Voltar ao livro O Céu Maravilhoso

Capítulo 14 de 15

D E U S — parte 13 de 14

O Céu Maravilhoso · Osvaldo Polidoro

O espírito passa por três fases distintas durante o processo autocristificador: a fase de embrião, quando vive por conta dos automatismos inconscientes e dos instintos; a fase intermediária, que vai dos instintos até a fase de consciência individual precária, quando faz das superstições, das idolatrias, dos enigmas, dogmas, mistérios e panacéias ritualistas o seu programa de conduta espiritual; e a fase de superação da mediocridade, quando começa a compreender que o Pai Divino é Espírito e Verdade, e que ele, o filho, a isso deve chegar. Enigmas, mistérios e dogmas são as armas dos infantes que se presumem adultos muito bem desenvolvidos; sem aparências enfáticas nada conseguem ser e fazer, porque essa é a fase dos rótulos e das petulâncias. Em todos os séculos anteriores a Jesus, e depois da corrupção romana da Excelsa Doutrina do Caminho, as panacéias simuladoras, os rótulos de variada ordem tomaram conta do mercado das atividades ditas religiosas. Os cenáculos iniciáticos, de portas muito fechadas ao povo, sabiam que só a Moral e o Amor vividos eram os cultos inteiramente edificantes, antes do Cristo. E mesmo eles, depois, foram cedendo ao mundanismo, aos engodos e paramentos exteriores, perdendo a Força da Moral e do Amor Praticados. Ensinar ao discípulo que conservasse o mistério, porque se o mistério deixasse de ser, ele também perderia a sua força, é simplesmente monstruoso, e crime confesso contra a Moral e o Amor. É o comportamento do jovem que, por mera petulância, pretende ostentar a sabedoria acumulada do ancião. É, enfim, a prova de que ouviu falar em Espírito e Verdade, como Medida Certa, porém não sabe o que isso é, como é, para o que é. O passado, a tradição, o vício das manias formais lhe não permitem a libertação, e, portanto, procura substituir alguns rótulos por outros, algumas idolatrias por outras, e vive seus vazios de alma com aparências de fartura. É só casca, não tem cerne, porque é tudo enigmático e misterioso para ele. E quando a Realidade Espiritual

demonstra um fato, um acontecimento mediúnico ou profético, por viver ele fora das Leis, dos Elementos e dos Fatos, qualifica de milagre, de coisa sobrenatural. Onde e quando vamos encontrar a prova real, a prova de fato das falsas conceituações? Quando é que os enigmáticos, os misteriosos e os milagreiros caem por terra e deixam os seus crentes em situação ridícula? Essa prova surge da morte física e do comparecimento no mundo espiritual, porque as figuras de fachada por aqui não valem como medidas edificantes. Aparências de Moral e de Amor ficam bem na crosta, diante dos olhos turvos da ignorância. Naqueles dias de grandes aprendizados, quando as comitivas eram formadas e as viagens traduziam acúmulos experimentais maravilhosos, Vicentina convidou-me para uma descida à crosta, a fim de recolher uma nossa irmã, cuja romagem carnal findava. – Será mais uma lição – disse ela – que muito irá valer algum dia, quando tiver que realizar um trabalho informativo, pois quem ajudou a corromper a Doutrina Consoladora, estribada na Lei de Deus, no Cristo Modelo e na Revelação Generalizada, terá que ajudar a repô-la no devido lugar. Nada disse eu, porque vivia somando fatores e confiando no Céu. E no devido tempo, fomos parar no seio de uma família, onde uma mulher de idade bem avançada estava de partida do mundo, e em condições tais de vantagem espiritual, que embora estando ainda presa ao corpo, suas radiações maravilhavam nossos olhos e ungiam nossos corações com o bálsamo celestial. Vicentina informou-me, depois de fazer algumas apresentações, dentre elas a de um irmão desencarnado, de quem disse: – Este irmão fora seu marido e ostentara, no mapa das movimentações espirituais, alguns títulos respeitáveis... Ela, entretanto, foi uma esposa e mãe a quem não sobrou tempo para cultivar devoções tabeladas ou sistemáticas... Naquele momento dava entrada no recinto uma comitiva esplendente e Vicentina apresentou-me à funcionária que devia cortar a ligação, para que a nobre irmã desse entrada, e muito gloriosa, no mundo onde o ranço e a ferrugem não formam, sem ser nos lugares de pranto ou ranger dos dentes, ou nas regiões inferiores, onde os dramas de consciência medram a valer, ofuscando as alegrias. E minutos depois, as mãos autorizadas da funcionária se impunham e a irmã era suspensa num como dossel feito de luzes e melodias suaves. A consternação dos encarnados contrastava com as alegrias do nosso plano, porque um espírito, um filho de Deus, que não teve tempo para gastar com as

lantejoulas do religiosismo, subia aos planos superiores guindado pelas forças da Moral e do Amor que aplicara nos dias de romagem carnal. – Venha ver – convidou-me Vicentina. E fomos ver a farta biblioteca do esposo, daquele espírito que, frente à esposa, parecia uma vela diante do sol, tal a disparidade vibratória. – Olhe para o pergaminho – apontou Vicentina, logo mais. E lá estava um título honorífico pomposo, muito ricamente emoldurado, enquanto o seu dono se encontrava, infelizmente, muito pobremente iluminado. Bem se via que, entre o Olho Divino que dá segundo as obras, e o olho humano que recomenda e encarece as aparências, a diferença é muito grande. – Pois é! – fez minha irmã, olhando bem para mim. – Pois é o quê? – perguntei, sequioso de sua opinião simples e direta. – Jesus, o Divino Molde, não trocou todos os rótulos pelo simples dar dignos frutos pelo exemplo? Calei-me, porque um sentimento profundo me impôs derramar duas lágrimas. – Está disposto a observar – convidou ela – mais uma demonstração de como as coisas se passam de modo diferente, entre os visos de Deus e os visos humanos? Refeito, respondi que muito tinha para agradecer a Deus, e que muito mais ainda tinha vontade de agradecer pelos ensinos que com profundo respeito receberia. Dito isso, minha irmã comentou: – Lembre-se de que nós vemos de fora da carne para dentro dela, e que os encarnados muito mal vêem de dentro para fora da carne; lembre-se de que a encarnação é limitação imposta, para que o espírito prove, pelo emprego do seu livre arbítrio, que é capaz de vencer e galgar melhores postos na hierarquia espiritual. – Mas – ponderei – tendo o encarnado por instrumentos de uso a Lei de Deus, a Modelagem do Cristo e a Revelação Generalizada, com suas advertências, ilustrações e consolações. Ora, Vicentina, isso tudo é quase o Céu aberto ao dispor de um encarnado inteligente e honesto. – Sim – retorquiu ela – para quem assim entender; mas o que fez você, um homem culto, depois de conhecer o Espiritismo, a Doutrina do Caminho restaurada? – Para mim – respondi – fui uma vítima do comodismo religiosista e do juramento à igreja romana.

– Por que, meu irmão, não compreendeu que a Verdade, o Amor e a Virtude, representam mais do que comodismos e juramentos para com tabelinhas inventadas por homens? – Talvez o passado, a imposição do carma... – fui dizendo. Ela me interrompeu, para afirmar: – Vamos compreender, Bento, que passados e carmas envolvem a todos os filhos de Deus ainda em processo evolutivo, e que todas as medidas de precaução podem falhar, desde que orgulhos, ciúmes e vaidades fiquem de fora. E como tudo nos é fácil observar e entender, por aqui, contando com as oportunidades que o Pai Divino nos concede, vamos tratar de aprender o quanto possível, para dar os melhores exemplos. Quanto ao mais, como tem observado, cada um que volta da viagem carnal, é alguém que teve de enfrentar seus testes, e que nem sempre passou bem por eles, o que constitui responsabilidade própria, em face do que mereceu ou deixou de merecer, com vistas ao Grau Crístico, pois o problema do espírito é ser cristificado e não apenas ser cristão. – Eis aí – disse eu – uma verdade que todos deveriam compreender de uma vez para sempre: não ser apenas cristão, mas sim atingir a cristificação. Uma vez compreendido que Jesus foi apresentado, pelo Emanador, como Divino Molde, o dever de cada qual é procurar a imitação, não através de panacéias litúrgicas ou discursozinhos histéricos, e sim através de obras. – Sim, Jesus mandou dar dignos frutos pelo exemplo, e o capítulo final do Apocalipse resume toda a Moral de todas as Bíblias já transmitidas à humanidade. Mas você ainda terá muito para ver, a fim de compreender o quanto é difícil ao espírito vencer o orgulho, o ciúme e a vaidade, pelo fato de fracassar na luta contra o famigerado egoísmo. Fez um sinal, convidando-me a segui-la, e volitamos até outra cidade terrena, bem para dentro de uma casa espírita, onde se movimentavam muitíssimos irmãos encarnados e desencarnados. – Lembre-se bem – advertiu ela – de duas verdades básicas: uma, que estamos no seio da Excelsa Doutrina do Caminho reposta no lugar, com as pessoas tendo, por isso mesmo, assumido mais responsabilidade; duas, que cumpre não confundir a Doutrina com as pessoas, pois enquanto a Doutrina deriva de Deus, a conduta humana deriva dos seres humanos, cada qual com o seu grau evolutivo e os seus altos e baixos. – Muito bem! – respondi. – Então – retomou ela a conversa – vá observando as pessoas em particular, mas faça-o com o máximo de sua capacidade de penetração, para

ver além da carne, indo até o histórico da pessoa, que está gravado, sempre, na própria pessoa. Apelei para o máximo de minhas possibilidades e observei que o todo se foi dividindo, cada qual se revelando na intimidade, distinguindo maravilhosamente a personalidade construída através do processo evolutivo. O todo humano, ali exposto, tornou-se uma exposição de características cármicas individuais, revelando as diferenças evolutivas, as tendências e tudo o mais, até aos mínimos detalhes. – E então? – perguntou minha irmã, depois de um bom tempo. – É maravilhoso!... Mas quanta porcaria ainda temos conosco!... Minha irmã sorriu, satisfeita, para repetir: – Quanta porcaria ainda lastreamos, não é verdade? – Sim, minha querida irmã, ainda estamos longe do Grau Crístico! Tornou a sorrir, apontou a todos e perguntou de novo: – Entretanto, observe, todos para lá estão marchando... Uns mais adiantados, outros mais atrasados, mas a chegada é o Grau Crístico! Reparei que o mundo espiritual descia, que o ambiente se enchia de multidões de irmãos destes lados, porém carecidos de amparo, mal ajambrados, aleijados e sofridos de variada ordem. Vinham trazidos pelos trabalhadores de diferentes postos de socorro, que os colocavam em seus devidos lugares, tudo obedecendo a uma celestial disciplina. – Está na hora de começar a sessão de passes e irradiações, a mais preciosa para nós, os que trabalhamos juntos aos desencarnados desajustados de variada ordem. É por isso que os comandados de Maria os trazem... Desprezaram o sagrado banco escolar que é a encarnação e, por isso, voltam para junto dos encarnados e com eles aprendem e curam-se... É uma lição de Deus, que ensina através de fatos... Encantado com a perspectiva de rever a Mãe querida, esqueci de tudo; e Vicentina, olhando-me com ternura, falou-me que ela viria, pois onde se encontram os necessitados de amparo e os que realmente querem ajudar os seus irmãos sofridos de diferentes males, ali estão a Vontade de Deus, o Cristo Modelo e todos os trabalhadores do Bem. O presidente fez soar a campainha e anunciou que era chegada a hora dos passes individuais, o que motivou grande deslocamento de irmãos de ambos os lados. Cada médium passista foi para o seu lugar e atrás dele foi ter um servidor deste plano. As pessoas sentavam, recebiam um jorro de elementos fluido-eletromagnéticos e tornavam ao seu lugar na assistência. Quando todos haviam recebido a imposição de mãos conforme as práticas ensinadas por Jesus, o presidente leu e comentou um trecho do

Evangelho, por uns vinte minutos, se a tanto chegou. E com isso o ambiente psíquico subiu muito no teor vibratório. Foi então que o presidente anunciou o trabalho médico do mundo espiritual, lembrando a personalidade de Bezerra de Menezes, a última encarnação do Apóstolo médico que fora Lucas, no comando dos mesmos serviços médicos. E o trabalho foi de portentosos efeitos perispiritais. Como o momento era propício, tudo se ampliou e vimos, então, os corpos dos encarnados mostrarem tudo, inclusive os porquês cármicos, e os médicos e enfermeiros do mundo espiritual fazerem o que era permitido pela Justiça Divina. Seguindo, disse o presidente que era a hora dos desencarnados precisantes. Foi um deslumbramento, um Céu a se derramar sobre multidões escalonadas. Havia distribuição por ordem de males e de merecimentos, com legiões de servidores a trabalhar, e nas alturas pairava glorioso o Cristo Modelo, transformado numa Divina Fonte de Luz, que descia e se desdobrava, passando por Maria e seus comandados, e indo atingir os precisados, mas tudo muito filtrado, distribuído com uma técnica de causar pasmo. Quando aquela parte findou, o presidente lembrou os hospitais da carne, os doentes em geral, e a trabalheira mudou de rumo. Encarnados e desencarnados formaram um centro de energias e luzes, e verdadeiros canais estenderam-se, indo parar nas mais distantes casas de dor e de recuperação. Vimos o quanto vale a oração, e o que por seu intermédio fazem os socorristas espirituais, aplicando sabedorias e técnicas que os encarnados estão muito longe de compreender. Entretanto, a oração dos encarnados auxiliava de modo celestial, para que tudo aquilo fosse feito. Ao término da oração de encerramento, subimos ao nosso plano, satisfeitos de ter auxiliado um pouco, porém muito mais ainda, pelo quanto aprendemos. Realmente, é só dando que se recebe e só amando que se é amado. Já em nosso campo normal de vida e movimentações, porque naqueles dias de aprendizados tudo era questão de acumular conhecimentos, porém sem a menor sujeição a programações rigorosas, fiquei de ter contato com minha mãe assim que ela pudesse me atender, com bastante tempo ao dispor, para trocar idéias à vontade. É que, nestes planos da vida, tanto quanto as Verdades Matrizes oferecem oportunidades infindas de sondagem, por causa das profundidades inerentes, também os pormenores, as particularidades, crescem imensamente, para todos os lados, toda vez que um fato ocorra, contendo em seu bojo elementos de contato com a crosta ou com os planos superiores. Para cima vamos no rumo da Síntese Geral, da Verdade que se concentra cada vez mais, onde a Moral e o Amor comandam tudo, pois sem

esses dois fatores essenciais ninguém jamais atingirá o Grau Crístico; e para baixo vamos no rumo da diversidade de leis, elementos e fatos, onde a Moral e o Amor diminuem de intensidade, precisamente para que o espírito, procurando conhecer e lutando para vencer, revele o Cristo Interno o mais breve possível. Quem, partindo de planos superiores, mergulha na crosta, para entrar em contato com os encarnados, tem que se limitar, é obrigado a se restringir ou perder muito em suas virtudes expansionais. Quanto ao encarnado, sujeito às leis de meio, goza das mesmas e está plenamente no seu elemento. Se não sofrer dor e não for constrangido moralmente, a vida carnal é para ele uma dádiva celestial, por usufruir dos bens do mundo e por constituir o mundo a ferramenta ideal de progresso. E todos poderão, com um mínimo de inteligência, compreender a diferença que os dois planos oferecem, quando seus elementos penetram o campo contrário. Nós sofremos restrições por causa da materialidade do vosso meio e vós por aqui sofreis restrições por causa do aumento do teor vibratório. E quanto mais penetrarem os elementos pelo campo contrário, tanto mais as limitações se irão acentuando. Para nós atrapalha o aumento de densidade, para vós o aumento de luz vibrante. Por exemplo, na hora em que o presidente pediu para os encarnados presentes, o jorro de Luz Divina que partia do Cristo, pois Ele era a Fonte Divina, ou quem filtrava o que Deus mandava aos necessitados, vimos que, atravessando Maria e suas legiões imediatas, passava por outras escamas ou ordens vibratórias, e descia sobre os encarnados como Luz Divina materializada, diminuída, ofuscada, e com bem acentuadas diferenças de indivíduo para indivíduo. O mesmo ocorreu quando as atenções se voltaram para as legiões de espíritos sofredores, pois os escalões estavam distintamente dispostos e cada um recebeu o jorro de Luz Divina de modo diferente, ou segundo como seus perispíritos podiam assimilar. Tudo, enfim, vinha de Deus pelo Cristo Planetário, atravessava gamas vibratórias descendentes e atingia os precisados segundo as suas possibilidades de assimilação. Quando eu, Vicentina e a nossa mãe, longe da cidade conversávamos sobre o assunto, disse-nos ela que não pode ser de outro modo, porque se a caminhada do espírito é para cima, e só com muita luta conquista o galardão crístico, ao ter que enfrentar um espírito o mundo material, tem que respeitar a mesma lei. E assim é nos planos espirituais, pois visitar os de mais baixo nível vibratório impõe uma espécie de restrições, enquanto visitar os mais de cima obriga a adquirir as ajudas vibratórias indispensáveis. – E com isso, meus filhos – disse minha mãe – temos a prova simples de como o nosso Pai Divino legislou, desde sempre, para que cada um chegue a ter o que em si mesmo fez por merecer. E que o conquistado, por esforço próprio, é distinto, ninguém poderá jamais tirar ou discutir, sem ser o próprio

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.