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Capítulo 1 de 12

Bhagavad

Bhagavad Gita

GÎTÂ BHAGAVAD GÎTÂ A MENSAGEM DO MESTRE

Tradução de FRANCISCO VALDOMIRO LORENZ | EDITORA PENSAMENTO SÃO PAULO 0 Bhagavad Gitâ (l), isto è, A Sublime Canção, também designada como a Canção do Senhor ou a Mensagem do Mestre, é uma das obras mais importantes que existem no mundo. Êste livro é altamente prezado pelos budistas e venerado como Escritura Sagrada pelos brâmanes, que, freqüentemente, o citam como autoridade no que se refere à religião hindu. A filosofia nêle exposta é um conjunto harmonioso das doutrinas de Patan-jali, Kapila e dos Vedas. 0 Bhavagad Gîtâ é um episódio da grande e antiga epopéia hindu, intitulada Mahâbhârata (2), que contém 250.000 versos, descrevendo a grande 4 6 8 9 7 S (1) Bhagavad, variação de bhagavant, em adscrito Direitos reservados significa sublime: Gîtâ, pronuncie-se guîtá) — canção. Note-se que, nas palavras sânscritas, g tem sempre o som gutural; h é EDITORA PENSAMENTO aspirado; sh lê-se como o ch ou x chiante {em chá, xarope); â, t, Rua Dr. Mário Vicente, 374, fone: 63-3141, û têm o som prolongado; y é um i brevíssimo; ch soa tch. 04270 São Paulo, SP (2) Maha — grande; Bhârata — índia.

Impresso em São Paulo, Brasil, pela EDIPE Artes Gráficas 7 guerra entre os Kurus e os Pândnvas, que tinha por objetivo a posse de Hastinapttra, um dos centros mais importantes da civilização ariana. Em sua forma literal, apresenta o Bhagavad Gîtâ um interessante diálogo entre Krishna (1) e Arjuna (2), tratando de um fato histórico; mas os Mestres hindus dizem que êste livro maravilhoso tem sete sentidos, e aconselham ao leitor esforçar-se por penetrar no seu mais profundo sentido interior ou espiritual. A leitura desta Sublime Canção é útil para todos: cada um, porém, poderá assimilar e compreender só aquilo que estiver em harmonia com o desenvolvimento de suas faculdades psíquicas e espirituais.

A nossa tradução, baseando-se na edição inglesa do Yogi (3) Ramacháraca, comparada com a edição em sânscrito e latim, publicada por Aug. Guilh. vou Schlegel, e com a edição alemã do Dr. Franz Hartmann, tem por fim auxiliar os leitores nesse desenvolvimento, a que todo o ser pensante (1) Krishna (sh lê-se x) representa o Homem-Deus, o nosso Ego (ou Eu) Superior. (2) Arjuna representa o homem no estado evolutivo. (3) Yoga significa união: yogi é aquêle que realizou a sua união consciente com a Alma Divina.

deve dedicar a sua vida. Não podemos desvendar totalmente o sentido esotérico dêste precioso livro, porque — conforme as leis da natureza superior — cada um há de descobri-lo por si mesmo; acrescentamos, entretanto, notas e observações que serão úteis para aquêles que aspiram à Iniciação. A cena da ação histórica do Bhagavad Gîtâ transporta-nos à planície da Índia, entre os rios Jumma e Sarsuti, atualmente conhecidos como Kurul e Jheed. Na capital do país, chamada Hastinapura (1), reinava, em tempos remotos, o rei Vichitraviría (2). Casou-se com duas irmãs, mas faleceu sem deixar filhos. Conforme o costume dos antigos povos orientais, Vyâsa (3), irmão do falecido, tomou essas viúvas por espôsas e teve delas dois filhos: Dhritarâshtra (4) e Pându (5). Dhritarâshtra, o mais velho, gerou cem filhos (simbólicos) dos quais o primogênito chamava-se Duryôdhana (6). 0 mais môço, Pându, teve (1) Cidade (pura) do Elefante (hastina). (2) Vichitra — multicôr, de muitas espécies; virya — poder. (3) Agrado, prazer. (4) Representante da vida material; instinto. (5) Representante do elemento espiritual; intelecto. A palavra pându significa claro, pálido. (6) Dificilmente vencível; obstinação. 9 cinco filhos, todos grandes guerreiros, conhecidos como os cinco principais Pândavas. Dhritarâshtra perdeu a vista, e continuou a ser rei só

nominalmente, entregando o poder real a seu filho Duryôdhana. Êste, com o consentimento do pai, baniu do pais os cinco filhos de Pându, seus primos, os quais, porém, depois de muitas vicissitudes, viagens e aventuras, voltaram à sua terra natal, acompanhados de muitos amigos e partidários, e formaram um poderoso exército aproveitando os guerreiros que lhes forneceram os reis vizinhos. Com as suas fôrças, marcharam para o campo dos Kurus, empreendendo uma campanha contra o ramo mais velho da família, os partidários de Dhritarâshtra, os quais se reuniram sob o comando de Duryôdhana, que substituía o seu pai cégo; e, em nome da família dos Kurus, começou o ramo mais velho a opôr resistência à invasão e aos ataques dos Pândavas.

O Bhagavad Gîtâ apresenta-nos êsses dois exércitos, preparados para o combate. O comando ativo dos Kurus, cujo chefe é Duryôdhana, está nas mãos do velho general Bhishma (1), ao

(1) Terror; egoísmo.

passo que o supremo comando dos Pândavas é o famoso guerreiro Bhima (2). Arjuna, um dos cinco príncipes Pândavas e um dos principais caracteres desta história, estava presente, ao lado de seus irmãos, e acompanhado em seu carro de guerra por Krishna, reputado pelos hindus como encarnação humana do Espírito Supremo. Krishna, amigo e companheiro de Arjuna, a quem amava por causa de sua nobre alma e a resignação, com que êste suportava as perseguições. A batalha começou, quando Bhishma, o comandante dos Kurus, deu o sinal, tocando a sua cometa ou concha, sendo seu toque imitado pelos seus partidários, e respondido pelos Pândavas. Arjuna pediu a Krishna, ao princípio da batalha, que deixasse parar o carro no meio do espaço entre os dois exércitos inimigos, para ver de perto as principais pessoas que tomavam parte na luta. Vendo, então, seus parentes e amigos, tanto de um como do outro lado, ficou horrorizado por constatar que se tratava de uma guerra fraticida, e declarou a Krishna que antes queria morrer iner-me e sem se defender, do que matar seus parentes.

Krishna respondeu-lhe com um notável dis- (2) Terrível; a vontade espiritual. 11 seus prazeres e pelas suas paixões, que formam um curso filosófico que forma a maior parte do poderoso exército de ilusões: a sua tarefa é vencê- Bhagavad Gîtâ, fazendo Arjuna reconhecer a las, para chegar ao conhecimento de sua verdadeira necessidade dessa luta, em que êle e os seus essência divina. Mas, como muitas dessas ilusões partidários, finalmente, alcançariam completa se lhe tomaram agradáveis, acha difícil combatêvitória sôbre os las. A seu lado, entretanto, tem valentes guerreiros: Kurus. a sua Consciência, o Amor do Bem e da Verdade, a O autor põe a narração de tudo isso na bôca Obediência à Lei Suprema, a Fé, a Convicção, etc. de Sanjaya (1), fiel servidor do rei cego, Dhri- Krishna, que lhe explica a verdadeira natureza tarâshtra. humana e a sua relação com Deus, é o Verbo de Deus, Logos ou Cristo em nós, o nosso superior, Como já dissemos, além do sentido histórico, imortal Ego Divino. material ou literal, tem o Bhagavad Gîtâ (como tôda Escritura Sagrada: a Bíblia, os Vedas, o Corão, etc), ainda vários graus do sentido espiritual ou esotérico; e para que os nossos leitores possam, com facilidade, descobri-lo, lhes diremos que a luta aqui descrita é a que se trava no interior de cada homem, entre o "Bem" e o "Mal".

Arjuna, o Homem, acha-se colocado no campo de suas ações, entre dois exércitos inimigos, dos quais os Pândavas representam as forças superiores, e os Kurus, as fôrças inferiores da alma. Ali está Arjuna, o filho de Kunti (isto é, da Alma) contra os seus parentes, os filhos de Dhritarâshtra (Vida material) ameaçado pelo Egoísmo, pelos (1) Sanjaya — vitorioso. 12 13

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.