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Capítulo 11 de 11
D E U S — parte 10 de 10
Reencontro no Céu · Osvaldo Polidoro
Um homem em apuros Edgard e sua esposa moravam nas vizinhanças da família Rogério. E o seu ponto convergente na Terra, para efeito de trabalhos doutrinários, ficara estabelecido na casa de Urias, o irmão encarnado. Todas às quintas-feiras havia sessão e, com muito gosto, orientavam aqueles que eram trazidos pelos mentores. Edgard, para melhor efeito, preparava-lhes os ânimos, sempre que lhes levava alguém, instruindo-os sobre sua natureza psicológica, estado de estar ou padrão mental. E os presentes, naturalmente, armados de força moral excelente, faziam o melhor pelo semelhante sofredor. Num dos casos, houve a ingerência de um senhor, ainda bem jovem. Pedira ao bondoso mentor que sondasse sobre um seu tio, tresloucado que fora em vida carnal, avesso aos familiares e que, por espontânea vontade, dava-se ao serviço de pedir esmolas. Sua vida fora, disse, ir de porta em porta, a mendigar qualquer coisa pelo amor de Deus. Era, porém, muito mais pobre de espírito do que de bens do mundo. O mentor pediu-lhe, principalmente, informe sobre o local de moradia, ou, pelo menos, onde mais costumava estar. E o rapaz indicou-lhe a residência de um irmão. Para lá, portanto, rumamos uns vinte e tantos trabalhadores, com o fito de iniciar sondagens. De fato, estando na casa uns tantos familiares desencarnados, uns bem e a maioria mal, fomos informados de que ele continuava a vagar, na companhia de um pedinte encarnado. Volvemos, pois, ao recinto de Urias, para dizer que dentro em pouco daríamos uma resposta. Enquanto isso, na agenda do nosso amanuense, ficou inscrito o caso desse irmão, que era Etelvino. Dias depois, com tempo e vagar, fôramos dois em busca do amigo pedinte. Edgard e eu nos dirigimos à residência citada. Dali partimos na companhia de um dos da casa, desencarnado de muito, e pouco desejoso de outros que
fazeres, que não fosse partilhar, ou continuar a partilhar da vida de encarnado, por tirar do meio ambiente, das radiações dos encarnados, do duplo das comidas, etc, elementos para tanto. E fomos localizar o homem, deitado nas escadarias de um templo católico; com ele, estava um preto muito idoso, encarnado, e que devia ser o pedinte citado. Armados de poder, de autorização superior, fomos arrastá-lo dali para a residência do irmão encarnado. Ele, porém, que dormia como dorme qualquer encarnado, havendo acordado, não nos quis acompanhar por bem. E às brutas veio, porque aquele seu parente assim o quis... Nós nada dissemos, porque o relativismo assim dispunha fazer. Estavam enquadrados em plano inferior de lei, e, como tal, nada de superior se lhes devia pedir. Na residência do irmão, depois de muito resmungar, dispôs-se a nos ouvir: – Sabe que já é desencarnado, Etelvino? – E desencarnado também precisa pedir esmolas?!... – Há sempre uma condição idêntica aguardando o homem no pós-morte, melhor ou pior, Etelvino. Há, não se esqueça disso, duplicata para todos os elementos, meios e fins. E essa duplicata, note bem, possui em si capacidade infinita de tons ou nuances. Um morto, portanto, pode vir a achar-se em igualdade de condição muito melhor ou muito pior. Em linhas gerais, porém, achar-se-á sempre, tal e qual como se tenha preparado. – E a Justiça Divina, Deus, que faz?... Dorme?!... – respondeu o homem, dado que era a pensar, de modo vicioso e milagreiro, supersticioso e à base de favoritismos e mistérios. – Deus – disse-lhe o ex-protestante – é VIDA e assim se testemunha, dispondo tudo assim como é, à base de leis justas. Se os clericalismos de todos os tempos inventaram conceitos, e pretendem que estes sejam a própria VERDADE, que tem com isso Deus? Pois sendo o homem dotado do direito sagrado de relativa liberdade, uma vez utilizando-o mal, ou para se escravizar à mediocridade, sobre quem deve pesar com suas queixas e vitupérios? – E que culpa tenho eu de confundirem em torno à VERDADE, lançando conceitos como se fossem a própria VERDADE? – procurou justificar-se o pedinte. – Discutir é perder tempo! Trabalhe por compreender sua situação. Depois, se encontrar erros no plano mental humano, faça por corrigi-los! – disse-lhe eu, um tanto asperamente, por notar-lhe prazer na discussão.
– Ora! Ora!... Quer ver que devo consertar o mundo?!... – replicou ele, pondo as mãos sobre o peito, e fazendo aquele gesto tão comum e conhecido. – Deve, de fato, fazer sua parte! – expliquei. – Nós o auxiliaremos – ofereceu-se Edgard, apiedando-se do homem. – Eu nada prometo! – sentenciou ele, mais por confessar incapacidade do que mesmo por protestar má vontade. – Mas fará sua parte... – reafirmou Edgard – Para tanto, amigo Etelvino, peço que fique nesta casa até quinta-feira, que será depois de amanhã. Não faça o que seja ruim, pois, um espírito desencarnado pode prejudicar muito aos encarnados, com suas radiações maléficas. Lembre-se de que o amor deve caracterizar os cristãos, em suas ações diuturnas. O homenzinho afirmou que sim. Que ficaria nos aguardando, sem falta. E nós fomos tratar de outros e outros casos.
No dia Na noite dos trabalhos, como era de fazer, fomos buscá-lo. E o levamos, por bem, para o recinto de Urias, que crescia de gente a mais não caber. Etelvino, como era de saber, tinha gasto tempo e cerebração no sentido de sondar sua condição de desencarnado. Ao dar entrada no recinto, soube dizer: – Sessão espírita?... Já ouvi muito falar nisso... – Fique com este amigo – disse Edgard, entregando-o a um dos serviçais da casa. – Pois não!... Há tempos que andava buscando ver como isso é. No curso dos trabalhos, onde se salientava a orientação de entidades sofredoras, foi ele, também submisso ao cadinho renovador da comunicação, por onde, à custa do fator mediúnico, das orações e das inteligências para tanto dispostas, conseguimos, muitas vezes, operar belas disposições renovadoras, quer físicas a nosso modo, quer mentais, quer intelectuais, etc. E o homem saiu renovado, pode-se dizer, pelo menos mentalmente. Se a veneranda Altair tivesse vindo, ou se o homem merecesse, outra coisa poderia passar-se, pois, é lei fundamental que cada qual faz ou concorre com o que pode. E ao cabo dos trabalhos, levamo-lo conosco, porque havia qualquer coisa por decifrar, por discernir, por esclarecer, naquele homem. Tínhamos ordem superior nesse sentido. E, por isso, singramos com o homem, rumo a um plano determinado na ordem, onde deveríamos aguardar o restante dos informes e das obrigações por executar. Sobretudo, nesse plano havia aparelhagem completa para o serviço de visão retrospectiva. De minha parte, nisso pus atenção.
Sempre a Lei Não me havia enganado. O homem devia, dentro de dias, ser sujeito ao guante informativo preciso, através daquela aparelhagem toda. No dia aprazado, portanto, fomos em busca dele. Fiz muita questão de estar presente a mais um fenômeno dessa ordem. Afinal, é muito melhor conhecer do que ignorar! E principalmente ao se tratar de coisas de ordem psicológica, e de natureza jurídica celestial, por onde se vê que o juízo inicial sobrepaira a tudo, por ser ingênito ao poder motor individual. Era uma noite linda! Como são lindas, afinal, nossas noites enluaradas! E o nosso Etelvino foi posto frente-a-frente à máquina vasculhadora. Outros fatores são os mais precisos; mas, digamos que é a máquina... Afinal, nos planos inferiores, um formalismo qualquer tem a força de lei... – Duas vidas verá, Etelvino. Mais não é preciso. Depois, com tempo, terá o seu relatório – explicou-lhe o chefe da casa. E ante nossa visão, fez-se presente uma cidade européia, muito conhecida de todos. Uma família recebeu, em seu seio, um novo elemento. E este foi evoluindo, em todos os sentidos. Quando se fez homem, leu muito sobre um grande mestre positivista. O veneno da negação atrofiou-lhe os dotes anteriormente adquiridos, e a arma com que devia contar, para as realizações da vida. O resultado era, afinal, um homem cheio de saúde e de conhecimentos, mas, infelizmente, vazio de crença e boas aplicações intelectuais. Atravessou a vida ao sabor das discussões estéreis e criminosas, espargindo frieza e animalismos. E assim o colheu a morte! Depois, vimos o homem perambular como um duende, pelos tristes países astrais, por longos anos a fio. Seu estado chegou a ser tétrico! E um dia, guiado,
julgo, por uma inteligência oculta e benfazeja, bateu às fronteiras de regiões melhores. Foi aceito. Entrou. Retificou-se em parte. Trabalhou. E um dia, propôs-se a volver ao mundo das formas. Recomeçou no cristal, de novo, como um pequerrucho chorão, manhoso. E foi evoluindo, evoluindo, até ficar um jovem forte. Um dia, um ser sofredor a ele juntou-se, e, como era sofredor assim se fez: foi pelo mundo pedindo esmolas pelo amor de Deus. Aquele Deus que negou tendo saúde, paz e cultura, afirmou como doente, sem eira nem beira e como ignorante e maníaco! Foi ele quem assim quis, sem esperar por Juízo Final algum, por reconhecer isso, a lei que é a válvula redentora e evolutiva, além de ser a que, pela Suprema Vontade, é a sine qua non. Que adiantaria, portanto, dizer em contrário alguma coisa? Não seria o mesmo que recomendar a Deus que lesse primeiro o tacanhismo dos textos para depois agir? Não seria pôr o carro diante dos bois? Infelizmente, muita gente pensa que Deus age depois de consultar os chamados Livros Sagrados, apesar de toda a mediocridade e das tremendas contradições que encerram. Querem de viva força que atenda ao simbolismo dos Adão e Eva, dos Caim e Abel, do Pecado Original, da Mulher de Lot, da Torre de Babel, da Arca de Noé, etc. Querem à força, tenha havido uma matança de crianças, da parte de Herodes, bem como querem que o Precursor e o Cristo tenham surgido milagrosamente num ambiente, sem aqueles preparos do mundo, necessários em qualquer missionário, e para os fins atinentes ao meio e às necessidades. Querem relegar para segundo plano, à custa de crerem nas adulterações clericalistas, todo o imenso poder de influenciação da Escola Profética Hebréia, a então chamada seita dos Nazirenos, de que tanto falam os Livros do Novo Testamento, e que, depois de ter sido introduzida no ocidentalismo por Henoc, que a trouxera da Índia em remotíssimos dias, fez todo o esplendor do verdadeiro profetismo Hebreu, que anunciou tudo quanto viria depois, bem assim como anuncia agora, de conformidade com o afirmado por Jesus Cristo, aquilo que é e deverá vir a ser, para sempre deixando e reclamando direitos progressivos, porque é ainda cedo para que alguém diga a última palavra! Foi pois, esta a resposta que o ex-mendigo deu, a quem lhe fez certa pergunta. – Rendo graças ao Supremo Poder, esse que dizeis ser ÍNTIMO A TUDO E TODOS; o que DELE vem é simples e bom. E se alguém é responsável por tudo quanto de bem ou mal tenha eu praticado, esse alguém, afirmo, sou eu mesmo.
Agradeço, pois, ao Senhor Absoluto, de todo o meu coração, por saber que a minha liberdade relativa é parte do Seu Soberano Poder. Encarou num momento a todos nós, para logo dizer, agradecido: – Deus vos abençoe os trabalhos. O humanismo que já viveis deverá entregar-vos, sem dúvida, aos santos regaços do verdadeiro Cristianismo! Porque, senhores, não poderá haver jamais Cristianismo, sem que haja primeiramente humanismo! É de baixo para cima o teor da lei ascensional!... Enganam-se os que querem filtrar o céu, sem respeitar a lágrima, o pranto, a fome, a prisão, a viuvez, a orfandade, o analfabetismo, a falta de hospitais, de médicos, de remédios, etc. O problema do céu é o problema do homem que tem um corpo, que tem uma inteligência para ser desenvolvida, que tem um coração para alcançar os esplendores sublimes da espiritualidade, quer seja ele encarnado, quer seja ele desencarnado! E quem desrespeitar esta verdade estará negando as leis de Deus! Eu estava encantado com aquilo que o ex-pedinte estava dizendo. Pela minha cabeça transitava um pensamento interessante. Como cada qual é diferente, pensando como pode e não como quereria; e como essa variação encanta nossas mentes, enquanto as ilustra! Cada um dá de si um pouco, o seu quinhão, e o todo fica mais harmônico, palmilha a senha completista. Sim, amigos, eu já sei muito bem que ninguém pode, aqui, falar por todos; porque sabe muito pouco ainda; mas, mesmo chocando-se os pensares, como devem ter reparado, os nossos ambientes são felizes, muito felizes! Não vedes que simples miseráveis do mundo carnal, após brevíssima educação, tornaram-se modelos de compreensão e bondade? Partimos dali e fomos entregar o homenzinho, onde determinava a ordem que o fizéssemos. Depois, sulcamos os espaços em direção a nossas moradias.
Encerrando um expediente Três anos tinha eu, pouco mais ou menos, que trabalhar, preparando-me para outra imersão no mundo físico. Devia trabalhar externamente, para burilarme internamente. Criar um lastro, uma embalagem poderosa, que me servisse de guarda contra os vendavais tredos da carne e dos orgulhos do mundo. E os dias venciam-se. Quando foi um dia, a veneranda Altair combinou uma reunião, na residência de Rogério, sem dizer para o que era. E quando todos reunidos estávamos, mais de cem pessoas, pediu a palavra, para dizer: – Queridos irmãos! Sabeis qual o fito desta reunião? E como ninguém dissesse coisa, por ignorar ou o quer fosse, prosseguiu ela, entre alegre e grave: – Deve partir para a carne, em cumprimento a mandato reparador e evolutivo, um dos irmãos que é ornamento desta casa e da sociedade local. Eu quis assim, que ninguém o soubesse, para que esta festinha contasse, também, com o seu assento de surpresa. Aqui estará, dentro em pouco, aquela que deverá vir a ser, a progenitora do nosso caro irmão Alonso! Um mundo de coisas estranhas varreu-me todo, mescla de ternura e tristeza, e mais não sei que sentimentos e angústias. Todos olhavam-me, e, a pedido da veneranda, uma salva de palmas ecoou pelo recinto festivo. Parabéns fui recebendo de todos, ósculos santos e votos de auxílio. A veneranda, tendo vindo falar-me, disse-me: – Muita coisa, amigo, foi abreviada em sua vida de trabalhador, graças aos esforços que empregou nos deveres... Reencarnará em ambiente espiritista, pois, como sabe, minha bisneta Altair vai casar-se dentro de um mês... Agora, senhores, era o céu quem descia sobre mim, num impacto que parecia ultrapassar minhas possibilidades emotivas. E a bisavó daquela
mãezinha adorável, alma iluminada e cheia de dons espirituais, abraçou-me comovidamente. Edgard, Dalva, Rogério, Lourdes, toda a casa, todos os presentes, vieram dizer-me mais coisas bonitas, quando souberam que iria ser filho daquela moça encantadora, serviçal e habitante de planos superiores nos céus terrestres. E a hora chegou, de dar ela, a bisneta de Altair, que Altair também se chama, entrada no recinto. Vinha, como era o seu natural, alegre e muito consciente, envolvida no fluido azulino que lhe caracterizava o padrão hierárquico, além de outro lastro, também fluídico, que caracterizava aos encarnados, quando em viagem pelos continentes astrais. A veneranda disse-lhe tudo, tendo me apresentado, como candidato a filho do seu amor, das suas esperanças e das suas obrigações. E espírito devoto que era, disse apenas: – Coloco-me ao dispor do Supremo, imitando mui apagadamente, aquele sublimado espírito que foi a mãe do Redentor! Seja feita na escrava a Vontade do Seu Senhor! Foi ordem acompanhar a um irmão, para os devidos preparos. Eu não sofreria o processo magnético redutor. Reencarnaria como um homem, com toda a consciência, e, qualquer vidente bom poderia mais tarde, disseram-me, ver um homem ao lado de uma criança. Isso, senhores, representa muita vantagem. Só a seres relativamente evolvidos, ou mais evolvidos, isso é facultado. Diz a tradição, por aqui, que Jesus e outros muito grandes vultos, de antes e depois, só tiveram mesmo necessidade de perfeita identificação com os seus corpos, do momento em diante em que o peso do mandato assim reclamara. Antes, muito livres haviam sido. Mas deixamos estas coisas, que nem todos gostariam de saber delas. Adeus. Ficai na santa paz do Senhor, colhendo e semeando as bênçãos do Consolador prometido, dele, que à luz da VERDADE, terá que ir surgindo no mundo a unificação dos entendimentos, dos sentimentos e, conseqüentemente, dos credos. Adeus!
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.