, os pintores, os artistas interpretam com o pincel ou com o buril uma das memoráveis passagens da vida de Jesus. Como se poderia livrar o Espiritismo da fraude do interesse pequenino, da mistificação, se vemos a mistificação e a fraude açambarcando todas as manifestações divinas? A mistificação, o embuste, tornou-se; neste mundo, coisa tão natural que o observador atento não deveria estranhar suceder o mesmo ao Espiritismo, quer seja em sua modalidade doutrinária, quer em sua manifestação positiva de experimentação e investigação, tal como o é a parte chamada prática desta Revelação. Mas como nem todos têm olhos para ver o que se passa no mundo e a nossa obrigação, entregando este livro à publicidade é orientar os experimentadores, auxiliar o critério e o discernimento dos leitores, não poderíamos, antes de lhe pôr o ponto final, desenvolver este capítulo, do qual também tratou o Espírito da Verdade, na obra da Codificação Kardecista, intitulada: O Livro dos Médiuns.

Pelo estudo dos livros espíritas, o leitor compreenderá melhor o que é o Espiritismo, e o que são mistificações e fraudes espíritas; assim como se preparará para distinguir o médium verdadeiro do falso, e o médium desinteressado do médium traficante. Jesus manda reconhecer a árvore pelo fruto, acrescentando que os frutos maus não podem provir de árvore boa e vice-versa. Tanto os médiuns quanto os fenômenos necessitam de estudo consciencioso e escrupuloso, que deve ser feito com a máxima calma, tolerância, boa fé, sem idéias preconcebidas nem exigências descabidas. A análise, fria, orienta pela boa vontade de encontrar e abraçar a Verdade: esta é a que deve prevalecer nos meios de experimentação e estudo. Não cessamos de aconselhar aos médiuns um verdadeiro espírito de lealdade e de sinceridade, notando que a fraude, a mistificação, mesmo com o bom desejo de salientar a Verdade, prejudicam imensamente a marcha triunfal do Espiritismo.

Cumpre-nos, entretanto, não deixar passar a seguinte consideração: quase todos os fenômenos espíritas são suscetíveis de fraude, de mistificação, desde o simples fenômeno de escrita ate às manifestações físicas de materializações, que são as mais complexas. Mas, como a falsa medicina, a medicina mercenária não destrói a verdadeira Medicina, assim também os falsos fenômenos não destroem os fatos já constatados por todos os cientistas do mundo, até mesmo pelos que não abraçam ainda a Teoria Espírita. A Verdade sempre aparece. Por mais que queiram empaná-la, subjugá-la, ela brilha, aparece, e quando a julgam morta, ela se apresenta rediviva, ressuscitada como Jesus na Judéia depois da Crucificação. Ao encerrarmos este capítulo, lembramo-nos das palavras de Jesus aos que lhe queriam seguir as pegadas: Buscai o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. O Evangelho é o fundamento sobre o qual se assentam as obras de Allan Kardec, ou seja, a grande, a incomparável filosofia Espírita. Estudá-lo é robustecer o critério e obter auxílio do Alto para o discernimento perfeito da Verdade; para, o conhecimento e a distinção entre os fatos e as fraudes, as verdadeiras manifestações e as mistificações.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.