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Capítulo 9 de 24
Federação Espírita Brasileira — parte 8 de 23
Ação e Reação · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
extrema tentação ao suicídio na idade precisa em que abandonou a posição de trabalho que lhe cabia, porque as imagens destrutivas, que arquivou em sua mente, se desdobrarão, diante dele, através do fenômeno a que podemos chamar “circunstâncias reflexas”, dando azo a recônditos desequilíbrios emocionais que o colocarão, logicamente, em contacto com as forças desequilibradas que se lhe ajustam ao temporário modo de ser. Se esse homem não houver amealhado recursos educativos e renovadores em si mesmo, pela prática da fraternidade e do estudo, de modo a superar a crise inevitável, muito dificilmente escapará ao suicídio, de novo, porque as tentações, não obstante reforçadas por fora de nós, começam em nós e alimentam-se de nós mesmos. O esclarecimento era valioso e, por essa razão, interroguei com a curiosidade respeitosa do aluno interessado em aprender: – E como pode a criatura habilitar-se devidamente para resgatar o preço da sua libertação? Sânzio não se deu por surpreendido e replicou, de pronto: – Como qualquer devedor que, de fato, se empenhe na solução dos seus compromissos.
Decerto que o homem, sumamente endividado, precisa aceitar restrições no seu conforto para sanar seus débitos com as suas próprias economias. Em razão disso, não pode viver à farta, mas sim com abstinência e suor, de modo a liberar-se tão depressa quanto possível. O grande orientador fez uma pausa de momento, como para refletir, e continuou: – Voltemos ao símbolo da planta. Imaginemos que uma semente de laranjeira caiu em terreno pobre e seco. Segundo as leis que regem as atividades agrícolas, germinará ela sob constringentes obstáculos, transformando-se num arbusto mirrado, com lamentável produção no tempo devido. Mas, se o lavrador lhe acode às necessidades e exigências, desde o início da luta, oferecendo- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 87
lhe adubo, água e defesa, tanto quanto ajudando-a com a poda salutar no momento oportuno, a laranjeira atenderá, brilhantemente, ao próprio destino... Semelhantes cuidados, no entanto, devem ser postos em ação, na hora justa, isto é, quando na Terra a alma, e tanto quanto possível deve começar essa restauração nos melhores tempos da jornada física... Hilário, que acompanhava a exposição, fascinado quanto eu mesmo pela lógica daquelas palavras sábias e simples, interrogou: – E quando a criatura não pode contar, na infância ou na mocidade, com preceptores afeiçoados ao bem, capazes de funcionar como lavradores diligentes, junto daqueles que recomeçam a luta humana? – Sem dúvida – ponderou o Ministro –, a meninice e a juventude são as épocas mais adequadas à construção da fortaleza moral com que a alma encarnada deve tecer gradativamente a coroa da vitória que lhe cabe atingir. Entretanto, é imperioso entender que, no Espírito consciente, a vontade simboliza o lavrador a que nos reportamos, e o adubo, a irrigação e a poda constituem o serviço incessante a que deve consagrar-se nossa vontade, na recomposição de nossos próprios destinos.
Em vista disso, todo minuto da vida é importante para renovar e redimir, aprimorar e purificar. Compreendamos que a tempestade, como símbolo de crise, surgirá para todos, em determinado momento, contudo, quem puder dispor de abrigo certo, superar-lhe-á os perigos com desassombro e valor. A explicação alcançava-nos a mente, qual réstia de Sol penetrando um cubículo escuro. Meu colega, no entanto, voltou a considerar: – Ação por ação, temos igualmente muito trabalho, depois da morte do corpo denso. Assim como perpetramos faltas na carne para sofrer-lhes, muitas vezes, as conseqüências aqui, é natural Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 88
que por nossas ações deploráveis, aqui, venhamos a padecer na carne? – Perfeitamente – confirmou Sânzio, bondoso –; nossas manifestações contrárias à Lei Divina, que é, invariavelmente, o Bem de Todos, são corrigidas em qualquer parte. Há, por isso, expiações no Céu e na Terra. Muitos desencarnados que se enleiam em desregramentos passionais até às raias do crime, mormente nos processos de obsessão, não obstante advertidos pela própria consciência e pelos avisos respeitáveis de instrutores benevolentes, criam para si mesmos pesadas e aflitivas contas com a vida, cujo resgate lhes reclama luta e sacrifício em tempo longo. Aliás, com alusão ao assunto, é justo lembrar que o nosso esforço de autoreajustamento na vida espiritual, antes da reencarnação, na maioria das circunstâncias ameniza-nos a posição, garantindo-nos uma infância e uma juventude repletas de esperança e tranqüilidade, para as recapitulações a se efetuarem na madureza, exceção feita, naturalmente, aos problemas de dura e imediata expiação, nos quais a alma é compelida a tolerar rijos padecimentos, muitas vezes desde o ventre materno, tanto quanto os desenganos e os achaques, as humilhações e as dores da velhice ou da longa enfermidade, antes do túmulo.
Essas dores, angústias e sofrimentos vários nos suavizam a ficha de Espíritos devedores, permitindonos abençoada trégua nos primeiros tempos da esfera espiritual, logo após a peregrinação pelo campo físico. A maioria das pessoas encarnadas no mundo, ao atingirem a idade provecta, habitualmente se confiam, nas últimas fases da existência, à ponderação e à meditação, à serenidade e à doçura. As mentes infantis, ainda mesmo na senectude das forças genuinamente materiais, continuam levianas e irresponsáveis, mas os corações amadurecidos no conhecimento se valem, por intuição natural, da velhice ou da dor para raciocinar com mais segurança, seja consagrando-se à fé nos templos religiosos, com o que asseguram a si próprios mais amplo equilíbrio íntimo, seja devotando-se à caridade, com o que esba- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 89
tem na memória as recordações menos desejáveis, preparando, assim, com louvável acerto e admirável sabedoria, a irrevogável passagem para a Vida Maior. Conclui, pelo olhar de Druso, que a nossa entrevista estava prestes a encerrar-se. E, por isso, aventurei ainda uma indagação: – Ministro amigo, compreendendo que há dívidas que, por sua natureza e extensão, exigem de nós várias existências ou romagens na carne terrestre para o respectivo resgate, como apreciá-las do ponto de vista da memória? Sinto, por exemplo, que tenho na retaguarda imensos débitos para ressarcir, dos quais não me lembro agora... – Sim, sim... – explicou ele – a questão é de tempo. A medida que nos demoramos aqui na organização perispirítica, no fiel cumprimento de nossas obrigações para com a Lei, mais se nos dilata o poder mnemônico. Avançando em lucidez, abarcamos mais amplos domínios da memória.
Assim é que, depois de largos anos em serviço nas zonas espirituais da Terra, entramos espontaneamente na faixa de recordações menos felizes, identificando novas extensões de nosso “carma” ou de nossa “conta” e, embora sejamos reconhecidos à benevolência dos Instrutores e Amigos que nos perdoam o passado menos digno, jamais condescendemos com as nossas próprias fraquezas e, por isso, vemo-nos impelidos a solicitar das autoridades superiores novas reencarnações difíceis e proveitosas, que nos reeduquem ou nos aproximem da redenção necessária. Compreenderam? Sim, havíamos entendido. Sânzio fitou o diretor da casa, como a dizer-lhe que o horário se esgotara, e Druso lembrou, com gentileza, que não devíamos reter o Instrutor atencioso e complacente. Agradecemos com humildade as lições recebidas, enquanto o Ministro voltava à câmara brilhante, onde a neblina móvel passou, de novo, a adensar-se, apagando-lhe a figura venerável aos nossos olhos. Em Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 90
breves minutos, o ambiente retomou os característicos que lhe eram habituais e a palavra comovedora de Druso, em prece, encerrou a inolvidável reunião. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 91
Preparativos para o retorno O estudo na Mansão era fascinante, mas reclamava tempo. No entanto, a oportunidade que nos fora oferecida era das mais valiosas. Hilário e eu solicitamos o assentimento das autoridades a que devíamos consideração e efetuamos proveitosa entrosagem de serviços, permanecendo sediados no instituto por alguns meses, de maneira a recolher ensinamentos e fixar observações. Foi assim que nos dispusemos a partilhar com Silas o trabalho atinente ao “processo Antônio Olímpio”, a cuja fase inicial assistíramos com fervoroso interesse. Após seis dias sobre a reunião em que ouvimos a palavra de Sânzio, o grande Ministro, a irmã Alzira veio ao estabelecimento, em obediência ao programa que Druso passou a traçar para as tarefas que lhe diriam respeito. Designado pelo diretor da casa, Silas recebeu-a em nossa companhia, alegando que, juntos, atenderíamos ao problema, agindo em cooperação.
A nobre criatura, depois das saudações usuais, esclareceu-nos que, amparada por amigos de certa colônia socorrista, fazia o possível por ajudar ao filho que deixara na Terra. – Luís, cujo espírito se afinava com os antigos sentimentos paternos, apegando-se aos lucros materiais exagerados – informou-nos a interlocutora –, sofria tremenda obsessão no próprio lar. Sob teimosa vigilância dos tios desencarnados, que lhe acalentavam a mesquinhez, detinha larga fortuna, sem aplicá-la em coisa alguma. Enamorara-se do ouro com extremada volúpia. Submetia a esposa e dois filhinhos, às mais duras necessidades, receoso de perder os haveres que tudo fazia por defender e multiplicar. Clarindo e Leonel, não satisfeitos com lhe seviciarem a Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 92
mente, conduziam para a fazenda usurários e tiranos rurais desencarnados, cujos pensamentos ainda se enrodilhavam na riqueza terrestre, para lhe agravarem a sovinice. Luís, desse modo, respirava num mundo de imagens estranhas, em que o dinheiro se erigia em tema constante. Perdera, por isso, o contacto com a dignidade social. Tornara-se inimigo da educação e acreditava tão-somente no poder do cofre recheado para solucionar as dificuldades da vida. Adquirira o doentio temor de todas as situações em que pudessem surgir despesas inesperadas. Possuía grandes somas em estabelecimentos bancários que a própria companheira desconhecia, tanto quanto mantinha em custódia no lar enormes bens. Fugia deliberadamente à convivência afetiva, relaxara a própria apresentação individual e encravara-se em deplorável misantropia, obcecado pelo pesadelo do ouro que lhe consumia a existência. Em seguida, a distinta senhora, buscando orientar as nossas futuras atividades, participou-nos que o afogamento dos cunhados se verificara em seus tempos de recém-casada, quando o filhinho mal ensaiava os primeiros passos, e que, após seis anos sobre a dolorosa ocorrência, encontrara, ela também, a desencarnação no lago terrível.
Antônio Olímpio lhe sobrevivera, na esfera carnal, quase três lustros e, por vinte anos, precisamente, padecia nas trevas. Luís, dessa forma, alcançava a madureza plena, tendo atravessado os quarenta anos de experiência física. Ante a palavra do Assistente, que indagou quanto aos seus tentames de socorro ao marido desencarnado, Alzira declarou que isso lhe fora realmente impossível, porque as vítimas se haviam transformado em carcereiros ferozes do infeliz delinqüente, e como, até então, não conseguira escudar-se em qualquer equipe de trabalho assistencial, não lhe permitiam os verdugos qualquer aproximação. Ainda assim, em ocasiões fortuitas, dispensava ao filho, à nora e aos dois netos algum amparo, o que se lhe fazia Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 93
extremamente difícil, de vez que os obsessores velavam, irredutíveis, guerreando-lhe as influências. À vista da pausa espontânea que se fizera em nosso entendimento, num testemunho de comovedora humildade consultou a Silas se a Mansão poderia facultar-lhe uma visita ao esposo, antes da viagem à procura do filho, segundo as tarefas programadas. O Assistente aquiesceu, com o maior carinho, e guiamo-la, nós três, até o compartimento em que Antônio Olímpio repousava. Avizinhando-se-lhe do leito, e ao vê-lo ainda prostrado e inconsciente, notei que o semblante da nobre senhora acusava visível alteração. As lágrimas borbulhavam-lhe, incoercíveis, dos olhos, agora conturbados por imensa dor. Afagou-lhe a cabeça, em que os traços fisionômicos, a meu ver, se reajustavam, pouco a pouco, e chamou-o pelo nome várias vezes. O enfermo abriu os olhos, pousando-os sobre nós sem qualquer expressão de lucidez, pronunciando monossílabos desconexos. Registrando-lhe a ruína mental, a notável mulher pediu a Silas permissão para orar, em nossa companhia, junto do esposo, o que lhe foi concedido prazerosamente.
Diante da nossa surpresa, Alzira ajoelhou-se à cabeceira, conchegou-lhe o busto de encontro ao colo, à maneira de abnegada mãe procurando conservar entre os braços um filhinho doente, e, levantando os olhos lacrimosos para o Alto, clamou, humilde, segundo a sua fé: “Mãe Santíssima! “Anjo tutelar dos náufragos da Terra, compadece-te de nós e estende-nos tuas mãos doces e puras!... “Reconheço, Senhora, que ninguém te dirige, debalde, a palavra de aflição e de dor... “Sabemos que o teu coração compassivo é luz para os que se tresmalham nas sombras do crime, e amor para todos os que mergulham nos abismos do ódio... Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 94
“Perdoaste aos que te aniquilaram o Filho Divino nos tormentos da cruz e, além da paciência com que lhes suportaste os insultos, vieste ainda do Céu, ofertando-lhes braços protetores! “Mãe Bondosa, tu que ergues os caídos de tantas gerações terrenas e que saras, piedosamente, as feridas de quantos se petrificaram na crueldade, lança caridoso olhar sobre nós, meu esposo e eu, jungidos às conseqüências de duplo homicídio que nos fazem sangrar os corações. Eu e ele estamos enovelados nas teias de nosso delito. Embora estivesse ele sem mim, nas águas fatídicas, enquanto nossos irmãos experimentavam a asfixia mortal, sou-lhe partícipe das responsabilidades e identifico-me associada ao crime, também eu... “Meu esposo, Mãe do Céu, devia ter o coração envolvido em pesada nuvem, quando se desvairou na estranha deliberação que nos chagou as consciências... “Para os outros poderá ele ser tido como um impenitente que se apropriou de recursos alheios, infligindo a morte aos próprios irmãos, menos para meu filho e para mim, que lhe recebemos os maiores testemunhos de amor...
Para outros, será réu, diante da Lei... Para nós, porém, é o companheiro e o amigo fiel... Para os outros, parecerá um egoísta sem direito à remissão, mas, para nós, é o benfeitor que nos assistiu na Terra, com imensurável ternura... “Como não ser egoísta e criminosa também eu, Mãe Querida, se lhe usufruí os bens e me alimentei do carinho de seu coração? como não ser igualmente responsável na culpa, se toda a culpa dele se prendia ao propósito, embora louco, de assegurar-me superioridade em minha condição de mulher e de mãe?!... “Advoga-nos a causa, Mediadora Celeste! “Faze-nos voltar, juntos, à carne em que delinqüimos, para que possamos expiar nossos erros!... Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 95
“Concede-me a graça de segui-lo. como servidora contente e agradecida, religada a quem devo tanta felicidade!... “Reúne-nos novamente no mundo e auxilia-nos a devolver com lealdade e valor aquilo que roubamos. “Não permitas, Anjo Divino, que venhamos a sonhar com o Céu, antes de resgatar nossas contas na Terra, e ajuda-nos a aceitar, dignamente, a dor que reedifica e salva!... “Mãe, atende-nos! “Estrela de nossa vida, arranca-nos da escuridão do vale da morte!...” Diante de nós, o inesperado compelia-nos ao êxtase. Enquanto falava em lágrimas, coroara-se Alzira de safirino esplendor. A doce claridade a se lhe irradiar do coração inundara todo o aposento e, assim que a sua voz emudeceu, embargada e ofegante, excelso jorro de prateada luz desceu do Alto, atingindo-nos a todos e comunicando-se especialmente ao enfermo, que desferiu longo gemido de dor humanizada e consciente. A prece de Alzira lograra um êxito que as operações magnéticas de Druso não haviam conseguido alcançar. Antônio Olímpio descerrou desmesuradamente as pálpebras e mostrou no olhar a lucidez dos que despertam de longo e torturado sono...
Agitou-se, sentindo na face as lágrimas da esposa que o beijava, enternecida, e bradou, tomado de selvagem contentamento: – Alzira! Alzira!... Ela conchegou-o, de encontro ao peito, com mais ternura, como quem quisesse pacificar-lhe o espírito atormentado, mas, a um sinal de Silas, dois enfermeiros aproximaram-se, restituindo-o ao sono. Tentei algo dizer à sublime mulher, cuja oração nos erguera a tão culminante emotividade, mas não consegui. Somente aqueles Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 96
que viajaram, por muitos e muitos anos, sob a névoa da saudade e da angústia, poderão entender a comoção que naquela hora nos dominara, irresistível. Procurei observar o semblante de Hilário, mas meu companheiro mergulhara a cabeça nas mãos e, fitando o valoroso Assistente, notei que Silas buscava enxugar as lágrimas dos olhos... Consolei-me. Os grandes corações daquela casa de amor igualmente choravam, tanto quanto eu, mísero pecador, em luta por sanar minhas deficiências e, contemplando Alzira, que se achava agora de pé, acariciando os cabelos do infeliz, tive a idéia de que um anjo do Céu visitava um penitente do inferno. Foi Silas quem nos arrancou ao silêncio, oferecendo o braço à abnegada irmã, para a saída, e explicando, prestimoso: – A oração trouxe-lhe imenso bem, mas não lhe convém o despertamento senão gradativo. O sono natural e reparador ainda é uma necessidade em sua restauração positiva. Alzira afastou-se como que mais tranqüila, apesar da flagelação moral do reencontro.
Minutos de valiosa conversação desfrutamos, ainda, nos diversos setores de trabalho do grande instituto, até que, no momento aprazado, nos ausentamos, os quatro, devorando o caminho que para a nossa companheira representava uma senda de retorno ao antigo lar. Na paisagem terrestre, enchia-se a madrugada de névoa rala e fria. De volta aos velhos sítios que lhe haviam assinalado a dolorosa experiência, Alzira não disfarçava a emoção de que se via objeto. Levemente amparada pelo braço de Silas, designava, aqui e ali, esse ou aquele trecho dos caminhos e pastagens que lhe evocavam mais expressivas recordações... Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 97
De repente, desvelou-se-nos, em estreita planície, o casario em que se lhe desenvolvera o drama funesto. Em verdade, o luar revelava sólida construção em franca decadência. Extensos pátios laterais exibiam grandes jardins arruinados pelo pisoteio constante dos bovinos de grande porte. Porteiras desconjuntadas, tapumes derruídos e as varandas imundas falavam, sem palavras, da desídia dos moradores. E entidades estranhas, embuçadas em largos véus de sombra, transitavam, absortas, nos grandes terreiros, como se ignorassem a presença umas das outras. Com o visível receio de se fazer ouvida, a esposa de Olímpio notificou-nos, em surdina: – São onzenários desencarnados, trazidos sub-repticiamente até aqui por Leonel e Clarindo, de modo a fortalecerem a usura no espírito de meu filho. – Não nos enxergam? – perguntou Hilário compreensivelmente intrigado. – Não – confirmou Silas. – Com certeza nos identificam a chegada, entretanto, pelo que deduzo, encontram-se demasiadamente fixados nas idéias em que se mancomunam.
Não se preocupam com a nossa presença, desde que lhes não penetremos a faixa mental, comungando-lhes os interesses. – Isso quer dizer – comentei – que se algo lhes falássemos acerca da fortuna terrena, excitando-lhes o gosto da posse humana, indiscutivelmente nos dispensariam a melhor atenção... – Exatamente. – E por que não o fazer? – inquiriu meu companheiro, curioso. – Não nos seria lícito desperdiçar tempo – respondeu-nos o amigo –, mesmo porque o trabalho que nos compete espera por nós a reduzidos passos, e ignoramos, até agora, como se nos desdobrarão as tarefas. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 98
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