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Capítulo 9 de 10
Parte 8 de 9
Estudos Filosóficos – A Psique · Manuel Sanz Benito
coisa sabida. «Nesse caso, diz este mesmo autor, há uma paralisia reflexa de um centro cortical que a ideia sugerida produziu» Depois disso, não deve nos surpreender que Liébault diga que «entre o sono espontâneo e o provocado não há basicamente nenhuma diferença.» Mas, a verdade irrompe e quanto mais tentamos detê-la, mais evidente fica a ineficácia de nossos esforços para consegui-lo. A atenção a esses fenômenos com objeto de desacreditá-los resultou na demonstração de sua realidade, e embora só se admitam aqueles que se enquadram em certas teorias, não pode haver ninguém tão obcecado que diga que tudo é farsa ou ilusão. Quando pretendia ter dito a última palavra falando em sugestão para explicar os fenômenos do hipnotismo, dizendo que a simples sugestão era a causa dos três estados de letargia, catalepsia e sonambulismo, relegando aos domínios da fábula a existência do fluido e dos fenômenos da dupla visão, são dadas a conhecer as experiências do Dr. Luys no Hospital de la Charité, onde o eminente médico anatômico faz ver como, em uma pessoa em estado de sonambulismo, podem ser produzidos estados análogos à embriaguez, hidrofobia, etc., apenas aplicando em seu pescoço tubos hermeticamente fechados contendo alguns gramas de conhaque ou de água.
Não só isso, mas à distância o haxixe contido em outro tubo fazia a voz da pessoa hipnotizada aumentar ou diminuir quando cantava. Agora: a doutrina da sugestão é insuficiente para explicar o real efeito dessas substâncias no organismo, muito mais quando não há contato: seria preciso reconhecer que através do cristal, algo emanado ou irradiado por essas substâncias chega ao organismo e produz seus efeitos ali. Não duvidemos disto; à medida que as experiências avançarem, nossos próprios contraditores terão de concordar conosco, por muitos nomes e apelidos que ponham nesses fenômenos, resistindo-se a reconhecer a realidade do espírito10. Também William Crookes, materialista convicto, nos fala em força psíquica para não nos falar em alma.
Mas não importa; o nome não faz a coisa; que os hipnotizadores continuem fazendo investigações, que verifiquem a realidade dos fenômenos e estes se encarregarão de nos provar que a alma não é um efeito resultante do funcionamento de certos órgãos, mas, ao contrário, o espírito é o ser, causa ativa de seus atos, e o organismo é o meio, instrumento ou elemento do qual se utiliza para realizar seus atos, para desdobrar suas faculdades.
10 N. do autor: Alguns, como o Dr. Pulido, já falam de correntes neurais.
Capítulo XVIII A lei moral, como lei universal. O bem e o mal
Todos os fenômenos variadíssimos do Universo estão sujeitos a leis, em virtude das quais se verificam. Essas leis ou regras, às quais os fatos se ajustam, não são precisamente algo externo às próprias coisas que se impõe para sua execução. A lei nada mais é do que o modo especial de agir dos seres, segundo sua natureza; a norma à qual todos os fenômenos e atos respondem. Quando observadas parcialmente, parece haver oposição entre umas leis e outras, da mesma forma que as forças se nos apresentam em combate singular. O que acontece é que elas estão subordinados umas às outras de acordo com sua respectiva importância. E qual será a lei suprema, da qual partem todas as outras e à qual todas estão sujeitas? É a lei moral, que rege e regula todas as leis do Universo. As forças físicas e intelectuais estão subordinadas a ela, e sendo a lei moral aquela que representa a mais alta elevação, o estado de progresso alcançado é por ela graduado.
Os seres, então, não diferem tanto por sua inteligência quanto por sua pureza, pela retidão de sua consciência. O progresso moral é o verdadeiro progresso: o progresso intelectual é antes um antecedente para realizar o progresso moral. Essa lei moral, sendo permanente em todos os seres, dá-se em cada um deles de maneira diferente, conforme seu avanço. Não obriga do mesmo modo àquele que é sábio como ao ignorante, à criança como ao velho, ao forte como ao fraco e, no entanto, todos estão sujeitos ao seu arbítrio. É, portanto, universal e rege cada homem de acordo com sua posição, idade, sexo, etc. A lei moral cumpre-se sempre: seu cumprimento nunca pode ser eludido, porque o bem sempre se realiza em maior ou menor escala.
Durante séculos, o bem e o mal não foram entendidos senão como dois princípios opostos, chegando-se às vezes a dar maior realidade ao segundo. No entanto, o mal não existe como tal: não tem realidade, pouca ou muita que seja; é como o frio ou as trevas: um não-ser. Melhor poderíamos dizer que o mal, como todas essas outras coisas, tem apenas uma existência subjetiva: reside na apreciação de quem o observa e assim o julga. Da mesma forma que as trevas não existem a não ser para nossos sentidos, incapazes de ver com luz escassa, o mal também não existe a não ser para nossa consciência, muito imperfeita, que não consegue ver como todos os atos trazem em si algum germe de bem. Para entender, então, o que seja o bem e o que seja o mal, devemos prescindir por completo do critério dos sentidos e olhar para os dados que a razão sensata possa designar.
Esta sã razão nos diz que todo fato, todo ato livremente praticado, é sempre feito tendo em vista um fim, um fim mais ou menos nobre, mais ou menos puro, mas sempre em vista de algum bem, já particular para o sujeito que o verifica, já para os outros seres. As faculdades postas em jogo não são más por si mesmas, mas pelo mau uso que se pode fazer delas; portanto, não há ato que seja em si mesmo mau de modo absoluto. Tudo o que a fantasia conseguiu imaginar como o pior e o mais ruim, sempre contém, em virtude desse princípio anterior, algum bem. Portanto, o mal como puro mal é um mito, é um não-ser, que nem sequer pode ser concebido. Caso contrário, se o mal tivesse realidade, teria de ser o oposto do bem, não um menos bem; da mesma forma que, o frio e a escuridão tendo realidade, teriam de ser qualidades opostas ao positivo e ao real, que é o calor e a luz.
Mas naqueles termos negativos não há nada além de uma questão de apreciação, seja por causa da imperfeição dos sentidos, seja pela imperfeição de nossa inteligência, que não alcança para compreender como todos os atos são transcendentais para o bem. Mas, não se creia que, negando a realidade do mal, vamos julgar todos os atos como igualmente bons e, portanto, em nada reprováveis, pois que nenhum é ruim. Não. Todo ato tem sua sanção de acordo com a intenção que o produziu e o efeito alcançado, e os atos que nossa consciência julga como maus é porque não estão de acordo com o que deveríamos fazer, e é preciso haver expiação e compensação para nos reabilitar por tê-los
executado. E não apenas os atos que transcendem ao exterior: todos os pensamentos, como estados de nossa inteligência, acusam maior ou menor perfeição. A sanção dos atos não é apenas a mais ou menos longo prazo. Todo ato produz seu efeito imediatamente. Aquele que age mal encontra-se rebaixado e já desmereceu desde o momento em que agiu. Embora o espírito possa refletir sobre uma vida inteira, a sanção do ato ou sua consequência seguiu à sua execução. Vemos, então, que a lei superior à qual todos os atos estão subordinados e que rege todas as outras leis, é a lei moral. Difícil é, à primeira vista, nos convencermos de que o bem é a lei moral suprema. Acostumados a julgar pelas impressões dos sentidos, vertemos nossas ideias nos moldes estreitos do mundo sensível e não damos aos nossos pensamentos outro escopo além do círculo limitado de nossas sensações. É preciso que a cada momento a razão se encarregue de retificar os dados de nossa percepção para validar os julgamentos e acertar sobre a verdadeira causa dos fenômenos.
Assim, durante séculos a Terra foi considerada imóvel no espaço, por nenhuma outra razão além de não sentir seu movimento. E, pelo contrário, acreditava-se que todas as estrelas giravam em torno desse átomo estelar, também sem outro fundamento além dos dados que nossa visão nos oferece. Da mesma forma, acreditava-se que um corpo quando queimado desaparecia, e foi necessário, para sair do erro, que a química reconstruísse novamente os elementos que entravam na combustão, e por meio da balança demonstrar que não houve perda alguma da matéria que constituía o corpo comburente. Assim também, reparando no dado sensível: como admitir que o bem deva reinar como soberano, quando há tanto egoísmo, tanta ambição, crime e infortúnio em toda parte? Será o amor o que leva o assassino a atacar sua vítima; o que move o ladrão para fazer o roubo; o que arma o braço do guerreiro para ceifar milhares de vidas em flor?
Pelo contrário, o mal-estar das sociedades, as revoluções que se sucedem, as crises econômicas, as doenças de toda espécie, os atrozes crimes que estarrecem e, como se não bastassem os males e as penas individuais, as terríveis epidemias e as não menos terríveis guerras que levam destruição e miséria a extensos territórios; tudo, ao que parece, indica que não é o amor que é
soberano, senão o egoísmo e a barbárie que triunfam neste combate único da vida. É verdade, bem verdade, que a vida de hoje está cheia de dor, perda, sofrimento, e que neste mundo há mais males, em geral, do que bens; mas esses fatos não invalidam, muito menos contradizem, essa lei infinita de amor que rege todas as outras. Vamos fazer um esclarecimento. Se dirigirmos nossas vistas sobre a superfície do globo, notamos multidão de desigualdades: montanhas que se elevam acima do nível comum, vales e depressões que descem consideravelmente em comparação com o nível das montanhas mais altas. Por um lado o Himalaia com seus altos picos, por outro lado o Saara com suas imensas planícies. E muito mais notamos essas sinuosidades que a Terra nos apresenta se, em vez de nos concentrarmos em olhar para elas, as percorrermos a pé. Como negar essas diferenças de nível se a cada momento estamos cansados e precisamos recuperar o fôlego para subir qualquer pequena ladeira?
Tudo isso é verdade; mas não é menos verdadeiro que nossos julgamentos são feitos por comparação, e que se comparando o nível da montanha com a planície, ela nos parece grande, comparando a montanha com a crosta terrestre parece-nos pequena. O que são todas as desigualdades da Terra em proporção à totalidade da massa planetária? Se representarmos a Terra por uma laranja, toda a crosta sólida estará figurada pela espessura de um papel de cigarro. O que representarão as desigualdades que o papel possa ter? Bem, é assim que as sinuosidades da Terra são, se comparadas com a própria Terra. A mesma coisa acontece com o valor que possuem os atos de nossa existência, pois temos que, como todos os atos são meios de progresso – pois que para quem faz o mal servem de incentivo para refazer seu trabalho, e para quem faz o bem servem de estímulo na empresa iniciada – resulta que nada é inútil; que, sem inibir a liberdade dos seres, todos os atos acabam afinal por redundar em seu benefício; assim, da dúvida, nasce o estudo; do desengano, experiência; da dor, a apreciação do que a saúde vale; das injustiças sociais, a necessidade de nos amarmos; da guerra, o anseio pelo bem-estar da paz; das necessidades físicas, a precisão de trabalhar para superá-las; e em último resultado, de tudo o que dizemos que é mau, a necessidade de aumentar e aperfeiçoar nossa atividade. E como todos os seres tendem a uma atividade maior, acontece que os atos
se totalizam todos eles, que nada se perde, que tudo é útil, assim como no mundo material nada se anula; tudo, em meio às suas mudanças, permanece. Mas, todos os seres, ao progredirem, devem fazê-lo precisamente através da identificação com os seus semelhantes, através do amor e do bem. A Criação obedece a um ato de amor infinito e todos os seres são como uma faísca. Aumentando sua intensidade, essa faísca torna-se luz e depois sol que vivifica inúmeros seres na escala do progresso.
Capítulo XIX A Filosofia em sua aplicação social
É uma verdade que nem as riquezas, nem as honras, nem os prazeres bastam para a satisfação do nosso espírito. As formas de governo, as mudanças políticas e os melhores Códigos também não podem, por si sós, tornar os homens felizes. Pode ser que por muitos séculos a humanidade tenha acreditado nisso, e vimos o homem se inspirar quase sempre no móbil do prazer para suas ações, mesmo quando para isso tivesse de sacrificar a vida de seus semelhantes, cobiçar tesouros e riquezas, almejar e pretender posições na vida social, embora muitas vezes tivesse de atropelar honras e vidas e martirizar cruelmente seus irmãos. E também vimos ensaiar todos os sistemas políticos, desde o despotismo mais repugnante, até a demagogia mais exagerada e os princípios sociais mais opostos, do comunismo nivelador ao individualismo mais egoísta.
O indivíduo, tanto isolado quanto associado a seus semelhantes formando povos, tribos e nações, empreendeu conquistas, sempre desejou expandir seu território à custa do que outros ocupavam, acreditando erroneamente que o povo de maior grandeza é aquele que mais domínios possui, e o governo mais forte é aquele que mais duramente castiga; como se a extensão do território ou a crueldade do governante pudessem jamais ser sinais de verdadeira grandeza. Quanto sangue derramado, quanta injustiça cometida, quantas extorsões, ultrajes e tormentos para que a bandeira nacional ostentasse triunfante, com razão ou sem ela, nos confins mais distantes do mundo! Há ainda quem na história da nossa pátria encontre, como mérito glorioso, o daquele império hispano-português que chegou a ser, de longe, maior do que o
romano, em cujo território o sol nunca se punha, e onde multidão de indivíduos pronunciavam orgulhosamente o nome de espanhol. No entanto, era quando milhões de índios permaneciam na escravidão, apesar de nossos excelentes códigos para protegê-los; quando travávamos guerras sangrentas nos Países Baixos e em outros pontos, pretendendo impor pela força das armas nossa política intolerante; quando a indústria estava quase morta, porque o ouro que vinha em grande quantidade da América nos fazia desprezar o trabalho. Tomando ouropel por ouro puro, nos elevávamos ao céu com nossos artistas, mas estávamos submersos na pavorosa miséria e na mais bárbara ignorância, preparando assim aquela rápida decadência dos últimos tempos da casa dos Áustria, em que a Espanha mais parecia uma comarca cheia de mendigos, do que nação povoada de cidadãos. Não. Nem o indivíduo é feliz porque às vezes beba do cálice do prazer, nem a sociedade é bem dirigida porque seja empurrada para o caminho de uma grande e rápida conquista. A felicidade reside apenas no cumprimento do dever.
E nem o melhor Governo nem a melhor Constituição são capazes de fazer felizes os povos em cujo seio predominarem a ignorância e a superstição e, consequentemente, a miséria do corpo e da alma. Daí segue-se que a ciência filosófica não pretende regenerar a sociedade pregando um credo político e social mais ou menos avançado. Não considera serem tão importantes assim as formas de governo que em momentos dados possam ter os povos; mas, tendo em conta a consciência, busca reformar o homem como indivíduo, porque sabe muito bem que, reformado o indivíduo, a sociedade resultante ficará por sua vez também reformada; e essas variações na forma política e na legislação serão corolários seus. A própria história nos demonstra que é inútil pedir e conceder direitos sem cumprir deveres, e que é inútil se reger por leis muito sábias e previdentes se os encarregados de aplicá-las prevaricam a todo momento.
No fato que acima mencionamos de nosso antigo domínio, quando estávamos nos tornando donos da maior parte da América do Sul, nossos monarcas, de Isabel a Católica até Carlos II, aprovaram leis muito boas, que formam o famoso Código das Índias, mas que não foram efetivamente aplicadas pelos encarregados de cumpri-las, que atenderam mais ao seu interesse particular em explorar os pobres indígenas, do que aos
sentimentos de caridade e aos deveres que a humanidade e a religião impõem a todos os seres. A mesma coisa acontece sempre que, sem reformar os costumes individuais, pretende-se reformar de raiz a sociedade: nenhum decreto é capaz de fechar a ferida e, por outro lado, não há chaga profunda o suficiente para que o esclarecimento e a moralidade não possam cauterizá-la. Mas, para reformar a Sociedade, é preciso primeiro mudar as ideias, porque as ideias regem o mundo, e este é governado por ideias. À primeira vista parece um contrassenso nestes tempos dizer que as ideias são os guias da sociedade, porque em toda parte se vê o egoísmo mais marcante, e esse egoísmo parece ser a antítese de um pensamento orientador na vida. Refletindo, porém, um pouco, devemos nos convencer de que não há, nem pode haver, exceção à lei geral enunciada; porque esse mesmo egoísmo que se traduz por imoralidade em todo tipo de organismos e atos particulares e coletivos, é efeito, nada mais, da falta de um nobre e elevado ideal de vida.
Acredita-se que depois dela não há nada; que é só aqui que os atos encontram sua sanção, e que, sabendo esquivar o mundo, conseguindo contornar a ação dos tribunais de justiça ou evitar ser feridos pelo indivíduo por nós ofendido, já estamos a salvo de qualquer evento e não temos nada a temer pela nossa parte. De onde vemos que neste caso, como em todos os outros, age-se como se pensa; e como se julga egoisticamente, com esse mesmo egoísmo nos comportamos. Mas, como o homem é sempre um eterno insatisfeito, nasce nele uma aspiração a um ideal de vida melhor, mais puro, mais humano, mais justo, onde não haja tantos exclusivismos de classe, de interesses e de ideias. Daí aquela aspiração mais ou menos ideal, a que tendem muitos poetas e pessoas de sentimento, de alcançar um melhor estado de felicidade, onde uma moral mais pura abrigue com seu manto todos os deserdados, hoje vítimas da desgraça e da miséria.
Zola, em um discurso dedicado à juventude francesa, condenava as inclinações ao misticismo e recomendava o trabalho e a fé na ciência, como único meio de alcançar a felicidade. Dumas, a propósito disso, publicou uma carta em Le Gaulois. Nela, referindo-se a um tempo próximo e melhor, disse que "quanto mais os homens acreditarem em sua previsão de que chegará infalível e proximamente a época em que, animados pelo amor ao
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.