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Capítulo 11 de 12

Capítulo Xiv — parte 2 de 2

Bhagavad Gita

26. SAT significa Verdade e Bondade, e pronuncia-se quando se pratica uma boa ação ou quando se observa uma boa qualidade. 27. Por isso, designa-se com a palavra SAT a perseverança, em sacrifício de si mesmo, penitência, renúncia, adoração mental e caridade, e tudo relativo a êstes fins. CAPÍTULO XVII 28. Tudo, porém, que se faz sem fé e sem boa MOKSHA SANNYASA YOGA — A LIBERTAÇÃO vontade, seja sacrifício, mortificação da carne, PELA RENÚNCIA abstinência ou esmola, chama-se ASAT (nulidade) e não tem valor ou mérito, nem neste mundo nem no Há três espécies de renúncia: uma tem outro." por causa a ignorância; outra é motivada pelo desejo de obter coisa melhor do que aquela a que se renuncia; a terceira nasce do amor ao Altíssimo e não nutre desejos pessoais. A primeira espécie pertence a Tamas; a segunda, a Rajas; a terceira a Sattwa. Quem renunciou a tudo o que é característico do amor de si próprio e oferece a sua vida ao serviço da Divindade, cumprindo o seu dever por ser dever, e sem pedir recompensas; quem ama a Deus sôbre tudo e todos os sêres vivos como a si mesmo, alcança a União com o Absoluto, e nela a sua Salvação, tornando-se imortal.

Arjuna: 1. Quisera, ó Abençoado Senhor, conhecer em que consiste realmente a abstenção (Sanyasa) e renúncia (Tyaga).

Krishna: tica uma renúncia de natureza rajásica, e nada 2. Os exegetas entendem por sanyasa o abs ganha cora essa renúncia. ter-se dos atos dimanantes do desejo; os sábios 9. Se alguém, sem apêgo nem visando resul dizem que tyaga é a renúncia dos frutos de tôdas tados, pratica um ato inerente à sua própria con as ações. dição, dizendo: "isto precisa ser feito", essa re núncia é tida como de natureza sátwica. 3. Uns opinam que tôda ação é pecamino 10. Quem não tem repugnância a fazer aquilo sa e se deve abster-se dela; outros sustentam que que não lhe dá proveito e não tem desejo do que jamais se devem omitir atos como os de sacrifí lhe é vantajoso; quem é prudente e não nutre cio, esmolas e disciplina. dúvida alguma, é um verdadeiro renunciador 4. Escuta, pois, meu veredicto acerca da re- (tyagi). nuncia {tyaga). Tem-se dito que é de três espécies. 11. Não há homem que possa abster-se de tôda a ação enquanto vive no corpo terrestre. Ver- 5. Os atos de sacrifício, esmolas e disciplina, e dadeiro renunciador, é, porém, considerado quem similares, não devem ser abandonados, mas praticados, se abstém de gozar os frutos de suas obras.

pois purificam os yogis. 12. É tríplice o fruto da ação — desejável, 6. Êstes atos, como o Yoga, devem ser pra- indesejável e semi-desejável — que nas vidas futicados, mas sem apêgo aos seus resultados e sem turas colhem aquêles que não renunciam. Mas interesse pessoal. Tal é a minha firme convicção. quem renuncia, nada tem a colher. 13. Ouve agora quais são os cinco fatores 7. Não é correto abster-se alguém de uma ação que, segundo a filosofia Sânkya, requer o cuminerente a sua própria condição. Tal abstenção deriva primento de tôdas as ações: da ilusão e é considerada tamásica. 14. O meio (o corpo), o agente (o eu), os 8. O que se abstém da ação para evitar in- órgãos motores, as energias e as divindades precômodos corporais, dizendo: "isto é penoso", pra- sidentes.

15. Qualquer obra boa ou má, em ação, pala vra ou pensamento, tem como causas, esses cinco 21. Passional e de natureza rajásica é o cofatores. nhecimento que considera separadas as diversas 16. Por isto, ofuscada está a mente e cega a e múltiplas existências dos sêres. visão de quem, por falta de conhecimento, se con 22. Mas tenebroso e de natureza tamásica sidere como o único agente. é o conhecimento que se fixa numa só coisa como 17. Alguém que, abstendo-se da ação e não se se fôsse tudo, olhando-a fora da realidade, sob ligando ao fruto, exterminasse aquelas hostes, não seria um aspecto mesquinho e irrazoável. seu matador nem a tal ação se vincularia (1). 23. Pura é a ação cumprida por dever, sem apetecer o fruto, sem gôsto nem repugnância, e 18. Cada ação tem três elementos causais: o livre de afeto interesseiro. conhecimento, o objeto do conhecimento e o co- 24. Passional é a ação cumprida por sugesnhecedor. Analogamente, cada ação tem três elementos tão do desejo, por motivos egoistas ou determinade realização: o instrumento, a operação e o agente. ções violentas. 19. Também de três espécies são o conheci- 25. Tenebrosa é a ação cumprida por causa mento, a ação e o agente, em correspondência com as do êrro, sem reparar na sua eficácia nem nas conqualidades (gunas). Atenta no que sobre isto vou dizer- seqüências nocivas que possa acarretar a outros. te. 26. Puro é o agente livre de afetação e 20. Puro e de natureza sátvica é o conheci- egoismo, dotado de energia e perseverança, e mento mediante o qual se vê em todos os sêres o inalterável no êxito e no fracasso. imperecível SÊR, indivisível no dividido. 27. Passional é o agente que, desejoso de (1) Veja-se Capitulo II:19; Capítulo III:29, e Capítulo obter fruto de suas ações, está denominado pela V:8 e 9. cobiça, maldade e impureza, oscilando entre impulsos de alegria e pezar. 164 165 28. Tenebroso é o agente hipócrita, vulgar, malévolo, negligente, contumaz, desconfiado, fa 33. Pura é a Constância que por meio do laz e preguiçoso. Yoga refreia a fogosidade da mente, dos sentidos e dos alentos vitais. 29. Triplicimente concorde com as qualidades 34. Passional é a Constância que leva o ho- (gunas) é também a divisão do Intelecto [Buddhi (1)] mem ao cumprimento de seus deveres, com o dee da Constância [Dhriti (2)], segundo passo a sejo de colher o fruto das ações e desfrutar de descrever-te claramente e sem reservas. riquezas e prazeres. 30. Puro é o Intelecto de quem conhece a ação 35. Tenebrosa é a Constância que mantém o homem submerso na preguiça, no mêdo, na trise a omissão, o que deve e o que não deve fazer-se, o teza, no abatimento e na vaidade. temor e a intrepidez, a escravidão e a libertação. 36. E agora escuta de meus lábios as três 31. Passional é o Intelecto que confunde o distinções do prazer por cujo desfruto continuo justo com o injusto, o que deve com o que não deve tanto se alvoroça o homem e que lhe extingue as aflições. fazer-se, o bem com o mal. 37. Puro é o prazer que nascido do bendito 32. Tenebroso é o Intelecto que imputa o bem auto-conhecimento, no princípio repugna como pelo mal, o justo pelo injusto, e vê tôdas as coisas adstringente peçonha, mas no fim deleita, qual subvertidas e contrárias ao que realmente são. suavíssima ambrosia. 38. Passional é o prazer que nascido da união entre os sentidos e seus objetos, deleita no (1) Buddhi: também traduzido por Discernimento. princípio qual suavíssima ambrosia, mas no fim (2) Dhriti: igualmente significa vontade, firmeza, per- repugna como adstringente peçonha. severança, resolução. 39. Tenebroso é o prazer que no princípio e no fim conturba o ânimo, e provém da morbidez, da negligência e da preguiça.

40. Ninguém na terra nem mesmo entre os próprios deuses do céu, está isento destas três 44. Agricultura, pastoreio e comércio: tal é qualidades (gunas) oriundas da natureza. o Karma dos vaishyas, nascido de sua peculiar 41. Entre as castas dos Brâhmanes (sacer- natureza. dotes, instrutores, intelectuais), Kshattriyas (militares, 45. Os serviços servia são o Karma dos estadistas, políticos), Vaishyas (comerciantes, shudras, igualmente nascido de sua peculiar natureza. banqueiros, fazendeiros) e Shudras (domésticos, criados, serventes) foram distribuídos os Karmas (1), 45. Alcança a perfeição quem quer que cumde conformidade com as qualidades dimanantes de sua pra contente o seu próprio dever (1). Ouve agora peculiar natureza. como alcança a perfeição o indivíduo contente. 42. Animo tranqüilo, pureza, auto-domínio, 46. Êsse alcança a perfeição, adorando pelo austeridade, misericórdia, retidão, sabedoria, cumprimento de seu próprio dever o Supremo Sêr conhecimento e fé em Deus: tal é Karma dos de que emanam todas as vidas e que penetra todo brâhmanes, nascido de sua peculiar natureza. o universo. 47. É preferível cumprir-se o próprio dever, 43. Proeza, galhardia, vigor, garbo, destreza, embora inferior, a imiscuir-se no dever alheio, generosidade e impavidez no combate: tal é o Karma embora superior. Não incide em pecado quem dos kshattriyas, nascido de sua peculiar natureza. cumpre seu dever congênito. 48. Que a ninguém repugne seu dever na (1) Karma: ação. Aqui significa o karma criado pelos atos, tural, embora seu cumprimento seja acompanha pensamentos e desejos do indivíduo em suas existências do de inquietações. Pois como a fumaça é ineanteriores, e que atualmente constitui o seu Dever especifico. Assim, pois, segundo Krishna, a casta ou classe social do indivíduo não é hereditária, mas oriunda de sua conduta pretérita. (1) Também: karma congênito, tarefa.

rente a toda chama, assim são as inquietações em relação à ação. 49. Ao cumprir o seu dever, que êle permaneça so de posse, alcançará êle aquela paz que o capadesapegado de quaisquer espécies de resultado, citará a unificar-se com Deus. conserve sua mente totalmente concentrada e afaste de 54. Unificando-se com Deus, êle é sereno; na si tôda preocupação, quanto ao executor. Mediante esta da mais o entristece, nem êle deseja; ama por renúncia atingirá êle a meta superior que se galga igual todos os sêres, e Me ama intensamente. mediante o Yoga do Conhecimento. 55. Com êste amor intenso, êle sabe clara 50. Aprende também brevemente de Meus mente quem sou e o que sou. Conhecendo-Me cla lábios, ó filho de Kunti, como quem conquistou esta ramente , com êsse mesmo amor, êle penetra en meta, chega à unificação com Deus, que é a etapa tão em Mim. suprema da realização. 56. Realize êle tôdas as ações refugiado em Mim, e não apenas o seu dever próprio, e por 51. Com a mente saturada de plenos e claros Minha graça alcançará a perfeição, eterna e conhecimentos acerca da verdadeira natureza do imutável. Espírito; sendo perseverante no domínio da mente; 57. Dedica tu, em pensamento, tôdas as tuas tendo abandonado tôda aliança com objetos sensórios, e ações a Mim, e perseverando nesta atitude, estaestando livre de influências do amor e ódio; rás sempre com tua mente fixa em Mim. 52. Sendo frugal na dieta, e com a palavra, o 58. Com tua mente fixa em Mim, com Micorpo e a mente educados na obediência, sente-se êle nha graça vencerás todos os obstáculos. num lugar solitário e pratique sempre a meditação, 59. Se, confiando apenas em ti, pensares cultivando o desapaixonamento. "não lutarei", e evitares a luta, vã será a tua de 53. Finalmente, banindo de si o egoísmo, a terminação, pois tua natureza té lançará à luta. resistência, o orgulho, o desejo, o rancor e o sen- 60. Ó filho de Kunti! O que por ilusão não desejares fazer, isso farás irremediàvelmente, forçado pelos impulsos de tua própria natureza.

61. O Senhor Supremo como que atou todos os seres a uma roda girante de corpos, e habitando em 68. Mas quem com sublime devoção divulseus corações, fá-los mover-se atraídos pelos objetos gar êste Segrêdo entre Meus devotos, chegará sensórios. até Mim sem dúvida alguma. 62. Portanto, obedece de coração o conse 69. Entre os homens ninguém poderá ofelho dêsse mesmo Senhor. Por Sua graça alcan- recer-Me serviço mais grato que êste, nem neçarás a Paz Suprema e a mansão imperecível. nhum outro homem será tão amado por Mim na terra. 63. Assim te transmiti Eu o conhecimento, que é o mistério dos mistérios. Medita cuidadosamente nêle e 70. E quem meditar neste nosso Santo Coage como preferires. lóquio, por meio dêle me adorará com o sacrifí- 64. Escuta de novo, é ouve Minha última cio da Sabedoria (1). Tal é a Minha vontade. palavra, referente ao maior de todos os mistérios. Por 71. E também o homem que, cheio de fé, o seres o meu muito amado, Eu te digo aquilo que te escutar tão só sem malícia, alcançará, livre do convém. mal, o esplendente mundo dos justos. 65. Fixa tua mente em Mim; sê Meu devoto; 72. Ouviste-Me atentamente, 6 filho de serve-Me; prostrate-te diante de Mim, e dêsse modo Prithá? Desvaneceu-se essa tua ilusão, filha da chegarás até Mim. Esta é a pura verdade, Eu te declaro, ignorância, ó Dhananjayal? pois és Meu muito amado. Arjuna: 66. Desiste de tôdas as obrigações religiosas, e 73. Desvanecida está a minha ilusão. Por toma-me como teu único refúgio. Eu te libertarei de Tua graça adquiri o conhecimento, ó imutável tôdas as dificuldades. Não te aflijas. 67. Disto não digas nada ao mundano, nem ao ímpio, nem ao que não quer ouvir, nem ao que Me (1) O Jnana-Yajna (Sacrifício da Sabedoria) é considerado maldiz. superior a todos os demais atos sacrificiais, porque 6 o que conduz diretamente à libertação.

Senhor Estou decidido. Dissiparam-se as minhas duvidas. Agirei segundo Tua palavra. prosperidade, a vitória, a felicidade e a justiça Conclui Sanjaya: eterna. 74. Assim ouvi esse maravilhoso Diálogo Assim termina aqui, no Bhagavad-Gîtâ, a entre o Divino Krishna e o nobre Arjuna. E ao Essência dos Upanishads, que é a Ciência de Braouvi-lo, eriçavam-se-me os cabelos. ma e do Yoga, o maravilhoso Diálogo entre Sri Krishna e Arjuna. 75. Por mercê de Vyasa (1) conheci este mistério do Yoga, revelado pela palavra do pró prio Krishna, o Senhor do Yoga. 76. Ó Rei, quanto mais recordo e me lembro dêste maravilhoso e sagrado Diálogo entre Keshava e Arjuna, tanto mais me regozijo. PAZ A TODOS OS SÊRES 77. E quando recordo e me lembro daquela maravilhosíssima transfiguração de Hari (2), aniquilome de assombro, ó Rei, e outras tantas vêzes me rejubilo. 78. Onde quer que esteja Krishna, o Senhor do Yoga, e onde quer que esteja Partha, o ar-queiro, ali imperarão seguramente a grandeza, a (1) A Vyasa Dvaipayana são atribuídas a composição do Bhagavad Gîtâ e a autoria do Mahabharata, Foi um grande yogi, dotado de poderes sobrenaturais. (2) Um dos nomes de Vishnu e de Krishna.

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