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Capítulo 4 de 13

Índice — parte 3 de 12

Lei Graça e Verdade · Osvaldo Polidoro

Noites após, quando sua alma ansiava o feliz reencontro, dirigiu-se ao monte. Antes de fazer a oração invocativa, sentado numa pedra, passou os olhos na planície, imaginou as casas e as gentes, meditou nas características religiosas do povo e considerou as vantagens da Revelação. Ele já havia lido bastante, pelo que lhe entristecia a alma ver a maneira como os credos e seus senhores lidavam com o povo, com os filhos de DEUS, seus irmãos, ou com muita conversa ou através de cerimoniais pagãos e à base de comércio. Rememorou as lições lidas, e as palavras do expositor, compreendendo que nos fundamentos de todas as Grandes Revelações estava a Revelação, o contato com o mundo espiritual; e sofreu muito ao reconhecer, no presente, a cegueira das gentes, a ignorância dos senhores proprietários de religião e a mercância que imperava em tudo. Seria bom, imaginou, tornar os homens todos conhecedores, a fim de que todos tivessem gosto em subir ao monte, invocar o CRIADOR e receber instruções de um espírito capaz e eficiente. Quem sabe, até mesmo de algum mais alto Mensageiro, um ser brilhante e glorioso, como aquele primeiro que viera em socorro de suas aflições de alma. Estava assim pensando, quando sentiu um tremor na cabeça, assim como se fossem cargas elétricas a lhe ressoarem por longe, deixando a sensação de suave toque, de cariciosa visita. Sentado que estava, acomodou-se ainda mais, até ficar bem; quando achou que poderia ficar ali, naquela posição por muito tempo, cerrou os olhos e iniciou a sua oração, clamando pela graça do auspicioso contato. Aos poucos, foi-se abrindo sua visão espiritual, teve pela frente o segundo Mensageiro, não o primeiro brilhante, mas aquele que necessitava trabalhar. — Vamos, — disse-lhe o Mensageiro, — que estou muito satisfeito contigo. — Por que? — Perguntou-lhe o discípulo. — Porque tens pensado muito bem, desejando a LUZ da VERDADE para todos os filhos de DEUS... E mais ainda, porque pretendes encontrar um meio para fazê-lo. Desejar é boa obra, mas executar é o que mais convém. Quando o discípulo percebeu, já estava no amplo salão de estudos. Notando, entretanto, que o salão estava quase vazio, perguntou: — Hoje seremos reduzidos assim? O Mensageiro fitou-o com inteligência, propondo: — Não ficaremos reduzidos assim. Todavia, procura ver e compreender da melhor maneira. Viu o discípulo, então, que outros Mensageiros traziam outros discípulos, estando alguns deles em estado deplorável, dormindo alguns, gemendo outros, brigando ainda outros, etc. — É lastimável! — balbuciou em surdina. O Mensageiro falou-lhe, com acento observador: — Há muitos modos de semear nas almas as boas sementes da programação libertadora... E muitas sementes, assim como diz a parábola do DIVINO PORTADOR DA GRAÇA, caem em terras sáfaras e estéreis, além de outras que caem de uma vez sobre as rochas escaldantes... — Não seria oportuno esclarecê-los? — interpôs o discípulo, sem pensar. O Mensageiro emitiu um triste sorriso, perguntando: — E não estão sendo esclarecidos? — Terão lembranças, ao voltarem aos respectivos corpos, uma vez que se encontram, alguns deles, em estado deplorável? O Mensageiro esclareceu: — Para nós o problema é simples, uma vez que cumprimos o devido, fornecendo instruções, recordações, advertências, etc. Para vocês é complexo, porquanto as vossas lembranças se encontram adormecidas, ofertando oportunidades de faltas, de corrupções, de fracassos vários. Deve saber que muitos elementos, na vida carnal, vivem reconhecendo teoricamente as verdades espirituais, enquanto vivem praticamente o mais desenvolvido programa animal e material. Não correspondem, por motivos diferentes, porque o grande motivo perdeu intensidade; mergulhando nos domínios carnais, com os seus inúmeros alçapões, olvidaram as regras do CÉU e as mais comezinhas observâncias espirituais. Em linhas gerais, é isso, apenas isso. — Que sucederá, aos que não se derem à renovação? O Mensageiro encolheu de leve os ombros, murmurando: — Ainda em linhas gerais, pagarão pelas faltas e terão que enfrentar novas e mais difíceis situações expiatórias e de provas. A dor entra, é natural, quando o AMOR e a CIÊNCIA se ausentam... Sim, cumpre observar esta verdade básica: trabalho não é dor e nem sacrifício. Se por muitos milênios foram tecidos os mais rasgados elogios à dor, vindo o homem a engendrar adulações a DEUS por temê-la, e a temer a DEUS pelo fato de furtar-se à dor, devemos dizer que essa hora cíclica está para findar. A libertação vem pelas práticas amoráveis e sábias, nunca por outros meios, sendo a dor apenas um argumento de força, atraído pelas várias formas de negligência. Quando o CRISTO recomendou amar a DEUS com toda a força do coração e de toda a inteligência, nada mais fez do que ensinar a dispensar a dor. Ao contrário, porém, as falsas concepções religiosas, ou mesmo a covardia moral dos homens, tudo fizeram para derrubar o AMOR e a CIÊNCIA do seu posto fundamental, entregando à dor, ou corretivo passageiro, aquele posto. E querendo especificar o exemplo, emendou: — Repare no seu caso, em confronto com alguns outros, esses que aí estão, verdadeiros casos de fracasso, descambos e entrevamentos. Você, que se apega aos devidos compromissos, vai ao encontro do AMOR e da CIÊNCIA, para servir, em base de trabalho eficiente, com isso fugindo aos tentáculos da dor. Esses que aí estão, dando provas de serem maus emissários para nós, provando serem péssimos cidadãos no mundo, são os que se afastam do AMOR e da CIÊNCIA, conseqüentemente marchando em busca do sofrimento. Repito, portanto, que trabalhar não é sacrifício e a dor, por si só, a ninguém edifica. Uma coisa é ser punido pelas faltas cometidas e outra coisa é desabrochar os valores potenciais, manifestar o CÉU que trazemos nos fundamentos de nós mesmos. — Realmente, — acrescentou o discípulo, — há um ensino búdico a esse respeito. Diz ele que o AMOR e a CIÊNCIA são fatores básicos do Universo, e que o espírito, enquanto não os realizar em si, ficará sujeito à lei das reencarnações dolorosas. Isso prova, portanto, que é melhor procurar realizar em nós mesmos o AMOR e a CIÊNCIA, do que viver cantando loas à dor, seja por covardia moral, seja por atribuir a DEUS erros e falhas que ELE não poderia jamais ter. O menino vagabundo, que recebe castigo pelo fato de não executar suas obrigações, não tem o direito de confundir a punição recebida com a execução da obra que ainda está por ser feita. A punição lembra o dever, mas não é a execução. Cumpre a todos jamais cair em tal estado de confusão. Chegada a hora da segunda exposição, subiu aquele mesmo expositor à tribuna, e de lá passou a ler e a comentar. O livro era o mesmo, duplicata apenas de uma obra bastante conhecida na Terra. Foram estudados Hermes Trimegisto e Pitágoras. Suas respectivas teologias brilharam celestialmente na palavra do verboso e lúcido expositor. Verdadeiramente, não haveria avalanches de falhas religiosas se todos os homens procurassem conhecer a torrente de verdades que aqueles dois Grandes Mestres derramaram sobre a Humanidade. Pena foi, sentenciou o expositor, que seus continuadores tenham posteriormente descambado para outros rumos, engendrando clerezias corruptoras, até mesmo adulterando os textos, colocando na boca dos Grandes Mestres aquilo que eles nunca disseram e, por outro lado, tirando aquilo que eles de fatos ensinaram. Todavia, brilhou nas alturas da abóbada religiosa, mais uma vez, a grandeza e a glória daqueles dois luminares da VERDADE, daqueles dois notáveis precursores do CRISTO. Falando aos encarnados ali presentes, salientou o expositor: — Acrescentando a essas duas teologias a GRAÇAda REVELAÇÃO trazida mais tarde por Jesus Cristo, para toda a carne, teremos a medida religiosa perfeita. As verdades básicas foram bem expostas, ficando entretanto adstritas aos poucos que entravam para o Grande Cenáculo. Não era ainda hora de serem abertas as portas do Templo da Sabedoria. Tudo ficaria em caráter esotérico, até que viesse AQUELE, o CRISTO, cuja função missionária seria rasgar o VÉUDEÍSIS, ou como foi feito no devido tempo — batizar em Espírito! Tornar a carne toda herdeira da GRAÇA que é a REVELAÇÃO. Inolvidável foi a lição ouvida, mesmo para quem dela já tinha o devido conhecimento. Felizes aqueles que vivem a VERDADE diante dos homens, porque DEUS os fez reviver e brilhar nas extensões da História! Muita gente deixou o ambiente com lágrimas de contentamento nos olhos, por estarem seus corações plenos de imenso gozo espiritual. Capítulo III

A terceira lição foi retardada, pelo fato de não vir ao encontro do discípulo o Mensageiro invocado. Subindo ao monte, numa noite de lua crescente, ali ficou ele algum tempo a orar, sem ser atendido. Como aprendera a ser vigilante, armou-se de reverência perante DEUS e começou a descer a encosta. Sabia DEUS, por certo, os porquês do acontecimento. Ao entrar em sua casa, deu de frente com uma jovem desconhecida, que estava a se estrebuchar, presa de ataque. O discípulo perguntou aos pais a razão de estar ali a jovem, e com aquele mal, havendo eles respondido: — Veio ao encontro de tua irmã, tratar de costura, e, estando a conversar conosco, deu-lhe o ataque. Temos feito cheirar vinagre, alho e outras coisas, mas o mal não se vai. O discípulo pensou e tornou a pensar, julgando ser bom aplicar-lhe as mãos, de acordo com os ensinos e exemplos do CRISTO. Porque, julgou, podia muito bem ser um caso espiritual. Imaginou e fez, convocando todos à oração, pois ele sabia que os seus eram religiosos, embora dogmáticos e idólatras. Ao cabo de pouco, viu ele o Mensageiro, que agarrava um espírito pelas mãos, auxiliado por dois outros. Uma vez afastado o espírito sofredor e rebelde, a jovem retornou a consciência de si, revelando acanhamento e angústia. — Não te mortifíques, — disse o discípulo, — que não és doente. Ela em grande aflição revidou: — Há seis anos que sofro deste mal... Por que não sou doente? Desfiz o noivado e procuro a cura que nunca chega! Revelando alegria e não tristeza, revidou-lhe o discípulo: — Vi que três Mensageiros retiravam de ti um espírito sofredor e rebelde. — Espíritos?! — Fez a moça, todo espantada. — Sim, espíritos. De que se admira? Nunca leu a escritura, pelo menos? Receosa, com olhar desconfiado, a jovem afirmou: — Meus pais são protestantes! Sorrindo, o discípulo interpôs: — Meus pais são católicos. Olhando de soslaio, como a espreitar algum perigo iminente, a jovem perguntou: — E você?... Compenetrado, olhando-a de frente e francamente, faz ele a sua confidência: — Procuro ser verdadeiro... Busco a VERDADE que liberta, porque tenho intenções de vir a ser cristão. — Sem Religião?! — disse a jovem meio horrorizada. Penalizado, explicou o discípulo. — Para mim a VERDADE é a Religião. Quanto ao mais, aprendo com os espíritos Mensageiros... Tenho subido ao monte, feito orações e visto coisas maravilhosas. Tenho deixado o corpo, tenho ido a uma assembléia de estudos, no mundo espiritual... Percebendo o espanto que se refletia no semblante da jovem, interpelou-a: — Por que pensas assim? Que juízos estás a engendrar? Ela balbuciou, cismática: — E a palavra de Deus?... Cada vez mais triste e penalizado, explicou-lhe o jovem: — A palavra de Deus não é a letra, não é o relato literário; é a VERDADE que contém, são as leis reveladas e os exemplos vividos, que todas as criaturas devem procurar imitar. Observe que a LEI DE DEUS não prescreve sectarismo algum, apenas manda ser bom e moralizado, intrinsecamente demonstrando que a REVELAÇÃO é o instrumento informativo. Quanto ao CRISTO, que o Evangelho expõe, viveu a LEI e veio trazer a REVELAÇÃO para toda a carne. Ninguém, portanto, será bom cristão, sendo revel à REVELAÇÃO. — Quem lhe disse isso?! — perguntou-lhe a jovem, sempre desconfiada. — A REVELAÇÃO... — Não compreendo... Não compreendo... — fez a moça, perturbada. — Quem não compreendeu, — replicou o rapaz, — encravou na cruz ÀQUELE que se apresentou aos homens como sendo o CAMINHO, a VERDADE, e a VIDA. Ao PORTADOR DA GRAÇA, como diz a Escritura. A jovem calou-se, sem ter o que dizer. O discípulo saiu, foi na direção do seu quarto, depois de despedir-se de todos. Chegando ao quarto, colocou as mãos no rosto, sentiu a GRAÇA recebida, de seus olhos rolaram lágrimas cálidas de gratidão. Não esperava encontrar a jovem e nem sabia que sofria de ataques; entretanto, o Mensageiro viera ao seu encontro, na hora aprazada, a fim de ser útil. Orava a sua gratidão, quando sentiu, de novo, aquele frêmito suave em torno da cabeça. — Deita-te. — disse-lhe a voz do Mensageiro. O discípulo deitou-se, maravilhado, sabendo que iria ter contato com o bondoso amigo. E assim foi. — Vamos, — disse-lhe o Mensageiro, — que o expositor aguarda a tua chegada, para iniciar a parte de hoje. Quanto ao monte, onde não compareci, logo falaremos. — Não é necessário, creio, pois em DEUS tudo é justo. O Mensageiro concordou, assinalando: — Tanto melhor. Todavia, saiba, quisemos saber como te portarias. Chegados ao recinto, todos estavam a postos, aguardando-nos. O expositor iniciou a palestra, dizendo que falaria sobre Moisés, o discípulo da Cabala Egípcia, o missionário que muito trabalhou e sofreu, para radicar a grande família espiritual, de cujo seio resultaria, mais tarde, AQUELE que viria trazer a GRAÇA da REVELAÇÃO para toda a carne, a fim de que a LUZ da VERDADE brilhasse para todas as inteligências e consolasse todos os corações. De Moisés, falou o expositor, nenhuma palavra direta existe; os Livros foram queimados, assim como perseguidos e mortos os Profetas, ao tempo de Saul. E a restauração, ordenada por Esdra, foi feita sobre lendas e contos do povo, havendo homens que de memória relataram algumas verdades. Quanto ao mais, símbolos e parábolas foram tomados ao pé da letra, caindo os grandes ensinos em tremendas falhas e contradições repelentes. Salientou, entretanto, quatro feitos grandiosos na vida de Moisés, sem contar os muitos outros de menor significação: O de “Trasladar o Povo de Israel para o local devido, da maneira que melhor pôde, contando com os recursos mediúnicos de que dispunha, assim como DEUS lhe permitiu”. O de “Uma vez mais transmitir a LEI que fora diversas vezes transmitida, no curso dos tempos aos povos”. O de “Profetizar sobre a vinda de CRISTO, fazendo ciente o Povo de que não estavam completas as Escrituras”. O de “Lavrar o primeiro batismo coletivo de Espírito, ensejando a setenta homens escolhidos entrarem para o cultivo da REVELAÇÃO, a fim de o auxiliarem a guiar o Povo”. Pouco mais falou fazendo referência aos feitos de Moisés. Se os homens menos conscientes fizeram de seus livros fogueira e do seu primeiro batismo de Espírito obra de corrupção, nenhuma culpa lhe coube. Também com o CRISTO, mais tarde, fariam a mesma coisa: o NOVO TESTAMENTO era queimado pela Inquisição e com ele seu dono; o Seu batismo de Espírito, para toda a carne, também foi perseguido e banido por Roma, no quarto século, quando ali fundaram o catolicismo Romano. Findou a exposição e foram recambiados, os encarnados, aos respectivos corpos. Ao pé do leito, onde repousava o corpo, disse o Mensageiro ao discípulo: — Se quiseres, não precisas ir ao monte... Já que foste em busca da VERDADE, com a sinceridade na alma, ela poderá vir a ti; todavia, quando for possível fazer o bem, faça-o com todo vigor de tua vontade. E nunca deixes de pregar a VERDADE, onde quer que seja, e a quem quer que seja, mormente aos que se julgam fartos dela, pois a fartura que levam é apenas teórica e formal, sendo capazes, por isso mesmo, de blasfemar contra o que é de DEUS e de insultar aos que procuram vivê-la e torná-la extensiva aos irmãos em geral. Esses tais são aqueles que trucidam os profetas e crucificam o CRISTO, achando com isso que estão prestando um grande serviço à Humanidade.

Capítulo IV

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.