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Capítulo 6 de 11

D E U S — parte 5 de 10

Reencontro no Céu · Osvaldo Polidoro

Dias de trabalho e divinas graças Aquelas almas generosas tinham deixado na carne, descendentes vários, muitos dos quais, como já relatei, tiveram de buscar o Espiritismo, para resolver problemas a si relativos. E me sentia bem naquele meio, porquanto, tinha paz, tinha uma família, tinha ambiente favorável, tinha desejo de trabalho, e tinha trabalho à vontade. O afloramento do Consolador no mundo trouxe serviço diferente para muita gente destas bandas. Esta família tinha por função única servir ao movimento, na parte relativa a si, no seio da vastidão fenomênica. Três dias trabalhavam para os trabalhos práticos; muito mais para a parte que é desconhecida dos encarnados e, o restante, como prêmio, dedicavam ao descanso e passeios, visitando amigos, assistindo conferências, tomando parte em festas religiosas, etc. A parte que digo ser desconhecida dos encarnados é aquela que se estende por aqui, muitas vezes cansadiça, depois de qualquer pergunta feita por alguém encarnado, sobre saúde, sobre amigos daí partidos, etc. Um dia, por exemplo, em que tocava a Lourdes dirigir o trabalho, de nossa parte, fui por ela instado para acompanhá-la a certo lugar, na terra, onde estava alguém que tinha sido lembrado e por quem haviam feito preces. Tendo atendido ao apelo delicioso, pois estas cenas trazem consigo grandes ensinos, baldamo-nos para uma grande cidade. Primeiramente, fomos à casa de onde partira o apelo. Esse apelo repetiase todas as noites, a horas certas, e, Lourdes era focalizada pela emissão mental da velhinha que implorava pelo seu filho, recém-desencarnado. No grupo havia feito ela pedido; e mandaram-na orar pelo espírito do filho, a horas certas.

À noite, portanto, teríamos de retirá-la e fazê-la vir, também, em busca do filho, que havia sido assassinado em uma briga. Aliás, três pessoas haviam morrido nessa luta ou por causa dela, dentro em pouco. E os três seres, dadas as disposições anímicas, continuavam engalfinhados: dois jovens e uma mulher, que rolavam pelo chão, batiam-se, xingavam-se, sofriam-se mutuamente. Para um tal serviço, é claro, não basta uma intervenção; preciso se faz o merecimento. Para isto, portanto, ou cumpre tê-lo, e é só usá-lo, ou, então, nada mais resta fazer do que tentar fazê-lo ter. Uma vez retirada ao corpo, a velhinha sustentava-se bem, isto é, bem lúcida para poder auxiliar-nos. E Lourdes lhe disse, com sua afável e costumeira bondade: – Que julga sobre seu filho, minha irmã? – Que deve estar mal, sem dúvida, meu anjo de piedade. – Não sou um anjo de piedade, minha irmã, nem mesmo um anjo; sou um ser igual e votado ao bem, apenas, ao que é obrigação e não favor. – E por que é tão rodeada de luz? Por que é tão linda? – Porque todos os que amam são belos. E não ama quem não quer, pois para o amor somos existentes, como filhos do AMOR o somos. A velhinha ficou sem fala, não sei por que, tendo Lourdes prosseguido: – Seu filho, senhora, está muito mal. Por ora não comporta merecimento que dê para um trabalho eficaz de nossa parte. Quero, pois, nos auxilie num serviço preliminar... – Farei o que me pedirem!... Ainda que tenha de sofrer pelo rapaz, o quer que seja!... – interrompeu a velhinha, caindo em pranto. – Não adianta, minha irmã, esse derramar de lágrimas; tudo no mundo é racional, seja o que for, coisas do espírito ou da razão, do intelecto ou do moral. O nosso plano de vida é o da razão, da inteligência, para o quer que seja. E isso porque, senhora, sempre por razão é que faremos pouco ou muito, bem ou mal, a menos que sejamos mentecaptos ou dementes. Silenciou Lourdes, por um pouco, enquanto com suas delicadas mãos, suavemente, levantou o semblante conturbado da velhinha, que se havia curvado. E prosseguiu, firme no seu roteiro mental, embora dando à voz, inflexões amigas:

– Ninguém, senhora, poderia vencer no plano da consciência, sem a intervenção analítica da razão. Tudo é, portanto, uma questão de educação. E para educar, minha irmã, preciso se faz a intervenção de boa disciplina. Sem ordem, sem diretriz segura, não pode haver fim pródigo. E a senhora terá que fazer uma grande e nobre parte, assim foi de mais alto determinado. Sem isso, creia, nem teríamos vindo ao seu encontro, atendendo ao seu apelo. – Considero a misericórdia do Pai para comigo... – balbuciou a velhinha, tentando prosseguir. – Prefiro que considere a Justiça Divina, minha irmã. – atalhou Lourdes, com solicitude – Por Justiça, minha irmã, teremos misericórdia ou o quer queira pensar; sem Justiça, porém, que poderíamos ter? Em nada creio que não seja em Justiça, sempre que sobre Deus tenha de pensar. Prefiro, pois, os que evitam praticar feios atos, àqueles que preferem pedir desculpas, depois de praticá-los. E depois de encarar bem a velhinha, disse, com firmeza, embora compadecida: – Porque nesse caso se encontra, minha boa amiga... A senhora e o seu filho são, de muito tempo, entre si grandes culpados. Deve, pois, armar-se de vigor, para que seu filho permaneça menos tempo em má situação, e para que, ao ter a senhora de deixar a carne, poder fazê-lo em condições mais agradáveis. – Mas!... E se nada sei disso?... – replicou a velhinha, agitada. – Nós o sabemos, minha amiga; e fomos enviados para abreviar tempo. A isso é que fizeram jus, seus pensamentos, suas esmolas aos pobres, suas preces... Queira, pois, seguir nossos conselhos, que muito mais do que espera poderá obter, e em muito menos tempo. – Confio. Que devo fazer? – prontificou-se a velhinha, pondo-se a observar o belo e radiante rosto de Lourdes. – Terá que falar a seu filho, por muitas noites, muitas noites, até torná-lo mais dócil, mais acessível, mais doutrinável. – Difícil coisa!... – lastimou a mulher, pondo-se pensativa e triste. – Aprendeu consigo a ser desobediente... Os ensinos que bebeu com o leite materno, foram os menos recomendáveis... Uma vida à solta e cheia de possíveis vícios, geraria, fatalmente, um fim doloroso... E lhe digo isto, minha amiga, por razões de serviço, para seu próprio bem. Quero se torne consciente do quanto terá que trabalhar, para vencer do melhor modo.

– Mas eu prometi confiar! – disse ela num repente, levantando-se em ânimo. – Então – disse Lourdes – venha conosco. E com aquela força característica que lhe era própria, arrastou-nos como se fora um tufão todo de vontade e amor. Fomos parar defronte a uma casa, onde os três tinham tombado, dois mortos e uma ferida, gravemente. Ali, pois, ainda continuavam rolando, impetuosamente, os três delinqüentes. Socavam-se, apunhalavam-se, xingavam-se, etc. – Acuda o meu filho! – gritou a velhinha, vendo seu filho ensangüentado e naquele turbilhão, onde uma onda de famigerados torcedores, em redor, fazia infernal alarde. – Todos são filhos... – respondeu Lourdes, olhando significativamente para a velhinha. – Mas está todo ferido, minha querida protetora!... – repetiu a mulher, em tom suplicante. – E os outros o não estão? Como poderíamos fazer o bem, espargir o amor, se ao invés de ir contra todos, fossemos em favor de qualquer deles? Ante a imperturbável serenidade de Lourdes, e frente a tal modo de interpretar o dever de atenção, a velhinha silenciou, sensivelmente amuada. Lourdes, no entanto, completou ainda o seu modo de refletir: – Bilhões de bilhões, irmã, e todos nossos filhos, nossos pais, nossos mais íntimos parentes e amigos, enfronhados estão em piores condições, donde até mesmo a forma humana já perderam, por brutalização, forçando em si mesmos o revolvimento daquelas formas inferiores de onde todos provimos. É, pois, e deve ser de muita meditação e estudo, de muita cautela merecedora, uma situação como esta. Quem não puder medi-la, em sua profundidade legislativa, que se não proponha a intervir. – Que faremos, então? – disse a velhinha, olhando para mim, julgando que, eventualmente, iria meter-me a gato mestre. E ante meu silêncio, tendo ela volvido para Lourdes, implorou: – Pelo amor de Deus! Por Deus! Faça alguma coisa por meu filho!... Lourdes, serena, afirmou: – Prometo, mas se se der ao trabalho de fazer pelos outros dois seres, precisamente aquilo que queira fazer pelo seu filho. E afirmo-lhe que, havendo de sua parte, pela razão que seja, má vontade para com eles, nada poderá, nem

nós poderemos fazer nada. Cumpre-lhe, irmã, fazer-se grande em face de Deus, de Sua Justiça, para que possa fazer alguma coisa pelo seu filho. Quanto a nós, senhora e amiga, aqui estamos, ainda, a fim de pô-la ao par da realidade. Pois que esses dois outros seres também foram sangue do seu sangue, em vida que não vai longe... Naqueles dias, primos que eram, por razão passional, tal como agora, se dispuseram contra a Lei. – Santo Deus! – exclamou a velhinha, atirando-se entre os três, que rolavam pelo chão, terrivelmente odientos. Quis atirar-me para livrá-la daquela pancadaria terrível; Lourdes, todavia, mo impediu de fazê-lo, dizendo-me: – Deixe-a, Alonso, que é do que ela precisa. Em outros tempos foi ela quem lançou a dissídia entre ambos os contendores, de onde surgiu mais tarde o crime. Por muitas noites para aqui se plantará, porque assim está de cima determinado. Ao acordar, de muito terá lembrança, redobrando-se em preces e atos de solidariedade humana. Preces não custam esforço, e dinheiro tem de sobra para estender o bem a muitos precisados do mundo. Quando alcançar mérito, virão outros e separarão os contendores. Antes disso, saiba, nada é possível fazer. Silenciou por um momento e sentenciou, enquanto me fazia alçar lentamente, em um delicioso volitar por entre dadivosas bênçãos: – Nunca bastará um arrependimento, como tampouco uma intercessão qualquer, para que um estado psíco-hierárquico se modifique de pronto. Amigo Alonso, saiba que a Suprema Lei, para nós, como me parece que é para com tudo, é à base mesmo de Pura Justiça. Falar na misericórdia de Deus, sem lembrar que é apenas uma das nuances de Sua Justiça, é fazer ronceirismo, é transportar ramerrão vicioso na mente. Em Deus, tudo é equilíbrio; fora dele, não há possibilidade de paz e ventura imperecíveis. E equilíbrio não se consegue com favoritismos nem milagres! – De minha parte – disse-lhe – concordo com isso. Todavia, viciado como está o homem, pelos teologismos tacanhos, que por séculos ensinaram um Deus odiento às vezes e favoritista outras vezes, dificilmente absorverá tal conceito sobre Deus. Lourdes sorriu, moveu sua vasta e dourada cabeleira com a graça dos seus angélicos encantos e encerrou: – Mas pagarão até o último ceitil, no curso das vidas, sabendo ou não, querendo ou não, gostando ou não, conscientes ou inconscientes de seus passados e de suas próprias dívidas. A quem perguntou Deus, que é tudo em

Si, se estava bem ou mal traçado o programa da Lei? Quem foi ou é convocado a investigar o mérito da judicatura fundamental? – Nada sabe o homem que lhe garanta pensar, sequer, em poder com lógica investir contra o fundamento das leis do universo, mesmo que esse homem seja um santo ou o mais requintado tarado. Como santo, o simples sentimento místico torná-lo-á inválido para tanto, porque, embora tudo seja razoável, e por isso mesmo, sublimado o sentido da razão, deixará de pretender discutir tal assunto, para dedicar-se a vivê-lo. E se for um tarado, ou até mesmo animalizado, de que valerá a sua opinião? – Bem assim como a do santo, pois não? – completou Lourdes. – Exatamente!... Exatamente, porquanto, o que podemos nós deste lado, conceber como sendo manifestação de Deus, tal infinito de virtudes, e sabendo que esse quantum por nós concebível é um nada, como poderia um espírito, fosse quem fosse, sondar o Ser Infinito; a Síntese Total, uma vez que não é total e que o poder de conhecimento infuso não está em ninguém? – Creio – considerou Lourdes – que só mesmo o poder do conhecimento infuso assim facilitaria; nada sei, porém, de conhecimento humano, que não tenha sido adquirido relativamente, experimentalmente, laboriosa e até mesmo dolorosamente. Logo, pelo menos por ora, não sei de quem seja infuso em Pureza e Sabedoria. De todos que saiba, a começar do Mestre Planetário, todos se fizeram como estamos a nos fazer, gradativamente. – Foi o tempo em que a visão de um espírito mais purificado, relativamente mais sábio, fez gente pensar na própria Essência Divina, em si mesma exposta em sua integralidade. Para mim, hoje, que concebo a Deus como infinitamente inconcebível por mim, em que pese o respeito que voto a todo e qualquer valor, acho insignificante o mérito de qualquer parte com relação ao TODO. Já vi grandes manifestações, já fiz confrontos sérios, e, por isso mesmo, peco se disser o contrário. Deus é, para mim, o TUDO, sendo que os mais, sejam quais forem, são apenas parte. – Por isso mesmo – acrescentou Lourdes – nada como conceber o sentido moral da vida, como sendo aquilo que é mais importante do que a própria vida. Assim pensando e sentindo, Alonso, faremos do reflexo de Deus nas coisas e nos seres, o espírito de religião. Sim, de religião pura, porque então estaremos seguindo a trilha mais racional, que é amar a Deus com toda a força do coração e com todo o poder da inteligência! – Mas... Lourdes, isso não foi ensinado por Jesus?...

– E quando deixou Jesus de ser racional, superiormente, sublimadamente racional? Apenas – prosseguiu – existem alguns Jesus por esse mundo em fora. Não que Ele seja tantos assim, ou que se faça assim tão confuso; digo de quantos Jesus tenham fabricado os homens, cada qual a gosto de suas crenças, segundo a sanha dos seus bolsos e dos seus estômagos, sem contar o poder farsante de suas inteligências. Portanto, veja bem que o Cristo, símbolo de toda a VERDADE, é invocado por todos, do mais santo ao mais devasso. Homens de todos os matizes, para todos os fins, podem ser duplicitários, ao se tratar de espiritualidade. Houve silêncio, de nossa parte, ao ver passar uma falange numerosa de elevados seres, em demanda à Terra. Dentre eles, alguns eram conhecidos. E fomos chamados, convidados a acompanhá-los. – Para onde vão? – indagou Lourdes – Estão todos tão alegres... Oh! Sinto prazer em segui-los... É a libertação de Edgard!... Lourdes penetrava, ou recebia facilmente a emissão das ondas mentais, por isso que se punha, muitas vezes, a par de tudo, sem ninguém lhe dizer. De mim, ao ouvir falar em Edgard, pensei naquele protestante, marido daquela mulher que convivia com a família Rogério, aquela Dalva de que já fiz menção. – Isso mesmo!... – respondeu afirmativamente, estuante de alegria, o mentor. – E Dalva? – perguntou Lourdes, não a vendo em suas companhia. – Terá uma bela surpresa... – acrescentou o amigo.

A morte é o testemunho da vida A vida em sua síntese é VIDA TOTAL, é o que de mais profundo existe para ser analisado pelo intelecto humano. Concordo e perfilho a tese que afirma ser a VIDA ABSOLUTA, Deus em si, sendo tudo o mais, em expressão qualquer, modo de ser e de se apresentar daquela mesma ESSÊNCIA FUNDAMENTAL. No plano relativista alcança, então, variações tais, que, fora aberrante pretender discerni-la, conhecer-lhe as infindas minúcias. Por isso mesmo, podemos encantar-nos na apreciação dos pormenores, bem como educar-nos à custa de contatos sem conta. Tudo e todos apresentam valores iguais do ponto de vista fundamental, iguais do ponto de vista das finalidades, mas, diferentíssimos, até mesmo aparentemente contrários, nas formas estáticas de ser e estar. Dizem que é a filosofia, quem, por ser cogitadora, deve fazer do homem um investigador das causas, dos estados de ser e estar, e das finalidades a que tudo se vota. Acho que esse é um atributo da própria VIDA TOTAL, ou Deus, que se expressa segundo modo e condição próprios, no homem, como ser pensante, ou através de uma disciplina, de uma escola, de uma ciência, por representar um conjunto de fatores, muitos talvez ainda desconhecidos, mas todos como manifestações de UM PODER PRIMEIRO, razão determinante de tudo. Assim, amigos e senhores, aprendi a encarar a vida, o relativismo vital, desde que para aqui me plantei, ou, desde que passei a ter desta vida conhecimento. E duvido que deixe tal modo de pensar, tão facilmente. Há um sentido de unidade que nos invade, depois de certo tempo ou condição evolutiva, que pela razão que seja, nos força a sentir, mais do que a pensar em primeiro lugar, desse modo. E a vida assim é um encanto, ou coisa muito

melhor, pois há nela qualquer coisa de tão espiritualmente sublimado, divinizante, que, é pena, mas não há jeito para descrever. Sentimos Deus em tudo, um Deus vivo, estuantemente manifesto na existência e na razão total de tudo, de sorte que a comunidade se nos torna sempre maior e de fato, desde que nos possamos, pelo sentido da ubiqüidade, expandir, penetrar mais, invadir o íntimo e a capacidade de ser, de tudo o que nos cerque. E, então, amigos, haja capacidade de raciocínio, poder de absorção mental, para o devido enriquecimento em geral. E devido a isso, essa tão febril manifestação de matizes qualitativos e quantitativos, cumpre atentar bem para o que nos seja pessoalmente devido e possível fazer, para que a dispersão dos poderes de absorção, não venha a nos prejudicar. Muita gente pensa, enquanto está na Terra, que o céu é uma questão de infusibilidade total, amalgamando os seres e as questões. É precisamente o contrário o que se dá; as questões se multiplicam, os sentidos se expandem, os processos se desdobram e os meios se reproduzem vertiginosamente, enchendo a vida de perguntas e o espírito de anseios enlevantes. Aqui, pois, muito mais do que na vida da carne e suas vicissitudes, cumpre traçar diretriz e dedicadamente vivê-la. Mas, deixemos isso e vamos ao caso do protestante por desencarnar. Como estava relatando, fomos para o recinto do candidato à libertação. Éramos uns trinta e tantos, entre amigos e acompanhantes. Eu nunca tinha visitado o futuro morto; apenas, dele ouvira falar a família e a sua esposa. Ao chegar ao recinto, vimos muita gente em torno a um leito. Muitos jovens, que deviam ser sobrinhos e netos, rodeavam o leito do moribundo. E embora o ambiente fosse de tristeza, psiquicamente estava tudo bem. Nenhum espírito inferior em condições ali se achava. Quem de cá era, tinha mais para dar do que para pedir. Um sentido de crença a todos invadia, sendo que uma senhora, que se parecia muito com o moribundo, pondo-lhe a mão sobre a testa, vazava-lhe fluidos atentadores. O velhote o que tinha era tudo em deficiência. Esgotamento por vencimento cíclico. Parecia que o quantum de fluido cósmico vital, uma vez não oferecendo mais intensidade atrativa, dispunha-se a expelir o agente mais vibrante, o ser espiritual, cujo poder de continuidade não tem limites. Por isso mesmo, só tinha que procurar outros rumos. Edgard procurava, sem saber, deixar o corpo. Do mesmo modo se passa nas comunicações espíritas, depois do esgotamento fluídico do médium; ao invés de atrair, transposto o ciclo, passa a expelir. O Edgard espiritual sentia-se mal no corpo, e, de quando em quando, quase que se libertava. Não havia chegado o momento, e, por isso, o corte não havia sido levado a efeito por quem de obrigação. Ele, então, volvia. E o estado

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