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Capítulo 3 de 24
A Autobiografia de Kaspar Hauser — parte 1 de 3
A Interdependência dos Seres · Luiz Guilherme Marques, pelo espírito Montaigne
INTRODUÇÃO (Baseamo-nos no texto postado por Elton P., através do e-mail eltonpin@gmail.com, o qual segue abaixo. Solicitamos aos prezados leitores que não se preocupem com as incorreções gramaticais, porque o personagem nunca chegou a aprender a falar e escrever corretamente, devido à atrofia irreversível de determinados centros cerebrais, decorrente do longo período de insulamento que viveu.)
Segue abaixo a versão integral da autobiografia de Kaspar Hauser. O texto continua à espera de uma edição brasileira, embora seja fonte de interesse imediato de estudos multidisciplinares nas ciências humanas. Fato curioso é o uso corrente (inclusive acadêmico) do filme O Enigma de Kaspar Hauser de W. Herzog como base de análise do caso. Como tal, negligencia-se as diferenças fundamentais entre o relato do próprio Hauser e a visão pretendida do diretor: o projeto de tabula rasa mostra-se absolutamente refutável. Trata-se da segunda versão da autobiografia de Kaspar Hauser, feita em 1829, com a tradução feita do livro em francês (e não do original alemão). Os desajustes sintáticos e demais erros foram mantidos (tentativa de) de acordo com a versão Kaspar Hauser: écrits de et sur Kaspar Hauser da editora Christian Bourgois. Um exemplo de como busquei evitar o tom formal que uma tradução rigorosa imporia ao texto em português, certo ou errado, foi a opção pelo não uso das ênclises, por diversas vezes.
Na medida em que a pressa é inimiga da tradução, e a despeito do esforço empreendido, o cuidado nas passagens das estruturas das frases afasta-se do desejável - de tal forma que aceito de bom grado sugestões fundamentadas de melhorias. SOBRE A VIDA DE KASPAR HAUSER – ESCRITO POR ELE MESMO Em fevereiro de 1829, foi produzido uma nova versão da autobiografia de Kaspar Hauser, que Stanhope publica em seus Materiais (1835). “Comunicado ao barão Stanhope pelo Senhor presidente von Feuerbach. Em fidelidade à autobiografia”. As Notificações de Daumer (1831) reproduzem igualmente o texto, precedido do comentário preliminar: “De um terceiro ensaio (de uma autobiografia, K.H.), de fevereiro de 1829, na qual vemos uma maneira de escrever já um tanto mais culta, porém ainda muito natural e ingênua, o que segue é um fragmento” As divergências entre as duas restituições são desconsideráveis.
A prisão, onde eu vivi até a minha libertação, tinha um pouco mais de seis a sete pés de comprimento, quatro de largura e cinco de altura. O chão me parecia de terra batida, do lado atrás duas janelinhas eram cobertas com madeira, que pareciam totalmente pretas. Sobre o chão ficava a palha, onde eu costumava ficar sentado e dormir. Minhas pernas ficavam cobertas a partir dos joelhos com um cobertor. Sobre o lado esquerdo do meu abrigo tinha um buraco no chão, onde havia um pote; havia também uma tampa em cima dele, que eu tinha de tirar, e que eu sempre tampava de novo.
As roupas que eu vestia na prisão eram uma camisa, uma calça curta, sendo que nelas faltavam a parte de trás, para que eu pudesse fazer minhas necessidades, já que eu não podia tirar as calças. Os suspensórios eu tinha por cima da pele. A camisa ficava por cima. Minha comida não era nada além de água e pão; da água eu sentia falta de vez em quando; pão tinha sempre bastante; eu comia um pouco de pão, porque eu não tinha movimentos, eu não podia andar, e nem sabia que podia me levantar, porque ninguém tinha me ensinado a andar; nunca me veio a ideia de querer me levantar. Eu tinha dois cavalos de madeira e um cachorro, com eles eu sempre me ocupava; eu tinha fitas de cor vermelha e azul, com as quais eu enfeitava os cavalos e o cachorro, mas de vez em quando eles caíam, porque eu não podia amarrá-los.
Quando eu acordava, o pedaço de pão estava do meu lado, e uma canequinha de água. Primeiro eu bebia água para diminuir a sede, depois comia pão, depois eu pegava os cavalos, tirava todas as fitas, e enfeitava de novo, e continuava assim mais um pouco. Depois eu comia pão, eu queria beber também, mas não tinha mais lá dentro, então eu pegava o cachorro, e queria enfeitar ele, como os cavalos, mas eu não conseguia fazer até o fim, porque minha boca ficava seca demais, eu pegava várias vezes a canequinha na mão e ficava com ela um tempão na boca, mas a água nunca que saía, eu abaixava ela sempre, esperando um pouco, se uma água não vinha de repente, porque eu não sabia que a água e o pão eram trazidos para mim; eu não tinha a menor ideia que lá fora de mim poderia ter mais alguém – Eu nunca vi um humano, nem nunca escutei um deles; quando eu esperava um pouco e nenhuma água aparecia, aí eu me deitava de costas e dormia.
Eu acordava de novo, meu primeiro gesto era de procurar pela água, e cada vez que eu acordava tinha água na canequinha, e um pão aparecia também. A água quase sempre eu bebia ela inteira, aí eu me sentia muito bem, eu pegava os cavalos e refazia exatamente de novo como eu já contei.
Geralmente eu achava a água boa de verdade, mas de vez em quando ela não era tão boa, e quando eu bebia, eu perdia todo o ânimo, não comia mais, e não brincava mais, mas adormecia. Quando eu acordava, fazia cada vez mais claridade que antes; eu nunca tinha visto uma claridade do dia como aquela presente. Até que pela primeira vez o homem entrou na minha casa, ele colocou uma cadeira bem baixa na minha frente, um pedaço de papel e um lápis em cima, depois ele pegou minha mão, me deu o lápis na mão, me fechou os dedos e me mostrou como escrever alguma coisa. Ele fez isso várias vezes, até que eu pudesse imitar aquilo. Ele me mostrou de sete a oito vezes; aquilo me dava bastante prazer porque aparecia preto e branco; ele deixava minha mão solta, me deixava escrever sozinho, eu continuava a escrever, e fazia exatamente como ele tinha me mostrado, e repetia aquilo mais vezes.
Quando o homem soltava a minha mão eu não sossegava de jeito nenhum e continuava a escrever, não me vinha nenhuma ideia do porquê minha mão perdia a firmeza. Durante esse tempo, o homem ficava atrás de mim observando se eu podia imitá-lo ou não; eu não escutava a saída, nem a chegada dele. Eu ficava escrevendo assim por um tempo e via logo depois que as minhas letras não pareciam com aquelas feitas; mas eu não parava até que elas ficassem parecidas. Aí eu queria beber de novo, porque com a concentração eu não reparava na sede; comia um pouco de pão, pegava os cavalos, enfeitava eles como eu contei ali em cima. Mas eu não podia mais enfeitá-los tão facilmente como antes, porque a cadeira me impedia, que estava colocada na frente e por cima das minhas pernas, e me causava bem mais esforço, porque os cavalos estavam do lado, e eu não tinha tanta compreensão, para que pudesse levantar a cadeira ou colocar os cavalos na cadeira.
Aí eu ficava com bem mais sede, e não tinha mais água, daí eu dormia. Logo que eu acordava a cadeira estava colocada de novo em cima das pernas; meu primeiro gesto continuava sendo o de pegar a água; depois eu comia pão, depois eu escrevia um pouco, pegava os cavalos e o cachorro, quando eu terminava eu bebia o resto da minha água, comia um pouco de pão. Eu repetia isso. Se eu acordava com o dia, eu não posso afirmar isso, porque eu não tinha noção de dia e de noite. Eu não consigo dizer também quanto tempo eu dormia, de acordo com a minha estimativa atual bastante tempo, minha brincadeira durava bastante, o tanto que eu posso julgar atualmente, quatro horas ou mais.
Quando o homem me pegava para escrever, ele não dizia nem uma palavra, mas pegava a minha mão e mostrava como escrever; quando ele pegava a minha mão eu não tinha a ideia de virar a cabeça para ver o homem; isso porque eu não sabia que existia uma figura assim como eu sou uma. O homem veio pela segunda vez, carrega um pequeno livro, coloca ele aberto na minha frente em cima da cadeira, pegou minha mão e começou a falar, ele apontou para os cavalos e disse suavemente: cavalo, várias vezes; até que eu entendesse aquilo eu escutava muitas vezes, eu escutava sempre a mesma coisa; aí me veio a ideia que eu devia fazer também daquele jeito, eu disse também as mesmas palavras, pegou uma fita da mão esquerda e disse mais uma vez cavalo, porque eu não podia pegar com a mão direita, que o homem agarrava; então ele disse várias vezes “segurar isso” e colocou minha mão sobre o livrinho e de repente depois disso no cavalo e balançou ele de um lado pro outro.
Isso me deu muito prazer, ele disse fazendo: repetir desse jeito, aí você ganha um cavalo bonito assim do pai. Essas palavras ele repetiu várias vezes, eu não repetia e as escutava por muito tempo, e como escutava sempre as mesmas palavras, comecei a repetir; ele disse talvez sete ou oito vezes, então eu pude repetir com um pouco mais de clareza, como eu podia repetir com mais clareza, ele apontou mais uma vez para os cavalos, balançou novamente de lá para cá e disse: “aprender isso”, “pronunciar o cavalo, aí você vai ter o direito de fazer assim também”. Nesse momento minha mão estava livre e o livrinho estava parado em cima da cadeira; eu olhava sempre para o livrinho porque ele me dava bastante prazer porque tinha exatamente a aparência do meu papel que eu tinha escrito; eu disse para ele várias vezes por conta própria, eu acabei de beber meu pouco de água, comi um pouco de pão, embalei em seguida os cavalos primeiro bem lentamente e sem barulho, como o homem tinha me mostrado; disse também as palavras aos cavalos; fazendo isso eu fiquei com muita sede, cansado e sonolento e quando eu não tinha mais água eu me deitei no chão e dormi.
Quando eu acordei o meu livrinho continuava sobre a cadeira. Eu não vi ele antes de ter bebido água; aí eu escrevi, enfeitei os cavalos e o cachorro, em seguida eu passei a mão pelo livrinho, e eu disse as palavras que o homem havia me ensinado, e apontava ao mesmo tempo para os cavalos, e disse também estas palavras “aprender isso, receber seu cavalo bonito do pai” aí eu apontava as páginas do livrinho e repetia mais uma vez as palavras, depois do que eu passei de uma a outra, sentia de novo sede, acabei de beber minha água, comi um pouco de pão, disse essas palavras mais algumas vezes, e comecei a embalar (os cavalos) pra cá e pra lá; mas balançava tão forte, que aquilo machucou a mim mesmo. Aí o homem veio com um bastão, me bateu no braço, isso que me machucou muito e eu chorava; eu fiquei daí bem quieto e não balancei mais os cavalos. Quando eu chorava muito, queria beber água, eu não tinha mais água, comi um pouco do pão e dormi.
Quando eu acordei eu sentei e bebi minha água, depois coloquei bem calmamente as fitas nos cavalos, como o homem tinha me mostrado, e disse as palavras aprendidas aos cavalos, escrevi de novo, depois do que pronunciei também essas mesmas palavras ao livro, peguei a canequinha, acabei de beber meu resto de água, eu brinquei ainda mais um pouco, fiquei bem cansado e sonolento e dormi.
Eu devo ter ainda acordado várias vezes, talvez mais quatro ou cinco vezes, até que o homem me carregou. Na noite em que o homem veio me buscar eu dormia muito bem, acordei e já estava vestido, menos com as botas, ele me calçou, me colocou um chapéu, me ergueu e me apoiou na parede, pegou meus dois braços e os colocou ao redor do seu pescoço. Quando ele me carregou para fora da prisão ele teve de se abaixar, e precisou subir uma colina, talvez fosse uma escada, depois veio um pouco de caminhada, eu já sentia grandes dores e comecei a chorar; aí veio uma montanha grande, quando eu chegava ao fim de um caminho mais alto o homem disse: você deve parar de chorar agora mesmo, ou não vai ganhar o cavalo. Eu obedeci ele, ele me carregou por mais um tanto, eu dormi. Como eu acordei, eu estava deitado no chão, com a cara virada para a terra.
Eu mexi a cabeça, talvez o homem viu que eu estava acordado, me pegou, me colocou debaixo dos braços e começou a me ensinar a andar. E como eu devia começar a andar, ele colocou meus pés em cima dos dele para me fazer saber como eu deveria fazer. Eu tive que avançar com alguns passos, aí eu comecei a chorar, eu já sentia uma dor muito forte nos pés, ele disse “você tem que parar de chorar agora mesmo, senão não vai ganhar o cavalo” eu disse “cavalo”, querendo dizer com isso que eu queria voltar bem rápido para minha casa e para os meus cavalos, o homem me disse: “você tem que aprender bem a maneira de andar, você deve se tornar um cavaleiro assim como foi seu pai”. Ele me atormentou de novo com a maneira de andar, eu comecei a chorar porque meus pés doíam muito. Ele disse de novo as palavras: “você tem que parar de chorar agora mesmo, senão etc.” Antes quando ele dizia essas palavras, eu parava sempre bem rápido de chorar; mas dessa vez, porque meus pés doíam demais; aí ele me deitou no chão com o rosto virado para baixo, e eu tive que ficar deitado um pouco até dormir.
Como eu acordei de novo, ele me levantou e disse: eu deveria aprender a andar direito, daí você vai ganhar um cavalo bem bonito, ele me treinou de novo do mesmo jeito da primeira vez. Depois que o homem começava a me falar durante o caminho, ele me colocou várias vezes no chão, porque eu ficava cansado sempre bem rápido. Daí ele começou a dizer: “Eu gostaria de me tornar um cavaleiro assim como foi meu pai”. Essas palavras ele me repetia muitas vezes: até que eu pudesse repetir a mesma coisa bem claramente. Eu comecei a chorar, porque os pés e a cabeça, mas em especial os olhos, me doíam terrivelmente, eu disse: “cavalo”, pelo que eu queria indicar que deviam me levar até em casa com os meus cavalos.
O homem entendeu o que eu queria dizer e disse: “logo logo você vai ganhar um cavalo bonito do pai”; eu comecei a chorar, ele me largou, eu continuei a chorar ainda mais; ele disse: você tem que parar de chorar agora mesmo, senão não vai ganhar cavalo bonito, ele me passou alguma coisa de doce na cara, e eu parei de chorar, e dormi. Quando eu acordei de novo, ele me levantou, me treinou, e eu ainda não podia mover os pés sozinho. Quando ele tinha andado uns vinte passos ou mais, eu comecei a chorar de novo, e disse: “eu gostaria de me tornar um cavaleiro assim como foi meu pai”. Aí o homem disse: “se você não parar de chorar, não vai ganhar cavalo”. Então eu parei por um tempo, porque eu me disse que agora eu voltaria para casa e os cavalos, eu acho que isso não durou nem seis passos e eu voltei a chorar de novo; ele me deitou e cada vez que ele me deixava descansar eu dormia de cansaço.
Eu acordei, ele me levantou e me treinou, ele dizia as palavras: “eu gostaria de me tornar um cavaleiro assim como foi meu pai”, de novo várias vezes. Nós andamos talvez sete a oito passos e começou a chover, eu fiquei molhado, comecei a sentir um frio bem forte; eu chorava; porque sentia cada vez mais sofrimento; ele me deitou no chão com as roupas molhadas, eu sentia muito frio, não podia dormir, eu chorei mais um pouco, depois ele passou mais uma vez alguma coisa de doce na cara, e eu dormi sentindo um sofrimento enorme. Assim que acordei de novo, as maiores dores já haviam passado, ele me levantou, me treinou, eu já tinha bastante noção da maneira de andar para poder levantar e abaixar os pés por conta própria. Então o homem disse que eu só precisava me lembrar do jeito de andar “aí você ganha um cavalo bem bonito do seu pai”, e disse assim essas palavras: “você deve também ficar olhando pro chão”, e me inclinava sempre a cabeça pro chão e dizia “se você puder realmente fazer bem assim, aí você ganha o cavalo”. Mesmo sem dizer isso eu nunca olhava para frente, porque os meus olhos me davam muita dor, ele não tinha a necessidade nenhuma de dizer aquilo, mas eu olhava cada vez mais pro chão.
Eu comecei a chorar, ele me deitou de novo de bruços, eu continuava a chorar mais ainda; ele me passou alguma coisa doce na cara, eu parei de chorar, e dormi. Quando eu acordei de novo, eu disse “cavalo”, ele me levantou e me treinou, eu disse mais uma vez essas palavras que acabei de dizer, ele devia me levar para casa com os meus cavalos e não me fazer mais mal. Eu fiz talvez trinta passos, até começar a chorar, eu tinha cada vez mais e mais dores pelo corpo, especialmente nos olhos, na cabeça e nos pés, então o homem disse suas palavras de sempre. Aí eu parava antes de mais nada porque sentia muita saudade dos meus cavalos. Ele me conduziu de novo mais um pedaço de caminho, eu já voltei a chorar e disse as minhas palavras.
Sobre o que o homem disse “agora você está quase chegando em casa, pros seus cavalos” eu disse também essas mesmas palavras, ele me deitou e eu dormi. Acordando eu disse “cavalo casa”, pelo que eu queria dizer: meus pés estão doendo demais, queria me levar para casa e pros meus cavalos, e pare de me fazer mal. Sobre o que ele me deitou no chão e disse estas palavras: “agora você já vai ganhar cavalo, mas você tem que parar de chorar”, com isso eu dormi. Eu acordei, ele me levantou e me treinou e eu disse “eu cavalo casa”, eu queria dizer que eu não podia mais fazer aquilo com os meus pés, mas ele me treinou mesmo assim com suas ameaças de sempre. Ele me levou ainda para mais longe, eu sofria cada vez mais.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.