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Capítulo 12 de 24

Federação Espírita Brasileira — parte 11 de 23

Ação e Reação · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

serei novamente médico no futuro, ao preço de imenso esforço, para consagrar-me à beneficência, nela recuperando minhas valiosas oportunidades perdidas... Minha madrasta, que, por certo, viverá sofrendo deplorável intoxicação da alma, nos tenebrosos abismos, será socorrida em momento oportuno e, não obstante o tempo longo de assistência que nos reclamará neste plano, em necessário refazimento, sem dúvida renascerá em franzino corpo físico, junto de nós, de maneira a sanar as difíceis psicoses que estará adquirindo sob o domínio das trevas, psicoses que lhe marcarão a existência na carne, sob a forma de estranhas enfermidades mentais... Ser-lhe-ei, assim, não apenas o irmão do lar, mas também o enfermeiro e o amigo, o companheiro e o médico, pagando em sacrifício e boa-vontade, afeto e carinho, o equilíbrio e a felicidade que lhe furtei... A confissão do Assistente valia por todo um compêndio vivo de experiências preciosas, e, talvez por isso mesmo, entráramos todos em grave meditação.

Hilário, contudo, como quem não desejava perder o fio do ensinamento, dirigiu-se ao nosso amigo, considerando: – Meu caro, disse você estar aguardando, em comunhão com o genitor, a alegria de reencontrar a madrasta... Como entenderlhe a alegação? porventura, com o seu grau de conhecimento, sofre alguma dificuldade para saber-lhe a moradia? – Sim, sim... – confirmou o Assistente, tristonho. – E os benfeitores espirituais que atualmente lhes guiam a senda? não conhecerão eles o paradeiro dela, orientando-lhes os movimentos no objetivo a alcançar? – Inegavelmente – ponderou Silas, bondoso – nossos instrutores não padecem a ignorância que me caracteriza no assunto... Entretanto, qual ocorre entre os homens, também aqui o professor não pode chamar a si os deveres do aluno, sob pena de subtrairlhe o mérito da lição. Na Terra, por muito nos amem, nossas mães Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 120

não nos substituem no cárcere, quando devamos expiar algum crime, e nossos melhores amigos não podem avocar para si, em nome da amizade, o direito de sofrer a mutilação que a nossa imprudência nos tenha infligido ao próprio corpo. Sem dúvida as bênçãos de amor dos nossos dirigentes hão trazido à minhalma inapreciáveis recursos... Conferem-me luz interior para que eu sinta e reconheça minhas fraquezas e auxiliam-me a renovação, a fim de que eu possa demandar, com mais decisão e facilidade, a meta que me proponho atingir... mas, em verdade, o serviço de meu próprio resgate é pessoal e intransferível... Leonel e Clarindo ouviam-no, boquiabertos. Falando de si mesmo, o Assistente, sem lhes ferir o amorpróprio, trabalhava indiretamente, para que se entregassem ao reajuste. E, pela expressão do olhar, via-se que os dois verdugos revelavam agora admirável mudança íntima.

Hilário refletiu alguns instantes e voltou a considerar: – Mas todo esse drama deve estar vinculado a causas do pretérito... – Sim, decerto – confirmou o Assistente –, mas, em nossa atormentada região, não há tempo mental para qualquer prodígio da memória. Achamo-nos presos à recordação das causas próximas de nossas angústias, dificultando-se-nos a possibilidade de penetrar o domínio das causas remotas, porquanto a situação de nosso espírito é a de um doente grave, necessitado de intervenção urgente, a favor do reajuste. O inferno, a exprimir-se nas zonas inferiores da Terra, está repleto de almas que, dilaceradas e sofredoras, se levantam, clamando pelo socorro da Providência Divina contra os males que geraram para si mesmas, e a Providência Divina lhes permite a ventura de trabalhar, com os dardos da culpa e do arrependimento a lhes castigarem o coração, em benefício das suas vítimas e dos irmãos, cujas faltas se afinem com os delitos que cometeram, para que se rearmonizem, tão apressada- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 121

mente quanto possível, com o Infinito Amor e com a Perfeita Justiça da Lei... Paguemos nossas dívidas, que respondem por sombras espessas em nossas almas, e o espelho de nossa mente, onde estivermos, refletirá a luz do Céu, a pátria da Divina Lembrança!... Compreendemos que Silas auxiliava Clarindo e Leonel, identificando-os como irmãos de luta e aprendizado, no que, indiscutivelmente, ampliaria os próprios méritos. Muitas inquirições explodiam, em pensamento, no meu acanhado mundo íntimo... Quem lhe seria o pai amigo? onde viveria sua abnegada genitora? esperava despender, ainda, longo tempo na procura da madrasta infeliz?... Entretanto, a grandeza espiritual do Assistente não nos favoreceria qualquer pergunta indiscreta. Apenas tive coragem para considerar, respeitoso: – Oh! meu Deus, quanto tempo gastamos para refazer, às vezes, a inconseqüência de um simples minuto! – Você tem razão, André – comentou Silas, generoso –, a lei é de ação e reação... A ação do mal pode ser rápida, mas ninguém sabe quanto tempo exigirá o serviço da reação, indispensável ao restabelecimento da harmonia soberana da vida, quebrada por nossas atitudes contrárias ao bem...

E, sorrindo: – Por isso mesmo, recomendava Jesus às criaturas encarnadas: – “reconcilia-te depressa com o teu adversário, enquanto te encontras a caminho com ele...” É que Espírito algum penetrará o Céu sem a paz de consciência, e, se é mais fácil apagar as nossas querelas e retificar nossos desacertos, enquanto estagiamos no mesmo caminho palmilhado por nossas vítimas na Terra, é muito difícil providenciar a solução de nossos criminosos enigmas, quando já nos achamos mergulhados nos nevoeiros infernais. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 122

A ponderação era cabível e justa. Não nos foi possível, porém, prosseguir a conversa. Leonel, cuja impassibilidade reconhecíamos, com grande surpresa para nós tinha os olhos umedecidos... Silas ergueu os olhos para o Alto, agradecendo a bênção da transformação que se esboçava e recolheu-o em seus braços. O desditoso irmão de Clarindo queria falar... Percebemos que tencionava referir-se à morte de Alzira, no lago, mas o Assistente prometeu-lhe que voltaríamos na noite seguinte. Logo após, voltávamos, mas nem Hilário nem eu nos animamos a conversar com o denodado companheiro, que entrara, melancólico, em expressivo silêncio. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 123

Entendimento Na noite imediata, em seguida a serviços rotineiros, Silas procurou-nos para a continuação da tarefa encetada. De regresso ao lar de Luis, alimentamos conversação comum, sem qualquer alusão aos temas da véspera, e, como que sintonizados em nossa onda mental de respeito mútuo, Clarindo e Leonel receberam-nos com discrição e carinho. Afiguraram-se-nos, ambos, sobremaneira trabalhados pelas idéias que o Assistente lhes ofertara indiretamente ao espírito. Em casa do situante, o quadro não se alterara. Luís e os amigos cavaqueavam cordialmente, comentando as pragas do campo e as doenças dos animais, a carestia da vida e os negócios infortunados... Entretanto, os dois irmãos demonstravam-se agora claramente desligados de semelhante painel de sombra. Cumprimentaram-nos com a gentileza irradiante de quem se punha à vontade para acolher-nos e fitaram Silas com desusado interesse. Adivinhava-se que haviam tomado a confissão do Assistente para valiosas reflexões. Observando-lhes a metamorfose com inequívocos sinais de contentamento, o chefe de nossa expedição nem de leve se reportou ao problema de Luís e convidou-os com lhaneza de trato a acompanhar-nos.

Mostrando a renovação de que se achavam possuídos, incorporaram-se, de pronto, à nossa pequena caravana e, atendendo à recomendação de Silas, os dois, de mãos entrelaçadas com as nossas, conseguiram volitar com certa facilidade e segurança. Findos alguns minutos, chegamos a vasto hospital de movimentada cidade terrestre. Na portaria, um dos vigilantes espiritu- Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 124

ais dirigiu-se carinhosamente a Silas, em saudação fraterna, e o nosso dirigente no-lo apresentou, atencioso: – Este é o nosso companheiro Ludovino, que no momento se encontra encarregado da necessária vigilância, a benefício de alguns enfermos de cuja reencarnação cuida a nossa casa. Abraçamo-nos todos, irmãmente. Logo após, o responsável por nossa equipe de trabalho tomou a palavra, indagando: – E a nossa irmã Laudemira? Recolhemos hoje notícias graves... – Sim – concordou o interpelado –, tudo faz acreditar que a pobrezinha sofrerá perigosa intervenção. Envolta nos fluidos anestesiantes que lhe são desfechados pelos perseguidores, durante o sono, tem a vida uterina sensivelmente prejudicada por extrema apatia. O cirurgião voltará dentro de uma hora e, na hipótese de os recursos aplicados não surtirem efeito, providenciará uma cesariana como remédio aconselhável... Nosso amigo mostrou funda preocupação a vincar-lhe o semblante habitualmente calmo, e ajuntou: – Uma operação dessa espécie acarretar-lhe-á grandes prejuízos para o futuro.

Consoante o programa organizado, em favor dela, cabe-lhe receber ainda mais três filhos no templo do lar, de modo a utilizar-se do presente estágio humano, com tanta eficiência quanto se torne possível... O guarda fixou um gesto de respeito e ponderou: – Creio, então, que não há tempo a perder. Silas tomou-nos a dianteira e conduziu-nos a pequena enfermaria, onde jovem senhora se lamentava, aflita. Simpática matrona de nevados cabelos, em cuja ternura percebíamos a presença materna, velava, atenta, acariciando-lhe as mãos inquietas. Notando a expressão de pavor que os olhos da doente exibiam em Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 125

pranto, procurei a palavra de Silas, quanto à causa de tão agoniado padecimento. – Nossa irmã – esclareceu, prestativo – será novamente mãe, em minutos breves. Encontra-se, porém, algemada a provas difíceis. Demorou-se muito tempo, em nossa Mansão, antes de retornar ao corpo denso de carne, sempre vigiada por inimigos que ela mesma criou em outro tempo, quando se valeu da beleza física para acumpliciar-se com o crime. Bela mulher, atuou em decisões políticas que arruinaram a estrada de muita gente. Padeceu muitos anos nas trevas infernais, entre a carne e a sombra, até que mereceu agora a felicidade de renascer com a tarefa de restaurar-se, restaurando alguns dos companheiros de crueldade que, na feição de filhos, com ela se levantarão para mais amplos serviços regeneradores... Silas, contudo, lançou-me expressivo olhar e acrescentou: – Historiaremos o assunto mais tarde. Agora, é indispensável agir... Sob a atenção de Clarindo e Leonel que nos seguiam, surpresos, convocou-nos, a Hilário e a mim, para o socorro imediato.

Determinando permanecêssemos ambos em oração, com a destra colada ao cérebro da doente, começou a fazer operações magnéticas excitantes sobre o colo uterino. Substância leitosa, qual neblina leve, irradiava-se-lhe das mãos, espalhando-se sobre todos os escaninhos do aparelho genital. Decorridos alguns minutos de pesada expectativa, surgiram contrações que, pouco a pouco, se acentuaram intensamente. Silas, atencioso, controlou a evolução do parto, até que o médico ingressou no recinto. Longe de registrar-nos a presença, sorriu, satisfeito, reclamando o concurso de competente enfermeira. A cesariana foi esquecida. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 126

Convidou-nos o Assistente ao regresso, informando-nos mais tranqüilo: – O organismo de Laudemira reagiu brilhantemente. Esperamos possa continuar na obra que lhe compete, com o êxito necessário. Puséramo-nos, de novo, a caminho. Leonel, cuja inteligência aguda não perdia os nossos menores movimentos, perguntou a Silas, com ar respeitoso, se os trabalhos a que se dedicava exprimiam alguma preparação, diante do porvir, ao que o Assistente respondeu sem pestanejar: – Sem dúvida. Ainda ontem lhes falei dos meus erros de médico, que praticamente jamais o fui, e comentei o plano de abraçar a Medicina no futuro, entre os encarnados, nossos irmãos. Todavia, para que eu mereça a ventura de tal reconquista, consagrome, nas regiões inferiores que me servem de domicílio, ao ministério do alívio, criando causas benéficas para os serviços que virão... – Causas? causas? – murmurou Clarindo, algo espantado. – Sim, procurando ajudar espontaneamente além dos deveres que me são impostos, na luta pela recuperação moral de mim mesmo, com a Bênção Divina alongarei a sementeira de simpatia em meu favor.

E, relanceando significativamente o olhar sobre nós, acentuou, em seguida a breve minuto de reflexão: – Um dia, consoante as dívidas que me pedem resgate, estarei novamente entre as criaturas encarnadas e, para solver minhas culpas, também sofrerei obstáculo e dúvida, enfermidade e aflição... Que mãos caridosas e amigas me amparem daqui, em nome de Deus, porque isoladamente ninguém consegue vencer... E para que braços amorosos se me estendam, mais tarde, é imperioso Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 127

movimente agora os meus no voluntário exercício da solidariedade. O ensinamento era precioso, não apenas para os dois perseguidores que o registravam, perplexos, mas também para nós que reconhecíamos, mais uma vez, a Infinita Bondade do Supremo Senhor, que, ainda mesmo nos mais tenebrosos ângulos da sombra, nos permite trabalhar pelo incessante engrandecimento do bem, como abençoado preço de nossa felicidade. Enquanto volitávamos de retorno, Hilário, antecipando-me na curiosidade, inclinou a conversação para o caso de Laudemira. Era conhecida de Silas, desde muito tempo? Assumira, assim, compromissos tão graves para com a maternidade? Que papel representavam os filhos junto dela? Credores ou devedores? Silas sorriu complacente para a argüição cerrada e explicou: – Inegavelmente, creio que o processo redentor de nossa amiga serve por tema palpitante nos estudos de causa e efeito que vocês vão acumulando.

Entregou-se a longa pausa de consulta à memória e prosseguiu: – Não podemos, assim de relance, mergulhar pormenorizadamente no pretérito que lhe diz respeito, nem posso de mim mesmo cometer qualquer indiscrição, abusando da confiança que a Mansão me outorga, no exercício de meus encargos. Entretanto, a título de nossa edificação espiritual, posso adiantar-lhes que as penas de Laudemira, na atualidade, resultam de pesados débitos por ela contraídos, há pouco mais de cinco séculos. Dama de elevada situação hierárquica na Corte de Joana II, Rainha de Nápoles, de 1414 a 1435, possuía dois irmãos consangüíneos que lhe apoiavam todos os planos loucos de vaidade e domínio. Casou-se, mas sentindo na presença do marido um entrave ao desdobramento das leviandades que lhe marcavam o caráter, acabou Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 128

constrangendo-o a enfrentar o punhal dos favoritos, arrastando-o para a morte. Viúva e dona de bens consideráveis, cresceu em prestigio, por haver favorecido o casamento da rainha, então viúva de Guilherme, Duque da Áustria, com Jaime de Bourbon, Conde de Ia Marche. Desde aí, mais intimamente associada às aventuras de sua soberana, confiou-se a prazeres e dissipações, nos quais perturbou a conduta de muitos homens de bem e arruinou as construções domésticas, elevadas e dignas, de várias mulheres do seu tempo. Menosprezou sagradas oportunidades de educação e beneficência que lhe foram concedidas pela Bondade Celeste, aproveitando-se da nobreza precária para desvairar-se na irreflexão e no crime. Foi assim que, ao desencarnar, no fastígio da opulência material, nos meados do século XV, desceu a medonhas profundezas infernais, onde padeceu o assédio de ferozes inimigos que lhe não perdoaram os delitos e deserções.

Sofreu por mais de cem anos consecutivos nas trevas densas, conservando a mente parada nas ilusões que lhe eram próprias, voltando à carne por quatro vezes sucessivas, por intercessão de amigos do Plano Superior, em cruciantes problemas expiatórios, no decurso dos quais, na condição de mulher, embora abraçando novos compromissos, experimentou pavorosos vexames e humilhações da parte de homens sem escrúpulos que lhe asfixiavam todos os sonhos... – Mas – perguntou Hilário –, de cada vez que se retirava da carne, nas quatro existências a que alude, continuava ligada às sombras? – Como não? – exclamou o Assistente – quando a queda no abismo é de longo curso, ninguém emerge de um salto. Ela naturalmente entrava pela porta do túmulo e saía pela porta do berço, transportando consigo desajustes interiores que não podia sanar de momento para outro. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 129

– Se a situação era assim inalterável – ponderou meu colega – , para que retomar o corpo físico? não lhe bastaria sofrer na dolorosa purgação daqui deste lado, sem renascer na esfera carnal?... – A observação é compreensível – ajuntou Silas, paciente –, entretanto, nossa irmã, com o amparo de abnegados companheiros, voltou ao pagamento parcelado das suas dívidas, reaproximando-se de credores reencarnados, não obstante mentalmente jungida aos planos inferiores, desfrutando a bênção do olvido temporário, com o que lhe foi possível angariar preciosa renovação de forças. – Mas sempre conseguiu ressarcir, de alguma sorte, os débitos em que se emaranhou? – De alguma sorte, sim, porque padeceu tremendos golpes no orgulho que trazia cristalizado no coração... Contudo, a par disso, contraiu novas dívidas, de vez que, em certas ocasiões, não conseguiu superar a aversão instintiva, diante dos adversários aos quais passou a dever trabalho e obediência, chegando ao infortúnio de afogar uma criancinha que mal ensaiava os primeiros passos, de modo a ferir a senhora da casa em que servia de ama, tentando vingar-se de crueldades recebidas.

Depois de cada desencarnação, regressava habitualmente às zonas purgatoriais de que procedia, com alguma vantagem no acerto das suas contas, mas não com valores acumulados, imprescindíveis à definitiva libertação das sombras, porque todos somos tardios na decisão de pagar nossos débitos, até o integral sacrifício... – Contudo – tornou Hilário –, sempre que regressava à esfera espiritual, decerto contava com o auxílio dos benfeitores que procuram refrear-lhe os desatinos. – Exatamente – confirmou Silas –; ninguém está condenado ao abandono. Vocês não ignoram que o Criador atende à criatura por intermédio das próprias criaturas. Tudo pertence a Deus. Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 130

– Ainda mesmo o inferno? – acrescentou Leonel, preocupado. O Assistente sorriu e aclarou: – O inferno, a rigor, é obra nossa, genuinamente nossa, mas imaginemo-lo, assim, à maneira de uma construção indigna e calamitosa, no terreno da vida, que é Criação de Deus. Tendo abusado de nossa razão e conhecimento para gerar semelhante monstro, no Espaço Divino, compete-nos a obrigação de destruílo para edificar o Paraíso no lugar que ele ocupa indebitamente. Para isso, o Infinito Amor do Pai Celeste nos auxilia de múltiplos modos, a fim de que possamos atender à Perfeita Justiça. Entendido? A explicação não podia ser mais clara; entretanto, Hilário parecia interessado em solver qualquer dúvida e, talvez por isso, inquiriu novamente: – Considera possível venhamos a saber quais seriam as existências de Laudemira, antes de haver ingressado na Corte de Joana II? – Sim – elucidou Silas, tolerante –, será fácil conhecê-las, mas não nos convém num simples estudo efetuar o tentame, porque o assunto em si reclamaria largas quotas de atenção e de tempo.

Basta lhe pesquisemos a condição referida para definir-lhe as lutas redentoras de agora, porquanto nossos estágios em qualquer eminência social no mundo, seja no campo da influência ou das finanças, da cultura ou da idéia, servem como pontos vivos de referência da nossa conduta digna ou indigna, no usufruto das possibilidades que o Senhor nos empresta, designando com clareza nosso avanço na direção da luz ou nosso aprisionamento maior ou menor nos círculos da treva, pelas virtudes conquistadas ou pelos débitos assumidos. A conceituação luminosa de Silas era verdadeiro jorro solar em meu entendimento... Francisco Cândido Xavier – Ação e Reação – pelo Espírito André Luiz 131

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.