Voltar ao livro Reencontro no Céu

Capítulo 3 de 11

D E U S — parte 2 de 10

Reencontro no Céu · Osvaldo Polidoro

dependeria que era dedicar esforços no plano propagandístico, pelos meios possíveis e devidos. Assim é, portanto, que fiz o trabalho de quem, sendo capaz e tendo ferramentas, não se dispôs a lavrar!

Nova Obrigação Fiquei alguns dias folgando, passeando pelos lugares da região, meditando, procurando amigos, parentes, etc. Não me surpreendia reencontrar com eles, pois isso era parte integrante de mim, por conhecimentos, já na Terra. Antes, sempre e de um modo chocante, punha-me triste, abatido, ao rememorar o tempo perdido. Já não era possível achar que as experiências colhidas nos planos de treva, porventura bastassem para cobrir falha tão pesada. Doía-me na alma a retrospecção do feito delituoso, por sentir que muitos teriam lucrado com as minhas obras, na proporção direta à perda. Sentia-me pois, criminoso, por ter minha negligência atingido, em grau elevado, ao plano coletivo de minhas obrigações. E um dia, quando me achava junto de uma fonte, local escolhido para as minhas meditações em vista do sossego ali reinante e a influência odorífera das flores silvestres, tangido por uma aguda dor moral, deixei-me rolar por terra, chorando amargo pranto sobre tais e tão duras recordações. Eu não rezava em forma de pedido, eu não rezava de maneira alguma, mas, gemia a dor de ter sido impiedoso para com aqueles que de mim teriam tido o direito de esperar alguma coisa. E foi nessa hora que alguém me tocou no ombro, dizendo com toda a musical inflexão na voz, aquela inflexão musical e piedosa, que só um puro sentimento fraternal pode em si comportar: – Tua oração foi ouvida... Levanta-te e acompanha-me... E eu fui seguindo a uma mulher vestida com roupas alvíssimas, senhora de uma beleza deslumbrantemente espiritual. Seus cabelos, seu olhar, o movimento angélico do seu corpo; tudo nela parecia feito de céu, de luz, de coração amante, no sentido correto do termo. E sei que, em sua companhia, transpus fronteiras vibratórias bastantes. Quando atingimos um plano de vida para mim insuportável, ela deu-me a sua mão alva para segurar, tendo por ela me transmitido imenso coeficiente de

forças. Era um lugar onde a vida tinha de ser desenvolvida em grau altamente divinizado. Tudo radiava beleza intraduzível, cores, sons, harmonias, melodias, amor e inteligência deslumbrantes. No fundo de tudo pairava, parecia-me, sombra apenas de terrenas paisagens. Os castelos, os jardins, as flores, as águas, as praças, as ruas, tudo era feito como de encantados elementos terrenais, pois, embora sendo como que os mesmos em natureza, eram diferentes, profundamente diferentes, em suas condições ou estados de ser. O sublimado parecia ter atingido ao máximo, para mim que, mal sabia, teria de, mercê de Deus, ver, saber e sentir mais, muito mais, sobre a onipresença de Deus, dentro em breve. Quando logo mais entramos para dentro de uma vivenda, cujo chão parecia ceder ao meu peso, pois era tudo muito extratefeito, apresentou-me ela a um homem, mas a um homem que parecia feito de luzes. E o homem, tendome atendido com toda a bondade imaginável, fez-me sentar em uma cadeira que, também, parecia querer ceder à pressão do meu contato. O homem sorriu e falou, explicando: – Há uma sensível diferença de densidade específica, entre os elementos constituintes do seu corpo e a matéria deste plano, para assim me expressar. Tudo o que há, para efeito de variação, no infinito da Obra de Deus, é diferenciação específica por estratificação. Aquilo que no plano da matéria é assim, por ser relativo à matéria, em geral ou em qualquer sentido de suas condições substanciais, dá-se em correspondência, no plano espiritual, por leis morais. Variações, portanto, subsistem ao infinito, nos dois planos; no material por estratificação, e no espiritual por moralização. Como somos participantes dos dois planos, ainda, eis que o senhor, irmão Alonso, estando em contato com este plano um tanto superior ao seu ótimo, experimenta a falta de equilíbrio moral e a fluidez dos elementos materiais. – Julgo compreender perfeitamente, caro senhor – respondi, reverente, dada a imensa superioridade que aquele bondoso homem refletia. E digo bondade, querendo entendam bem, não estar esta, apenas, sendo refletida na forma de trato do homem para comigo; é que, dele, por razões psíquicas e radiantes, emanava um profundo sentimento de amor fraternal, que atingia a mim e a tudo, parecia-me, influindo sobre o ambiente em geral. Depois de tudo, fui com ele e mais aquela mulher, para o jardim que era fronteiriço à bela vivenda. E o homem disse-me, depois de colocar sua poderosa mão direita sobre minha cabeça: – Este plano da vida é belo; mas o mais belo está no íntimo de tudo e todos, porque é o PRINCÍPIO DIVINO DO UNIVERSO, ao qual chamamos

Deus, de um modo ou de outro. Quero que faça um exercício introspectivo, de ordem essencialmente espiritual. E quero que o faça aqui, ao ar livre, pois que Deus não é escravo de nossas inferioridades. Pense, pois, em Deus, que nós o ajudaremos. E aconteceu comigo, aquilo que já citei linhas atrás. Depois do deslumbrante feito, despediu-se o homem de mim, desejando-me felicidades. Entregando-me aos cuidados daquela fulgurante mulher, mandou-me de volta, para o meu país astral, onde teria de encetar novos serviços. A mulher colocou-me onde estava, ou onde me encontrara, ao lado da fonte. E ao se despedir, disse-me: – Não te esqueças, amigo Alonso, de que novos conhecimentos significam novas possibilidades, e que novas possibilidades significam novas responsabilidades. Vê que, de mais alto, seres benéficos velam e zelam por todos os seus irmãos menores em evolução. Aquele irmão, caro amigo, tem em mãos o teu álbum histórico, que data desde um tempo remotíssimo, quando foi teu santo de adoração, numa civilização de que a história dos homens não tem conhecimento algum. – Como se chamou ele? – perguntei, interessado. – Aos olhos de Deus, diremos assim, o ser vale pelo seu todo intelectomoral e pelas suas capacidades produtivas postas em funcionamento. Um nome? Para que um nome a mais ou a menos, para quem tantos teve, honrando a uns e não a outros? Direi que foi um agente do Cristo Planetário, que desempenhou regular e fiel missão naqueles remotos dias da humanidade. E que o senhor o teve como Cristo por várias gerações, por muitas encarnações. – É interessante, senhora, saber disso. E teria sido um erro o tê-lo concebido como se fosse o próprio Cristo Planetário? A lustral senhora sorriu, e dos seus meigos olhos partiu como que um convite para mais aprofundados conceitos do amor puro. E falou, com sua voz maravilhosa: – O sentido moral da ação é quem a dignifica; logo, quem acertar num ponto superior a sua mentalização, deve procurar vivê-la. Ninguém tem o direito de saber de um modo e de proceder de outro, quando se tratar de compromissos fundamentais. Portanto, quando o adoraste como se fosse o próprio Cristo, estejas certo, ao próprio Cristo adoraste, por intermédio do irmão. Piores coisas fazem aqueles, que, falando em Deus, apelando para o Cristo pessoalmente, ofendem a seus irmãos, por razões sectárias, pessoais, etc. A terra dos encarnados, e a terra dos desencarnados, estão repletas de seres,

que, ainda e por muito tempo, adorarão ao Cristo pessoal, na figura de muitíssimos de Seus contínuos, de todas as graduações. O que cumpre é jamais indispor-se com a mais pura lógica, aquela que seja imanente ou decorrente da própria VERDADE. – Que é a VERDADE, nesse sentido? – Não existe diferença, num estabelecimento industrial, por exemplo, entre a condição social do patrão, do engenheiro chefe, dos subalternos, dos operários entre si? É claro que sim, pois não? No entanto, amigo, considera que todos os elementos componenciais agem para um só fim, formam o todo harmônico, sendo que ninguém é desmerecedor de respeito, no exercício de sua função normal. O patrão e seus imediatos jamais fariam a produção, sendo que os operários, por sua vez, não saberiam encaminhar o sentido da produção. Logo, cada qual faz jus ao seu galardão, segundo seja maior ou menor o teor de sua influência coletiva e técnica, ou administrativa, etc. Depois de Deus, todos os mais são funcionários, e a ninguém nos cumpre desonrar, uma vez no plano normal de suas atividades. Nos planos inferiores da vida, amigo, não existe esse respeito pelo trabalhador; ou por questões de raça, política, seita, religião, cor, ou de fronteiras, etc., movem-se campanhas contra obreiros do bem e tudo fazendo sob a invocação de Deus ou do Seu Cristo. Verifica bem o que se passa no setor religioso, meu amigo e irmão. E sumiu-se de minhas vistas.

Em busca de serviço Saí de perto da fonte, depois de aquela mulher ter sumido de minhas vistas, todo regorgitante de pruridos sublimes. Queria servir, assim como tinha sido servido, com amor e devoção. Por isso, fui para a minha moradia com a idéia de procurar um trabalho. Para tanto, falei a um companheiro de habitação, para julgar de si, qual o trabalho que me seria adequado, uma vez que não queria eu ir, em busca do tal chefe mencionado. E o amigo, disse-me: – É evidente que alguém esteja aguardando seu pronunciamento. Esse período de férias, Alonso, também faz parte do programa, pode estar certo. Portanto, fique tranqüilo e porte-se com toda a simplicidade possível. – De preferência, queria saber do melhor por fazer. Qualquer trabalho me não serviria. Quero me seja dado um serviço cujo fim comporte, para mim, sentido reintegrante. Sempre ouvi dizer que o serviço de reparação corresponde ao da falta cometida, e, nesse caso, se o for da Suprema Justiça a vontade, serme-ia grato agir num sentido mais intelecto-moral do que outro qualquer. O bom homem repetiu: – É sempre útil ser temperado para todos os fins. Como já disse, prezado amigo Alonso, no seu caso, como criatura que falhou num mandato que comportava a cooperação junto a milhões que agiriam no programa renovador do pensamento humano, mais acertado é aguardar o pronunciamento de alguém que lhe venha ao encalço. Tenho plena certeza que isso se dará, pois, o seu dever está de pé, a sua parte está por ser executada. Por ter penado nos planos inferiores da vida, por ter sofrido, não quer dizer tenha-se desfeito da obrigação... – Nisso não tinha pensado... – comentei, pensando coisas diferentes. E o bom amigo, esclareceu:

– De fato, respondeu apenas pela falha moral e segundo o grau de conhecimento de causa; a reparação da falha prática ou técnica, amigo, está na execução do mandato, para mais cedo ou mais tarde. Assim se deu comigo... – Consigo?... – atalhei, procurando fazer que falasse sobre o seu caso. – Sim – prosseguiu ele – assim se deu comigo, e por falhar vezes seguidas, não apenas uma só vez. Por coisas próprias do mundo carnal, por fanatismos e superstições, neguei razão ao trabalho de levantamento espiritual da humanidade, cooperando no plano das trevas, tudo fazendo pela estagnação. Como sabe, o Espiritismo vem, em sua fase nova de Doutrina, desde os dias de Joana D’Arc, desde o seu período preparatório de organização. E tendo por vezes voltado ao mundo, ao tempo de outros vultos revolucionários, sempre fiz o possível pelo malogro das coisas do Senhor, julgando estar, com isso, ao serviço do Senhor. – Então – observei – estou falando com um mestre de experiências? Muito bem! Creio que o prezado amigo me irá auxiliar muito... – Como? Mas como, amigo Alonso, se ainda devo o meu serviço? – interrompeu-me ele – Ainda não fiz o que me tocava!... Aguardo oportunidade... Penso ter de voltar ao mundo e cumprir minha obrigação. Sinto que se isso não fizer, que se não contribuir com meus esforços pelo bem dos outros, também não poderei melhorar de condição, não poderei subir na escala hierárquica. – Isso mesmo! Isso mesmo! – repetia-lhe eu, eufórico, sem saber bem porque razão. – Mas quem lhe disse? Quem lhe disse? – indagava-me o bom amigo. – Deus! – disse-lhe, firme, com toda a convicção possível. – Não brinque com coisas sérias, pelo amor desse Santo Nome! – disseme o bom homem, ele que tinha suas travanqueiras na vida, mas que para mim era bom. De dentro de mim, porém, do profundo do eu, vinha-me a convicção de que, de fato, algo de importante se estaria passando, alguém estaria tramando, em favor de nossos interesses mais sublimes, programa recuperador... Por tal razão, pois, julguei bem proceder tomando a iniciativa de não mais discutir sobre a questão, com o bom amigo. Que as coisas caminhassem, portanto, segundo os chefes determinassem. Alguém teria de dizer-me alguma coisa, mais cedo ou mais tarde. Não poderia ficar eternamente, nem em férias nem sem serviço programado. Estava farto de saber que, espírito sem serviço, sem chefes e sem programa, não pode ser espírito feliz nem em marcha contínua para os planos superiores...

O amigo ia sair para as suas obrigações; e fui com ele até uma praça próxima, onde, à noite, reuniam-se amigos e parentes, criaturas entre si simpatizantes, do mesmo modo que na Terra. Porque, o fato é que usos e costumes da Terra prevalecem deste lado, muito mais do que pareceria natural à mente de qualquer encarnado. Pelo saber só, não é que se escalam planos elevados; e sem meio ambiente correspondente, onde e como viveríamos? A Sabedoria Divina é integral no saber dispor das leis; por isso mesmo, tantas terras mais existem, no duplo etéreo da própria Terra, que, impossível seria faltar casa para quem quer, e de acordo com os seus merecimentos. Quanto ao saber, repito, quanto à fé, em Deus e em Suas Leis, isso não é medida salvadora, por si só. É fator importante, mas, isolado dos testemunhos práticos, nada mais faz do que sua relativa parte. Assim sendo, tendo bastantes conhecimentos sobre o espiritualismo geral, a falta, sabia-o bem, era no sentido da prática. Precisava dispor do material de vez que, tê-lo, somente tê-lo, de bem pouco valeria, depois do estado de paz e bem estar que tinha readquirido. De gente sábia em coisas do espírito, estão cheios os planos de dor! Titulados de todos os matizes religiosos do mundo, gemem suas ingratidões práticas nos abismos aparentemente sem fim! Dessa verdade tinha eu mesmo conhecimento, de nada precisaria mais, do que lembranças tristes, para ter a verdade, nesse sentido, ao inteiro dispor.

Fim das férias Ao cabo de quinze dias, pois, como aguardava, terminaram as férias. Um homem do corpo de administradores da cidade procurou-me, dizendo-me: – Venho da parte da governadoria, sr. Alonso, para convidá-lo a uma aplicação de atividade. A aceitação significa a permanência nesta região, enquanto que a negação significaria o afastamento obrigatório. Eu esperaria isso? Nunca! No entanto, amigos, como conservasse em mim o poder mental de sempre, no sentido de conceber-me partícula divina distinta, também tinha de atender a uma tão fria ou pragmática exposição da situação. Quem se diz emanação divina, quem em si reconhece fundamento celeste e celestiais objetivos, tem obrigação de procurar agir com a distinção correspondente. Foi nos livros ocultistas onde aprendi semelhante doutrina; isto é, saber que tudo quanto existe no plano manifesto do que existe, do que sabemos praticamente que é, corresponde exatamente às razões divinas de sua origem. Era bem feito, pois, que recebesse aquele convite: “ou trabalha ou deixa a casa”. Respondi, portanto, ao digno emissário do poder governativo: – Muito bem, meu senhor; confesso que as autoridades têm suas razões. Estive feriando um pouco, quando, na realidade, como espírito falho em realizações, deveria ter, imediata e decididamente, procurado uma aplicação das possibilidades. E ante a figura pacata do emissário, que se mantinha calado à minha frente, achei de bom tom emendar: – Que a governadoria me indique um trabalho; sinto-me como quem sabe que deve agir, mas, sem saber como, quando e onde.

– É caso sério falhar numa prova, quando se tem todas as probabilidades em matéria de meios, conhecimentos e ambiente precisante – comentou o pacato homem, meneando a cabeça negativamente. E tive de concluir que, mais uma vez, o sentido moral da falha implicava em sérias dificuldades por vencer. Afinal, ao invés de um convite para o trabalho, em molde fraterno, tinha um convite para trabalhar ou deixar penates. Levando em conta minhas falhas conscientes no mundo, e sentindo o peso da lei em base de reação eqüitativa, imaginava em programa salutar de trabalho, onde somente à custa de severa aplicação pessoal, poderia redimir aquelas mesmas falhas comprometedoras. Em resumo, nem sabia como me oferecer nem como me impor. – Quer seguir meu conselho? – indagou-me o homem num momento, em que sua palavra valia como um refrigério bendito. Por isso, respondi prontamente: – Seu convite vale por uma benção de Deus! Aceito, seja para o que for, pois sei que, apesar da rigidez da lei, o fim é elevar as criaturas. – Os próprios tribunais da terra – considerou ele – condenam segundo o conhecimento de causa do delinqüente. E o senhor se valeu do muito conhecer, apenas para efetivar vaidades discussionais junto de amigos e adeptos de credos em geral. Sua erudição foi, não só falha de sentido prático ou construtivo, como, também, criminosa. Procurou, com ela, amesquinhar saberes alheios, pisar sobre a simplicidade construtiva de quem, muitas vezes, sabia muito menos e praticava muito mais. E nesse momento, francamente, como me revi integralmente aéreo no mundo! Que sensação de dor moral me invadia a alma! Sentia-me como precisante de amparo, de apoio, quase de esmola! E foi por isso que disse, baixando a cabeça: – Preciso de auxílio... Serei grato para com tudo quanto me façam, no sentido de orientação redentora. – Muito bem. – disse o homem – Muito bem. Vou levá-lo e entregá-lo a quem de direito. Espero se dedique ao culto do bem geral, começando por beneficiar aos irmãos mais precisados, por saber que nenhum bem pode começar de cima para baixo, mas sim, de baixo para cima. Não se esqueça de que o Mestre Planetário, veio em busca dos pequeninos do mundo, dos Seus irmãos em geral, não se entregando apenas a fazer expoenças doutrinárias, fúteis e falhas de sentido prático. – Vou reencarnar brevemente? – arrisquei a perguntar.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.