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Capítulo 19 de 24

Federação Espírita Brasileira — parte 18 de 23

Ação e Reação · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

empenhada ou faltando aos compromissos e votos que assumimos, não nos precatamos quanto à lei de correspondência, que nos devolve, inteiro, o mal que praticamos e em cuja intimidade as bênçãos do conhecimento superior nos agravam as agonias, de vez que, no esplendor da luz espiritual, não nos perdoamos pelas nódoas e chagas que trazemos na alma. Isso, para não falar dos crimes passionais, perpetrados na sociedade humana, todos os dias, pelos abusos das faculdades sexuais, destinadas a criar a família, a educação, a beneficência, a arte e a beleza entre os homens. Esses abusos são responsáveis não apenas por largos tormentos nas regiões infernais, mas também por muitas moléstias e monstruosidades que ensombram a vida terrestre, porquanto os delinqüentes do sexo, que operaram o homicídio, o infanticídio, a loucura, o suicídio, a falência e o esmagamento dos outros, voltam à carne, sob o impacto das vibrações desequilibrantes que puseram em ação contra si próprios, e são, muitas vezes, as vítimas da mutilação congênita, da alienação mental, da paralisia, da senilidade precoce, da obsessão enquistada, do câncer infantil, das enfermidades nervosas de variada espécie, dos processos patogênicos inabordáveis e de todo um cortejo de males, decorrentes do trauma perispirítico que, provocando desajustes nos tecidos sutis da alma, exige longos e complicados serviços de reparação a se exteriorizarem com o nome de inquietação, angústia, doença, provação, desventura, idiotia, sofrimento e miséria. Aliás, muito antes da pompa terminológica das escolas psicanalíticas modernas, que se permitem arrojadas conjeturas em torno das flagelações mentais, há quase vinte séculos ensinou-nos Jesus que “todo

aquele que comete o mal é escravo do mal” e podemos acrescentar que, para sanar o mal, a que houvermos escravizado o coração, é imprescindível sofrer a purgação que o extirpa.

10 Evangelho de João, 8:34. (Nota do Autor espiritual.) Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 200

A conversação como que esmorecia, no entanto, Hilário, interessado em dirimir as dúvidas que lhe escaldavam a cabeça, tomou novamente a palavra e indagou, sem preâmbulos: – E os problemas inquietantes da inversão? Silas deu-se pressa em aclarar: – Não será preciso alongar elucidações. Considerando-se que o sexo, na essência, é a soma das qualidades passivas ou positivas do campo mental do ser, é natural que o Espírito acentuadamente feminino se demore séculos e séculos nas linhas evolutivas da mulher, e que o Espírito marcadamente masculino se detenha por longo tempo nas experiências do homem. Contudo, em muitas ocasiões, quando o homem tiraniza a mulher, furtando-lhe os direitos e cometendo abusos, em nome de sua pretensa superioridade, desorganiza-se ele próprio a tal ponto que, inconsciente e desequilibrado, é conduzido pelos agentes da Lei Divina a renascimento doloroso, em corpo feminino, para que, no extremo desconforto íntimo, aprenda a venerar na mulher sua irmã e companheira, filha e mãe, diante de Deus, ocorrendo idêntica situação à mulher criminosa que, depois de arrastar o homem à devassidão e à delinqüência, cria para si mesma terrível alienação mental para além do sepulcro, requisitando, quase sempre, a internação em corpo masculino, a fim de que, nas teias do infortúnio de sua emotividade, saiba edificar no seu ser o respeito que deve ao homem, perante o Senhor.

Nessa definição, porém, não incluímos os grandes corações e os belos caracteres que, em muitas circunstâncias, reencarnam em corpos que lhes não correspondem aos mais recônditos sentimentos, posição solicitada por eles próprios, no intuito de operarem com mais segurança e valor, não só o acrisolamento moral de si mesmos, como também a execução de tarefas especializadas, através de estágios perigosos de solidão, em favor do campo social terrestre que se lhes vale da renúncia Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 201

construtiva para acelerar o passo no entendimento da vida e no progresso espiritual. Compreendemos que Silas se desincumbira brilhantemente da tarefa de esclarecer-nos, condensando, em palavras singelas, luminosa síntese de vasto assunto que, decerto, em nossa conceituação exigiria vários compêndios para ser devidamente analisado. Meu colega, contudo, como quem desejava estudar todas as questões tangentes, voltou a interrogar: – Já que nos detemos, em matéria de sexologia, na lei de causa e efeito, como interpretar a atitude dos casais que evitam os filhos, dos casais dignos e respeitáveis, sob todos os pontos de vista, que sistematizam o uso dos anticoncepcionais? Silas sorriu de modo estranho e falou: – Se não descambam para a delinqüência do aborto, na maioria das vezes são trabalhadores desprevenidos que preferem poupar o suor, na fome de reconforto imediatista. Infelizmente para eles, porém, apenas adiam realizações sublimes, às quais deverão fatalmente voltar, porque há tarefas e lutas em família que representam o preço inevitável de nossa regeneração.

Desfrutam a existência, procurando inutilmente enganar a si mesmos, no entanto, o tempo espera-os, inexorável, dando-lhes a conhecer que a redenção nos pede esforço máximo. Recusando acolhimento a novos filhinhos, quase sempre programados para eles antes da reencarnação, emaranham-se nas futilidades e preconceitos das experiências de subnível, para acordarem, depois do túmulo, sentindo frio no coração... – E o aborto provocado, Assistente? – inquiriu Hilário, sumamente interessado. – Diante da circunspecção com que a sua palavra reveste o assunto, é de se presumir seja ele falta grave... – Falta grave?! Será melhor dizer doloroso crime. Arrancar uma criança ao materno seio é infanticídio confesso. A mulher Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 202

que o promove ou que venha a coonestar semelhante delito é constrangida, por leis irrevogáveis, a sofrer alterações deprimentes no centro genésico de sua alma, predispondo-se geralmente a dolorosas enfermidades, quais sejam a metrite, o vaginismo, a metralgia, o enfarte uterino, a tumoração cancerosa, flagelos esses com os quais, muita vez, desencarna, demandando o Além para responder, perante a Justiça Divina, pelo crime praticado. É, então, que se reconhece rediviva, mas doente e infeliz, porque, pela incessante recapitulação mental do ato abominável, através do remorso, reterá por tempo longo a degenerescência das forças genitais. – E como se recuperará dos lamentáveis acidentes dessa ordem? O Assistente pensou por momentos rápidos e acrescentou: – Imaginem vocês a matriz mutilada ou deformada, na mesa da cerâmica. Decerto que o oleiro não se utilizará dela para a modelagem de vaso nobre, mas aproveitar-lhe-á o concurso em experimentos de segunda e terceira classe...

A mulher que corrompeu voluntariamente o seu centro genésico receberá de futuro almas que viciaram a forma que lhes é peculiar, e será mãe de criminosos e suicidas, no campo da reencarnação, regenerando as energias sutis do perispírito, através do sacrifício nobilitante com que se devotará aos filhos torturados e infelizes de sua carne, aprendendo a orar, a servir com nobreza e a mentalizar a maternidade pura e sadia, que acabará reconquistando ao preço de sofrimento e trabalho justos... Inexplicavelmente, Hilário emudeceu e, à face da lógica em que se baseavam as anotações de Silas, não tive coragem de prosseguir perguntando, absorvido então pelo temor de aprofundar em excesso num terreno em que terminaria por esbarrar nos detritos de meus próprios erros, preferindo, assim, o silêncio para reaprender e pensar. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 203

Débito aliviado Em nossos estudos da lei de causa e efeito, não nos esqueceremos de Adelino Correia, o irmão da fraternidade pura. Na véspera de belo acontecimento que nos permitiremos narrar, visitamo-lo em companhia de Silas, que no-lo apresentou nas atividades de um templo espírita-cristão. Ouvimo-lo em preciosos comentários do Evangelho, sob o influxo de iluminados instrutores, dos quais assimilava as correntes mentais com a docilidade confiante de um homem profundamente habituado à oração. Falara com mestria, arrancando-nos lágrimas pela emotividade com que nos tangia as fibras mais íntimas. Singelamente trajado, denotava a condição do trabalhador em experiências difíceis. Mas o estágio de prova a que parecia enredar-se era mais amplo. Adelino revelava longa faixa de eczema na pele à mostra. Certa porção da cabeça, os ouvidos e muitos pontos da face exibiam placas vermelhas, sobre as quais se formavam diminutas vesículas de sangue, ao passo que as demais regiões da epiderme surgiam gretadas, evidenciando uma afecção cutânea largamente cronicificada. Além disso, acanhado e tristonho, indicava tormentos ocultos a lhe dominarem a mente.

Contudo, trazia nos olhos, maravilhosamente lúcidos, a marca da humildade. Vários amigos espirituais assistiam-no, atentos. Doce velhinha desencarnada abeirou-se de nós e, demonstrando gozar da intimidade do orientador de nossas excursões, falou-lhe, afetuosa: – Assistente amigo, venho rogar-lhe socorro em benefício da saúde de nosso Adelino. Noto-o mais incomodado, ultimamente, pela dor das feridas não cicatrizadas... Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 204

– Sim, sim... – respondeu Silas, cordialmente – o caso dele merece de todos nós especial carinho. – Porque pensa ele nas necessidades dos outros, sem refletir nas necessidades próprias... – acrescentou a anciã, comovida. O assessor de Druso prosseguiu, com carinho: – Dois de nossos médicos o vêm assistindo atenciosamente, quando se encontra ausente do vaso físico por influência do sono. E, afagando-lhe a cabeça: – Esteja tranqüila. Correia, em breve, estará plenamente restaurado. Os múltiplos serviços da casa desdobravam-se, eficientes, e Adelino, dentro deles, atraía-nos a atenção pela segurança espiritual com que se conduzia. Cercado pelas vibrações radiantes dos seus pensamentos, centralizados no santo objetivo do bem, afigurava-se-nos um companheiro vestido de luz. Alguns instantes após o afastamento da velhinha, apareceunos simpático rapaz, igualmente já desenfaixado da matéria física, que, depois de saudar-nos, rogou, reverente, ao nosso orientador: – Peço vênia para solicitar-lhe valioso obséquio... – Fale sem receio. E o jovem recém-chegado explicou, de olhos úmidos: – Meu caro Assistente, sei que o nosso Adelino vem atravessando certa crise financeira... Pelo muito que auxilia os outros, descura-se das suas próprias necessidades.

Pelo amparo que ele oferece constantemente à minha pobre mãe encarnada, insisto no apoio de sua amizade para que seja favorecido. Ainda na semana passada, ouvindo as súplicas de minha genitora viúva, em grande penúria para atender ao tratamento de dois dos meus manos enfermos, procurei-o, em lágrimas, transmitindo-lhe apelos mentais para que nos protegesse e, sem qualquer vacilação, acreditando Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 205

obedecer aos seus impulsos, visitou-nos a casa, entregando à minha sofredora mãezinha a importância de que necessitava... ó meu Assistente, rogo-lhe por amor a Jesus!... Não deixe em dificuldade quem tanto nos auxilia!... Silas acolheu a petição com risonha benevolência e disse: – Descansemos. Adelino permanece na rede de simpatia fraternal que teceu para o asilo de si mesmo. Incumbem-se muitos amigos de supri-lo com os recursos indispensáveis ao fiel desempenho da tarefa a que se dedicou. As circunstâncias na luta material harmonizar-se-ão em favor dele, atendendo-lhe aos méritos conquistados. Efetivamente, o serviço espontâneo na afetuosa defesa do amigo que ali enxergávamos, prestativo e confiante, era um tema de amizade e gratidão a estudar. – Dir-se-ia – observou Hilário, intrigado – que todos os tarefeiros, em trânsito nesta casa, são devedores do irmão sob nossa vista... – Sim – aprovou Silas, paciente –, os créditos de Adelino são realmente enormes, não obstante os débitos a que ainda está preso...

Cultiva, no entanto, a ventura de substancializar a fé e o conhecimento superior que os Mensageiros de Jesus lhe confiam em obras de genuíno amor fraternal, a lhe granjearem larga soma de reconhecimento. Logo após, o mentor amigo recomendou-nos aproveitar os minutos em atuação fraternal, no instituto evangélico em que nos abrigávamos, até que pudéssemos tomar contacto mais amplo com o servidor, cuja existência atual se desdobrava sob os auspícios da Mansão que nos patrocinava os estudos. Em face da simpatia que Adelino despertava igualmente em nós, acercamo-nos dele, a fim de ofertar-lhe, de algum modo, o contingente de nossas forças, na movimentação dos passes mag- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 206

néticos que passara agora a administrar, em favor de alguns enfermos. Era curioso pensar que nós mesmos, no primeiro encontro fortuito, nos sentíamos prontos a partilhar-lhe as tarefas, tãosomente atraídos por sua irradiante bondade. A abnegação, em toda a parte, é sempre uma estrela sublime. Basta mostrar-se para que todos gravitemos em torno de sua luz. Findo o serviço da noite, Silas e nós acompanhamo-lo ao reduto doméstico. Esperava-o, no limiar, a genitora que, evidentemente, ultrapassava os sessenta de idade. Silas deu-se pressa em no-la apresentar, explicando: – É nossa irmã Leontina, carinhosa mãe de Correia, mãe e amiga a tutelar-lhe a existência. Reparando na avançada madureza do amigo que nos tomava a atenção, meu colega indagou: – Adelino não é casado? – Sim, nosso irmão é casado, mas não conta com a presença da esposa. A resposta dava-nos a entender que o companheiro atravessava provas perante as quais nos cabia respeitosa discrição. E, enquanto mãe e filho se entregavam a doce entendimento, Silas fez-nos penetrar em aposento próximo. Junto á porta de entrada, alinhavam-se três leitos, ocupados por outras tantas criancinhas.

Loura menina de seus nove a dez anos presumíveis, ao lado de dois petizes de escura tez, recordava a Branca de Neve entre dois anões. Todos dormiam, placidamente. Afagando a boneca viva, o Assistente informou: – Esta é Marisa, a filhinha de Correia, de quem a mãezinha se distanciou em definitivo, há seis anos. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 207

Designando, em seguida, os dois meninos de cor, aduziu: – E estes pequeninos são Mário e Raul, dois enjeitados que Adelino abraçou por filhos do coração. Hilário e eu, adivinhando as aflições ocultas que decerto enxameavam na existência do chefe da casa, silenciávamos, de propósito, em reverente expectativa. Entendendo-nos a atitude, Silas passou a falar-nos mais longamente, aclarando: – Para exaltar o santificante esforço de um amigo, a fim de estudarmos juntos um processo de dívida aliviada, permitimo-nos algo dizer em torno do passado recente do companheiro que visitamos, agora empenhado ao labor do seu resgate. Qual se quisesse centralizar os recursos da memória, emudeceu por instantes e, finalmente, continuou: – Em meados do século precedente, Adelino era filho bastardo de um jovem muito rico que o recebeu das mãos da genitora escrava, que desencarnou ao trazê-lo à luz. Martim Gaspar, o moço afazendado que lhe foi o pai solteiro, era homem de coração enrijecido, muito cedo acostumado ao orgulho tiranizante, em face da incúria do lar em que nascera.

Abusava das donzelas cativas a seu talante e, em muitas ocasiões, vendeu-as com os próprios filhos recém-natos para lhes não ouvir os choros e petitórios. Temido na casa grande da qual se fizera absoluto senhor, por morte do velho pai, que, em vão, buscara tardiamente controlarlhe os instintos, sabia usar o tronco e o chicote, sem qualquer compaixão. Era execrado pela maioria dos servos e bajulado de quantos lhe obtinham os favores, a troco de lisonja servil. Entretanto, para o filho Martim – o mesmo Adelino de agora –, a sua ternura e dedicação não mostravam limites. Inexplicavelmente para ele mesmo, amava-o com desvelado enternecimento, a ponto de providenciar-lhe educação esmerada na própria fazenda. Entre pai e filho estabeleceram-se, dessa forma, os mais santos laços afetivos. Eram companheiros inseparáveis nos jogos e nos estu- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 208

dos, no serviço e na caça. Foi assim que Gaspar, não obstante cruel para com os outros rebentos da própria carne, nas senzalas sofredoras, não hesitou em legitimá-lo como filho, perante as autoridades do tempo, tornando-o partícipe de seu nome e de sua herança. Pai e filho contavam, respectivamente, quarenta e três e vinte e um anos de idade, quando Gaspar, embora solteirão amadurecido, resolveu casar-se, em grande metrópole, desposando Maria Emília, leviana jovem de vinte primaveras que, trazida à grande casa rural, desenvolveu sobre o enteado estranha fascinação. Martim, extremamente amado pelo genitor, atraído agora para os encantos femininos da madrasta, passou a experimentar torturantes conflitos sentimentais. Ele, que se julgava o melhor amigo de Gaspar, entrou a detestá-lo. Não lhe tolerava a posse sobre a mulher que desejava, sabendo-se por ela ardentemente querido, porquanto Maria Emília, pretextando essa ou aquela necessidade, sabia isolá-lo em viagens diversas, nas quais lhe exacerbava a afeição juvenil.

Ambos souberam furtar-se a qualquer desconfiança e, totalmente entregue à paixão que o requestava, o jovem Martim, desprevenido, planejou o medonho parricídio em que se enliçou, desventurado. Sabendo o genitor acamado, em tratamento do fígado enfermo, tomou a cooperação de dois capatazes da sua inteira confiança, Antônio e Lucidio, igualmente verdugos de meninas cativas, e, certa noite, administrou-lhe uma poção entorpecente, com aprovação da madrasta... Tão logo se pôs o doente a dormir, coadjuvado pelos dois cúmplices que odiavam o patrão, espalhou substâncias resinosas no leito paterno, simulando, logo após, o incêndio no qual o mísero-Gaspar, em horríveis padecimentos, se ausentou do corpo. Conduzido o pai ao sepulcro e apoderando-se-lhe dos haveres, tentou a felicidade ao pé de Maria Emília; todavia, o genitor desencarnado, a inflamarse em cólera, envolveu-o em nuvens de fluidos inflamados, contra os quais o infeliz não possuía defesa... Apegando-se ao afeto da companheira, Martim procurou anestesiar a consciência e esque- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 209

cer... esquecer... Confiou a fazenda aos cuidados de ambos os cúmplices do tenebroso delito e, arrimando-se à companhia da mulher, demandou à Europa, em busca de repouso e distração. Tudo, porém, debalde... Ao fim de cinco anos de resistência, tombou integralmente vencido, sob o jugo do Espírito paternal que o cercava, incessantemente, apesar de invisível. Abriu-se-lhe a pele em chaga, como se chamas ocultas o requeimassem. Circunscrito ao leito de dor e constantemente empolgado pelo remorso, recapitulava mentalmente a morte do genitor, em urros de martírio selvagem... Não sabia, desse modo, senão chorar, gritando a esmo o arrependimento de que se via possuído, no que foi interpretado à conta de louco pela própria companheira, que se dava pressa em reconhecer-lhe a suposta alienação mental, de modo a inocentar-se perante os amigos e servidores. Foi algemado a semelhante suplício que Martim recebeu escárnio e abandono, dentro do próprio círculo doméstico, vindo a expirar em tremenda flagelação. Martim Gaspar, o genitor assassinado, aguardou-o no túmulo, arrastando-o para as sombras infernais, onde passou a exercer pavorosa vingança...

O desditoso filho desencarnado sofreu terríveis humilhações e indescritíveis tormentos, durante onze anos sucessivos, em cárceres de treva, até que, amparado por Mensageiros de Jesus, que lhe promoveram o resgate, ingressou em nosso instituto, ao que fui informado, em lamentável situação. Tendo entrado em sintonia com o genitor, sequioso de vindita, através das brechas mentais do remorso e do arrependimento tardio, foi hipnotizado por gênios perversos, que o fizeram sentirse dominado de chamas torturantes. Fixada a imaginação dele em semelhante quadro de angústia, o próprio Martim nutria com o pensamento culposo as labaredas em que se torturava sem consumir-se, até que foi convenientemente aliviado e socorrido por nossos instrutores, através de recursos magnéticos que lhe sanaram o doloroso desequilíbrio. Devotou-se, então, depois de melhorado, aos serviços mais duros de nossa organização, conquis- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 210

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