[user_registration_my_account]
Capítulo 7 de 11
D E U S — parte 6 de 10
Reencontro no Céu · Osvaldo Polidoro
em geral era de perturbação pessoal. Todavia, espiritualmente falando, Edgard estava em boas condições. Havia luminosidade em seu redor, sendo que sua mente expedia emissões invocativas ao Cristo. Nestes momentos, chegava a refulgir em luz azulina, suave e deliciosamente consoladora. Quando pela meia noite Edgard quis dormir, todos se foram retirando, só ficando um senhor, que revezou com aquela mulher já citada. Depois de minutos, quando principiava o espírito a sair, branda e levemente, um dos nossos se lhe apresentou, dizendo-lhe amavelmente: – Edgard, vamos dar um giro por belos lugares? – Sinto tanto desejo de paz... Preciso de paz... – rogou Edgard, franzindose todo, mais por vício mental do que mesmo por carecê-la. E o mentor deu-lhe o braço. Edgard foi saindo, passando por entre gente amiga e iluminada, sem dar conta disso, pois seu princípio mental não informava coisa sobre a presente desencarnação. E depois de um gesto daquele que o conduzia, todos partimos, ficando no local alguns trabalhadores. Os encarnados teriam de enterrar mais um corpo. Ali não haveria retorno anímico, volta ao corpo, nem que todas as adrenalinas fossem aplicadas. O fio havia sido cortado e os méritos não depunham senão pela liberação. A falange estacou num plano de vida onde o amigo recém-desencarnado pudesse ficar à vontade, sem constrangimento, por equilíbrio vibratório. Mais tarde, naturalmente, deixaria tal região em demanda à que lhe coubesse por direito. E no momento de deixá-lo, disse-lhe o mentor: – Edgard, você está num lugar daquilo a que chamam céu, lá na Terra. Pense nisso com fé e amor para que, depois de um regular sono, desperte e com disposição para um grande dia de reencontros amigáveis e dóceis. – Eu morri?!... – falou ele, muito admirado, endireitando-se muito. – Morreu... – respondeu o mentor, encolhendo os ombros e sorrindo, como quem diz que não faz diferença. O amigo fez um gesto singular. Agachando-se, apalpou o chão, talvez para sentir a intensidade do contato. Depois apalpou o nobre mentor. Depois, passou a ver e a analisar tudo, notando em cada rosto uma amizade sincera e acolhedora. E falou, reverentemente: – Nas mãos de Deus tudo se acha. Agradeço-O do mais íntimo de mim, estendendo meus agradecimentos a todos os presentes, tão bons foram em me recolher. – Nós não o recolhemos para aqui... Foram suas obras durante a vida...
– Minha fé em Deus e no Divino Mestre, amigos, é que me valeu – entrecortou Edgard, enquanto passava as mãos pelo corpo, coberto por um roupão, tudo, porém, duplicata de corpos mais sólidos deixados bem longe. – Só a fé – disse o mentor – pouco ou nada faria. Muita gente responde, nos planos de treva, também pela fé que teve e não soube por a produzir. A própria fé é um compromisso, sendo bem superficial julgá-la um valor indiscutível, total. – Então, quem salva mais? Não é a fé? – replicou o recém morto. – Quem se converte em paz é o AMOR, e quem faz a autoridade é o SABER; de resto, amigo, noventa e nove por cento dos que estão em tredos sítios, todos possuem suas formas de fé. Poderão discutir as vantagens de umas sobre outras; mas, em verdade, só o que é essencial é quem liberta: é o AMOR; quem se brutalizar, bruto se terá; quem se sublimar, sublime se terá; quem se animalizar, animalizado sentir-se-á. Pela educação do eu, assim o eu ter-se-á. Felizes, pois, daqueles que tudo de si dão, para engrandecerem-se espiritualmente, concorrendo com isso para a divinização dos circunstantes – explicou o mentor. – E que devo fazer agora? Como agradecer, então? Se o que sou devo a mim mesmo, sobre tudo religiosamente, como ou por que meio agradecer? Os circunstantes avizinharam-se mais, pois era notória a vontade de saber do bom velhote, sendo mais interessante, para mim, a questão em si, isto é, o mérito da asserção. E o mentor disse, respondendo: – Tudo o que sei e faço, em matéria de fé, para com Deus, é de modo fundamental. Sou o que sou, por Deus; e a Ele agradeço, sentindo isso. Vivo esse estado. E com relação aos poderes inerentes, às virtudes intrínsecas, e a tudo quanto se julgue natureza, condição, modos e meios, sabendo e sentindo que Dele deriva, de modo bom procuro ocupar tudo, para que a ação de graças seja viva e contínua. Outro modo de adoração, meu amigo, para mim seria idolatrismo, pieguismo nauseante e coisa que, nem Deus nem qualquer de Seus Delegados, poderiam recomendar. O sentido material e mentalmente idólatra ou supersticioso da fé deve acabar. Longe vão aqueles dias de adoração estúpida, quando tudo tinha caráter de artificialismo, de resgate por suborno, de aplacação de iras, de conquista de direitos por taxa paga para com um clero qualquer. O Cristo veio a nós para ensinar o sentido inalienável do AMOR, como força propulsora para a paz, e o poder natural do SABER, como determinante da condição de autoridade. De qualquer modo, porém, o cumprimento do DEVER, como sendo a melhor religião por praticar. O homem aceitou, em parte, mas ainda disse:
– Eu pensava que os hinos cantados e as pregações feitas ou ouvidas, valessem muito como atos de fé. – E quem disse que não? – observou o mentor – Tudo é relativo, tudo faz a sua parte, todos os fatores são nobres e concorrem para o bem geral. No entanto, amigo, mais quer Deus que tratem bem ao próximo, do que cantemos mil hinos ou preguemos bem o Evangelho, teoricamente. Os atos ditos religiosos, muitas vezes, não o são, por falta de correspondência prática; e os tidos como atos materiais, banais, comezinhos, na vida diuturna de relações, esses vêm a pesar na balança da estabilidade espiritual, de maneira sólida e decisiva. – Muito bem... – acrescentou o velhote – Isso tudo é bem racional e realístico. Todo caso, dei muito valor aos atos de fé... – E estes se transformaram em valores estimulativos. Povoaram sua mente com belas imagens do céu, do amor de Deus, dos perigos infernais, etc. O que carece ser feito é acabar com o tanto de ranço que medra nos religiosismos do mundo à custa do que vivem elementos perniciosos, agentes da corrupção e do atraso, inimigos da evolução, tais como os clericalistas de qualquer jaez. Enquanto no mundo existir quem viva da religião, quem preze um título institucional nobiliárquico, quem queira por tais subterfúgios aparentar superioridade, reclamar direitos que são negados aos homens mais dignos, enquanto isso perdurar no mundo, haverá uma falange marchando depressa, continuamente, para os abismos de dor e para as reencarnações dolorosas. – Edgard! Edgard! – disse alguém, bem alto, à porta do estabelecimento onde ficaria o velhote, por uns dias, até recuperar-se em certo sentido. O mentor responsável entregou-o, prometendo voltar dentro de três dias. Todos nos despedimos do bom velho, que transpirava sentimento evangélico por todos os poros.
Três dias depois Três dias depois, quase todos fomos de novo ao local, para transportar Edgard ao plano onde estava sua Dalva, ela que disso conhecimento não tinha, ainda. E o velhote parecia outro, tão vivaz estava, tão refeito. Transbordava de alegria. E ao nos ver, tão ligeiro quanto possível lhe fora, veio vindo ao nosso encontro, os braços abertos, derramando lágrimas, como se fosse uma criança. O mentor de cima designado, abraçou-o primeiramente, tendo cada um de nós, em seguida, merecido dele uma palavra de fraternal carinho. Agradecimentos nunca os aceitamos, não podemos fazê-lo, é difícil atender a um qualquer, por razões que nem sei explicar, mas que sei sentir, parece que jamais se tem direito que justifique isso. Sentimo-nos devedores sempre e credores nunca. Talvez seja um modo de se infiltrar por nós, um grãozinho do Supremo Amor, infundindo-nos o desejo de ser útil, sem dúvida, o mais sublime de quantos possam haver. Depois de prestar os devidos esclarecimentos ao dirigente do estabelecimento, convidou-nos o mentor a partir. E rumo a melhores penates fomos todos. O velhote teve tempo para sentir o transpor de linhas divisórias eletromagnéticas, e acima de tudo morais, porque foi isso feito propositalmente. As diferentes gamas vibratórias que circundam os mundos, o são por força da lei superior, é natural, e filtram-se, de cima para baixo, por assim dizer, por enfraquecimento, em face das radiações grosseiras dos mundos sólidos, e, de baixo para cima, em aumento, pelo enfraquecimento das mesmas radiações grosseiras do planeta. Assim, quem divide as ordens de céus, por assim dizer, é a emissão das radiações planetárias, onde os princípios materiais e mentais, conjuntamente, corroboram para uma espécie de unidade. Longe dos planetas, ainda assim, as zonas refletem os graus dos mesmos, sendo naturalmente determinadoras de padrões hierárquicos. Assim, portanto, afastar-se de um planeta será sempre procurar zonas melhores, não significando isso que por ser zona interestelar, estabeleça padrão universal. Quando venham a cessar as
ordens planetárias, imperarão as dos sistemas, determinando ordens hierárquicas variantes. Embora isto seja muito natural, muito transcendente poderá ser para muitos. O cidadão terrícola ainda pode ficar muito bem, mesmo sem saber isso, pois, a Terra possui céus de indizíveis belezas, muito acima do que possa ser explicado, e, muitíssimo acima de meus merecimentos. Também, muito certo é que, raramente alguém procura com afinco escalar tais cumes. Para tanto faz-se necessário um grande contingente consciencional, elaborado à base de pura espiritualidade, sendo certo que estes informes são recentes, como haver essa consciência da realidade, ela que, por força dialética, ou dos contrários, teria que ser o poder de embalagem? De qualquer forma, para fim seja qual for, um cérebro intelectualizado é um princípio relativamente sólido, um ponto de partida ideal. Isto é o que se procura fazer, depois dos ensinos codificados, ministrados no tempo oportuno. Agora, amigos, a fase é de avançamento neste sentido. E quem contra esta fase se levantar, em seus poderes informativos, nada benéfico para si estará construindo. A rotina nunca será superior à inovação, sempre que se processe no âmbito do espírito profético, que é ou vale pela trilha evolucionista normal. O menos feliz de todos, mesmo no quadro da fé, é aquele que, para atender à rotina oficializada, procure impedir os avanços renovadores. O Evangelho do Cristo é ainda muito obscuro em interpretação humana; e a codificação é síntese, também, que precisa de avançar em profundas análises. Um espiritista, portanto, não pode sê-lo só de sessõezinhas práticas, de passes e água fluídicas; cumpre-lhe, o quanto possa, avançar para conhecimentos mais vastos. Deve, acima de tudo, construir em si, gerar mesmo, uma consciência elevada sobre o sentido unitário da VIDA, isto é, de que Deus é de fato interior em tudo e todos, regendo por leis fundamentais sempre, e nunca por milagrosismos ou misteriosidades. Deve perder esse hábito de pensar em um Deus exterior, criando em si um culto idólatra, antropomórfico e moralmente falhíssimo. Deve compenetrar-se de que em si, por natureza, por determinação divina, estão todos os poderes e todas as leis, cumprindo-lhe desdobrá-las, expô-las, por ser essa a soma de todo e qualquer raciocínio são em matéria de céu por despertar. Deve compreender o espírito, que por estar cada um de seus irmãos em um grau tal ou qual de evolvimento, cumpre-lhe atender para as necessidades mais prementes, que o são à base de educação sadia e construtiva. E que a maneira de ser ele auxiliado por Deus, é na pessoa de outrem, assim como acontece para conosco. Saber, sentir e viver, portanto, segundo a Vontade de Deus, que é em troca perfeita de fraternismo prático, construtivo, excelentemente humanitário. Porque, queiramos ou não, sem humanitarismo
não haverá divinismo à vista! Ninguém espere, portanto, um céu que venha à revelia do bem que devemos ao próximo. Isso seria uma aberração, e, em a Obra Divina, não há disso. O clericalismo que uma pessoa viva no mundo, por isso mesmo, nada lhe poderia garantir de bem, de salvacionista. Tudo repousa sobre as obras, e estas, como é sabido, sobre a solidez do AMOR por elas vazado. A fé só é cooperadora quando o seu contributo for vivido, trabalhoso, sangrento mesmo. Fé à maneira dos grandes vultos que se sacrificaram pelos semelhantes! O mais é fogo fátuo, é presunção.
Reencontro no céu Quando chegamos ao lugar onde estava Dalva, que é onde presentemente habito, com a família Rogério, procuraram os amigos reunirem-se a outros muitos, para então, numa festinha íntima, fazer a surpresa à esposa. No salão de conferências de uma instituição científica é que todos se reuniram. Assim, recebia-se um cidadão do local em viagem de retorno, e preparava-se um reencontro feliz. Interessante é que, Dalva, tendo eu com ela conversado, manifestava grande desejo de rever os seus, principalmente o marido. Dizia ela que, qualquer coisa se devia estar passando, de anormal, pois recebia por choques mentais, de quando em quando, chamados ou coisa condizente. Não sabia explicar a razão, também, porque, pela primeira vez, os chefes achavam conveniente adiar por dias a visita aos seus. Quando, portanto, chegou o dia, outra vez três dias depois, houve uma grande reunião no dito salão. Dalva, como de costume, apreciava tais reuniões. E é fácil de imaginarem a emoção que causa um tal reencontro. Nada lhe parecia, no momento, mais importante que isso. E ainda, sob forte emoção, pediu para endereçar ao Sagrado Eu, íntimo a tudo e todos, um pensamento de agradecimento. E, tendo oportunidade de falar, começou por dizer. “Senhor, Deus! Bem sei que não existem mistérios em Teus domínios infinitos. Sei, Sagrado Fundamento, que És a soberana VERDADE, e que por leis, reges o universo, de dentro para fora. Tudo sabes, meu Pai, antes de mais ninguém. Por isso, Senhor de mim e de tudo, agradeço-Te do profundo de minha capacidade, de sentir. E seja feita, Senhor, sempre e para sempre, a Tua Vontade. A Jesus, o nosso Cristo Planetário, envio meus penhores de gratidão e obediência. Na pauta bendita do Evangelho por Ti transmisso, Senhor, atingimos o objetivo almejado, que significa consciência do estado e paz de espírito.
Síntese de todas as verdades, por Poder Delegado, é em Tua Sabedoria que confiamos, bem assim como no Teu Infinito Amor. Conscientes da Suprema Justiça, Senhor, rogamos nos inspirem Teus sublimados mensageiros, pensamentos dignos, práticas sãs, sentimentos divinizantes. E aos amigos em geral, presentes ou ausentes, superiores em hierarquia ou afins, reafirmo meus protestos de gratidão. Desejo que aqueles que estejam altamente colocados, lhes retribuam por vezes multiplicada a imensa satisfação com que me brindastes hoje. Deus vos abençoe!” Uma salva de palmas eclodiu; finda esta, alguém pediu a Edgard que falasse alguma coisa. O velhote, abalado por tão contínuas emoções, mal pôde dizer: “As coisas, senhores, são muito diferentes do que eu imaginava. Os velhos ensinos são mui empíricos demais... Eu não pensava que fosse deste jeito a vida deste lado... Tão natural, tão cheia de amor, tão nobres amigos a envolvernos com suas dedicações... Quanta coisa há para que os homens da Terra venham a conhecer!... E não sei quanta gente gostaria de saber destas belezas... Acho que matariam o Cristo de novo, se Ele fosse dizer isso no meio da rua, como daquela vez...” Outra vez, muitas palmas cobriam suas últimas palavras. E o bom velhote mantinha-se muito alegre, mas pensativo. Qualquer coisa lhe ia de diferente, na alma devota à VERDADE. Pouco tempo depois, a reunião terminava. Os esposos foram de braços, em sinal de testemunho fiel, sobre ser a morte o prolongamento da vida. Também, para testemunhar que, se nos planos superiores da vida, as coisas forem muito diferentes, isso não acontece nos planos ainda inferiores, onde em tudo há muito de terrenal, embora de maneira relativamente extratefeita. E que, também, ninguém irá de um salto para aquelas regiões, onde o amor ganha sentidos indizíveis e inconcebíveis por nós.
Contraste Que é a VERDADE? Quantos Pilatos precisariam ainda perguntar isso? Quantas vezes, ainda, conviria a um Cristo responder com a voz tonitroante de um profundo silêncio? Quase um mês depois de sua desencarnação, Edgard foi rever os seus descendentes. Fomos com ele e mais alguns amigos, dentre eles Rogério e Lourdes. Dalva jamais seria uma mãe ou avó capaz de furtar-se a uma tão grata visita. No recinto familiar, porém, todo ele educado nos moldes protestantes, ninguém admitiria que os seus mortos ali pudessem estar. Estariam no céu ou no inferno, para uns, ou aguardando o ressurgimento no Juízo Final, para outros. E a visita foi rápida, por vários recintos. Entre outras coisas, ficou combinado que à noite, havendo possibilidade, haveria um encontro entre encarnados e desencarnados. De fato, isso se deu. Mas a tradição doutrinária traia o teor verdadeiro da questão. Como na crucificação do Divino Mestre, a tradição pôde mais. Alguns contaram sonho interessante, onde o papai e a mamãe, o vovô e a vovó estavam juntos e com mais pessoas. Outros, de nada recordavam. Ouviam e pensavam, em Freud. Uma consolação, porém, restava: se em técnica havia falha, moralmente as coisas iam muito bem. Todos perfilhavam o Evangelho, nas obras mais do que nas palavras, apesar de que eram sectários. Os corações se apresentavam ornados belamente, e os cérebros viviam bonitas esperanças. Os exemplos paternos haviam sido bons, e davam frutos dignos de menção. Todo caso, o bom velhote não se apartava de um problema muito sério. Alegre, feliz, mas sempre pensativo. Um dia, tendo-lhe falado nisto, disse-me:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.