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Capítulo 12 de 14

XIV a Teoria do Risco — parte 1 de 3

Conversando sobre Mediunidade · Espírito Cairbar Schutel

In troducão O encarnado trilha seus passos na crosta terrestre devendo buscar, dia-a-dia, a reforma intima para alcançar melhor estágio em sua escalada evolutiva, garantindo, assim, efetivo progresso e cumprimento de sua programação. Para tanto conta com inúmeros fatores que o ajudam nessa caminhada, em especial o auxilio constante dos bons pensamentos - intuições e inspirações - emanados do Plano Superior, através de seu mentor e outros emissários, desde que se mantenha em boa sintonia. Seguir o Evangelho de Jesus é a melhor forma de assegurar real progresso, tanto para reparar seus débitos - desta vida ou de existências anteriores - quanto para adquirir virtudes. O homem deve conhecer a Lei de Ação e Reação, essa Norma Divina que o faz vivenciar, a toda ação positiva, uma reação no mesmo sentido e, a cada ato negativo, uma reação semelhante.

Ainda na trilha da sua evolução, a serviço da lei mencionada e facilitando o seu entendimento, surge a Teoria do Risco, que tem por fim esclarecer a interligação existente entre o livre-arbítrio do ser humano com o determinismo do Alto: vive o encarnado, dia após dia, situações de risco e, a cada triunfo seu - ultrapassando obstáculos e utilizando corretamente a sua liberdade de decisão -, aproxima-se do sucesso almejado em sua jornada terrena. Esclareça-se, inicialmente, que essa teoria, apesar de existir sob outra forma no plano espiritual, da maneira como é aqui exposta deve ser aplicada somente aos encarnados. Livre-arbítrio O livre-arbítrio é a faculdade que o ser humano tem de eleger o seu próprio caminho, resistindo ou cedendo às suas boas ou más tendências e às influências que recebe dos Espíritos elevados ou inferiores. A liberdade de ação de cada

encarnado, entretanto, pode ser limitada pelo determinismo do Plano Superior. A cada prova que tem pela frente, durante o estágio na Crosta, incide o bom ou o mau uso do seu livre-arbítrio, conforme este esteja sendo utilizado mais ou menos próximo aos ensinamentos de Jesus. O livre-arbítrio do homem jamais é tolhido ou influenciado pelo de outrem - encarnado ou desencarnado - sem que queira ou consinta. Se as suas decisões são desviadas do primeiro intento, na verdade tal situação é permitida, consciente ou inconscientemente, pela própria pessoa que está decidindo: situações de interferência no campo das decisões tomadas no plano material podem emergir de obsessões ou influenciações, às quais todos os seres humanos estão sujeitos, porém o mau uso do livre-arbítrio, originário dessas influências de entidades inferiores, não afasta a responsabilidade do encarnado, que permite essa aproximação e, por vezes, a dominação de seus passos por tais Espíritos. Enfim, o

(24) - O Livre-arbítrio é ilimitado na intenção do encarnado. As ações, no entanto, que visam exteriorizar essa intenção, podem ser limitadas pela Vontade do Criador. homem é sempre responsável por seus atos quando se desvia da trilha do bem. A crosta terrestre, por ser ambiente evolucionai neutro25, confere a todo indivíduo a possibilidade de vencer qualquer prova que tenha à frente, bastando-lhe a aplicação da fé, o exercício da força de vontade e a promoção da reforma íntima. Deve, pois, o homem resistir às suas más tendências, afastando ideias desviadas do Evangelho e desvinculando-se de qualquer assédio nesse sentido por parte de encarnados ou desencarnados. Nesse contexto, ao receber inspirações ou intuições de Espíritos Superiores, cabe ao seu livre-arbítrio aceitá-las e assimilar cada uma ou não. Se as acolher estará exercitando positivamente o seu poder de decisão plena. Por vezes ocorrem intuições ordenativas, ou seja, sugestões transmitidas energicamente pelo Plano Superior. Mas, mesmo nessa forma, não suprimem a livre-aceitação por parte do receptor da mensagem.

Não se deve falar em abuso de livre-arbítrio, mas tão-somente em bom ou mau uso do mesmo. O ser humano tem opções livres a escolher durante a sua jornada terrena. Pode utilizar seu poder de decisão como lhe aprouver, arcando sempre com as conse- quências de seus atos, positivos ou negativos. Desvios nessa senda decisória fazem parte do processo evolutivo, já que o encarnado não deixa de aprender também com seus erros. Determini O determinismo é a Vontade do Criador, atuando nos fatos através de Suas leis ou por intermédio de Seus emissários, com vistas a garantir o progresso geral. Portanto, sempre que o Alto deseja que alguma situação ocorra no plano material ou que alguém seja colocado frente a um acontecimento qualquer utiliza-se do determinismo, ou seja, materializa-se a Vontade Superior. Jamais o determinismo subtrai do encarnado o seu livre-arbítrio, mas pode influir em ocorrências, determinando situações que, aparentemente, parecem retirar-lhe a livre decisão.

Exemplo disso é a concretização do desencarne de um médium que viesse utilizando para o mal ou em flagrante desvio de finalidade a sua mediunidade, colocando em risco terceiros e a própria credibilidade da Doutrina Espírita. Nesse caso, por determinismo, o médium, colocado em uma situação de risco, termina desencarnando. Mais adiante será detalhado o processo da teoria do risco que explica esse fenômeno. Por outro lado, o Espírito pode - dependendo do seu grau de evolução - escolher livremente a trajetória que irá trilhar na Crosta, ainda antes do seu reencarne. Uma vez que opte, exemplificativamente, por retomar à carne num corpo material

25 (25) - Ver a esse respeito o Capítulo VII (umbral). defeituoso, é preciso a atuação do determinismo para garantir-lhe esse tipo de reen- carnação, enviando-o, efetivamente, a um corpo privado de uma determinada condição física. Percebe-se que, sem o determinismo, não haveria controle por parte da Superioridade ante o desvio e a má utilização do livre-arbítrio por parte dos encarnados, nem seria possível controlar fenômenos naturais. Ainda sob esse prisma o determinismo atua para enviar uma entidade recalcitrante de volta à carne, sem que, nesse caso, predomine o livre- arbítrio. Reencames compulsórios podem ser determinados pelo Alto em favor do próprio Espírito revoltado e reticente. Isso não significa suprir-lhe o livre-arbítrio, mas sim utilizar, em lugar deste, o determinismo para atingir objetivos elevados e justos. O determinismo, como se pode observar, por ser a atuação da Vontade de Deus, é sempre pleno de Justiça e repleto de Misericórdia. O livre- arbítrio, por estar na alçada das criaturas, nem sempre é usado para boas finalidades.

Em resumo, pode-se dizer que o livre-arbítrio é ferramenta de trabalho do encarnado, enquanto que o determinismo serve como instrumento de ação do Plano Superior, Ambos compõem a teoria do risco. A Teoria do Risco Essa teoria representa o estudo e a verificação prática da confluência existente entre livre-arbítrio e determinismo, visando, com isso, apresentar regramentos básicos de entendimento das leis divinas e sua aplicação, facilitando a compreensão do mecanismo de evolução dos seres humanos. Iniciemos a análise do tema com o seguinte quadro exemplificativo: - um Espírito prepara-se para reencamar. Escolhe, por livre-arbítrio, a trajetória num determinado corpo físico, vinculado a família material específica;- a fim de garantir que reencame nessa família e com o corpo a ele destinado, ingressa o determinismo do Alto que, através de Seus emissários, prepara o seu retomo à carne; - reencamado, por ainda estar em fase infantil, desenvolvendo seu discernimento e sua razão, envolve-se em várias situações de risco, onde impera o determinismo para orientar seus passos e garantir o seu amadurecimento no corpo material; - durante o seu crescimento aumentam as decisões livres que passa a tomar, elevando, ainda mais, a sua responsabilidade em cada um de seus atos; - se durante o seu trajeto há necessidade de reencontrar determinado inimigo do passado, reencarnado em algum ponto do Globo, cuida o determinismo de provocar esse reencontro; - se tiver que se submeter a alguma prova para fomentar o seu progresso espiritual é, por determinismo, colocado nessa situação de risco; - toma-se médico.

À sua frente e em sua comunidade surge uma epidemia, acarretando-lhe a responsabilidade de socorrer o próximo. Por livre- arbítrio, pode ou não ajudar o seu semelhante. Caso o faça, a confluência entre o determinismo do Alto (colocá-lo frente a uma epidemia) e o seu livre- arbítrio (decisão de auxiliar o próximo) acarreta o seu progresso espiritual. Caso deixe de fazê-lo pode contrair débitos - a serem resgatados futuramente - e até mesmo a estagnação nessa trajetória evolutiva; - esse mecanismo continua existindo durante todo o seu estágio reencarnatório; - ao final, a última palavra cabe ao determinismo, quando chega o momento do seu desencarne, com retomo à pátria espiritual para a sua avaliação; - assim, o início e o fim da jornada na Crosta se fazem por determinismo. Algumas situações de risco são vivenciadas por determinismo, mas todas as ações e atitudes que implicam em decisões, gerando boas ou más consequências para o encarnado, são tomadas por livre-arbítrio.

Logo, deve-se ter em mente que nem tudo ocorre no mundo material por força do determinismo, ou seja, por Vontade do Criador. Há a incidência do livre-arbítrio dos homens acarretando certas situações e trazendo determinadas consequências. O homem tem, desde o seu reencame, inúmeras provas ou expiações a enfrentar, necessitando do correto e equilibrado uso do livre-arbítrio, ou seja, da faculdade de decidir quanto a seus passos e rumos, para triunfar em sua programação, alcançando a almejada depuração espiritual. Dessa forma, deve-se ressaltar que o mau uso do seu livre-arbítrio pode acarretar consequências desastrosas não só para ele, mas também para aqueles que o volteiam. Quando é o caso, o Alto intervém em favor daqueles que seriam prejudicados pela má utilização do seu livre-arbítrio, impedindo que os efeitos negativos ultrapassem a sua própria pessoa. Eis porque a teoria do risco tem por base a integração do determinismo com o livre-arbítrio. No caso referido, está o determinismo interferindo em uma situação de risco para que haja equilíbrio nas relações humanas, conforme programação Superior.

Por outro lado, quando é conveniente, a Espiritualidade Maior não intervém e os efeitos negativos do mau uso do livre-arbítrio de um encarnado atingem também terceiros. Nesse caso, a programação de todos assim o permite. Pode-se utilizar esse mesmo exemplo - o médico inserido no contexto de epidemia em sua comunidade, por determinismo - e tecer novas considerações. Utiliza o seu livre-arbítrio para socorrer ou não o seu próximo. Caso não o faça, podendo fazê-lo, pode acarretar muitas mortes de terceiros que ficam sem o tratamento adequado (é o mau uso do livre- arbítrio prejudicando terceiros e sendo permitido pelo Alto). Pode, entretanto, ser ineficaz essa omissão, pois o Plano Superior, se desejar, coloca, por determinismo, outro médico à disposição dos enfermos e muitos desencarnes deixam de ocorrer (é a interferência do determinismo evitando as conse- quências do mau uso do livre-arbítrio de alguém). Ante o exposto, pode-se perceber que a teoria do risco reforça, sobremaneira, a afirmação bem conhecida no Espiritismo de que nada acontece por acaso. A interação livre-arbítrio/determinismo assim o demonstra.

Enquanto o livre-arbítrio mal utilizado acarreta prejuízos, aumentando débitos, o bom uso dessa faculdade, além de proporcionar progresso ao ser, pode até levar o determinismo a minimizar-lhe expiações. Um exemplo disso é o caso de alguém que tendo por programação - por causa de erros do passado - alguma perda ou mal corporal, por acidente ou não, durante a jornada física que vivência, o seu apego à caridade - prática e distribuição do amor - por livre-arbítrio, pode trazer-lhe mérito suficiente que produz o abrandamento do efeito expiatório face às dívidas aliviadas pela ação caritativa do presente. Torna-se importante mencionar que muitos encarnados, atualmente, conservam a falsa ideia de que tudo acontece por determinismo, ou seja, que esse é o mecanismo impulsionador de todas as trajetórias no plano físico e de todos os acontecimentos fáticos do mundo. Assim, tudo de mal ou de bom que acontece no Globo reputam à Vontade do Criador, como se Deus fosse responsável pelos erros e desvios dos homens. Não é essa a lógica da Justiça Divina. O livre-arbítrio tem relevância nesse contexto.

Muitos prejuízos vividos pelos seres humanos são consequências de atos deles próprios. Logo, não devem dizer: "tudo está traçado pelo destino"; "todos os males terrenos são determinados pelo Alto" - tanto quanto seria falso afirmar: "todos os males do Globo são provenientes do livre-arbítrio do homem". O absolutismo dessas posturas não corresponde à realidade do processo evolutivo.

De acordo com a interação explicada pela teoria do risco, ora prevalece o livre- arbítrio, ora o determinismo. Aspecto relevante, nessa teoria, é a figura do risco. Em qualquer lugar ou momento da jornada terrena pode surgir uma situação de risco, quando, então, o encarnado tomará uma decisão, usando bem ou mal o seu livre-arbítrio. Essa situação de risco pode ser criada por determinismo ou por livre-arbítrio. Tome-se ao exemplo do médico. Se escolhe trabalhar numa comunidade onde existe a epidemia, ingressa numa situação de risco por livre-arbítrio. A partir daí, permanecer auxiliando os enfermos é outro ato de decisão sua. Nesse caso, o predomínio é do livre-arbítrio, em oposição à exemplificação

26 (26) - Ressalta-se, a bem do entendimento dessa teoria, que os exemplos citados neste capítulo possuem várias formas de ser focalizados, razão pela qual não se pretende esgotar em cada um deles todas as possibilidades de ocorrências de situações. Eles são ilustrativos e não representam a teoria em si. feita linhas acima, quando o médico é colocado na comunidade, já com epidemia, por determinismo. Por outro lado, se é impulsionado por inspiração a escolher determinada comunidade para trabalhar e, posteriormente, uma epidemia se abate no local, é também colocado numa posição de risco, por determinismo. Prosseguindo no exame da teoria em tela, ilustremo-la com outro exemplo: dois encarnados - inimigos de existências pregressas, com faltas mútuas a reparar - são colocados numa situação de risco e devem ultrapassá-la; um está na posição de

atacante e outro na de vítima. Inúmeras situações podem ocorrer: I) Quanto ao encontro: a) Atacante e vítima estão frente a frente por determinismo, ou seja, o Alto os impulsionou a se encontrarem em determinado local; b) Ambos estão nesse encontro por livre- arbítrio: os dois optam por se encontrar em determinado local, mesmo cientes da repulsa mútua que sentem um pelo outro; c) Situação mista: um deles ingressa na situação por determinismo e o outro por livre- arbítrio, conjugando as duas hipóteses anteriores. II) Quanto ao atacante: a) Vislumbrando na vítima alguém que seu âmago rejeita (fruto de vivências do passado), não resiste às más tendências e causa-lhe algum mal; b) Mesmo sentindo repulsa peculiar pela vítima, controla seus impulsos negativos e nada faz contra ela. III) Quanto à vítima: a) É agredida pelo atacante e, não resistindo às suas más tendências, além de se defender, passa ao contra-ataque, causando um mal ao oponente; b)Apenas se defende e nada faz contra o atacante.

IV) Quanto a ambos: a) Além de não se atacarem mutuamente, se reconciliam. V) Quanto aos resultados e suas consequências: a) Integralmente negativo: ambos se atacam, sem vencer os impulsos negativos e sem praticar os mandamentos cristãos de amor ao próximo e de perdão das ofensas; b) Integralmente positivo: os dois se reconciliam. Familiarizados com o Evangelho, implantado em seus corações, atacante e vítima perdoam-se mutuamente e agem com amor, evitando ataques e granjeando bons sentimentos;

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.