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Capítulo 10 de 24

Federação Espírita Brasileira — parte 9 de 23

Ação e Reação · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Com efeito, entramos e o movimento no interior doméstico era de pasmar. Desencarnados de horripilante aspecto iam e vinham, através dos corredores extensos, conversando, aloucados, como se estivessem falando para dentro de si próprios. Tentei algo registrar do que me era dado ouvir e o ouro constituía assunto fundamental de todos os solilóquios a se entrechocarem sem nexo. Qual se percebesse, com mais funda acuidade, as tramas do ambiente, Silas estacou de chofre e, deixando-nos os três em recuado ângulo de velha sala, ausentou-se, recomendando-nos aguardar-lhe o retorno, cautelosamente. Pretendia estudar, com antecipação, nosso quadro de serviço. Decorridos alguns minutos, voltou a buscar-nos. Conduziu a irmã Alzira para o aposento em que Adélia, a dona da casa, repousava junto dos filhinhos, explicando que não era conveniente que Alzira se encontrasse logo com os irmãos transformados em verdugos, e ali a deixamos sob a custódia de Hilário que, evidentemente, a contragosto se deixou ficar distanciado de nós, atendendo aos imperativos de vigilância.

A sós comigo, o Assistente esclareceu que, para efetuar o socorro com o proveito desejável, precisaríamos, antes de tudo, saber ouvir e que, em razão disso, procurasse de minha parte não lhe estorvar as atividades, na hipótese de me sentir assaltado por qualquer estranheza, diante das atitudes que ele fosse obrigado a assumir. Compreendi quanto queria Silas dizer e dispus-me a observar, aprender e contribuir, sem alarde. Penetramos estreito compartimento, onde alguém contemplava grandes maços de papel-moeda, acariciando-os com um sorriso malicioso. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 99

No intuito de trazer-me bem informado, o Assistente segredou-me ao ouvido: – Este é Luís, que, desligado do corpo pela influência do sono, vem afagar o dinheiro que lhe nutre as paixões. Tínhamos pela frente um homem maduro, mas de fisionomia ainda moça, relaxado nas maneiras, cujos olhos parados sobre as cédulas encimavam-lhe a esquisita expressão de cobiça vitoriosa. Relanceou apressadamente o olhar em volta, com a indiferença de quem não nos conseguia ver, e, tão logo após um minuto de observação nossa, qual se estivera ele vigiado por cérberos invisíveis, dois homens desencarnados, de presença desagradável, penetraram no pequeno recinto e, dirigindo-se desabridamente para nós, um deles interrogou: – Quem são? quem são vocês? – Somos amigos – replicou Silas, maquinalmente. – Bem – aventou o outro –, nesta casa ingressam somente aqueles que saibam valorizar o dinheiro... E, designando Luís, acrescentou: – Para que ele não se esqueça de preservar a fortuna que é nossa. Intuitivamente concluí que encarávamos com Leonel e Clarindo, os irmãos espoliados de outro tempo.

Certo, porque lhes devêssemos algum esclarecimento à expectativa feroz com que nos seguiam os mínimos movimentos, Silas ajuntou: – Sim, sim... quem não estimará os haveres que lhe pertençam? – Muito bem! muito bem!... – responderam, satisfeitos, ambos os perseguidores, esfregando as mãos, na alegria de quem supostamente encontrava mais combustível para a fogueira de vingança a que se entregavam com desvario espantoso. E, adqui- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 100

rindo imediata confiança em nós, ante as palavras com que o Assistente lhes sossegara a inquietação, Clarindo, o mais brutalizado dos dois, passou a dizer: – Fomos vítimas de terrível traição e perdemos o corpo aos golpes de um irmão infeliz que nos pilhou os bens, e aqui estamos para o desforço justo. Gargalhou de estranha maneira e acentuou: – O maldito, porém, acreditou que a morte lhe apagaria o crime e que nós, os desventurados que lhe sucumbimos às mãos, estaríamos reduzidos a pó e cinza. Apossou-se-nos dos haveres, depois de promover um acidente espetacular, no qual fomos por ele assassinados sem compaixão. De que lhe valeu, no entanto, gozar à nossa custa, se a morte não existe e se os delinqüentes, no corpo ou fora dele, estão algemados às conseqüências das suas ações? O bandido sofrerá os resultados da infâmia contra nós e aqui respira o filho dele, cujos menores movimentos governaremos, até que nos restitua a fortuna de que somos legítimos senhores...

Por tempo relativamente longo, ambos despenderam largo repertório de lamentações, reforçando as cores do sinistro painel mental a que se acomodavam. E, talvez cansados de martelar nas mesmas alegações, sem qualquer resposta de nossa parte, confiaram-se a pausa mais dilatada, que Clarindo rompeu, dirigindo-se ao Assistente em tom amargo: – Não admitem vocês que temos razão? – Sim – aprovou Silas, enigmático –, todos temos razão, entretanto... – Entretanto? – atalhou Leonel, algo cínico – quererá, porventura, interferir em nossos propósitos? Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 101

– Nada disso – consertou meu amigo com inflexão jovial. – Desejo simplesmente lembrar que por dinheiro já lutei excessivamente, crendo que o direito prevalecia de meu lado... Certo porque a observação algo dúbia chocava os interlocutores, o chefe de nossa expedição valeu-se da expectativa natural e perguntou: – Amigos, vemos que esta casa permanece largamente povoada de irmãos nossos ensandecidos... Serão todos eles credores desta família infortunada? O olhar inteligente que o companheiro me endereçou deu-me a perceber que o inquérito afetuoso guardava o objetivo de entreter a confiança dos vingadores intrigados. Leonel, que me parecia o cérebro da empresa delituosa, foi presto na resposta. – É que, até agora – falou, impassível –, precisávamos dividir o tempo entre pai e filho, e, por isso, localizamos aqui, temporariamente, os onzenários enlouquecidos que, fora do campo carnal, apenas mentalizam o ouro e os bens a que se afeiçoaram no mundo, de modo a nos favorecerem a tarefa.

Acompanhando o sovina que nos obedece ao comando, constrangem-no a viver, tanto quanto possível, com a imaginação aprisionada ao dinheiro que ele ama com tresloucada paixão. – No entanto, presentemente – informou Clarindo, magoado – , o criminoso que sitiávamos nas trevas nos foi arrebatado à vigilância. Disporemos de mais tempo para acelerar a nossa desforra. Pagará o filho dobrado preço, já que o assassino foi ocultado aos nossos olhos... Longe de qualquer precipitação na defesa da verdade e do bem, o Assistente falou, calmo: – O esclarecimento nos faz crer que este homem, – e designou Luís, que prosseguia fascinado pelos maços de cédulas da Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 102

gaveta abarrotada –, além do apego enfermiço à precária riqueza humana, ainda sofre a pressão de outras mentes, alucinadas quanto à dele, nos enganos da posse material. Neste caso, o doentio desejo de que se sente objeto é naturalmente elevado à tensão máxima... Leonel, percebendo que Silas penetrava o âmago do problema com surpreendente facilidade, explicou, entusiasmado:

– Sim, aprendemos nas escolas de vingadores que todos possuímos, além dos desejos imediatistas comuns, em qualquer fase da vida, um “desejo-central” ou “tema básico” dos interesses mais íntimos. Por isso, além dos pensamentos vulgares que nos aprisionam a experiência rotineira, emitimos com mais freqüência os pensamentos que nascem do “desejo-central” que nos caracteriza, pensamentos esses que passam a constituir o reflexo dominante de nossa personalidade. Desse modo, é fácil conhecer a natureza de qualquer pessoa, em qualquer plano, através das ocupações e posições em que prefira viver. Assim é que a crueldade é o reflexo do criminoso, a cobiça é o reflexo do usurário, a maledicência é o reflexo do caluniador, o escárnio é o reflexo do ironista e a irritação é o reflexo do desequilibrado, tanto quanto a elevação moral é o reflexo do santo... Conhecido o reflexo da criatura que nos propomos retificar ou punir é, assim, muito fácil superalimentá-la com excitações constantes, robustecendo-lhe os impulsos e os quadros já existentes na imaginação e criando outros que se lhes superponham, nutrindo-lhe, dessa forma, a fixação mental. Com esse objetivo, basta alguma diligência para situar, no convívio da criatura malfazeja que precisamos corrigir, entidades outras que se lhe adaptem ao modo de sentir e de ser, quando não possamos por nós mesmos, à falta de tempo, criar as telas que dese-

4 Refere-se a entidade a organizações mantidas por Inteligências criminosas, homiziadas temporariamente nos planos inferiores. (Nota do Autor espiritual.) Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 103

jemos, com vistas aos fins visados, por intermédio da determinação hipnótica. Através de semelhantes processos, criamos e mantemos facilmente o “delírio psíquico” ou a “obsessão”, que não passa de um estado anormal da mente, subjugada pelo excesso de suas próprias criações a pressionarem o campo sensorial, infinitamente acrescidas de influência direta ou indireta de outras mentes desencarnadas ou não, atraídas por seu próprio reflexo. E, sorrindo, o inteligente perseguidor disse, sarcástico: – Cada um é tentado exteriormente pela tentação que alimenta em si próprio. De mim mesmo, achava-me perplexo. Nunca ouvira um verdugo, aparentemente vulgar, com tanto conhecimento e consciência de seu papel. Figurava-se-me assistir a um curso rápido de sadismo mental, extravagante e frio. Silas, mais treinado que eu, no trato com os amigos daquela condição, não exteriorizou qualquer sentimento de pesar ou de assombro, na fisionomia serena. Entremostrando, porém, grande interesse em torno da preleção, considerou: – Indiscutivelmente, a exposição é perfeita.

Cada qual de nós vive e respira nos reflexos mentais de si mesmo, angariando as influências felizes ou infelizes que nos mantêm na situação que buscamos... Os Céus ou as Esferas Superiores são constituídos pelos reflexos dos Espíritos santificados e o inferno... – É o reflexo de nós mesmos – completou Leonel com uma gargalhada. Creio que, em me assinalando o interesse no aprendizado em curso, o Assistente pediu ao irmão de Clarindo alguma demonstração prática do que afirmara teoricamente para nosso estudo, ao que ele assentiu com prazer, informando: – O avarento sob nossa vista guarda o propósito de comprar ou extorquir determinada gleba vizinha, a qualquer preço, mesmo Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 104

em se tratando de transação criminosa, para valorizar as aguadas da propriedade que nos pertence. Tratando-se de assunto no tema essencial da existência dele, que é a cobiça, facilmente recolherá as imagens que eu lhe deseje transmitir, utilizando-me da própria onda mental em que as suas idéias habitualmente se exprimem... E, passando das palavras para a ação, colocou a destra sobre a fronte de Luís, mantendo-se na profunda atenção do hipnotizador governando a presa. Vimos o pobre amigo, desligado do corpo físico, arregalar os olhos com a volúpia do faminto que contempla um prato saboroso, a distância, e exibir uma carantonha de maldade satisfeita, falando a sós: – Agora! agora! as terras serão minhas! muito minhas! Ninguém concorrerá com meus preços! ninguém!... Logo após, afastou-se, lépido, com a expressão indefinível de um louco.

Acompanhamo-lo até à saída e, da extensa varanda, podíamos vê-lo, avançando, à pressa, desaparecendo, por fim, no grande maciço de arvoredo próximo, na direção de fazendola fronteiriça. – Viram? – exclamou Leonel, contente – transmiti-lhe ao campo mental um quadro fantástico, através do qual as terras do vizinho estariam em leilão, caindo-lhe, enfim, nas unhas. Bastou que eu mentalizasse uma tela nesse sentido, arquitetando o sítio à venda, para que ele a tomasse por realidade indiscutível, porquanto, em se tratando de nosso reflexo fundamental, somos induzidos a crer naquilo que desejamos aconteça... Tão logo termine o fluxo controlado de minha influenciação hipnótica, retomará o corpo carnal, lambendo os beiços, na certeza de haver sonhado com a falência da granja sobre a qual pretende um título de posse. Silas, com manifesta intenção, ajuntou, sereno: Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 105

– Ah! sim!... Estamos diante de um processo de transmissão de imagens, até certo ponto análogo aos princípios dominantes na televisão, no reino da eletrônica, atualmente em voga no plano terrestre. Sabemos que cada um de nós é um fulcro gerador de vida, com qualidades específicas de emissão e recepção. O campo mental do hipnotizador, que cria no mundo da própria imaginação as formas-pensamentos que deseja exteriorizar, é algo semelhante à câmara de imagem do transmissor comum, tanto quanto esse dispositivo é idêntico, em seus valores, à câmara escura da máquina fotográfica. Plasmando a imagem da qual se propõe extrair o melhor efeito, arroja-a sobre o campo mental do hipnotizado que, então, procede à guisa do mosaico em televisão ou à maneira da película sensível do serviço fotográfico.

Não ignoramos que na transmissão de imagens, a distância, o mosaico, recolhendo os quadros que a câmara está explorando, age como um espelho sensibilizado, convertendo os traços luminosos em impulsos elétricos e arremessando-os sobre o aparelho de recepção que os recebe, através de antenas especiais, reconstituindo com eles as imagens pelos chamados sinais de vídeo, e recompondo, dessa forma, as cenas televisadas na face do receptor comum. No problema em estudo, você, Leonel, criou os quadros que se propôs transmitir ao pensamento de Luís, e, usando as forças positivas da vontade, coloriu-os com os seus recursos de concentração na sua própria mente, que funcionou como câmara de imagem.

Aproveitando a energia mental, muito mais poderosa que a força eletrônica, projetou-os, como legítimo hipnotizador, sobre o campo mental de Luís, que funcionou qual mosaico, transformando as impressões recebidas em impulsos magnéticos, a reconstituírem as formas-pensamentos plasmadas por você nos centros cerebrais, por intermédio dos nervos que desempenham o papel de antenas específicas, a lhes fixarem as particularidades na esfera dos sentidos, num perfeito jogo alucinatório, em que o som e a imagem se entrosam harmoniosamente, como acontece na televisão, em que a Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 106

imagem e o som se associam com o apoio eficiente de aparelhos conjugados, apresentando no receptor uma seqüência de quadros que poderíamos considerar como sendo “miragens técnicas”. Os vingadores, tanto quanto eu mesmo, registraram o esclarecimento, sumamente surpreendidos. O Assistente, psicólogo, valera-se de argumentação à altura da que assinaláramos na boca de Leonel, certamente para cientificá-lo de que ele também, Silas, conhecia os processos da obsessão em suas minudências. Leonel, admirado, abraçou-o e exclamou: – Companheiro, companheiro, de que escola procede você? Sua inteligência interessa-nos. O chefe de nossa expedição pronunciou alguns monossílabos e chamou-me à retirada, pretextando serviço a fazer. Os irmãos, avezados à rebeldia, permutaram estranho olhar, como a dizerem entre si que pertencíamos a algum núcleo infernal distante e que lhes não convinha molestar-nos. Insistiram, porém, conosco a que retornássemos no dia seguinte para a troca de idéias, ao que Silas anuiu com evidente satisfação. Mais alguns minutos e o Assistente, em minha companhia, retirou Alzira e Hilário para o exterior, colocando-nos todos de regresso à Mansão.

O prestimoso servidor do bem, na viagem de volta, mantinhase silencioso, pensando, pensando... Contudo, diante de minha perplexidade, aclarou, fraterno: – Não, André. Ainda é cedo para apresentar Alzira aos infortunados verdugos. Pela conversação de Leonel, percebi que cruzamos o caminho de duas vigorosas inteligências, cuja modificação inicial há de ser feita com amor para realizar-se com segurança. Voltaremos amanhã, sem a presença de nossa amiga, para um entendimento mais estável e, por isso mesmo, mais valioso. Passei, desse modo, a esperar ansiosamente pelo dia seguinte. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 107

A história de Silas Na noite imediata, acompanhando o Assistente, eu e Hilário achamo-nos de novo na residência de Luís. Os irmãos de Antônio Olímpio receberam-nos de bom grado. Em larga copa da fazenda, reunia-se a família a dois agregados, em repasto ligeiro. Marcava o relógio vinte e uma horas. A fisionomia do dono da casa era quase a mesma da véspera, não obstante a diferença que a máscara física lhe impunha. Enquanto Adélia acariciava as crianças, entontecidas de sono, o marido comentava o noticiário radiofônico, destacando tópicos alarmantes que assinalara nos setores da economia. E, falando para os amigos assombrados, salientou as dificuldades públicas, relacionou misérias imaginárias, criticou os políticos e os administradores e referiu-se às pragas do café e da mandioca, detendose, particularmente, sobre as epizootias. Por fim, não satisfeito em enunciar as calamidades da Terra, falou, inconseqüente, quanto à suposta ira do Céu, afirmando crer que o fim do mundo estava próximo e clamando contra o egoísmo dos ricos, que agravava o infortúnio dos pobres.

Silenciosos todos, ouvíamos-lhe a palavra, quando Leonel, mais confiado, dirigiu-se ao Assistente, observando: – Estão vendo? Este homem – e apontou Luís, cujo verbo dominava a pequenina assembléia familiar – é o derrotismo em pessoa. Enxerga tudo em termos de cinza e lama, ajuíza com firmeza sobre os desastres sociais e conhece as zonas mais tristes da indigência coletiva; entretanto, não sabe desfazer-se de um só Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 108

centavo dos milhões que retém, a favor dos que sofrem nudez e fome... E, depois de um sorriso irônico; – Acreditam, acaso, possa ele continuar merecendo a felicidade da permanência num corpo carnal? Silas contemplou as personagens da cena doméstica, mostrando imensa piedade no semblante amigo, e considerou: – Leonel, todas as suas observações apresentam lógica e verdade, à primeira vista. Superficialmente, Luís é um exemplar consumado de pessimismo e de usura. Todavia, no fundo, ele é um doente necessitado de compaixão. Há moléstias da alma que arruínam a mente por tempo indeterminado. Quem seria ele, amparado por influências outras? Espiritualmente abafado entre as visões da fortuna terrestre com que lhe assediamos o pensamento, o infeliz perdeu o contacto com os livros nobres e com as nobres companhias. Tem a socorrê-lo apenas a religião domingueira dos crentes que se julgam exonerados de qualquer obrigação para com a fé, contanto que participem do oficio de adoração a Deus, no fim de cada semana. Quem poderia prever-lhe as mudanças benéficas, desde que pudesse receber outro tipo de assistência?

Clarindo e Leonel registraram-lhe as ponderações como se se vissem apunhalados no âmago, tal a expressão de revolta que lhes assomou ao olhar coruscante. – No entanto, ele e o pai são nossos devedores... Roubaramnos, assassinaram-nos... – exclamou Leonel com a inflexão da criança voluntariosa e inteligente que se vê contrariada em seus caprichos. – E que desejam vocês que eles façam? – acrescentou o Assistente, sem se perturbar. – Hão de pagar! . . . Pagar!... – bramiu Clarindo, cerrando os punhos. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 109

Silas sorriu e obtemperou – Sim, pagar é o verbo próprio. . . Contudo, como pode o devedor resgatar-se, quando o credor lhe subtrai todas as possibilidades de solver os débitos? Que a nós mesmos cabe sanar os males de que somos autores, não padece qualquer dúvida... Entretanto, se nos compete retificar hoje uma estrada que ontem desorganizamos, como proceder se nos decepam agora as mãos? O

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