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Capítulo 8 de 10
Parte 7 de 9
Estudos Filosóficos – A Psique · Manuel Sanz Benito
nome. Pelo contrário, o trabalho, quanto mais intelectual, mais poderoso; produz melhores efeitos e, portanto, ao que o homem deve aspirar é a que todo o seu trabalho seja o mais intelectual possível, fazendo, como disse Aristóteles, que o fuso e a lançadeira trabalhem sozinhos. Todo trabalho é psicofísico, do espírito e do corpo, embora prevaleça um ou outro elemento. Hoje, infelizmente, a maioria da humanidade ainda emprega um trabalho quase mecânico. Daí as crises frequentes: o homem, reduzido a trabalhar como uma máquina, outra máquina melhor pode substituí-lo; o que não tem substituição é a inteligência. Suponhamos um estado mais perfeito da humanidade. Suponhamos que a maioria dos trabalhadores que hoje se ocupam na extração do carvão das minas, no cultivo das terras e nas primeiras indústrias, se dediquem ao cultivo das ciências e das artes, e que, atendidas as necessidades básicas da vida física, o homem tem muito mais tempo disponível para poder satisfazer necessidades morais, e então teremos uma civilização tão poderosa e tão diferente da atual, que no momento não nos é possível imaginar.
Além disso, é preciso atender, não só ao trabalho individual, mas ao trabalho coletivo; porque a associação multiplica as forças, e se a ciência conseguisse dominar as primeiras necessidades do homem, as faculdades deste seriam aplicadas para dar solução a outras necessidades da ordem moral, alimentando seu espírito com a verdade, e seu coração e sua fantasia com a beleza. Se o trabalho, então, é lei para todo ser que ninguém pode esquivar, o trabalho inteligente e dirigido ao bem é aquele que mais faz progredir e merecer. Somente os preguiçosos, mais ainda do que os malvados, podem pôr em dúvida a eficiência do trabalho. É, pode-se dizer, a primeira lei que rege o cosmos; pois toda atividade é trabalho, isto é, força que se contrapõe a outras forças, movimento que colide, se opõe e vence outros movimentos. Mas só quando é consciente e persistente é que o trabalho merece tal nome. A inconstância revela um espírito fraco, pequeno, fugaz em seus pensamentos e em suas obras, pouco progressivo. A constância e a energia revelam a maturidade de um espírito já avezado à fadiga. Daquele que mais perseverar, será o maior prêmio, nunca apenas daquele que houver melhor pensado; pois o simples pensamento ou intenção pode muito bem não passar de uma ideia fugaz, sem fruto para a vida real.
Trabalhemos, pois, a toda hora, mas com ordem, com método e com perseverança, sem violência e sem fadiga, e nunca devemos desconfiar do sucesso, mesmo quando resultar falho o nosso cálculo no resultado que pensávamos, porque sempre redundará em benefícios que não suspeitáramos. Não há ato insignificante ou pequeno, e não há esforço inútil. Tentemos que tudo seja para o bem, e não nos preocupemos do seu alcance; que se uma faísca é suficiente para acender uma grande quantidade de pólvora e explodir uma fortaleza, uma ação é suficiente para agitar todas as fibras do espírito.
Capítulo XVI O Positivismo, como verdadeiro Idealismo
Estamos cansados de ouvir continuamente: “Nada de filosofias, nada de hipóteses sem realidade: todas elas são idealismos de pensamento; fantasias da imaginação que pretendem fazer válidas abstrações metafísicas, como Deus e a alma. O que é preciso são fatos, não abstrações, homens práticos e não sonhadores filosóficos que passam seu tempo investigando a essência das coisas. Bem, já que nós temos de viver aqui embaixo, não vamos nos preocupar com o que está lá em cima; já que a Natureza nos colocou neste mundo material, vamos nos comportar como seres materiais, tentando alcançar o maior bem-estar possível, sem dar atenção a outros bens extraterrestres, que para maldita coisa servem na vida.” Essas são, mais ou menos, as palavras que se repetem por toda parte e o pior não é que sejam ditas, mas que constituam o critério moral de muitas pessoas. Para estas existem dois tipos de homens: teóricos e práticos. Os primeiros, idealistas, sonhadores, que inutilmente perdem tempo deixando sua imaginação vagar por coisas muito bonitas, mas que não existem.
Os segundos, verdadeiros homens práticos, dedicam-se a empregar o seu tempo em algo positivo que satisfaça as necessidades mais ou menos urgentes da nossa existência, tanto para alimentar e vestir o corpo, quanto para proporcionar-lhe todo tipo de conforto e comodidade. E esse critério também se aplica à esfera da arte, ficando proscrito tudo aquilo que for ideal, reduzindo seu objeto e finalidade a ser uma mera imitação da Natureza. Isso não é o pior, mas entendendo alguns espíritos estreitos que na Natureza só o mal tem realidade, e o bem a tem somente por exceção, pretendem que a verdadeira realidade é a expressão do mais grosseiro e mais baixo que o homem produz na vida. Assim, em novelas, no
drama ou na pintura, não dão a conhecer heroísmo, abnegação e sacrifício, nem mesmo a virtude de quem se esforça para ajudar seus semelhantes; eles representam para nós os tipos da sensualidade e do embrutecimento mais atroz, não misturados com outros bons, como na vida os distinguimos, mas embaralhados com aqueles que expressam o egoísmo mais frio, a avareza mais sórdida e a mais repugnante abjeção. É urgente opor-se a esta avassaladora corrente de positivismo que nos rodeia e que se reflete em todas as múltiplas manifestações da atividade. Na verdade, basta reparar nesse egoísmo desconsolador, nessa luta do mais forte contra o mais fraco, nas ficções e enganos que a diplomacia usa, para ver como, apesar de todos os sofismas, o móvel de suas ações é sempre a ambição, e com este fim são pactuados tratados, celebradas alianças e despojados povos inteiros da sua independência.
Da filosofia tudo o que é nobre e elevado é desprezado: Deus, a alma, a virtude, o progresso, não têm para esses pseudo-positivistas outra realidade senão aquela que nossa fantasia acalorada lhes empresta, e quando os nossos ossos descansarem, na medida em que nosso cérebro deixa de estar aquecido pelo fogo do sangue, não haverá mais pensamentos, nem afeições, nem nada; deixaremos de ser, para fazer parte de uma planta ou de uma flor. Nada disso deve nos desanimar. Antes, com a maior coragem, tentemos opor-nos a esta filosofia de transição, cujo critério consiste em negar a existência da filosofia. A esse idealismo ao contrário, que só quer ver da realidade o lado baixo e grosseiro das coisas. A esse positivismo do atual, do que se toca, como se o fato, o do momento, o que em um ponto ou em um povo pode constituir a norma de suas ações pudesse ser erigido como critério para a verdade, como ideal humano através de todos os tempos e de todos os séculos.
Com tal critério o cristianismo jamais teria triunfado, porque o positivo no mundo romano era a sensualidade mais assustadora: um povo envilecido e uma corte de magnatas mais envilecida ainda. Mas a opinião de uns poucos foi mais forte do que o resto dos demais; porque em seu apoio contavam com razão e a justiça. Quando alguma crença vacila, tudo é posto em dúvida, como quando um infortúnio nos entristece nos consideramos os mais desafortunados; mas tendo passado a impressão, é possível avaliar melhor. Da mesma forma, devemos pensar que o chamado
Positivismo não deve ser o ideal que informe a Filosofia, nem aquele que deve ser aplicado à vida. Esta Escola tem a observação sensível como único critério e fonte de conhecimento; e como regra ou princípio geral para encontrar suas leis, a indução que nessa mesma observação se apoia; de modo que tudo o que transcende ou ultrapassa a dita observação sensível é negado, relegado à esfera do indiscernível, como diz Hartmann, ou do incognoscível, no dizer de Spencer, como impossível de perceber; e, portanto, impossível de entender. Diz-se por isso que o Positivismo é um Idealismo ao contrário. O idealismo tanto de Platão quanto de Hegel, os mais exaltados, subestimou a experiência, os dados sensíveis, e quis explicar a realidade sem se ater ao que a realidade mostra.
Platão despreza todo conhecimento que não seja o filosófico, ou seja, aquele que tem caráter de permanência, e para ele as coisas que passam e mudam não têm importância; e Hegel descreve as infinitas evoluções da ideia que a identifica com o ser dizendo que consiste na mudança contínua, não se atendo ao que a realidade nos mostra nas transformações de todos os seres, mas querendo explicar essas transformações por leis subjetivas, que o tornaram famoso com suas tricotomias ou suas teses, antíteses e sínteses. Desta forma, ele chegou a dizer que as coisas se diferenciam precisamente porque são semelhantes. Ora, o Positivismo nega o pensamento racional, o conhecimento com caráter universal infinito, e para ele existem apenas generalizações mais ou menos empíricas cuja base e fundamento é sempre a experiência.
Assim como Platão desprezava o conhecimento de caráter mutável, o Positivismo despreza o conhecimento de caráter permanente, e este é um verdadeiro idealismo porque é também uma apreciação errônea: no homem, por exemplo, o Positivismo não reconhece nada permanente; de modo que não existe a identidade do ser; vê nele apenas moléculas que mudam sucessivamente, e isso é tão falso quanto o extremo oposto, pois é tão errôneo negar que nosso ser permanece o mesmo em meio a suas mudanças quanto negar essas mesmas mudanças. No que chamamos de espírito, o Positivismo vê apenas uma sucessão de estados, nunca um ser que produz esses estados. No universo, só admite antecedentes e consequentes, nunca causas e efeitos, de modo que não há inteligência dirigente e ordenadora. E na ciência em geral ele não vê nada
mais do que um meio de ampliar nossas percepções, nunca um conhecimento seguro e racional por estar baseado na natureza das coisas, já que essa natureza é negada ou reduzida a uns poucos fenômenos que a observação nos mostra. Assim, como ele nega o dado permanente, já nos entes, já no conhecimento, é um idealismo ao contrário do idealismo que nega o dado sensível; e pelo fato de os extremos se encontrarem, do Idealismo hegeliano no que se convencionou chamar de esquerda, nasceu o Positivismo moderno. Agora, então, quando a escravidão existia em todos os lugares, em qual indução se apoiavam todos os pensadores que a combatiam? Em nenhuma indução empírica. O fundamento era, sem dúvida, um princípio racional. E embora existisse em todos os lugares, bastava ter uma ideia da liberdade humana e do dever universal para entender a injustiça dessa instituição.
Em qual experiência sensível Pitágoras teve de se apoiar para afirmar o movimento da Terra, assim como todos aqueles que pressentiram a habitabilidade dos planetas, sem outro meio de investigação além dos sentidos, quando careciam de dados sobre sua magnitude, peso, distância, movimento e condições físico-químicas de sua atmosfera e de seu solo? No entanto, pensadores de todas as épocas afirmaram resolutamente a pluralidade dos mundos habitados. Da mesma forma, aqueles que tentaram opor o que deve ser ao que é, só se basearam em fatos apenas precisamente para combatê-los: prova evidente de que há em nossa natureza humana algo mais do que o conhecimento que se adquire através dos sentidos; que existe um conhecimento racional que ultrapassa o âmbito da experiência, um conhecimento racional que existe e se desenvolve, embora a observação pareça às vezes restringi-lo. A razão, então, é a faculdade que deve conhecer o que é universal na natureza, e não negar, muito menos contradizer, a esfera da experiência: ela existe como uma fonte diferente de conhecimento.
Deste modo, se a nenhum cego podemos dar a conhecer o que é a luz, e em geral não podemos explicar a ninguém em que consiste uma sensação enquanto ele não a experimentar, do mesmo modo, por muitas que tiver, ninguém poderá nos explicar as causas dessas sensações, se não tiver em sua inteligência essa ideia de causa que se aplica a todos os efeitos.
O Positivismo, portanto, é uma escola incompleta: limita a realidade e as fontes do conhecimento, e em seus exageros é um verdadeiro Idealismo ao contrário, pois que sem perceber o átomo, como o elemento químico, nem a força, nem o éter, nem a célula, formula, no entanto, conclusões que se baseiam apenas em meras induções, depois de proscrever todo conhecimento que não for comprovado na observação sensível. Essa tendência passará, esses exageros terão seu termo, e então poderemos descartar os grandes bens que devemos ao exame positivo. Enquanto isso, vamos reconhecer que o conhecimento, seja qual for, é um composto da presença dos objetos, ante a inteligência e a atenção que colocamos de nossa parte. Portanto, na observação sensível sem o objeto externo presente a nós, o conhecimento é impossível. Nesse sentido, tudo o que se refere à esfera dos fatos e do conhecimento fenomênico deve ser perfectível para o indivíduo e para a humanidade. Mas a realidade infinita, como a realidade sensível, também está presente à nossa inteligência, pois que ela a compreende; apesar de possuir caráter limitado, finito e concreto. Portanto, se a experiência é legítima como fonte de conhecimento do individual, justa e legítima é a razão como fonte de conhecimento do absoluto.
Capítulo XVII O novo hipnotismo
Tão logo como os fatos do sonambulismo magnético começaram a ser estudados, viu-se a impossibilidade de serem explicados de forma racional pelos conhecimentos fisiológicos da ciência atual, principalmente os fenômenos que de antigo são chamados de transmissão do pensamento, transposição de sentidos e visão dupla; pois sem admitir a existência real e positiva do espírito com faculdades próprias e diferentes das forças orgânicas, era impossível dar um passo em sua explicação, pois todas as descobertas verificadas e todas as hipóteses admitidas para explicar a visão ocular, por exemplo, são insuficientes para nos demonstrar como um sonâmbulo com os olhos fechados vê à distância, e através de paredes e obstáculos materiais, aquilo que outro indivíduo e ele mesmo, acordado, é impotente para perceber.
Mas os soi-disant homens de ciência, que às vezes são tão fanáticos por seus sistemas e teorias quanto qualquer outro tipo de sectários, em vez de admitir os fatos e abordar de frente as dificuldades de sua interpretação, tentaram sair pela tangente, negando alguns fatos e admitindo outros. E querendo acomodar a realidade às suas ideias, não suas ideias à realidade, descartaram dos fenômenos do magnetismo tudo aquilo que seria absurdo explicar por suas teorias, admitindo apenas o que, em sua opinião, em nada se opõe a estas. 7 Nota de SEDE: soi-disant, do francês: supostos. Assim, eles negaram categoricamente a existência do fluido magnético, mudando o nome de magnetismo animal para hipnotismo, abreviação de neuro-hipnotismo (sono nervoso induzido). Braid of Manchester, foi o primeiro a dar-lhe este nome em 1841, e desde então tem sido utilizado pela maioria dos que se dedicaram a este assunto, entre eles Liébault. Beannis, Cullerre, Ladame, Bottey, Liegedis, Bernheim e outros que, se
falam de magnetismo, é só para dar a entender que não existe tal coisa, que não existe nada além de hipnotismo. A palavra hipnotismo já nos diz que tipo de fenômenos são aqueles admitidos como verdadeiros. Segundo Liébault, o sono comum, no fundo, não difere do sono magnético; um como o outro se deve à imobilização da atenção e da força nervosa sobre a ideia de dormir. O hipnotizado adormece com a ideia fixa em relação com aquele que o adormeceu; daí a possibilidade de lhe sugerir sonhos, ideias e atos estranhos à sua vontade. O esquecimento ao acordar depende de que toda a força nervosa acumulada no cérebro durante o sono vem a ser novamente difundida por
todo o organismo. Disso Bernheim conclui que nos fenômenos do hipnotismo não há nada mais do que pura sugestão.
N. do autor: Da sugestão e suas aplicações na terapêutica. "Nós", diz ele (p. 130), consignamos que os fenômenos determinados no estado hipnótico e no estado de vigília não são devidos a um fluido magnético, a qualquer emanação que vai de um organismo a outro, mas que tudo procede da sugestão, ou seja, a influência causada por uma ideia sugerida e aceita pelo cérebro.» 9 Coerente com essa ideia é a expressa por Prosper Despine, que diz: "O sonambulismo é caracterizado fisiologicamente por apenas o exercício da atividade automática do cérebro durante a paralisia da atividade consciente manifestada pelo Eu." E se quisermos saber por que o sonâmbulo ignora quando acorda o que verificou durante o sono, este mesmo autor se encarrega de nos dizer muito rapidamente sem encontrar nenhuma dificuldade: «O fato de o sonâmbulo ignorar o que fez durante o sonambulismo não depende do esquecimento, mas da não participação do Eu em seus atos.» E, claro, se ele não fez isso, mal conseguiria se lembrar. 9 N. do autor: Estudo sintomatológico sobre o sonambulismo.
Contudo, queremos saber a causa das alucinações que podem ocorrer ao hipnotizado. Ouçamos Lelut: "A alucinação é a transformação do pensamento em sensação". Isto mesmo explica a excitação da sensibilidade ou os fenômenos de hiperestesia. "Há, diz Bernheim, uma exaltação da excitabilidade ideo-sensorial, que inconscientemente transforma a ideia em sensação ou imagem sensitiva." É um pouco mais difícil explicar o fenômeno oposto, isto é, a anestesia ou perda de sensibilidade, mas nada detém os nossos sábios, que tudo dão por
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.