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Capítulo 5 de 10
Parte 4 de 9
Estudos Filosóficos – A Psique · Manuel Sanz Benito
É, portanto, necessário saber se o espírito, quando erra e depois se arrepende e lamenta o erro cometido, possui faculdades diferentes, umas que o estimulam para o mal, outras que o fazem reconhecer e odiar esse mesmo mal; umas que o elevam ao ciclo do amor mais imaculado e puro e outras que o atraem e o submetem a ser escravo das sensações mais grosseiras. Não existe essa dualidade: a alma é una e sempre a mesma, mas agindo em diferente estado, situação e modo de ser distinto. O criminoso mais endurecido pode se tornar o homem mais exemplar, sendo o mesmo ser, o mesmo espírito, mas que pensa e sente então de forma diferente. E como os atos são consequência dos pensamentos, necessariamente, ao pensar diferente, ele também age e se comporta de forma diferente. Se arrancarmos um diamante das entranhas carboníferas da terra, a princípio nenhum fulgor irradia; mas ao ser brunido, quanto mais facetas são polidas, mais reflexos ele emite. No entanto, ele é o mesmo diamante quando não apresenta brilho algum e quando nos deslumbra com seus resplendores. Mudou de natureza?
Não; apenas mudou seu estado, sua forma, seu polimento. Isso também acontece com o espírito: quando a inteligência retém apenas algumas sensações, é o mesmo ser que quando, pelo esforço e o trabalho, combina e reflete sobre multidão de ideias; quando um afeto mais ou menos sensualista mal desponta timidamente, é o mesmo que quando seu ser se expande em amor inefável e envolve outros seres, chegando mesmo a se sacrificar por eles, se necessário; e se primeiro ele é fraco e indeciso, hesitante em seus propósitos, ele não é outro depois, quando enérgico e
forte, sabe guiar seus passos conscientemente e com segurança no árduo caminho da vida. Porém, não é só no mesmo ser que nunca muda sua natureza essencial, mas entre alma e alma não há diferença de natureza; só há diferença de desenvolvimento em propriedades idênticas. Um diamante é sempre carbono puro cristalizado, como qualquer outro, embora reflita mais ou menos luz; um espírito é sempre um ser racional que irradia mais ou menos luz espiritual, conforme o desenvolvimento de sua inteligência, a intensidade e pureza de seus afetos e a energia de sua vontade. E assim como dois círculos são sempre iguais no essencial, já que as diferenças de posição e magnitude não os impedem de ter ambos os dois as mesmas propriedades fundamentais, as diferenças de todos os seres racionais não são suficientes para concernir suas faculdades essenciais: entre o mais ignorante e aquele com mais talento, como entre os mais perversos e os mais santos não há diferença essencial, na qualidade: há uma diferença maior ou menor, na quantidade, no desenvolvimento, na modalização de suas faculdades; ou melhor, no grau de progresso da única faculdade que o espírito tem: a consciência.
Todas as outras (como veremos) são modificações desta, ou é a própria consciência agindo de forma diferente conforme o caso, ao modo em que as cores são a própria luz modificada. Entretanto reconheçamos que o espírito é sempre idêntico a si mesmo, em meio às suas mudanças de estados e fenômenos de suas mudanças de ideias, opiniões e sentimentos, cuja propriedade nós a reconhecemos porque nossa consciência assim atesta.
Capítulo VIII Caracteres do espírito em si mesmo
A experiência pessoal é muito limitada no tempo e no espaço, e o horizonte sensível que ela ilumina é de muito curto alcance. Para auxiliar melhor a nossa pesquisa, é necessário um telescópio mais poderoso: esse telescópio que nos permite ver as coisas até os confins de nossa personalidade, é a razão. Graças a ela sabemos sobre o que é fundamental, o que é permanente e essencial de um ser, de uma ideia, de um princípio; e pela sua qualidade de conhecimento universal ela é sempre aplicável a todos os tipos de conhecimento desta natureza. Partindo da natureza das coisas, perceptível por esta faculdade, reconhecemos que as linhas paralelas, por exemplo, nunca se encontram mesmo quando são prolongadas, por mais que seja impossível traçá-las até o infinito; também sabemos que todos os círculos são redondos, embora nunca nos seja possível ver todos aqueles que foram traçados por todos os homens; porque não é uma mera indução baseada em analogias: é baseada nas propriedades essenciais de sua natureza. O que é, então, o espírito em suas qualidades permanentes?
Sempre e em toda parte o espírito é uma atividade que se move, vive e age constantemente: um elemento inteligente que anima um organismo, que é o meio de expressão de sua força interna e de relação com os outros seres: um ser íntegro, total, completo, em qualquer momento da sua vida. Não existe no espírito um centro especial de faculdades. Ele tem apenas uma: a qualidade de ser e estar em si, de perceber toda relação externa e toda manifestação interna, qualidade que chamamos de Consciência e que é sucessivamente expansível em seu desenvolvimento. Todas as faculdades são derivações desta, ou melhor, são a própria consciência agindo de modo determinado. Portanto, o espírito não adquire, em seu aprimoramento,
qualidades que já não possua, nem faculdades novas; ele apenas desenvolve a atividade desta única faculdade, a Consciência. Esta condição, de ser e de se manifestar o espírito, faz com que sempre atue em unidade, que se manifeste sempre na totalidade do seu ser. Em qualquer ato do espírito, de fato, o espírito todo se manifesta; porque ele é simples, íntegro e total. Os atos variam, no entanto, ao infinito; mas é devido à determinação voluntária que os acompanha, é pelo diferente grau de intenção ou pela maior ou menor intensidade de sentimento que os anima, pois nunca estão equilibradas no espírito suas forças, que chamamos de faculdades, ou as diferentes determinações de sua Consciência que tomam este nome. No máximo, há um equilíbrio instável: mas, pela mesma razão, é de curta duração. Os estados ou as determinações de sua atividade que o espírito realiza em sua vida, nós os chamamos de atos. Esses atos do espírito são sempre sucessivos e contínuos. Não há dois deles que sejam completamente iguais.
Sendo o espírito um ser permanente e tendo como qualidade essencial a Consciência, é esta qualidade que o acompanha em maior ou menor grau de desenvolvimento. Os atos, então, conscientes, são permanentes para ele. Daí que ele possa reproduzi-los quantas vezes quiser. Não é precisamente que ele os guarde na memória por mais ou menos tempo, nem que, na realidade, esses atos ou estados sejam permanentes, mas sim que ele tem o poder de reproduzir os estados conscientes pelos quais passou, sendo neste sentido permanentes nele. A sucessão dos estados do espírito gera seu tempo. O tempo, então, do espírito não está sujeito às leis da natureza física como o corpo.
Normalmente nossa vida é contada pelo desenvolvimento do organismo carnal, de acordo com as leis naturais, e assim dizemos, por exemplo, que tem trinta anos de idade aquele indivíduo que, no período de seu nascimento até hoje, a terra deu trinta voltas ao redor do sol; e como o corpo está sujeito a esse processo de natureza planetária, pois nasce, cresce, se nutre e morre como os outros seres naturais, ocorre que contamos a idade do homem pelo que nele é mais contingente e menos importante: pela idade do corpo. Mas às vezes acontece que enquanto um indivíduo tem trinta anos, porque esta é a idade de seu corpo, seu espírito inculto, pouco desenvolvido, tem menos idade, isto é, menos atividade ou
menos vida do que outro indivíduo que, de menor idade material, experimentou mais afeições, teve mais determinações voluntárias e mais ideias em sua inteligência. Consequentemente, não vive mais aquele que tem mais anos, e sim aquele que mais desenvolve seu espírito. O espírito, porém, em seu ser, está fora do tempo. Ele engendra seu tempo ao produzir atos sucessivos; mas sua essência está fora dessa condicionalidade; sua vida é contínua; sua atividade é permanente, e somente nos estados dessa atividade é que se produz seu tempo: tempo relativo a ele e não a outro ser, tempo que nada tem a ver com as mudanças dos outros seres, nem, portanto, com os tempos do planetas ao percorrer suas órbitas. Além disso, cada planeta tem seu tempo, segundo a maior ou menor velocidade com que gira, do que resulta que, tendo velocidades muito desiguais, também têm tempos diferentes. Assim, não só para o espírito, mas também para os corpos rege esta mesma lei: o tempo é originado pela sucessão de atos, de movimentos, e cada ser está sujeito a seus movimentos próprios.
O organismo limita o espírito como um molde limita a matéria que contém. No entanto, isso não é inteiramente exato, porque o espírito não está encerrado no organismo, pois o inferior não pode conter o superior, mas irradia através dele, assim como a luz não está encerrada no tubo de uma lâmpada, mas se espalha em um círculo de maior ou menor alcance. O espírito, dizemos, tem a Consciência como sua única faculdade da qual todas se derivam em série diferencial; ele desenvolve a Consciência com a mudança de estados, desde que estes aperfeiçoem sua natureza. Contudo; o que aperfeiçoa nossa natureza, o que nos satisfaz porque se conforma à nossa essência, isso é o Bem. De modo que cumprir o Bem é a realização da essência do espírito: é o que o aperfeiçoa; e como para isso é necessário o relacionamento com nossos semelhantes e com todos os outros seres, o espírito também tem essa faculdade de relacionamento.
É um ser de relações universais, de tal modo que todos os fenômenos podemos dizer que chegam até ele, que nele repercutem. Cada ser, porém, só aprecia aquilo que pode alcançar no limite de seu desenvolvimento essencial; e à medida que mais se aperfeiçoa, mais reflete de si mesmo as belezas que percebe, assim como o diamante, ao ser polido, reflete melhor os puros fulgores da luz.
Disso segue-se que não existe qualquer ser isolado. Todo ser está contido na esfera de outro e de outros seres. O universo inteiro é assim permeado e animado pela Causa absoluta. Então, a força que impulsiona os seres e os obriga a progredir depende não apenas da virtualidade de suas faculdades, mas também do fato de que essa esfera superior de atividade que nos permeia, que nos anima e vivifica, determina de certa forma os movimentos e atos que, sem limitar nosso livre arbítrio, têm como principal objetivo nos fazer evoluir, elevando-nos acima do nível de avanço já adquirido. Todos os seres sentem em si aspirações ao perfeito, sentem em si mesmos aquela força que não conhecem e que os encoraja a continuar sua atividade para alcançar maior perfeição. Não há seres desconhecidos, não há seres esquecidos e, todos influenciados, todos vivificados pelo sopro da atividade Criadora, vamos no Universo infinito cumprindo nossos destinos, identificando-nos cada vez melhor, desenvolvendo nossas faculdades mais plenamente, sentindo cada vez mais do Universo, de nós mesmos e da Divindade na proporção do desenvolvimento alcançado.
Capítulo IX As faculdades anímicas
Vimos que o espírito tem apenas uma faculdade, a consciência; pois todas as outras são modalizações dela, ou como diz Paul Janet, "a própria consciência transformada". Mas não devemos restringir o conceito dela à consciência moral, na qual o homem, constituído em juiz de seus atos, ele a si próprio se acusa e ele mesmo se absolve ou se condena; nem, como para a Psicologia tradicional, devemos entender como tal o simples sentido íntimo, em virtude do qual a alma se observa e se conhece em seus atos interiores. Acontece com este conceito como com muitos outros, que à medida que o homem investiga e descobre mais, também vão se ampliando e generalizando: por isso Kant disse que a ciência é formada pela reconstrução sucessiva do conceito. A Consciência em seu amplo e verdadeiro sentido é a intimidade da alma consigo mesma e com tudo aquilo que se põe em relação com ela; a presença da alma ante si mesma e ante toda relação exterior.
Ou seja, se a alma não percebe, não presencia um fenômeno, seja ele interno ou externo, não é anímico; e para o espírito é como se não se verificasse. A consciência, então, nesse sentido, é a fonte total da relação do ser consigo mesmo e com os outros. Mas essa relação pode se verificar de várias maneiras. É possível que o espírito, sentindo uma mudança em seu eu, em seu ser, experimente prazer ou dor; e essa mudança afetiva ou emocional é a sensibilidade. Mas, ao mesmo tempo em que a alma experimenta essa afeição, ela tenta encontrar a causa da impressão produzida, e essa interpretação se faz por meio da inteligência. Finalmente, é possível que ela procure, que tente evitar ou voltar a ter outras impressões análogas, e esse esforço ela o verifica graças à vontade, em virtude da qual ela quer ou não quer.
No entanto, o espírito não é uma resultante dessas três faculdades; não é uma soma composta por várias parcelas; antes, o espírito é sempre um todo que age totalmente, embora de maneira diferente a cada vez. Quando o homem sabe, é seu espírito uno e inteiro quem sabe, não uma parte dele; é o espírito presente a um determinado objeto, distinguindo-se dele; é por isso que conhecer é faculdade de relação e de distinção, porque para conhecer é necessário que o conhecido esteja presente ante nós, que esteja em relação conosco, e que o sujeito distinga e separe o homogêneo do heterogêneo, e antes distinga sua personalidade do objeto cognoscível; só assim a inteligência é luz da vida espiritual. Quando o homem sente, é também a sua alma toda que se sente emocionada, comovida, ao receber uma impressão, material ou moral. Há aqui também uma relação, mas não de distinção e sim de compenetração entre aquele que sente e o que ele está sentindo; por isso dizemos que quem ama faz suas as tristezas e as alegrias da pessoa amada.
Assim, tal como a inteligência é luz, o sentimento é calor que anima e vivifica o nosso ser. Quando o homem, enfim, deseja, tenta, quer agir, ele se relaciona com o que é querido em relação de finalidade, sendo este o móvel ou motivo do agir, essencial para que a volição aconteça, pois quando o sujeito quer, ele quer alguma coisa; embora este motivo não determina a ação, não a obriga, porque a alma pode deixar de querer e agir. Estas são as três esferas da consciência, os três poderes permanentes do espírito em virtude dos quais ele realiza todo tipo de atos, pois todos eles são fenômenos intelectuais, sensitivos e volitivos. Em todos eles há o mesmo ser, o espírito, que se relaciona de maneira diferente com o que está presente ante ele: com relação de substantividade ou distinção (inteligência), com relação de compenetração ou intimidade (sentimento) e com relação de finalidade (volição). Os vários atos anímicos são assim diferenciados na qualidade da relação do ser com o objeto presente ante ele.
E como essa faculdade de estar presente ante si mesmo ou ante qualquer relação, que dissemos ser a Consciência, vemos agora confirmado que o espírito tem essa única faculdade, que toma diferentes nomes, conforme o modo de se comportar e agir. Essas três esferas da vida psíquica, inteligência, sentimento e vontade, não são apenas propriedades como sejam a unidade e a identidade; são
também faculdades, porque o ser, o espírito, é o diretor delas, que pode regular sua atividade; por cuja condição ele é responsável pela direção que dá à sua vida. As três são coordenadas, ou seja, da mesma ordem e hierarquia, sem que uma valha mais do que a outra, nem devemos, portanto, dar preponderância a uma em detrimento das demais; em cujo princípio toda boa educação deve se basear – para não formar um homem muito abstrato e sonhador, bem como pouco afetivo e enérgico, ou muito ardoroso e pouco razoável e ordenado. A alma é uma harmonia e qualquer desequilíbrio se faz notar em toda ela, pois suas ações são ritmicamente consonantes, como diz Platão, da mesma forma que as cordas da lira.
Capítulo X A razão
A partir do momento em que consideramos o homem como um ser racional, atribuímos a essa faculdade a qualidade específica que o distingue dos outros seres inferiores a ele. De fato, todos os animais têm espírito, têm alma; mas esse espírito não é racional. É importante, então, considerar o que seja esse atributo com o qual o ser humano é enobrecido, e que constitui a característica de seu espírito. A razão é a faculdade de conhecer o universal e permanente dos objetos; o necessário, essencial e imutável. Oposta ao sentido, em virtude do qual a inteligência percebe o particular e o variável, a razão dá unidade à multiplicidade dos fatos, investiga suas causas, formula leis e princípios e constitui os diversos ramos da ciência, ao ordenar em um todo sistemático, sob unidade, a diversidade de conhecimentos.
Não há dúvida sobre a importância do conhecimento racional: sem ele, seria impossível qualquer ordem, plano e método, qualquer sistema na ciência e na vida; mas em virtude dele penetramos no íntimo das coisas, em suas propriedades fundamentais e vemos a unidade no diferente e heterogêneo. A própria experiência não teria valor sem as ideias racionais: o homem, por exemplo, sem elas não poderia saber que a atração é uma lei universal porque é impossível para ele verificar isso em todos os pontos do universo; ou que todo fenômeno tem uma causa, e que qualquer todo é maior do que uma das partes, se a verdade desse conhecimento não ultrapassasse os limites da experiência, até o ponto de que, embora termos podido verificá-lo não mais de em apenas alguns casos, damos a eles um valor universal; porque temos a evidência de que é necessário, imprescindível, que assim seja. Se todos os conhecimentos que o homem possui emanassem da experiência, o homem não poderia saber o que seja o infinito e o eterno, pois nem o primeiro é formado pela adição sucessiva de
unidades, nem o segundo é tempo de grande duração, mas o contrário do tempo. No entanto, se bem a experiência não forma o conhecimento racional, ela o sugere, e isso torna as ideias inatas e adquiridas, contra o sentido estrito dos sensualistas e idealistas que se concentravam em apenas um dos dois aspectos. As ideias, como diz Naville, são como o pêndulo de um relógio e a experiência é o impulso que põe esse pêndulo em movimento: as ideias de ser, existência, unidade, causa, etc., constituem o fundo de nossa inteligência e essas mesmas ideias nós as aplicamos quando alguma sensação nos obriga a fazê-lo; assim, a ideia de que todo efeito tem uma causa é superior à experiência porque vai além de seus limites; mas existe em nós na ocasião de observar um fenômeno. É por isso que o que Locke
disse é verdade: nihil est in intelecto quod prius non fuerit in sensu, e é
também o que Leibnitz acrescentou: nisi ipse intellectus.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.