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Capítulo 3 de 12
Aum (1) — parte 2 de 7
Bhagavad Gita
30 31 26. Se, porém, não o crês, e pensas que nas- vida mesma, Não há, pois, motivo para te abancimento e morte são coisas reais, mesmo assim te donares à aflição e tristeza. pergunto: por que te lamentas e entristeces? 31. Deves estar atento ao teu dever. Tu, que 27. Pois, em verdade, a morte deriva do és um príncipe da casa dos guerreiros, tens por nascimento, e o nascimento dimana da morte. Não dever combater com resolução e heroísmo. te aflijas, pois, pelo inevitável. 32. O dever de um soldado é combater, e 28. Aqueles que carecem da Sabedoria In- combater bem. O combate justo honra o guerreiro terior, ignoram de onde Vimos e para onde vamos; e abre-lhe a porta do céu. conhecem só aquilo que é transitório. No Sêr 33. Se desistires da legítima luta pela ver- Eterno, tôdas as coisas são compreendidas no estado dade e pelo direito, cometerás um grande crime invisível; depois se fazem visíveis, e na morte contra a tua honra, contra o teu dever e contra o teu tornam a ser invisíveis. Por que então, lamentar? povo. 29. Quanto à alma, o Homem real, Espírito ou Sêr Eterno, alguns o tomam por coisa maravilhosa; 34. Os homens de perto e de longe falarão de outros ouvem falar e falam dêle como de uma ti com desprezo, classificando de vergonhoso o teu maravilha, com incredulidade e sem compreensão. proceder; e a vergonha e a desonra são piores do Mas a mente mortal não compreende esse mistério, que a morte para quem é de nobre nascimento. nem o conhece em sua natureza verdadeira e 35. Todos os generais pensarão que foi por essencial, apesar de tudo o que foi dito, ensinado e medo que fugiste do campo de batalha, e te tratarão pensado a seu respeito (1). como covarde; e aquêles que até agora te estimam, 30. O Espírito, êsse Homem real que habita o desprezar-te-ão. corpo, é invulnerável e indestrutível: é a 36. Os teus inimigos espalharão má fama a teu respeito; com burla e com desdém falarão de ti e (1) Só pode compreender o Ser Eterno, quem o realizou de tua falta de coragem. Poderia acon-tecer-te coisa em si mesmo. pior?
32 33 87. Se fôres morto em batalha, o céu dos ço mental, cheios de múltiplos ramos, numerosos guerreiros será a tua recompensa; se fôres o ven- caminhos e divergentes fins. cedor, será teu o domínio sôbre a terra. Tem, pois, 42. Muitos há que, saciando-se com as letras coragem, ó filho de Kunti, e decide-te a combater (ou com o sentido exterior, superficial) das com ânimo firmei Sagradas Escrituras e doutrinas, e não podendo 38. Com a mente tranqüila, aceita como igual perceber o seu verdadeiro sentido interior, acham o prazer e a dor, o ganho e a perda, a vitória e a grande deleite em controvérsias técnicas a respeito derrota. Cinge-te para a peleja, cumpre o teu dever, do texto, em definições monstruosas e abstru-sas e evita assim o pecado. interpretações. 39. O que te expus, ó Arjuna, é a doutrina de 43. Os corações desses homens estão cheios Sankya, filosofia especulativa da vida e das coisas. de desejos e esperanças pessoais; o seu mais alto Agora, prepara-te também para ouvir a doutrina de ideal é um céu, onde acham todos os objetos de uma escola, chamada Yoga. Se com a devida seus prazeres, a satisfação do seu sensualismo, e profundeza e concentração, chegares a compreender não se elevam à altura de onde se percebe a união estas verdades, libertar-te-ás das cadeias das ações. de todos os sêres. Usam palavras florea-das, 40. Nada de teus esforços se perde neste inventam várias cerimônias e falam muito dos caminho; já a menor porção desta ciência e prática prêmios que esperam aqueles que as observam, e (1) nos livra de grande mêdo e perigo. dos castigos em que caem os que são de outras 41. Neste ramo de ciência, há um só objeto opiniões. em que a mente pode concentrar-se com segurança, 44. Fica, porém, sabendo que laboram em muito ao contrário de outros campos de esfor- erro; é-lhes desconhecido o uso da Razão concentrada, e estranhas lhes são as alturas da consciência espiritual. (1) Yoga significa "união", não só no sentido de doutrina 45. Os Vedas (isto é, as Sagradas Escritufilosófica, como também na prática; o saber teórico sem a realização prática não tem valor. ras) tratam das três gunas ou qualidades da Na-
tureza (1) e instruem os pensadores a se elevarem ção, como acontece fàcilmente aos que perderam a acima delas. Liberta-te, ó Arjuna, dessas gunas; sê ilusão de esperar uma recompensa das suas ações. livre dos contrastes das forças opostas da natureza, 48. Coloca-te no meio entre êsses dois extremos, que pertencem à vida finita e às coisas sujeitas à 6 príncipe, e cumpre, em tranqüila resignação, o mudança. Procura para teu descanso a consciência dever por ser dever, e não pela espectativa da do teu Eu Real, a Verdade eterna. Deixa longe de ti recompensa. Conserva ânimo igual na ventura ou os cuidados mundanos e a avidez de possessões desventura: assim é que faz o yogi. materiais. Concentra-te em ti mesmo, e não te 49. Por muito importante que seja a tua reta entregues às ilusões do mundo finito. ação, o primeiro lugar pertence sempre ao reto 46. Como de um tanque, em que de todos os pensamento. Procura, portanto, o teu refúgio na paz lados aflui água, pode-se tirar o fluído cristalino e na calma do reto pensar, 6 Arjuna: porque aquêles para encher-se com êle muitos vasos de diferentes que baseiam o seu bem-estar só nas ações, com formas e dimensões, assim as doutrinas dos livros estas necessàriamente perdem a felicidade e a paz, sagrados fornecem à mente do estudante sério, tudo e caem na miséria e no descontentamento. aquilo de que êle precisa para chegar ao 50. Quem atingiu a consciência de yogi, é conhecimento das coisas divinas, conforme o grau e capaz de elevar-se acima dos resultados bons e o caráter de seu desenvolvimento. maus. Esforça-te por atingir esta consciência, 47. Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos porque ela é a chave que abre o mistério da ação. teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, 51. Os sábios, que renunciam mentalmente os e faze as tuas obras sem procurares recompensa, frutos possíveis de suas retas ações, libertam-se das sem te preocupares com o teu sucesso ou insucesso, cadeias dos renascimentos e se encaminham para a com o teu ganho ou o teu prejuízo pessoal. Não morada eterna. cáias, porém, em ociosidade e ina- 52. Quando te tiveres elevado acima da trama das ilusões, não te inquietarás com os cuida- (1) Veja se o Capítulo XIV. 36 37 dos e questões a respeito das doutrinas, nem com sem apegar-se a nenhuma. Nêle não tem parte a as disputas sôbre ritos, cerimoniais e outros en- ira, nem o mêdo, nem as paixões; êle merece o feites dispensáveis da vestimenta da idéia espi- nome de sábio. ritual. 57. Com equanimi&ade suporta as vicissi- 53. Livre serás, então, de tôdas as opiniões tudes da vida, tanto as favoráveis como as desfaalheias, tanto das que se acham nos livros sagrados, voráveis ; não se entrega nem à alegria excessiva, como das dos teólogos eruditos ou dos que ousam nem à tristeza. Nada lhe rouba a liberdade. interpretar o que não compreendem; em lugar 58. Quando um homem chegou a possuir a disso, fixarás a tua mente na mais séria verdadeira sabedoria espiritual, é semelhante à contemplação do Espírito, e assim alcançarás a tartaruga que encolhe para dentro da sua casa os harmonia com o teu Eu real, que é a base de tudo". seus membros: 54. Diz Arjuna: Assim o homem sábio é capaz de desviar os "Explica-me, 6 Mestre cujos raios de saber seus sentidos dos objetos que nêles produzem imtudo penetram, quais são os sinais distintivos que pressão, e abrigá-los das ilusões do mundo excaracterizam os homens sábios, aqueles que são terior, protegendo-os pela armadura do Espírito. firmes e constantes no conhecimento e fixos na 59. É verdade que o homem que se abstém contemplação; como se comportam e como agem? dos excessos sensuais, é capaz de negar a satis- Como se pode reconhecê-los?" fação aos sentidos; tal homem, porém, ainda é 55. Fala o Verbo Divino: inquietado pelos desejos de gratificação. Mas "Quando um homem, ó príncipe, quebrou os. aquêle que achou o seu Eu Real dentro de si, é vínculos dos desejos do seu coração e está inter- livre até do desejo e de tôda tentação que desanamente satisfeito consigo, atingiu a Consciência parecem como a sombra ante a luz meridiana. Espiritual e firmou-se no conhecimento. 60. O homem que se abstém, às vêzes su- 56. A sua mente não é turbada nem pela ad cumbe ainda ao ataque repentino de um desejo versidade nem pela prosperidade: aceita ambas, tumultuoso; mas quem conhece que o seu Eu Real
38 39 é a única realidade, êsse é senhor de si mesmo, de a Paz e sem a calma não é possível existir sabeseus desejos e de seus sentidos. doria, nem felicidade. 61. Tendo vencido os sentidos, pode descan- 67. Onde não há Paz, encontra-se sòmente çar em minha Divindade, contemplando o Sêr a tormenta dos desejos sensuais, que destrói a Real; o irreal, o ilusório, não existe para êle. faculdade do saber, assim como um feroz vento 62. Quem anela objetos dos sentidos, nos borrascoso impede o forte navio que caminha pequais pensa e os quais contempla, fica atraído e las ondas do Oceano. enlaçado por esses objetos; desta atração e dêste 68. Por isso, ó príncipe, só aquêle cujos senenlace provém o desejo, e o desejo gera a paixão. tidos são plenamente livres de atração dos objetos sensuais e protegidos pelo saber do Espírito, 63. A paixão é a causa da perturbação mental tem o verdadeiro conhecimento. e da temeridade; estas trazem a confusão e a perda da memória (das verdades já reconhecidas) ; da 69. Aquilo que parece ser claridade de dia perda da memória resulta a perda da razão, e, com à massa do povo, é para êle escuridão e ignoisso, perde-se o homem totalmente. rância; e aquilo que é noite para a multidão, êle 64. Mas quem, senhor de si mesmo, encontra reconhece como luz meridiana. Isto quer dizer os objetos dos sentidos, sem a êles anelar e sem dêles que aquilo que à gente do mundo sensorial parece ser real e verdadeiro, para o sábio é ilusão ; e fugir, êsse alcança a Paz. aquilo que a maior parte dos homens julga ser 65. E na Paz que é superior a todo intelecto, irreal e não existente, o sábio conhece como o êle encontra a sua libertação de tôdas as aflições e único que é Real e existente. dôres da vida. Quando, porém, a sua mente está livre 70. O homem, cujo coração é como o Ocea destes elementos de inquietação, fica aberta ao no, a que afluem todos os rios e que, apesar disso, influxo da sabedoria e da ciência. permanece constante e não sái dos seus limites, 66. Não podem chegar à verdadeira ciência — o homem que sente o ímpeto dos desejos, das aqueles que não entraram nessa Paz, pois, sem paixões e inclinações, mas que, todavia, fica imó-
vel, — êsse alcança a Paz (1). Aquêle, porém, que se entrega aos desejos, não conhece a Paz, e é escravo dos desejos inquietantes. 71. Aquele que se separou dos efeitos dos CAPITULO III desejos, e abandonou os prazeres da carne, tanto em pensamento como em ação, caminha dire- KARMA YOGA — 0 RETO CUMPRIMENtamente para a Paz. Quem deixou atrás de si o TO DA AÇÃO orgulho, a vangloria e o egoismo, caminha diretamente para a Bem-aventurança. Tudo o que o homem faz com motivos pessoais, é sem valor para o Eterno. Para 72. Êste é, ó príncipe de Pându, o estado da atingirmos a salvação e a união com Deus, união com o Sêr Real, o estado bem-aventurado da havemos de agir sem motivos egoístas, sem tomar em consideração o nosso próprio Eu Consciência Espiritual. Quem o atingiu, não se pessoal, entregando-nos à Vontade Divina deixa embaraçar nem desviar pela ilusão. E quem, como um instrumento na mão de Deus e, assim, cumprindo o nosso dever por ser dehavendo-o atingido, nêle permanece na hora da ver, sem pedir recompensas. morte, entra diretamente em Nirvana (2), em Brama, (3), no seio do Pai-Eterno." 1. Falou Arjuna, o príncipe Pândava, a Krishna, o Senhor Bem-aventurado, dizendo: (1) Tal estado, em que todos os desejos e todos os pen- "Ó Conferidor do Saber! Disseste-me que o samentos "dormem", mas em que se sente a mais elevada conhecimento é até mais importante do que a ação; consciência da Divindade, chama-se (com o têrmo sâns-crito) se assim é, por que me incitas à ação? Por que Samadhi. queres que eu entre nesta horrível batalha com (2) A palavra Nirvana designa a desaparição de tôdas as meus parentes e amigos? ilusões; é o domínio completo do espírito sôbre a matéria. (3) Brama — Deus Criador. 2. Tuas ambíguas palavras me trazem dú vidas e me confundem o entendimento. Dize-me, peço-te, em frases claras e certas, qual é o ca minho que me conduzirá à Paz e à Satisfação?"
42 X 43 6. Se alguém se assenta para reter e dominar 3. Respondeu Krishna, o Divino: "Como já te disse, os seus sentidos e os órgãos de atividade, mas, em ó nobre príncipe, há dois caminhos que vão à sua mente, está apegado aos objetos dos sentidos, Perfeição. O primeiro é o caminho do ilude-se e merece o nome de hipócrita. Conhecimento (1), e o segundo o da Ação (2). Uns 7. Porém, é digno de ser chamado sábio e preferem o primeiro, e outros, o segundo desses nobre aquêle que sujeitou os seus sentidos a Deus, dois caminhos; sabe, porém, que considerados do pelo amor ardente ao Altíssimo, e expressa o seu alto, ambos são um só caminho. Escuta! reto pensar em reta ação; êle cumpre o seu dever, 4. Engana-se quem pensa que, esquivando-se sem esperar recompensas e, ocupando-se de objetos das ações e persistindo na inatividade, escapa dos dos sentidos, não se deixa dominar por êles. resultados da ação. Quem nada começa, não pode 8. Faze bem o que te compete fazer no munentrar no estado da Paz Eterna; a inatividade não do; cumpre bem as tuas tarefas; ocupa-te da obra conduz à Perfeição. E, na realidade, nem há coisas que encontras, para fazê-la o melhor possível: assim que se possam designar pela palavra inatividade; será muito bom para ti. Atividade é melhor do que pois tudo, no Universo, está em atividade constante, ociosidade. A atividade fortalece a mente e o corpo, e nada pode subtrair-se à lei geral. e conduz a uma vida longa e normal; a ociosidade 5. Ninguém pode ficar inativo nem um ins- enfraquece tanto o corpo como a mente, e conduz a tante; pois as leis de sua natureza o impelem cons- uma vida impotente e anormal, de duração incerta. tantemente a fazer alguma coisa, queira êle ou não; o 9. Os homens estão aferrados a êste mundo, seu corpo ou a sua mente, ou ambos, sempre estão porque agem com o fim de obter recompensa e ocupados. ganho; estão apegados aos objetos de seus desejos, e, por isso, cansam-se na escravidão dos sentidos. Para se libertarem, hão de agir com resignação, (1) Sankhya. movidos pelo puro amor ao Bem. Faze, pois, ó (2) Yoga. Arjuna! a tua tarefa, para cumprires o 44 45 dada pelos deuses em resposta aos desejos, às dever que o Eu Real te impõe, e não por qual- preces e as súplica* dos homens. Os desejos, as quer outro motivo. preces e as súplicas dos homens são formas de 10. Lembras-te das doutrinas antigas que ações; e as ações procedem da Vida Una que tudo narram da criação do mundo, e das palavras que penetra." o Criador disse aos homens que tinha criado! 15. Sabe que toda ação tem sua origem em Ouve, t'as repetirei: Brama. Brama é a revelação da indivisível Uni- "Pela adoração e pelo sacrifício mútuo, cres- dade. Por isso, Brama, que tudo penetra, é sempre cereis e vos multiplicareis. Pela resignação, ob- presente nas tuas ações. tereis a satisfação dos vossos desejos. 16. Ê vã e vergonhosa a vida do homem que, 11. Lembrai-vos da Fonte de tôdas as coi- vivendo neste mundo de ação, tenta abster-se da sas, do Distribuidor dos objetos desejados. Pensai ação; quem, gosando o fruto da ação do mundo no que é Divino, para que o Divino pense em vós. ativo, não coopera, mas vive em ociosidade. Aquele 12. Se nutrirdes, com o sacrifício de vós mes- que, aproveitando a volta da roda, em cada instante mos, os deuses, êles vos darão o desejado alimen- de sua vida, não quer pôr a mão à roda para ajudar to (espiritual). Quem recebe os dons dos deuses a movê-la, é um parasita e um ladrão que toma, e não lhes mostra a gratidão, é como um ladrão. sem dar coisa alguma em troca. 17. Sábio é, porém, aquele que cumpre bem 13. Os bons homens que retém para si só os seus deveres e executa as obras que são para aquilo que resta depois de terem oferecido à Di- fazer-se no mundo, renunciando a seus frutos e vindade tudo o que é divino, são livres de todos concentrado na ciência do Eu Real. os pecados; porém, os maus que querem agir só para si mesmos, vivem em pecado.. 18. Tal homem, elevado acima dos mundos, 14. Tôdas as criaturas (tanto as espirituais não se inquieta por saber se alguma coisa no como as materiais) vivem, enquanto se alimentam. mundo acontece ou não acontece; achando em si O alimento cresce com a chuva. A chuva é man- mesmo tudo de que precisa, não tem necessidade de refugiar-se em nenhum ser criado, para nêle
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