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Capítulo 3 de 10
Parte 2 de 9
Estudos Filosóficos – A Psique · Manuel Sanz Benito
ciência pré-histórica proporciona, deram-nos a conhecer as manifestações da energia anímica no homem pré-histórico e selvagem (Lubbock Tailor), e com o trabalho e observações de uns e de outros começou a ser formada a Psicologia dos povos ou Sociologia (Stheintal, Lazarus, Spencer). Por outro lado, observações importantes e delicadas foram feitas sobre condições ou estados especiais pelos quais o homem às vezes passa; por exemplo, nas paixões (Letourneau e Descuret), no êxtase (N. Mayo), nas doenças da memória (Ribot) e na dor (Richet); e enquanto Lemoine e Darwin lançaram as bases da Fisiognomia ou da expressão das emoções, Joly e Paulhan tentaram descobrir um pouco do quid divinum do gênio, e Maury, Yoblot e Mourly penetraram nas profundezas do sono e nos fizeram ver a atividade do espírito quando suas faculdades parecia que repousavam.
Com tudo isso, e os notáveis experimentos e estudos em psicofísica feitos pelos psicólogos citados acima e outros, e a riqueza das ideias contribuídas por aqueles que, seguindo a sagaz pesquisa de Kant, sondaram as profundezas do espírito, foi sendo formada uma literatura psicológica tão abundante e variada, que veio dar um desmentido solene àqueles que acreditam que falar da alma é coisa inútil. Longe disso, foi confirmado mais uma vez o ditado do Evangelho "não só de pão vive o homem" e os ensaios, investigações, observações, experiências e estudos de todo tipo evidenciaram a realidade da alma, da Psique.
Capítulo II A Psique em sua atividade originária
A vida do homem é toda ela psicofísica: nem somente espiritual, nem inteiramente física, mas de mútua relação e influência entre o espírito e o corpo. Assim, os atos que não são inconscientes, antes de serem realizados, foram precedidos de intenções, de ideias, e estas, se não devem ficar reduzidas a um vago idealismo, a um puro sonho, precisam ser encarnadas na esfera do realidade. Para se estabelecerem, às vezes precisam lutar entre si até que a mais forte, a mais verdadeira, aquela que melhor resiste às provas em contrário, alcance a vitória. Esses combates, enquanto não transcenderem a esfera do pensamento, não são sangrentos, não causam vítimas; não há outra vítima senão o erro, imolado em nome da verdade. Famosas foram, por exemplo, as lutas entre nominalistas e realistas na Idade Média e entre clássicos e românticos nos tempos modernos. Não menos importante é a luta entre materialismo e espiritualismo hoje.
O primeiro mantém como única realidade aquela que é percebida pelos sentidos, e daí deriva sua negação de tudo que é transcendental e suprassensível, mesmo que não seja sobrenatural. Nada de princípios permanentes e absolutos; tudo é relativo e as qualidades dos seres são efeitos de suas disposições orgânicas. O livre-arbítrio não existe, a responsabilidade é um absurdo e o crime é resultado de uma doença, assim como o heroísmo é um ato de excitação do sistema nervoso; o gênio, um pouco mais de atividade cerebral devido à maior abundância de massa cinzenta ou maior número de circunvoluções; não há espontaneidade no agir, e o homem é apenas uma máquina em movimento, sendo suas ações puramente mecânicas.
Pelo contrário, o espiritualismo sustenta a existência da alma como realidade que se percebe ante a consciência, da mesma forma que os objetos materiais são percebidos ante os sentidos; e enquanto o materialismo nega a existência do Eu e da personalidade humana idêntica em cada momento do tempo, o espiritualismo racional faz dessa identidade pessoal o primeiro princípio de prova para suas elucubrações. Afirma também, não apenas a existência da alma, a Psique, como entidade não emanada das forças orgânicas, mas possuidora de caracteres próprios de espontaneidade e liberdade em seu modo de agir, e como resultado de tudo, a individualidade persistente fora da carne, a transcendência da vida do ser. Embora pareça uma antinomia, talvez porque os extremos se encontram, materialismo e espiritualismo estão prestes a se fundirem em uma síntese superior que compreenda ambos os dois. De fato, o materialismo não nega a força de qualquer tipo que for, e menos ainda a força psíquica, mais poderosa que outras, só que ele explica sua atividade como propriedade da própria matéria.
O espiritualismo também não nega a matéria, só que alguma vez, perdido em vagas idealidades, desprezou-a como coisa indigna, e do seu exagero nasceu o sistema oposto; pois a inteligência, como o pêndulo quando oscila, vai de um extremo ao outro, impossibilitado como está de abranger de uma só vez todo o espaço que deve percorrer. Já foi esclarecido o que seja a matéria em si? Sabe-se o que seja a própria força? Será que uma é transformação da outra, ou são duas maneiras de se manifestar essa substância ou incógnito x que origina força e matéria? E também, onde a Psique começa? Qual é o primeiro esboço da vida, da sensibilidade e da inteligência? Impossível dizê-lo nesta escala relacionada de seres que existem no Universo. Ora, se não sabemos o que é a matéria, se ignoramos o que é a força, se não vemos onde e quando a Psique aparece, como ousamos afirmar que são coisas iguais ou que são coisas diferentes? que uma é mais ou é menos, é anterior ou superior à outra?
Por diferentes que sejam suas manifestações, não estamos mais autorizados para proclamar sua distinção essencial, do que para afirmar que a majestosa nuvem que paira nas alturas difere em sua composição química da água que brota de uma nascente na superfície da terra.
Mas qualquer que seja a solução do problema, podemos avançar já no campo da pesquisa, pois as descobertas em certa ordem de fenômenos nos permitem caminhar com passo relativamente seguro. Quando, há algum tempo, os estudos biológicos foram tomados com avidez, destruindo métodos rotineiros, pensava-se em observar o máximo possível as manifestações dos seres vivos, começando por aqueles em que o fenômeno da vitalidade está apenas começando. Os organismos inferiores foram cuidadosamente inspecionados e, como consequência desses estudos, surgiu a chamada teoria celular: o sistema de que tudo o que vive é produto de uma célula que procede em suas funções por assimilação dos meios que encontra ao seu redor e que, diferenciando-se gradualmente, dá origem a órgãos e aparelhos que compõem tanto a textura mais simples quanto a mais complicada de qualquer vegetal ou animal. Acreditava-se então que o problema da origem dos seres havia sido resolvido, considerando ter encontrado a chave que explicava este e outros fenômenos misteriosos.
Porém, as próprias observações demonstraram que, longe de ter encontrado o quid da questão, a dificuldade apresenta-se mais formidável do que se acreditava a princípio. Ao querer explicar a alma dos seres pelo seu organismo, considerando-a como efeito ou resultado do funcionamento de todos os órgãos, principalmente os que compõem o sistema cérebroespinhal nos animais superiores, constatamos que o ser é ativo desde a manifestação mais rudimentar da célula, e que esta atua com energia e atividade próprias dentro das condições do meio que a cerca, energia que vai se acentuando mais à medida que o ser se torna mais perfeito na escala dos seres. A célula, então, é um elemento, um algo essencialmente ativo, com atividade própria; portanto, essa atividade não depende das condições do meio nem dos componentes materiais que a formam, mas há algo nela que a constitui em centro assimilador de forças, em elemento individual e diferente dos demais da criação: em ser, se quisermos. E se isso acontece com o ser mais rudimentar, o que não irá acontecer com o homem? Como considerar a inteligência e a vontade, a energia que pensa, vive e age nele, como sendo apenas síntese, produto ou funcionamento de meras forças orgânicas, quando é sempre uma energia
que se dirige a um fim com iniciativa, com espontaneidade, e, portanto, com liberdade? 2 Temos, então, que o aforismo errando, errando, deponitur error foi cumprido; porque os próprios materialistas com suas observações vieram nos mostrar a espontaneidade, a energia própria do ser que incrusta o selo de sua individualidade, sem que seja uma mera tabula rasa, apta apenas para receber impressões do ambiente que a cerca. Haeckel diz que a vida, mesmo na matéria amorfa, começa por se caracterizar como um centro atrativo e assimilador de forças; Delboeuf afirma que as impressões não são gravadas no espírito como na cera mole; Locke, que a alma não pode ser considerada como resultado de algo, mas como uma unidade, porque os diversos modos de sua atividade própria não podem ser distribuídos entre sujeitos diferentes, e Maudsley declara que o espírito não é uma folha de papel em branco; de modo que todos concordam em admitir a nativa espontaneidade da Psique.
Nota da SEDE: À força de errar, aprende-se a acertar. Se a sensação é, como dizia Aristóteles, um ato comum do que é sentido
com o senciente, o sujeito põe de si algo que não é devido à simples excitação, não se podendo medir uma pela outra e, portanto, não existindo tal equivalente mecânico.
Senciente: vocábulo em desuso, particípio derivado do verbo sentir, que significa o que sente, ou tem sensação. Não há em todos os atos psicofísicos uma mera resposta à impressão recebida. A atividade psíquica intervém para devolver a impressão aumentada ou diminuída. De tudo isso segue-se que os próprios observadores materialistas vieram evidenciar a espontaneidade, a energia própria da Psique. Então, se a função é superior ao órgão, a Psique, mais ativa do que as forças orgânicas, não é uma resultante delas. A indução racional, portanto, permite pensar que o organismo é meio ou instrumento que a Psique utiliza para realizar seus atos, mas nunca aquele que os gera e produz.
Capítulo III O Eu: sua persistência
Há um fato incontestável, indubitável, para todo ser que pode se perceber a si mesmo: esse fato é o de sua própria existência. Será em vão fechar meus olhos e tapar meus ouvidos para não ver nem ouvir nada: irei me ver interiormente a mim mesmo e me reconhecer como ser que sou, que vive e age. Esse reconhecimento de nosso próprio ser, de nossa própria existência, nós o expressamos na palavra Eu. Não entraremos, embora nem sequer seja necessário, numa análise detalhada e longa para desvendar o verdadeiro significado desta palavra. Todos concordamos que o Eu não significa, nem o meu corpo, nem a minha alma, nem uma propriedade ou faculdade específica; mas, quando digo que eu falo, eu escrevo, eu duvido, eu penso etc., dou a entender que esses atos sou Eu que verifico em minha unidade e totalidade, como homem.
Na verdade, não é minha boca que fala, porque embora através dela, como através dos outros órgãos de locução, eu produza sons articulados, é necessária a intervenção de minha atividade anímica que determina, que impulsiona os órgãos a modular sons que, por sua vez, expressam meu pensamento; da mesma forma, não são meus pés que me conduzem, sou Eu que, por impulso de minha vontade e agindo através de um complicado sistema nervoso e muscular, forço meus membros a tomarem diferentes posições no espaço. E assim, da mesma forma, em todos os atos onde digo que eu os executo, que eu os faço, dou a entender que me são atribuíveis como sendo eu o ser que os produz, fazendo uso de todas as minhas forças interiores para sua realização, bem como de todos os elementos que, externos a mim, coloco à minha disposição para que me sirvam de instrumentos ou meios de realizar minhas volições. Deste ponto de partida da evidência do próprio Eu, a filosofia moderna partiu para ascender em sua investigação, desta primeira e elementar verdade, às mais altas especulações do conhecimento.
O ceticismo tem aqui um valado inexpugnável, pois não há quem duvide de sua própria existência. Poderá duvidar de seu espírito como ser imortal e diferente do corpo, poderá acreditar que este é mais uma aparência do que uma realidade, poderá pensar que o mundo exterior oferece-se a nós como uma mera ilusão; mas não duvidará da existência de seu próprio ser, porque quando duvida, é seu próprio ser que duvida. Reconhecida a individualidade de nosso ser no sentido expresso pela palavra Eu, devemos concordar sem grande esforço sobre outro fato não menos evidente, a saber: a persistência dessa mesma individualidade, desse mesmo ser que somos; ou seja, a continuidade do nosso Eu, desde o momento em que começamos a nos darmos conta das nossas ações até o momento presente. De fato, eu posso ter mudado em muitas coisas: minha altura hoje não é a mesma de anos atrás, nem o peso e a consistência, a agilidade etc. do meu corpo são os mesmos.
Também reconheço que a atividade de certas funções do meu organismo tem mudado: minha visão não é tão perspicaz como antes, minhas forças não são as mesmas. Em outro sentido, observo também que houve muitas mudanças no que chamo de meu espírito; que tenho mudado de ideias, de inclinações, de gostos. Cada um, por pouco que meditar, encontrará em si mesmo essas mudanças, essas mutações; mas não é menos verdade que no seu íntimo considera-se obrigado a admitir que o mesmo ser, o mesmo indivíduo que tem sofrido mudanças tão notáveis e modificações tão diversas, a ponto de pensar, sentir e querer de outra maneira diferente de como pensou, sentiu e desejou há alguns anos, é hoje o mesmo indivíduo, o mesmo ser: não houve nele dois seres diferentes ou transformação de um ser em outro com o passar do tempo; ele se reconhece como sendo o mesmo em meio a essa diversidade; inalterado, em meio a essa multiplicidade; uno, em meio a essas modificações; invariável, em meio a essa série de mudanças; a própria permanência de seu ser, de sua individualidade; em uma palavra, a persistência de seu Eu.
Sim; nossa consciência, nosso bom senso nos dá testemunho, por pouco que meditarmos, destas coisas: eu sou, e sou o mesmo ser desde que me reconheço; se têm acontecido grandes transformações em mim, isso não me impede de me reconhecer como o mesmo indivíduo, como a mesma personalidade.
Não há materialista que, ao perseguir alguém que o ofendeu, não seja ilógico com suas teorias. Além do fato de que a ofensa não é tal, pois o indivíduo não age, segundo ele, movido por seu livre arbítrio, mas obrigado pelas forças naturais, que o arrastaram a cometer o desmando com a mesma fatalidade que a gravidade obriga a cair uma pedra atirada ao ar, há uma inconsequência em perseguir o indivíduo de hoje como se ele persistisse amanhã. O materialismo, que admite que tudo é mudança, todo movimento, tudo sucessão e nada tem permanência, encontra-se em contínua contradição com suas teorias. É bom que ele considere o espírito como propriedade de seu corpo, mas negar a identidade do Eu, a continuidade de sua própria personalidade, é tão absurdo que só guiado pelo espírito de sistema pode ser concebido. Reconheçamos, então, que tão verdade como eu sou, como eu existo ou vivo, também é verdade que eu sou idêntico a mim mesmo, que sou o mesmo ser, que minha própria individualidade persiste em mim através das mudanças e alterações que tenha experimentado.
Capítulo IV A força psíquica. Os atos materiais e os atos anímicos
Todo fato, todo fenômeno que observamos em qualquer ordem de coisas, não se verifica sem que algo o determine e produza. Chamamos este algo de sua causa, que é sempre de conformidade com a natureza do efeito produzido. Se uma pedra cai depois de ser lançada ao ar, não é por espontaneidade ou por uma certa tendência da pedra a cair: é por causa do que chamamos de força da gravidade. De modo que, se removermos essa força, removeremos seu efeito correspondente; e por analogia, em todos os fenômenos do mundo, fazendo abstração das forças que produzem esses eventos, teremos de reconhecer a não existência de tais efeitos. Da mesma forma, se ocorrem atos intelectuais em nosso ser, devemos negar que há forças ou causas em nós que produzem a intelectualidade? Isso seria tanto como dizer que os efeitos são produzidos sem causas. Mas essas causas, originam-se das inerentes propriedades do organismo corporal?
Não nos importa isso por enquanto: o que precisamos é reconhecer que através dos efeitos devemos chegar ao conhecimento de suas causas, que os fenômenos testemunham a existência de forças ou atividades que os produzem e que, de conformidade com a natureza e condições desses efeitos, assim devem ser as forças que os originam. Para assegurar que estes ou aqueles atos sejam próprios do espírito e que tais outros sejam originados pelo organismo, seria necessário saber onde o espírito começa e onde termina e onde começa e termina também o corpo. Mas eu, de mim, só sei dizer que, ao examinar minhas ações, encontro uma constante compenetração de todas as minhas forças, de todas as minhas atividades; que não há ato originado nos limbos mais obscuros do pensamento que não se veja refletido e de alguma forma exteriorizado no organismo físico; e da mesma forma, que não há fenômeno que nele se
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