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Capítulo 4 de 24

A Autobiografia de Kaspar Hauser — parte 2 de 3

A Interdependência dos Seres · Luiz Guilherme Marques, pelo espírito Montaigne

Em seguida ficou noite de repente, eu não podia me lembrar que estava estendido no chão, mas quando ficou claro de novo eu estava deitado no chão, eu disse: “cavalo casa”, com o que eu queria dizer: por que os olhos e a cabeça doem tanto, e continuo sem ganhar meu cavalo. Ele me levantou e me deu água, eu realmente bebi muito e aquilo me refrescou totalmente; eu já estava sentindo sede antes mas não podia pedir água, porque eu não sabia que o homem podia me dar água. Como eu bebi água, meus sofrimentos ficaram bem mais leves. Ele me treinou de novo, eu podia andar um pouco mais rápido, se bem que na minha opinião aquilo ia tão devagar quanto no começo, mas para o homem tínhamos que continuar mesmo que devagar, porque ele sempre colocava os pés para frente. Quando eu andei um pouco, veio de novo muita dor, eu comecei a chorar e disse “cavalo casa”.

Ele me consolou: “agora você já está chegando na casa do seu pai”, eu disse: “cavalo casa”. Ele me deitou no chão, mas eu não pude dormir logo em seguida e chorei um pouco e disse: “cavalo casa”, pelo o que eu queria dizer por que então meus olhos continuavam me doendo tanto, com essas palavras e outras eu dormi finalmente. Quando eu acordei de novo, ele me levantou e me levou mais longe ainda. Começou ficar um pouco melhor para andar, na minha opinião, porque o homem não me apertava mais com tanta força, e eu não sentia mais tanta dor nos braços, e o homem disse: “você tem que aprender a andar melhor ainda”; aí ele disse mais uma vez as palavras: “você já vai ganhar o cavalo bonito; porque você sabe andar bem”, e ao mesmo tempo ele colocou para frente meus pés com os dele e desse jeito ele me fez entender. Eu acho que ele começou a me deixar andar um pouco mais livremente para descobrir se eu já podia andar sozinho; mas eu acho que caí, porque eu não podia levar os pés para frente, e dos dois lados eu senti uma dor brusca, que veio provavelmente do homem que me segurou bem rápido enquanto eu caía.

Eu comecei a chorar, ele me deitou e disse suas ameaças, eu parei e dormi finalmente. Quando eu acordei, minha primeira palavra foi: “cavalo casa, eu gostaria de me tornar um cavaleiro assim como foi meu pai.” Ele me levantou, me levou mais longe, eu acho que a caminhada deve ter sido bem melhor, porque de vez em quando eu não sentia mais nenhuma dor debaixo dos dois braços; eu tive que andar um tempo até que começou a chover de novo, daí eu fiquei todo ensopado e sofri bastante com o frio. Eu comecei a chorar e disse várias vezes em seguida: “tu t’en fait saucer”[1], eu comecei a repetir isso: querendo dizer: você me faz muito mal. Ele me estendeu no chão, e eu não pude dormir logo em seguida, porque as roupas estavam todas molhadas, e eu sentia várias dores, ele me passou alguma coisa de doce na cara, e enfim eu dormi mesmo assim. Como eu acordei de novo, ele me levantou, me treinou, eu sentia ainda várias dores, porque eu estava todo ensopado, eu tinha também muito frio.

Ele me dizia sempre suas palavras; eu não podia repetir nenhuma, em resposta à longa recitação eu disse a ele: “cavalo casa” etc. eu queria dizer por que então eu devo agora continuar fazendo assim com os pés, isso que me machuca tanto. Ele disse: “se você não chorar mais, aí vai ganhar cavalo do pai, mas andar você precisa aprender direito” : Eu comecei a chorar, aí ele me deitou no chão e com as palavras cavalo e outras, eu dormi finalmente. Como eu acordei de novo, eu disse as palavras. Ele me levantou, me treinou mais longe, e disse “agora você vai receber seu cavalo, mas você precisa aprender bem a andar”. Ele me levou para mais longe durante um tempo, eu sofria ainda e a noite apareceu, e eu me senti todo inconsciente.

E quando eu acordei, eu me vi deitado no chão, e fazia claro de novo como antes de chegar a noite, ele me sentou, me deu água, que eu bebi com vontade, depois disso eu me senti bem leve; eu acreditei que a metade das dores haviam acabado. Ele também me deu pão, mas eu comi bem pouco, porque eu não tinha fome, ou talvez por causa das dores eu não conseguia comer, água, que ele me deu mais uma vez, me refrescava de um jeito especial. Então ele me levantou, me levou para mais longe, eu podia andar com bem mais facilidade, eu já não tinha tanta necessidade de me apoiar nos braços do homem. O homem me elogiou: “porque você aprendeu bem a andar, vai ganhar daqui a pouco o cavalo”. Eu podia andar sem interrupções algo em torno de 40 a 50 passos, o que não era possível antigamente.

Eu comecei a dizer as palavras aprendidas, com as quais eu continuava querendo reclamar do meu cansaço e dores; ele me deitou logo em seguida no chão depois dessas palavras; eu estava muito cansado e sonolento e dormi em seguida. Quando eu acordei, ele me levantou, me pegou pela primeira vez por debaixo de um só braço, me treinou e disse de novo as mesmas palavras, até que eu as tivesse aprendido bem e pudesse repeti-las bem claramente. Ele me atormentou por tanto tempo para continuar andando, que eu recomecei a chorar. Ele me deitou no chão e disse: “você deve parar de chorar agora mesmo”, etc., eu estava muito cansado, e dormi logo em seguida. Eu acordei novamente, ele me levantou, me levou para mais longe.

Ele me deitou por outras vezes, para me deixar descansar, até que ele trocou as minhas roupas. Ele me sentou no chão, sem que eu tivesse pedido, me tirou as roupas, me colocou outras, com as quais eu cheguei na cidade de Nuremberg. Enquanto ele tirava as roupas e colocava as novas, ele estava atrás de mim, ele só ficava por detrás. Depois que eu fui vestido, ele me levantou, quis de novo me levar para longe, mas eu comecei a chorar e dizer as palavras aprendidas: pelo que eu queria dizer que não podia mais andar, eu estou muito cansado, os pés também me doem muito, então o homem disse: “se você não parar de chorar agora mesmo, não vai ganhar cavalo” e assim de repente, mas eu não parei até que ele me deitasse, para que eu pudesse descansar, eu dormi de cansaço. Quando eu acordei eu disse as palavras.

O que fez ele me dar água, ela me refrescou tanto que nem posso descrever; ele me levantou completamente e me levou para mais longe, e me dizia sempre as mesmas palavras, até que eu pudesse repeti-las bem claramente. Em seguida ele testou se eu não podia ainda andar sozinho, ele me deixou livre e sozinho e só me segurou pela parte de trás da roupa. Mas eu devo ter caído mesmo assim algumas vezes, porque eu não podia manter meus pés atrás, e sentia uma forte dor dos dois lados. Eu comecei a chorar, e disse as palavras aprendidas, querendo dizer que ele não deveria me fazer tão mal assim. Ele me consolou como sempre e me deitou no chão logo em seguida, e eu dormi bem rápido.

Quando eu acordei eu disse as mesmas palavras aprendidas, querendo dizer: o que é isso que fica sempre me causando dor nos olhos, e não para nunca de machucar. Ele me levantou e me treinou e disse: “você tem que aprender bem como andar”, e ele começou de novo a dizer palavras: “na grande cidade, tem o seu pai, que vai te dar um cavalo bem bonito, e quando você também for um cavaleiro, eu virei te procurar”. Então eu recomecei a chorar, ele me deitou, e me deixou descansar. Ele me levantou, me levou de novo para mais longe e começou a repetir suas palavras; eu comecei a repetir tudo. Disso ele disse: “aprender isso e não esquecer”, daí ele disse outras palavras, e me deu a carta na mão.

“Mostrar lá onde deve chegar a carta”. “Eu gostaria de me tornar um cavaleiro assim como foi meu pai.” Isso ele me repetia toda hora, até que eu pudesse repeti-las claramente. Eu chorei, ele me deitou e eu dormi de cansaço. Quando eu acordei de novo, ele me deu água de novo, eu bebi, o que estava muito bom, depois ele me levantou, me levou para mais longe, daí ele disse de novo as palavras de sempre, e ao mesmo tempo me deu a carta na mão, e quando vier um guarda, então você deve fazer assim. A partir do momento de onde ele havia me trocado de roupa, ele me deitou de novo no chão com certeza por mais duas vezes, para me deixar descansar, dizendo sempre as mesmas palavras, para com certeza não esquecer nenhuma.

Quando o homem me deixou de pé e me deu a carta na mão, ele disse as palavras mais uma vez, e daí me abandonou. A PRIMEIRA APARIÇÃO DE HAUSER EM NUREMBERG. DESCRITA POR ELE MESMO. Eu fiquei de pé no mesmo lugar onde o homem me deixou, até que esse outro homem pegou minha carta e me levou até a casa do senhor capitão. Quando eu cheguei na casa, eu tive por causa de uma forte voz que eu escutei lá, dores muito vivas dentro da cabeça.

O empregado doméstico me sentou em uma cadeira e tentou me interrogar, mas eu não podia responder com outras palavras além daquelas que eu tinha aprendido e que eu empregava indiferentemente para mostrar cansaço e dor. Ele me trouxe um prato com carne e um copo com cerveja. O brilho do prato e a cor da cerveja me fizeram chorar, mas só o cheiro me provocou dor. Eu recusei tudo, ele quis me forçar e eu continuei recusando; então ele me trouxe água e um pedacinho de pão, o que eu reconheci imediatamente e peguei com as mãos, comi e bebi. A água estava tão boa e fresca que eu esvaziei três ou quatro copos e me senti bem reconfortado.

Depois ele me deitou no estábulo e eu dormi logo em seguida. Quando o senhor capitão entrou na casa, me acordaram, eu vi seu uniforme e seu sabre, eu me espantei e fiquei alegre e quis que eles tivessem que me dar uma coisa assim tão brilhante e bela. Eu disse: “Eu gostaria de me tornar um cavaleiro assim como foi meu pai”, pelo o que eu queria dar a entender que eles deviam me dar aquela coisa assim brilhante e bela. Ele começou a falar e tão alto que aquilo me doeu no corpo todo, eu comecei a chorar e disse essas mesmas palavras, então eles me levaram até a polícia e esse foi o meu caminho mais doloroso. Quando eu cheguei, havia lá muitíssimos homens, e eu me espantei e não sabia o que aquilo poderia ser, daquele jeito, eles falavam o tempo todo e muito alto, aí eles me deram um tabaco de cheirar, que eu tive que introduzir no nariz, aquilo me fez muito mal e eu comecei a chorar, porque eu tive terríveis dores na cabeça.

Eles me atormentaram de novo com todo tipo de coisa, que me causavam dores terríveis e eu continuava a chorar. Quando eu já estava há um certo tempo na polícia, um falou de novo tão alto que eu senti mais dor ainda. O mesmo me levou acima de uma elevação ainda maior, era a escada, ele abriu a porta, que fez um barulho estranho e foi só lá que eu pude descansar. Mas eu chorei ainda mais um pouco até que eu dormisse, porque tudo me machucava, mas enfim eu dormi assim mesmo. Quando eu acordei, eu escutei alguma coisa que me espantou tanto e que eu escutava com tanta atenção, porque no meu estado anterior eu nunca tinha escutado algo assim.

Essa atenção, eu não consigo de jeito nenhum descrever. Eu escutava por muito tempo, mas pouco a pouco eu não escutava mais nada e a atenção se perdeu, eu senti dores nos pés. Eu percebi que eu não sentia mais dores nos olhos e por que eu não sentia mais? Porque não era mais de dia, isso que para os meus olhos era o maior alívio. Mas além disso eu sentia dores no corpo todo, particularmente nos pés.

Eu me sentei, eu queria pegar minha água para aliviar a sede, que eu sentia; eu não vi mais a água e o pão no lugar eu vi o chão, que tinha uma aparência diferente do meu abrigo antigo. Eu queria olhar ao redor de mim para achar meus cavalos e brincar com eles, mas não tinha mais, sobre o que eu disse: “eu também queria me tornar um cavaleiro, como foi pai” pelo o que eu queria dizer: para onde foram os cavalos a água e o pão. Foi aí que eu percebi o saco de palha, no qual eu estava sentado, que eu observava com bastante surpresa e não sabia o que isso podia ser. Quando eu os observei bastante, eu toquei embaixo com o dedo, eu percebi o mesmo barulho que aquele da palha que eu tinha no meu abrigo antigo, na qual eu tinha o costume de ficar sempre sentado e também de dormir. Eu também vi várias outras coisas que me surpreenderam e que não dá para se descrever.

Eu disse: “eu também quero me tornar um cavaleiro como meu pai foi”, pelo o que eu queria dizer: o que é isso aqui e para onde foram os cavalos? Eu escutei o relógio soar de novo; eu escutava por muito tempo; quando eu não escutei mais nada, eu vi o forno, que era da cor verde e emitia um brilho. A isso eu também disse as palavras de sempre, que o homem me havia ensinado, com o que eu queria dizer: que ele venha me dar uma coisa assim tão bela e brilhante; eu disse isso várias vezes, mas não recebi nada. Eu o olhava por bastante tempo; eu disse mais uma vez as mesmas palavras, pelo o que eu queria dizer ao forno: por que meus cavalos continuam a não aparecer nunca? Eu tinha a opinião de que os cavalos tinham ido embora.

Eu também tive o pensamento de que quando os cavalos voltassem eu diria: que eles não deviam mais ir embora, eu queria também dizer isto: eles não deviam deixar o pão ir embora também, senão vocês não terão nada. Falando muito assim eu fiquei com muita sede e como eu não via mais a água, eu me deitei e dormi. Quando eu acordei, eu senti aquelas mesmas dores nos olhos, daquelas que eu senti no caminho da cidade, pois quando eu acordei, era dia, e porque a claridade do dia me dava muita dor. Eu comecei a chorar e disse: “eu quero me tornar um cavaleiro como pai é. Mostre aí onde endereço carta”, pelo o que eu queria dizer: por que isso me dói tanto os olhos?

Tirem isso que me causa tanta dor nos olhos, me deem agora mesmo os cavalos e parem de me atormentar, eu escutei a mesma coisa que eu tinha escutado da primeira vez mas eu ainda achei mesmo assim que era outra coisa porque eu escutava mais alto; não era portanto mais a mesma coisa, mas no momento em que ele soava a hora, tocavam os sinos. Esses eu ouvia por muito tempo, mas pouco a pouco eu escutava cada vez menos e como minha atenção tinha acabado, eu disse essas palavras: “mostrar onde endereço carta”, pelo o que eu queria dizer que eles deveriam me dar uma coisa assim tão bonita e parar de sempre me atormentar assim. Eu fiquei deitado por um longo tempo; o homem não me levantou mais, eu me sento, eu percebi que estava no mesmo lugar; aí eu pensei o seguinte logo em seguida: que eu não sentia mais as dores nos olhos e eu escutava também a mesma coisa. Enfim eu me levantei; eu me chateei imediatamente; pois meus pés estavam doendo terrivelmente. Eu voltei a chorar e disse as palavras aprendidas; pelo o que eu queria dizer: por que então os cavalos continuam não vindo e ainda me deixam sofrer assim?

Eu chorei por muito tempo e o homem não aparecia mais. Eu dizia as palavras, eu queria dizer: por que então agora eu não devo mais aprender a andar. Eu escutei soar o relógio, aquilo me trás metade das dores, sobre o que o pensamento que em breve os cavalos voltariam me consolou. E durante esse tempo, quando eu escutava, um homem se aproximou de mim e me perguntou todo tipo de coisas, eu talvez não lhe dava respostas porque minha atenção estava dirigida naquilo que eu escutava. Ele me pegou pelo queixo, me levantou o rosto, com o que eu senti uma dor terrível nos olhos por causa da claridade do dia.

Sobre o homem eu vou falar agora, ele estava fechado comigo, sobre o que eu não sabia, que eu estava trancado. Ele começou a falar, eu escutava por bastante tempo, e escutava sempre outras palavras, então eu disse as minhas aprendidas: “mostre aí onde endereço carta” – “que quero me tornar um cavaleiro, como pai é”, pelo o que eu queria dizer: que então era isso que me fez doer os olhos quando você me levantou a cabeça. Mas ele não me entendeu, o que eu tinha dito, com certeza ele entendeu o que as palavras queriam dizer, mas não aquilo que eu quis. Ele largou minha cabeça, se sentou ao meu lado e continuou me questionando; apesar disso o relógio começou a soar; eu levei minha atenção para o que eu escutava naquele instante e eu devia ouvir o homem por muito tempo; ele me pegou pelo queixo, virou minha face para ele, e deve ter me perguntado o que eu escutei assim, mas eu não entendia, o que ele disse; eu lhe disse: “eu quero me tornar uma cavaleiro” etc. pelo o que eu queria dizer que ele devia me dar uma coisa tão bonita, mas ele não me entendeu, aquilo que eu queria, ele continuava sempre a falar; eu comecei a chorar e disse: “cavalo casa”, pelo o que eu queria dizer, que ele não devia continuar me atormentando com palavras, tudo me machucava. Eu chorei por muito tempo; eu sentia grandes dores nos olhos, a ponto de não poder chorar mais.

Eu fiquei sentado sozinho por muito tempo. Então eu escutei outra coisa, que eu escutava com tanta atenção que eu nem posso dizer. O que eu escutava era o trompete imperial, mas eu não o escutei por muito tempo, e quando eu não escutei mais nada, eu disse: “cavalo casa”, que deviam também me dar algo tão bonito. Então o homem veio até mim e disse várias vezes bem lentamente as suas palavras, eu repetia depois dele; ele disse: “você não sabe o que é isso?”, que lhe disse mais vezes essas palavras, pelo o que eu queria dizer: que eles deviam me dar bem rápido os cavalos e não querer mais me atormentar assim. O homem tomou nessa hora a caneca de água que estava debaixo de mim, mas eu estendi meu braço até ele e disse: “cavalo casa”.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.