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Capítulo 13 de 24

Federação Espírita Brasileira — parte 12 de 23

Ação e Reação · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Ainda assim, meu companheiro insistiu: – Não obstante os seus valiosos conceitos já expendidos, quanto à memória nas regiões inferiores, será interessante saber se Laudemira, antes da atual reencarnação, chegava a lembrar-se com nitidez dos estágios por que passou nas difíceis provações a que se refere... Nosso amigo esclareceu com a maior tolerância: – Estou na Mansão há oito lustros, e acompanhei-lhe a internação em nossa casa, faz precisamente trinta anos. Havia encerrado a existência última, no plano carnal, no início deste século, e atravessara longos padecimentos, nas esferas de baixo nível. Ingressou em nosso instituto acusando terrível demência e, submetida à hipnose, revelou os fatos que venho de narrar, fatos esses que constam naturalmente da ficha que lhe define a personalidade, no arquivo das observações que nos orientam. Nossos instrutores, porém, não julgaram necessário mais amplo recuo mnemônico, pelo menos por enquanto, para lhe prestarem auxílio.

Sei, no entanto, que Laudemira, conturbada qual se achava, não dispunha de forças para articular qualquer reminiscência na vigília comum, mesmo porque foi trazida à reencarnação atual, sob os auspícios de benfeitores que velam por nossa organização, ainda mentalmente sintonizada com os laços menos dignos do caminho que escolheu. Deve agora receber cinco de seus antigos cúmplices na queda moral, para reerguer-lhes os sentimentos, na direção da luz, em abençoado e longo sacerdócio materno. Do seu êxito no presente, dependerão as facilidades que espera recolher do futuro, para a liberação definitiva das sombras que ainda lhe ofuscam o Espírito, pois, se conseguir formar cinco almas na escola do bem, terá conquistado enorme prêmio, diante da Lei amorosa e justa. O problema de Laudemira, debatido em nosso regresso, valia por preciosa contribuição no tema “causa e efeito” que nos decidíramos estudar. E, reparando em que a nossa curiosidade se queda- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 132

ra, satisfeita, Silas voltou-se com mais carinho para Leonel e Clarindo, sondando-lhes os ideais. Decerto, para conhecer-lhes naturalmente as esperanças, reportou-se aos próprios anseios, quanto aos trabalhos médicos do futuro. Não pretendia perder tempo. Tinha agora a sede de aprender e servir, para demandar o campo humano com os melhores valores do espírito, que se lhe exprimiriam na mente, quando encarnado, em forma de tendência e facilidade na chamada “vocação inata”. Os dois irmãos, sabiamente tocados pela palavra do amigo que lhes ganhara a confiança, sentiam-se agora mais à vontade. A confissão do Assistente e o exemplo de humildade que nos fornecera, espontâneo, penetrara-lhes, fundo. Clarindo, impulsivo e franco, falou dos ideais de que se inflamara, anos antes. Possuía entranhado amor ao solo e projetara, quando jovem, a organização de um reduto agrícola em que lhe fosse possível consagrar-se a nobilitantes experiências. Anelaria ter vivido largo tempo na propriedade familiar, criando um setor de ação própria. Entretanto, comentou algo triste, mas sem o tom de revolta de suas anteriores conversações, a criminosa decisão de Antônio Olímpio aniquilara-lhe os sonhos.

Vira-se esbulhado dos seus ideais, em tremenda frustração que, depois do sepulcro, lhe dementava a cabeça... Não conseguia disposições mentais para refazer a esperança... Sentia-se como o desespero em pessoa, como alguém que se identificasse irremediavelmente agrilhoado a pelourinho degradante... E Clarindo mostrava agora inflexão de pranto na voz, revelando-se imensamente transformado. Leonel, cuja inteligência refinada nos infundia cauteloso respeito, estimulado por Silas, começou a dizer de sua inclinação para a música... Quando menino entre os homens, acreditava-se talhado para a arte sublime. Jovem, apaixonara-se pela obra de Bethoven, cuja Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 133

biografia guardava de cor. Em razão disso, não buscava tãosomente o título de bacharel para o qual se preparava, mas também os louros de pianista, com o que se sentiria sumamente feliz... No entanto, e exprimia-se carregando a voz de insofreável amargura, o homicídio de que fora vítima turvara-lhe a visão. Albergava no íntimo tão-somente o ódio que passara a reger-lhe a existência e, com o ódio no coração, não sabia rearquitetar os castelos do princípio... Leonel fez longa pausa e acentuou com agradável surpresa para nós: – Entretanto, em nossos contactos pessoais nos dias últimos, começo a perceber que, se tivemos a experiência física ceifada em plena juventude do corpo, indubitavelmente possuíamos débitos que justificavam provação assim tão rude, embora isso não exima Antônio Olímpio, o irmão ingrato, da culpa que carrega, esposando a responsabilidade do horrível assassínio com que nos precipitou nas sombras. – Exatamente – acrescentou Silas, emocionado –, seu argumento denuncia grande renovação,..

Contudo, o Assistente não pôde continuar, porque Leonel mergulhou a cabeça nas mãos e clamou em lágrimas: – Mas, ó Deus, por que só conhecemos a alta virtude do perdão, quando já nos enodoamos no crime? Por que só tão tarde o desejo de restaurar o campo de nossas aspirações, quando a vingança já nos crestou a vida no incêndio do mal?!... Enquanto Clarindo lhe acompanhava a explosão de dor e remorso, com sinais de aprovação, e Silas o acolhia, generoso, de encontro ao peito, pressentimos que Leonel se reportava à morte de Alzira, debaixo da obsessão que, sem dúvida, ele e o irmão haviam comandado. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 134

O orientador de nossa excursão, todavia, deu-se pressa em consolá-lo, exortando, bondoso: – Chora, meu amigo! Chora, que as lágrimas purificam o coração!... Ainda assim, não permitas que o pranto te esmague a lavoura de esperança... Quem de nós, aqui, jaz sem culpa? Todos temos compromissos a resgatar e o Tesouro do Senhor jamais se empobrece de compaixão. O tempo é a nossa bênção... Com os dias coagulamos a treva ao redor de nós e, com os dias, convertêla-emos em sublimada luz... Entretanto, para isso, é indispensável perseveremos na coragem e na humildade, no amor e no sacrifício. Levantemo-nos na direção do futuro, dispostos à reconstrução dos nossos destinos. Notamos que Leonel, naquela hora, propunha-se vazar o coração em nossos ouvidos. Queria desabafar, confessar-se... Silas, no entanto, restituindo-o à meditação, convidou-nos ao regresso, prometendo voltar na noite seguinte. Os dois companheiros, completamente modificados, reinstalaram-se no lar de Luís, e prosseguimos de retorno. A caminho, o Assistente rejubilava-se. O processo Antônio Olímpio, a nós confiado, atingia bom termo. A renovação dos obsessores coroara-se de êxito.

E o chefe da nossa expedição dizia aguardar para a noite imediata o entendimento entre Alzira e aqueles que lhe seriam filhos no porvir, depois do qual seriam ambos internados na Mansão, com o pleno assentimento deles mesmos, tendo em vista a preparação do futuro... Na casa dirigida por Druso, trabalhariam e reeducar-se-iam, encontrando novos interesses mentais e novos estímulos para a necessária recuperação... Assim que o nosso amigo entrou em silêncio, Hilário indagou, preocupado: Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 135

– Quanto tempo gastarão Clarindo e Leonel, aplainando os caminhos para a volta ao corpo físico? – Provavelmente um quarto de século... – Por que tanto? – Precisarão reconstituir as idéias, no campo do bem, plasmando-as de modo indelével na mente, a fim de que se consagrem à efetivação dos novos planos. Refugiar-se-ão no serviço ativo, ajudando aos outros e criando, assim, preciosas sementeiras de simpatia, que lhes facilitarão as lutas na Terra, amanhã... No trabalho e no estudo, tanto quanto nos empreendimentos da pura fraternidade, amealharão incorruptíveis valores morais, e a reeducação, dessa forma, aperfeiçoar-lhes-á as tendências, predispondo-os à vitória de que necessitam nas provações remissoras. – E Antônio Olímpio? – insistiu Hilário – pelo que deduzo, permanecerá muito menos tempo na Mansão... – Sim – aprovou o Assistente –, Antônio Olímpio, depois de breve reconciliação com os manos, renascerá, sem dúvida, dentro de dois a três anos. – Por que tão grande diferença? – Não podemos esquecer – explicou Silas, sereno – que foi ele quem começou a criminosa trama sob nosso estudo.

Por isso, do grupo de reencarnantes, será o companheiro menos favorecido na Lei, durante a viagem prevista à esfera humana, pelas agravantes que lhe marcam o problema individual. Com o espírito ainda sombreado de angústia e arrependimento, ressurgirá no berço da família que ele prejudicou, pela prática da usura, movimentandose num horizonte mental muito restrito, de vez que, instintivamente, a sua maior preocupação será devolver aos irmãos espoliados a existência física, o dinheiro e as terras que deles furtou... Em razão disso, apenas disporá de facilidades íntimas para a cultura e o aprimoramento de si mesmo, na idade madura do corpo, quando Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 136

houver encaminhado os filhos para o triunfo que a eles compete alcançar. – Entretanto – ponderou meu colega –, Clarindo e Leonel também mataram... – E decerto pagarão por isso; contudo, não podemos negarlhes atenuantes no lamentável delito... Antônio Olímpio planejou o crime, friamente, para acomodar-se nas vantagens materiais que lhe adviriam da crueldade e da violência, e os irmãos infelizes agiram no pesadelo do ódio, traumatizados de pavorosa dor... Inegavelmente, Clarindo e Leonel padecem angústia e remorso, devendo sofrer doloroso resgate, em momento oportuno, mas, ainda assim, são credores do irmão que lhes retardou os passos evolutivos... – E Alzira nessa história? – Alzira já conseguiu entesourar bastante amor para entender, perdoar e auxiliar... Por esse motivo, dispõe, diante da Lei, do poder de ajudar, tanto ao esposo como aos cunhados, até agora infelizes, tanto ao filho Luís, ainda na carne, como a todos os descendentes de sua organização familiar, porque, quanto mais amor puro no Espírito, mais amplos recursos da alma perante Deus... E, lançando expressivo olhar sobre nós, acentuou: – Aqueles que amam realmente, governam a vida. Sentia-me satisfeito.

Os conceitos não poderiam ser mais claros. Hilário, contudo, pedindo desculpas pela insistência, levantou ainda nova questão. Por que sofrera Alzira aflitiva desencarnação no lago? Silas, no entanto, considerou: – Compreendendo-se que nossa amiga já conquistou a felicidade do perdão irrestrito, filho do amor que não se preocupa em Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 137

ser amado, não nos convém mais profunda imersão no pretérito, tornando nosso estudo fastidioso. E sorrindo: – Alzira, diante de nós outros, já é alguém que possui larga faixa de céu no coração... Os assuntos que lhe dizem respeito devem ser analisados no Céu... Atingíramos a Mansão e, recolhidos a nós mesmos, passamos a digerir as lições da hora em curso... As peças de amor e ódio, sofrimento e vingança do processo Antônio Olímpio eram as mesmas de nossos dramas pessoais, destacando a necessidade de amor e perdão em nossas vidas, para que, através do sentimento puro, pudéssemos avançar da sombra para a luz... Nessas graves reflexões, aguardamos ansiosamente a noite seguinte. E, em chegando a hora abençoada de nossos estudos, o Assistente entendeu-se com a irmã Alzira, em longa conversação particular, solicitando-lhe nos reencontrasse, a determinada hora, no lago em que ocorrera a desencarnação dela. Em seguida, recomendou a duas cooperadoras da casa lhe acompanhassem a viagem, instruindo-as para que nossa amiga somente viesse até nós quando chamada por nosso grupo em serviço.

Depois da costumeira excursão, entrávamos no lar de Luís, onde Clarindo e Leonel nos aguardavam com carinhoso interesse. Silas reconduziu-nos ao hospital que visitáramos na véspera, administrando passes magnéticos em Laudemira e no filhinho recém-nato e, findas essas ligeiras atividades de assistência, transportou-nos para vasto domicílio, em cujo umbral um velhinho desencarnado, de fisionomia simpática, recebeu-nos amavelmente. – É o nosso irmão Paulino, que vem amparando as obras do filho, dedicado à engenharia na Terra – explicou o orientador de nossas tarefas. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 138

E Paulino deu-nos acesso ao interior familiar, situando-nos num espaçoso gabinete em que um homem maduro jazia debruçado sobre um livro. O generoso anfitrião no-lo apresentou como sendo o filho encarnado, cuja missão técnica assistia com invariável desvelo. E, porque indagasse ao diretor de nossa excursão em que poderia servir-nos, Silas rogou-lhe os bons ofícios, junto ao filho, para que nos fosse propiciado, ali, o prazer de alguns momentos de música, solicitando-lhe, se possível, alguma página especial de Beethoven. Com surpresa, vimos nosso amigo abeirar-se do engenheiro, segredando-lhe algo aos ouvidos. E, longe de assinalar-nos a presença, qual se estivesse constrangido por si mesmo a ouvir música, o cavalheiro interrompeu a leitura, dirigiu-se à eletrola e consultou pequena discoteca, de que retirou a Pastoral do grande compositor a que nos referimos. Em breves momentos, o recinto povoava-se para nós de encantamento e alegria, sonoridade e beleza. Silas, com alma e coração, ouvia conosco a sinfonia admirável, toda ela estruturada em bênçãos da Natureza sublimada.

Com Clarindo, atraído para as lides campestres, sentíamos mentalmente a presença do bosque, repleto de pássaros cantores sobrevoando um regato cristalino a deslizar sobre leitosos seixos, e, qual se a paisagem imaginária obedecesse à narração melódica, vimo-la transformar-se, de repente, dando-nos a idéia de que o céu, dantes azul, se cobria de nuvens pesadas e pardacentas, a despejarem faíscas e trovões, para depois retornar ao quadro florido, entre cânticos e preces... E, com Leonel, apaixonado pela arte divina, registrávamos o império da música, em sua majestade soberana, arrebatando-nos às mais sublimes emoções. Aqueles minutos valiam para nós como abençoada oração. Os lances da magnífica sinfonia como que nos elevavam a círculos harmoniosos de ignota beleza e todos trazíamos lágrimas abun- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 139

dantes, de vez que os encantadores acordes em movimento possuíam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente, os refolhos do ser. Findas as notas derradeiras, despedimo-nos, maravilhados. Nossos pensamentos vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais fraternos. Por solicitação de Leonel, que parecia atender instintivamente à sugestão de Silas, demandamos o lago na velha propriedade dos Olímpios. O plenilúnio coroava o campo de prateadas fulgurações. A noite ia alta... Tomando a iniciativa, o irmão de Clarindo passou, então, a relatar-nos quanto já sabíamos, detendo-se em copioso pranto, ao referir-se à morte da cunhada, sobre quem atirara as farpas da sua ira... Extremamente surpreendidos, Hilário e eu anotávamos a paciente atenção de Silas em lhe ouvindo a confissão, qual se o assunto lhe fora absoluta novidade.

Depois de mais de uma hora, em que nosso companheiro sofredor se mantivera com a palavra, o Assistente, em particular, chamou-nos a mais nobre compreensão, declarando a Hilário e a mim que o nosso amigo tinha necessidade de expungir do coração ferido as suas dores, e que, de nossa parte, embora lhe conhecêssemos o drama intimo, não nos cabia cercear-lhe a confissão e sim recolhê-la fraternalmente, partilhando-lhe a carga de aflição, para que se lhe aliviassem as chagas do pensamento. Logo após, Silas envolveu a ambos os irmãos numa interessante palestra, propondo-lhes o reajustamento por meio de luta reparadora. Não desejariam retomar, porventura, o caminho terrestre? por que não abraçarem trabalho novo, buscando o renascimento na mesma família de que provinham? não seria mais agradável e mais fácil conquistar a reconciliação e, com isso, Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 140

reentrar na posse das antigas aspirações, marchando com elas, no plano físico, ao encontro de preciosos degraus para a Vida Superior? Leonel e Clarindo, porém, quase que de modo simultâneo, lamentaram-se quanto ao problema de Alzira... Em verdade, no desespero da própria causa, haviam aceitado as sugestões da loucura, gastaram anos a fio estendendo a crueldade nas trevas; entretanto, nada lhes doía tanto como a violência praticada contra a esposa de Antônio Olímpio que, horrorizada ante a perseguição deles, se havia arrojado naquelas águas de terríveis reminiscências... Mas... e se Alzira lhes trouxesse em pessoa o abraço de entendimento e de auxílio? E como sorrissem de esperança, no turbilhão das próprias lágrimas, o Assistente afastou-se por alguns minutos e voltou, trazendo em sua companhia a generosa irmã que, envergando cintilante roupagem, lhes estendeu as mãos, a ofertar-lhes o colo maternal, resplendente de amor. Leonel e Clarindo, qual se fossem feridos de morte, caíram genuflexos, esmagados de medo e júbilo...

Alzira, no entanto, afagou-lhes as cabeças submissas e falou em tom comovente: – Filhos de minhalma, rendamos graças a Deus por esta hora de bênção. E porque Leonel tentasse debalde pedir-lhe perdão, ensaiando monossílabos cortados pelos soluços, a genitora de Luís suplicou, humilde: – Sou eu quem deve ajoelhar-se, implorando-lhes caridoso indulto!... O crime de meu esposo é também meu crime... Vocês foram espoliados dos mais belos sonhos, quando a mocidade terrestre começava a sorrir-lhes. Nossa desregrada ambição, contudo, furtou-lhes os recursos e as possibilidades, inclusive a exis- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 141

tência... Perdoem-nos!... Pagaremos nossas dívidas. Ajudar-nos-á o Senhor na recuperação de nossa casa... Em breve, Antônio Olimpio e eu estaremos novamente no plano físico e, com o apoio da Misericórdia Divina, restituiremos a vocês o sítio que não nos pertence... Permitam, meus filhos, possa honrar-se minha alma com o privilégio de ser-lhes amorosa mãe no mundo... Para restaurar-lhes a esperança e refazer-lhes o ideal, ofereço-lhes o meu coração... Conceder-me-á o Senhor a bênção de agasalhá-los em meu seio, criando-os com o hálito de meus beijos e com o orvalho de minhas lágrimas... Para isso, porém, é necessário que o olvido de nossos pesares nasça, puro, do amor que devemos uns aos outros... Esqueçamos ressentimentos e Deus nos suprirá de recursos para que venhamos a solver nossos débitos... Ergam-se, filhos queridos... Sabe Jesus que desejo conchegá-los de encontro ao meu peito e guardá-los nos meus braços!... Alzira, porém, não conseguiu continuar. Copioso pranto orvalhava-lhe a face, mas algo como que se lhe represava na garganta, abafando-lhe a voz.

Ainda assim, vimos a gloriosa vitória do amor, naqueles momentos rápidos... Do tórax de Alzira, chispas flamejantes emergiam em sucessivas ondas de safirino esplendor, dando-nos a idéia de que a sua grandeza íntima se havia transformado em fonte de imensa luz. Amparados por ela, Clarindo e Leonel levantaram-se, à maneira de duas crianças atraídas pela ternura materna, e enlaçaram-na em comovedores soluços. Nossa companheira, acariciando-os, reconhecida, acolheu-os no regaço, como se passasse a reter consigo dois tesouros do coração. Atendendo a mudo sinal do orientador de nossa excursão, auxiliamo-la como se fazia preciso, e, depois de algum tempo, transportando conosco os dois novos amigos, dávamos entrada no grande instituto. Após interná-los em departamento adequado, falou Silas, contente: Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 142

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