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Capítulo 10 de 10
Parte 9 de 9
Estudos Filosóficos – A Psique · Manuel Sanz Benito
próximo, modificarão toda a sua existência por sua própria vontade, mais rápido será o advento dessa época"; e quer, anunciando a modificação dos sentimentos humanos, aproximar mais essa mudança. Tolstoi rejeita a teoria de Zola de fazer do trabalho a finalidade da vida, considerando-o apenas como uma necessidade. Aceita, com Dumas, o advento de uma época melhor, pelo desenvolvimento do amor ao próximo, e endossa as palavras deste ao dizer que "os homens, depois de terem experimentado tudo, acabarão, e muito em breve, aplicando seriamente à vida a lei do amor ao próximo, e serão invadidos pela loucura, a fúria do amor.» A ciência hoje em dia participa desse caráter egoísta que demos em chamar de positivo: lida com dados e examina fatos para aplicar as vantagens de suas investigações a necessidades momentâneas, para ter melhor indústria, mais comércio, maior bem-estar físico.
Estas são suas aspirações hoje: que o vapor voe, que a eletricidade funcione, que a luz desenhe e todas as forças naturais obedeçam submissas ao mandato do homem; mas tudo o que consideramos transcendente é descartado de alguma forma, e só aquilo que contempla o presente e tem caráter utilitário é o que fazemos objeto preferente de nossas miras e preocupações. E, no entanto, isso indica nada mais do que uma época de transição entre um mundo que está partindo e um mundo que está nascendo e chega com novas aspirações e outros rumos nas ideias. Em breve os livros que hoje consideramos como os melhores estarão poeirentos nas bibliotecas. As disputas acaloradas sobre o sufrágio e o júri, o sistema parlamentar ou representativo, a contribuição única e direta ou a necessidade de impostos indiretos, e tantas outras que hoje nos interessam e apaixonam, seja no âmbito político ou no social, não passará muito tempo antes de serem relegadas ao esquecimento, para dar lugar a outras questões e outras preocupações que irão requerer a atenção das inteligências futuras.
Cada geração busca os meios para resolver seus problemas; mas os de uma época não são os da seguinte. Assim vamos entendendo que, por mais terreno que tenhamos percorrido, nunca deixará de haver imenso campo a explorar no caminho indefinido do progresso. Mas há também suas tempestades e furacões na esfera social: há a revolução que escorraça em momentos determinados tudo aquilo que se opõe à passagem do povo irritado; há a reação que vai reduzindo
gradativamente as conquistas que a revolução tinha conseguido; há guerras devastadoras que deixam atrás de si, como rastos de indelével lembrança, a desolação e a fome, e há pestes e doenças que causam terríveis estragos e dizimam a humanidade. Não é preciso nos determos em pintar os quadros que a dor produz constantemente: fique isso para a Arte, que em seus divinos fulgores consegue comover e elevar nosso espírito. Em presença de tais acontecimentos, o dever da Filosofia é dar a explicação racional para esses eventos. Aristóteles disse que onde o amor impera, todas as leis são supérfluas; e será coisa de se ver como a miscelânea de códigos e leis atuais serão, em sua maior parte, inúteis para uma humanidade que tiver por guia o amor ao próximo e o amor à verdade em todas as suas manifestações.
Capítulo XX A força das ideias
Um eminente escritor francês, Fouillée, propagou com grande zelo o que ele chama de doutrina das ideias-forças. Consiste em aceitar como ideia qualquer estado de consciência que, desde que aparece, contém um princípio motor com tendência a se realizar. Assim, a ideia é o início do ato; e ele encontra uma semelhança entre a força das ideias e as forças físicas, pois ambas têm algumas características comuns. Sem ir muito adiante nessa doutrina, não há dúvida de que, assim como no mundo físico toda força que não encontra um obstáculo tenderia à expansão infinita, no mundo moral toda ideia precisa lutar com outras que se opõem à sua influência. No físico, as forças, quanto mais sutis e incoercíveis se manifestam, mais potência desdobram, mais energia desenvolvem. Em termos morais, quanto mais extensa, generosa e elevada é uma ideia, mais força de impulso e resistência ela possui.
Muitos filósofos, querendo sondar o interior da alma humana para ver que forças ou faculdades ela tinha, se esforçaram especialmente para analisar as propriedades da inteligência, acreditando que a instrução é a principal coisa que interessa ao homem. Hoje, a Filosofia retificou esse julgamento e descobriu que os atos humanos obedecem antes a desejos, impulsos e estímulos que nascem da esfera sensível, e que o sentimento tem um campo tão amplo na vida quanto a própria inteligência; e que o ideal da Pedagogia moderna, não é precisamente a instrução das faculdades intelectuais, mas a educação integral e harmônica de todas as forças do nosso ser. De onde vemos que a ideia cresce e se expande, abrangendo esferas cada vez maiores, horizontes mais extensos. Quando uma ideia chega a ser do domínio do espírito, ela sempre persiste nele. Como se explica, então, que alguns possuem boa memória e retêm rápida e facilmente o que aprenderam, enquanto outros se esforçam em vão para reter alguns conhecimentos que tão trabalhosamente
adquiriram? Ora, se o homem não esquece, como é que depois de certo tempo não se lembra mais de muito do que aprendeu? E se isso acontece na esfera do conhecimento, o mesmo acontece com os afetos, pois muitas vezes troca de objeto amado, sendo que o abandono, a perfídia e o engano cometidos acusam esquecimento do primeiro afeto. Além disso, se há memória para recordar, é claro e evidente que isso acontece porque é possível esquecer; então o esquecimento existe. Esse esquecimento, no entanto, é aparente, não real. Nunca podemos esquecer o que outrora se tornou nosso em nosso espírito, tanto na esfera do conhecimento quanto na esfera do sentimento: o que o homem aprendeu e amou persiste sempre, assim como seu espírito persiste. O que acontece é que temos por amor aquilo que é falácia da imaginação e temos por conhecimento aquilo que é aprendizado sem consciência; mas nem o primeiro é verdadeiro sentimento, nem o outro é conhecimento verdadeiro.
Quando a criança aprende que os paralelos são duas linhas que não se encontram por mais que se prolonguem, ela não precisa se lembrar desse conhecimento mais tarde, porque está presente em sua inteligência e sem nenhum esforço se manifesta e ela o vê: tal conhecimento não é passado em nossa mente; ele está presente e como está presente, ela o reproduz. Dessa forma, longe de a memória ser um simples arsenal onde armazenamos os conhecimentos adquiridos, ela é a própria consciência no tempo, ou seja, tudo o que é consciente dura e persiste. É a faculdade que a alma tem de sempre reter e reproduzir o que uma vez sua consciência adquiriu. É por isso que o desenvolvimento da memória começa a ser percebido quando a consciência começa a se desenvolver, aos três ou quatro anos de idade.
Perguntemos a qualquer um o que ele fez quando tinha dois anos, e ele não poderá responder, porque não estando naquela época ciente de seus atos, é impossível para ele lembrar-se deles; de onde se segue que a memória nada mais é do que a própria consciência continuada no tempo. Essa memória rotineira que repete palavras sem entender o significado está ligada de forma mais íntima com o organismo e depende mais da conformação do cérebro do que da facilidade do espírito em assimilar e reter, como evidencia o fato de esquecer em pouco tempo o que assim foi aprendido, porque na realidade não houve conhecimento verdadeiro.
Quanto ao sentimento, quem ama de verdade, nunca pode esquecer o amor que teve. Nem a ingratidão, nem os desenganos, nem a ausência, nem a morte serão suficientes para apagar esta memória porque, como ela está sempre presente no espírito, nunca se apaga e nunca chega a desaparecer. Dessa forma, o que chamamos de esquecimento não é tal: nada mais é do que a minoração da memória de um fato ou de uma ideia ou afeto, que, sendo consciente, pode ser reproduzido à nossa vontade. A faculdade de pensar no homem está sempre como as outras faculdades, em exercício contínuo, e o homem não pode por sua própria vontade parar de pensar. Um postulado necessário da vida da alma é a atividade que deriva de sua própria natureza e a priori podemos dizer que essa atividade é executada, embora às vezes não possamos verificá-la; a priori sabemos que os raios de um círculo são iguais, embora não os tenhamos medido. A alma é ativa, porque é uma energia que tende a sempre realizar atos, e como essa atividade se dá na forma de conhecimento, sentimento e volição, a alma é sempre uma energia ou uma atividade que pensa, sente e quer.
Capítulo XXI A causa absoluta. Unidade substancial divina
Todos os povos em suas diferentes crenças sempre reconheceram um além melhor, algo superior a eles que poderia influenciar seus destinos, ao qual deviam suas vidas e do qual podiam temer certos males quando não obedeciam aos seus mandatos. Daí o temor aos fenômenos naturais que cortavam o fio da nossa existência: o rio transbordante, o terremoto, o vulcão, o vento do furacão, o mar tempestuoso, eram objeto de adoração pelo pavor que lhes infundiam. Em contraste, o campo com seus belos prados, o sol com seu brilho ardente e a lua com sua luz plácida, as árvores e os animais que lhes traziam benefícios eram objeto de adoração em forma de agradecimento. Daí os dois deuses do bem e do mal em correspondência com os fenômenos ou seres que produziam o bem ou o mal para eles. Era natural que, endeusando fenômenos e coisas naturais, as pessoas também fossem endeusadas. E os reis e imperadores, considerados naturalmente superiores aos demais mortais, eram representações da mesma Divindade, como encarnações da entidade que transcendia a esfera comum dos humanos.
Aos poucos, à medida que a cultura foi aumentando, o conceito, já naturalista, já antropomórfico, da Divindade, também foi sendo depurado. Homens rudes e grosseiros haviam de imaginar um Deus dotado das mesmas paixões e da mesma ferocidade. Mas quando a razão gradualmente vai se sobrepondo aos sentidos e compreende as coisas, em sua verdadeira natureza e não como parecem à primeira vista, o conceito de Deus vai se elevando, assim como o conceito do mundo, do homem e do dever, da mesma forma que os sentimentos vão sendo mais depurados e
enobrecidos, removendo muito do que havia de particular, egoísta e mesquinho neles. Do que foi dito, pode-se inferir que, como a ideia de Deus foi se engrandecendo cada vez mais, os princípios que nossa razão aceita também irão sendo esclarecidos e aperfeiçoados, sem nunca terem um caráter absoluto; pois a criatura estará sempre a uma distância infinita da Divindade. Para começar, a ideia de um deus cruel e vingativo parece-nos hoje absurda e contrária à ideia de um Deus que deve ser o protótipo da bondade e da misericórdia. Aristóteles, pelo movimento de todas as coisas, chegou à existência de um motor imóvel, segundo o qual Deus seria o primeiro motor imóvel do Universo. Outros pensadores, reconhecendo o mundo como efeito, consideraram Deus como a Causa Primeira de tudo o que existe, e descartando panteísmos espiritualistas e materialistas que confundem o mundo com o Ser de Deus, outros filósofos admitiram uma espécie de dualidade entre o mundo e o seu autor. Mas esses conceitos são muito parciais e insuficientes para nos dar uma ideia melhor do Ser Supremo.
A existência de Deus como motor não explica os atributos do Ser Supremo e a forma como ele atua no Universo. Da mesma forma, a existência de Deus tão só como causa, não explica suficientemente em que medida o efeito tem as propriedades da causa da qual é derivado e quais são essas propriedades. Finalmente, o dualismo não explica e não pode explicar como Deus se comunica e influencia o mundo. Tampouco é possível admitir que a Criação seja um ato de força ou uma necessidade do Criador. O Criador não cria por força, o Criador cria por amor, e em virtude de um gesto de amor a Criação existe, e em virtude de uma força infinita de amor a Criação é, a Criação continua e a Criação será, porque o milagre da Criação repete-se todos os dias. Deus neste sentido não tem deixado de criar.
Quanto à Providência, Deus não é Providência porque às vezes intervém no mundo, principalmente em grandes ocasiões, quando as nações estão em perigo; nem o verifica intermitentemente, quando acredita que precisam dele, realizando grandes prodígios, como punir com doenças cruéis aqueles que transgrediram, vendo-se assim o castigo de Deus nos flagelos e calamidades humanas.
Deus é eternamente Providência, porque eternamente cria ou produz e eternamente faz com que as coisas sejam modificadas e transformadas para irem cumprindo seus destinos. Portanto, não é possível que essa providência se esgote, jamais; isso que seria tanto quanto esgotar-se aquela corrente infinita de amor divino que nos atrai para as esferas superiores, que nos encoraja e fortalece e que faz com que nossas ações tenham transcendência apenas para o bem. Deus é uno, o mundo é uno e o espírito também é uno; mas Deus é uno por si mesmo, o mundo é uno porque procede de Deus, e Deus em suas obras se manifesta de acordo com sua natureza única. O mundo é uno porque é um só: dois mundos viriam de dois deuses diferentes; e o espírito é uno porque é individual e individualizado subsiste. Deus é único, pois é impossível ao homem conceber dois Princípios, dois Seres, duas manifestações infinitas e absolutas: Deus é, portanto, um só Deus.
Deus também se manifesta em perfeita unidade; isto é, que em seus atos, em todas as suas manifestações, ele sempre age de acordo com sua única natureza, sem que seja possível ao homem, que vive no finito, elevarse ao conceito completo da natureza divina. Unicamente o ser inteligente irá conhecendo acerca de Deus tanto quanto conhecer acerca de si mesmo e, mesmo se tornar-se grande, esse conhecimento, como jamais – em nenhum momento de sua vida – poderá ser infinito, a natureza divina e sua manifestação infinita, eterna e perfeita permanecerão sempre desconhecidas em toda a sua integridade para o espírito finito e imperfeito; e como este se manifesta em estados sucessivos e indefinidos, enquanto Deus sempre opera em unidade e perfeita conformidade com sua natureza essencial, existe grande dificuldade por parte da criatura para conhecer no tempo o que é eterno; na sucessividade o que é em simples manifestação; e na imperfeição e na finitude o que não podemos menos do que considerar como perfeito e infinitamente absoluto. Deus estará sempre além do último além, da inteligência de todo ser finito.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.