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Capítulo 4 de 10

Parte 3 de 9

Estudos Filosóficos – A Psique · Manuel Sanz Benito

verifique, do qual, direta ou indiretamente, não receba a influência no que chamo de meu espírito; fenômeno que se comprova mais à medida que o ato vai se tornando mais claro e distinto. Essa unidade de nossa natureza, que mostra a todo momento, como vimos, a unidade de nosso ser, não impede, porém, para que possamos certificar-nos da distinção dos elementos, forças ou funções que nele ocorrem. Até hoje, o corpo foi tido por muitos como algo desprezível e indigno, e talvez desse exagero tenha nascido o exagero oposto de supor que não há nada mais do que matéria em nós, entendendo é claro, por matéria, o que afeta nosso sentidos. Mas, poderíamos supor que um fenômeno como a quilificação, onde as forças do organismo intervêm para produzir a transformação química dos alimentos, seja a mesma coisa que a elaboração do pensamento, ou a discussão de um tema?

Poderemos nunca supor que a aceleração dos batimentos cardíacos, produzida pelo fato de correr, é devida à mesma causa que essa aceleração, quando é causada pela impaciência de uma notícia almejada? Podemos confundir a força muscular empregada para levantar um certo peso, com a força intelectual capaz de medir e calcular enormes distâncias? Por mais que alambiquemos e façamos distinções sutis, por mais que duvidemos, seremos obrigados a confessar que a atividade ou força que produz os fenômenos químicos e orgânicos em nosso corpo não é a mesma atividade ou força que dá origem aos fenômenos anímicos; e embora a observação nos ateste que não há essa suposta separação entre atos materiais e atos espirituais, que a força psíquica utiliza-se das outras para realizar seus fins e cumprir seus propósitos, a própria observação nos mostra que não há e não pode haver paridade entre uma e outra; que pode haver um grande desenvolvimento do organismo, cumprindo ele perfeitamente suas funções, e ainda assim as faculdades da inteligência ou da sensibilidade estarem atrofiadas, que pode alguém possuir grande energia física e ser inútil para qualquer trabalho intelectual que exija algum esforço e perseverança. Portanto, se em nós há um organismo que cumpre suas funções de acordo com as leis materiais, há também uma força que anima esse organismo, que, unida a ele, o impele constantemente, o dirige e

o determina a agir, e essa força é o que produz os atos que estimamos como mais importantes na vida. Esta é a força psíquica. Os homens, de fato, não são apreciados por sua altura, por sua força, por seu peso, pela melhor ou pior respiração e por quão bem ou mal digerem; eles são estimados antes por seus atos intelectuais: entre aquele que usa sua força muscular para levantar pesos e uma máquina há uma semelhança de funções, mas não entre esta mesma máquina e aquele que move sua inteligência para conceber uma verdade ou aquele que sente seu coração docemente comovido por uma afeição terna e íntima que o inclina a fazer o bem em benefício de seus semelhantes. Em meio a esse materialismo absorvente que nos envolve, é preciso insistir mais uma vez em mostrar como, simplesmente atendendo ao testemunho de nossa própria consciência, vemos que mesmo aqueles que se mostram tão positivistas dão mais importância aos atos psíquicos do que aos atos da vida física: àqueles em que a força anímica move, impulsiona e dirige, do que a outros em que predominando as leis materiais, são utilizadas apenas forças mecânicas, que podem ser substituídas por outras por sua vez mais poderosas. Daí a grande verdade

do aforismo: Mens agitat molem. 4 Nota de SEDE: "A mente move a matéria" (Virgílio, Eneida)

parei aki

Capítulo V A força psíquica e as forças orgânicas

O que foi dito acima nos põe em caminho para ver as diferenças mais notáveis entre a força, que produz os fenômenos psíquicos, e as funções orgânicas do nosso corpo. Para isso nada melhor do que comparar as leis a que ambos obedecem, pois todos os fatos obedecem sempre a uma regra invariável que é a sua lei, e buscando as leis desses fatos veremos as diferenças que existem entre eles. O organismo humano está sujeito desde sua formação aos processos dinâmicos, químicos e orgânicos aos quais estão submetidos os demais corpos da natureza. Não vemos nenhum privilégio neste ponto para o nosso organismo, pois ele obedece às mesmas leis que todos os outros, e os mesmos fenômenos ocorrem nele como nos demais. O calor, a luz e a eletricidade com a variedade de fenômenos a que dão lugar, influenciam e ocorrem em nosso corpo como em qualquer outro corpo animal.

Nosso organismo, quando carece de certo número de graus de calor de que necessita, fica enregelado e incapaz de desempenhar suas funções; se é a luz que está faltando, sua influência é muito sentida, e a eletricidade também influi sobre ele da mesma forma que sobre qualquer outro organismo, produzindo variedade de fenômenos. No que diz respeito ao processo químico, os alimentos se dissolvem graças aos sucos do nosso interior, como poderia acontecer em outro corpo de maneira análoga, e no que diz respeito à assimilação e desassimilação, não há diferença notável com qualquer outro organismo semelhante. Nossa origem orgânica, como a de todos os seres, é uma célula, da qual derivam várias outras, que por sua vez dão origem a tecidos, órgãos e aparelhos. Nosso corpo cresce e se desenvolve no espaço até certo limite, e então entra em um período de

paralisação em seu movimento ascendente, até que sobrevém o fenômeno que chamamos de morte. Até aqui não vemos nada de particular em nós que não vejamos em qualquer outro dos muitos seres análogos que povoam a Terra. Mas, por sua vez, o que chamamos de espírito, como força que anima e vivifica o organismo, não está sujeito a essas leis físico-químicas e nem orgânicas, embora os efeitos dos atos materiais tenham impacto em seu ser, devido à íntima relação entre o espírito e o corpo. O espírito tem por lei a espontaneidade, a atividade constante em todos os seus atos e determinações. Não está por um momento em repouso, e essa atividade não é apenas contínua, mas progressiva. Nosso corpo chega a um ponto em que não cresce mais, em que deixa de nutrir-se e morre. Nosso espírito constantemente se alimenta de novas ideias, novos afeições e cabem nele novas determinações de sua vontade, que por sua vez produzem novos movimentos em seu ser, que servem para realizar outros atos diferentes dos já verificados.

O máximo a que chega o progresso fisiológico moderno é a esta conclusão: o espírito se desenvolve paralelamente ao organismo; e até mesmo isso não é verdade em muitos casos, onde quer que haja uma alma viril e enérgica em um corpo doente e fraco e, ao contrário, um espírito preguiçoso e apático em um organismo forte e bem desenvolvido. Temos, então, que, no que diz respeito ao organismo físico, ele não tem privilégio algum em relação ao resto dos organismos deste planeta. Todas as leis naturais ocorrem nele da mesma maneira, e por isso o homem foi chamado de microcosmo, porque é de fato um mundo em tamanho pequeno. E temos também que, através dos atos psíquicos, tomamos conhecimento da força análoga que os produz, sendo esta força o elemento inteligente que nos anima, o elemento propulsor que move e dirige, aquele que é causa de nossos atos, pelo qual nos dizemos seres livres e responsáveis; o espírito, em fim, ou alma. Mas essa força psíquica, esse espírito que reconhecemos, teria sua origem no próprio organismo?

Seria uma vibração ou um movimento mais ou menos sutil dos nervos ou da massa cerebral? Seria uma função, afinal, dessa parte do organismo, como as funções de outros órgãos? Certamente, se os efeitos da força pensante fossem análogos aos fenômenos físicos, não haveria dúvida; mas se vemos que são de natureza

muito diferente, a razão nos diz que não têm sua raiz, seu princípio de origem, nesse mesmo organismo. Porém, dir-se-á: concedemos que o espírito existe como força que não deve sua existência ao organismo físico, que não é uma de suas funções, nem o resultado de certos movimentos; mas isso não prova que ele não possa viver sem um corpo, antes vemos que, geralmente, se o corpo é enfraquecido por afecções locais ou gerais, a alma também fica enfraquecida e gradualmente perde suas faculdades. Se a vida de um órgão importante é interrompida, o espírito cessa em suas funções; Por exemplo, se o cérebro está doente ou ferido, o espírito fica incapacitado de conceber, de julgar, de raciocinar, de exercer, enfim, seus atos psíquicos. Que espírito, então, é esse independente do corpo, ao qual não deve sua origem e que, no entanto, permanece como que subjugado, de tal forma que a interrupção de sua vida suspenda também a dele?

Como acontece nos casos em que uma lesão cerebral produz os fenômenos de amnésia, afasia e similares. Efetivamente; a objeção não deixa de ter força se afirmamos que o espírito é independente do organismo e, portanto, não precisa dele para nada: isso é absurdo. Mas uma coisa é que o espírito precise, para agir, da assistência do corpo, e outra que este não seja nada mais que um instrumento, com objeto e finalidade determinados, a serviço do espírito; conjunto de aparelhos cujas finalidades são duas: receber impressões para transmiti-las à força psíquica e assim tomar consciência delas para saber o que está acontecendo no mundo externo e no próprio organismo; e reagir no mundo exterior em virtude do impulso comunicado pelo espírito, para pôr em movimento as diferentes partes do corpo e traduzir suas volições em atos.

Este corpo, então, que temos, nada mais é do que um meio, como a caneta e o papel o são para escrever, como um instrumento musical para executar uma peça musical, como um telescópio para ver um objeto à distância, um barco para navegar, etc.: meios; e meios, se quisermos, indispensáveis; mas nem a pena é quem escreve, nem o piano que toca, nem o aparelho telegráfico que transmite comunicados: é o elemento inteligente que dirige, que impele, que verifica certos fenômenos, porque, utilizando-se das leis naturais, faz com que tais fenômenos se manifestem. Este é, então, o corpo: um instrumento com esta dupla finalidade: concentrar as impressões no espírito para que, através da sensação, tome consciência do mundo

exterior e de seu próprio organismo, e assim agir sobre os outros objetos para o espírito realizar seus desejos. Sem órgãos da linguagem não falaremos, mas a linguagem nada mais é do que um signo, um meio para falar; e igualmente os outros signos. Assim, as diferenças entre o espírito e o corpo provam que um não é o outro; que embora haja contato contínuo, comércio psicofísico, os caracteres de um não são os caracteres que vemos no outro, e que, por dedução, efeitos diversos pressupõem causas diversas.

Capítulo VI A psicofísica

Se há alguma verdade comprovada nos estudos antropológicos, é que, no homem, tudo é psicofísico; isto é, que todos os seus atos são de espírito e corpo ao mesmo tempo; que não há fenômeno, que não há estado, em que ambos os fatores não intervenham: o entusiasmo mais ideal, o misticismo mais espiritualista têm sua correlação, sua correspondência e tradução no externo, no orgânico; e o movimento da mais insignificante fibra, do menor órgão ou tecido do nosso corpo, seja ele simplesmente vibratório, seja automático ou reflexo, tem sua repercussão no espírito: é permeado e influenciado por aquela força que constantemente impulsiona e dirige nossas ações voluntárias, e que anima e regula inconsciente mas obviamente, os outros fenômenos da vida. Sem o espírito não há ser, não há propulsor, não há centro de forças convergentes, e sem o corpo não há instrumento, não há meio, não há manifestação e, portanto, não há tradução de energias, enquanto o homem é tal.

Daqui nasceram os delicados trabalhos sobre a relação e influência mútua de um e outro elemento, do espírito e do corpo, que resultaram no conhecimento de algumas das suas diferenças e das respectivas leis a que obedecem. Weber e Fechner, Delboeuf, Wundt e Helmoltz figuram em primeira linha entre os que mais se distinguiram nesses trabalhos de psicofísica. Uma verdade muito simples e importante decorre deles, a saber: que todos os fenômenos de relação entre o espírito e o corpo ficam simplesmente reduzidos a duas classes, sensação e movimento; a inspiração mais genial e sublime, bem como a impressão mais tosca, são traduzidas dessas duas maneiras, como sensação e movimento, em que um causa o outro. Toquemos um objeto muito quente: a impressão desse objeto em nossa pele, transmitida pelos nervos sensoriais ao cérebro, produz a sensação de dor, e esta, o impulso do espírito, que comunicado

pelos nervos motores aos músculos do braço e da mão faz com que a retiremos; pelo qual vemos que a sensação causou o movimento. Mas não é necessário que ocorra a sensação de dor para que o movimento aconteça: basta que vejamos o objeto para que retiremos a mão e não o toquemos; não há então sensação de dor, mas há o mesmo movimento: é que a memória de sensações dolorosas anteriores é preservada, e sabemos por experiência que isso produziria dor. Em todo caso, o ato é psicofísico, devido a uma impressão externa traduzida em impulso do espírito. Deste modo é verdadeiro que o homem pensa com o cérebro, mas é errado que o cérebro pense: o pensamento supõe os dois fatores, espírito e corpo. Porém, dizemos que não há ato exclusivamente espiritual e nem somente corporal, mas que todos os que o homem executa são psicofísicos, de espírito e corpo, embora prevalecendo um ou outro elemento.

A partir dessa base, procurou-se concluir que o espírito nada mais é do que o resultado da atividade cerebral, um movimento funcional desse órgão. Mas a verdade é que essas mesmas investigações vieram demonstrar o contrário. Sensação e movimento são as duas maneiras pelas quais todos os atos humanos se manifestam, mas uma não é o outro, muitas vezes nem sequer estão em relação proporcional. O movimento não é uma simples resposta em quantidade e qualidade à impressão recebida: é de uma ordem diferente e muito superior. Assim, o cérebro não é – como se supunha – feito estação telegráfica destinada a receber as impressões que como despachos lhe são comunicadas pelos nervos sensoriais (distribuídos a modo de fios telegráficos por todas as partes do nosso corpo), para depois transmitir esse mesmo despacho, através dos nervos motores, à periferia do nosso corpo e reagir sobre o exterior, provocando o movimento desta ou daquela parte ou de todo o corpo; senão que é preciso contar com o telegrafista, o espírito, que longe de ser passivo, modifica o relato de tal forma que a mesma impressão recebida por diferentes indivíduos ou pela mesma pessoa em diferentes circunstâncias produz resultados diferentes, pela essencialíssima parte que nisso toma o espírito.

Se, por exemplo, a palavra fogo é ouvida em um teatro, com certeza a maioria dos espectadores precipitam-se de seus assentos e tentam sair com a maior rapidez. O movimento, no entanto, não é consequência da simples ondulação material

que chegou aos nossos ouvidos, como o movimento da bola de bilhar é proporcional à força do golpe que recebe, mas o movimento do nosso corpo nesse caso é devido à interpretação que o espírito faz rapidamente do que essa palavra significa; de tal forma que os espectadores mais distantes podem muito bem se movimentar com mais energia e velocidade do que aqueles outros que ouviram a voz com mais intensidade por estarem mais próximos; e com toda certeza, se entre os assistentes há alguém que é estrangeiro e não entende o significado, apesar de ter recebido a mesma impressão em seu ouvido ele não sairá de seu lugar até que, pela agitação dos outros, entenda que há perigo. Isso prova a realidade do espírito como ser distinto do corpo, o qual é um meio ou instrumento de que o espírito se utiliza para se comunicar com o mundo exterior e poder reagir sobre as impressões recebidas. Quais são suas faculdades? É uma só ou são várias?

Capítulo VII A consciência

Victor Hugo diz: “Há uma coisa maior do que o mar e é o céu; e há uma coisa maior que o céu: o interior da alma humana”. De fato, na alma dão-se grandezas e maravilhas inefáveis, como nos espaços estelares, e também há abismos, mais profundos do que os abismos da matéria. Na alma, a inteligência irradia com uma luz tão vivíssima para a vida do espírito como a luz do sol que ilumina nossos passos materiais; e às vezes há tanta escuridão no pensamento quando nos faltam ideias, quanto há escuridão para nossa fraca retina quando os raios do sol não a ferem. Quem já não viu cruzar ligeiras aquelas estrelas cadentes nas noites de verão, que um momento brilham à nossa vista para depois esvair-se e desaparecer? Quem não vê também sulcar nossa mente ideias e pensamentos que se extinguem no momento, mais rapidamente do que aquelas estrelas veem a sua luz se apagar?

Quando a atmosfera está carregada de eletricidade e as nuvens se acumulam, e o trovão se faz ouvir e o raio explode, sentimos espanto; mas as tempestades do espírito são ainda mais temíveis. Assim como o relâmpago surge do choque de eletricidades opostas, do choque de sentimentos opostos e de ideias conflitantes surge a cólera que se desencadeia em raios de vingança e do ódio que fere ou mata; com a diferença de que as tempestades atmosféricas purificam o ambiente e as tempestades humanas às vezes deixam a alma sobrecarregada pelo peso de um remorso. De onde nasce, então, aquela força tão variada que vemos na alma humana; que às vezes ela está arrebatada em oração mística pedindo ao Pai das misericórdias calma e fortaleza para suportar as batalhas da vida e outras vezes, agitando-se furiosa e ressentida, prorrompe em maldições e

blasfêmias? Mesmo parece que sejam duas almas, ou então uma só mas com propriedades completamente opostas. Por outro lado, quando vemos em nós mesmos um estímulo que nos faz erguer os olhos do espírito e aspirar a um além sonhado mas não conhecido, enquanto as necessidades orgânicas nos retêm quando tentamos superá-las; parece confirmar a sentença de Pascal de que o homem é anjo e besta, que se bem sua inteligência o eleva ao céu, seus pés o acorrentam à terra; luta interior expressa por Espronceda quando disse: «Aqui para viver em santa calma Ou sobra a matéria, ou sobra a alma.»

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.