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Capítulo 9 de 18

Declamação De Erasmo De Rotterdam — parte 1 de 1 — parte 6 de 14

Elogio Da Loucura

Ao mesmo tempo, quando um homem comete um estranho erro, não só de senso, mas também de inteligência, nele persistindo longamente, — por exemplo, quando, ao escutar o zurro de um burro, julga ouvir uma sinfonia ou, então, quando, embora pobre e de origem humilde, imagina ser o rei Creso, da Lídia (70) — nesse caso, se diz que o pobrezinho perdeu o miolo. Mas, essa loucura, quando dirigida a um objeto de prazer, como costuma acontecer quase sempre, bastante agradável se torna tanto para os que a têm como para os que são meros espectadores. Assim, essa espécie de loucura é bem mais espalhada do que em geral se pensa. Às vezes, é um louco que se ri de outro louco, divertindo-se ambos mutuamente. Também não é raro ver-se um mais louco rir-se muito de outro menos do que ele.

Mas, na minha opinião, o homem é tanto mais feliz quanto mais numerosas são as suas modalidades de loucura, contanto que não saia da espécie que nos é peculiar e que é tão espalhada que eu não saberia dizer se haverá, em todo o gênero humano, um só indivíduo que seja sempre sábio e não tenha também a sua modalidade. Se alguém, ao ver uma abóbora, a tomasse por uma mulher, dir-se-ia ser o pobrezinho um louco. A razão disso é que semelhante perturbação raras vezes costuma aparecer entre nós. Mas, quando um marido imbecil adora a mulher, julgando-a mais fiel do que Penélope, mesmo que ela lhe faça crescer na cabeça um bosque de chifres, e intimamente se felicita, bendizendo enormemente o seu destino e dando graças a Deus por o ter unido a semelhante Lucrécia, — ninguém acha que se trate de loucura, porque isso, hoje em dia, é a coisa mais natural deste mundo. Nessa categoria, é preciso incluir também os que desprezam tudo a não ser a caça, não concebendo maior prazer que o de ouvir o rouco som da trompa e os latidos dos cães.

Creio mesmo que, ao sentirem o cheiro dos excrementos caninos, imaginam estar cheirando sinomônio. Trata-se de despedaçar uma presa? Oh! incomparável delícia! Degolar, esfolar, cortar um boi ou um carneiro? Ah! é um mister vil, digno somente da ralé!

Mas, um bicho do mato? Oh! a honra de cortar um bicho do mato é reservada unicamente às pessoas de alta linhagem! O monteiro-mor, com a cabeça descoberta e de joelhos, pega o facão sagrado para esse sacrifício (pois Diana se ofenderia se se servisse de outro) e, empunhando o ferro com a mão direita, corta religiosamente determinados membros do animal, fazendo tudo com certa ordem e com cerimônias especiais. E, durante a pomposa operação, todo o bando de caçadores acerca-se do sacerdote de Diana, observando profundo silêncio e mostrando, ao assistir ao espetáculo mil vezes visto, a mesma surpresa que teria se fosse a primeira vez. Em seguida, aquele a quem cabe a sorte de provar um pedaço da caça julga ter conquistado ainda mais nobreza.

Por fim, os caçadores, depois de levarem a vida perseguindo e comendo caça, não obtêm outro resultado do seu assíduo e fatigante exercício senão o de se terem trasformado também em outros tantos animais selvagens. E, não obstante, intimamente, pensam ter uma vida real. Outra espécie de homens semelhantes à que há pouco descrevi é constituída por aqueles que se sentem devorados pela mania de construir. Uma vez invadidos por essa irriquieta paixão, nunca se dão por satisfeitos, sendo a sua preocupação contínua a de fazer, edificar, destruir, até que, como Horácio, nessa tarefa de mudar o quadrado em redondo e o redondo em quadrado, acabam por ficar sem casa e sem pão. E com que ficam?

Ficam com a doce lembrança de terem passado com prazer um grande número de anos. Vejamos, agora, os alquimistas, que podem ser considerados os loucos por excelência. Têm a cabeça sempre repleta de novos e misteriosos segredos. O seu único fim é confundir, misturar, modificar a natureza, procurando por terra e por mar não sei que quintessência, que na realidade só se encontra em uma quimérica imaginação. Não julgueis, por isso, que se desgostem diante dos insucessos: ao contrário, cheios de louca e lisonjeira esperança, nunca se arrependem das despesas nem da fadiga, pois são engenhosíssimos em iludir-se a si mesmos e em tornar-se vítimas da própria obstinação.

Mas, qual é, em geral, o seu objetivo? Pensando enriquecer-se, gastam tudo, não lhes restando nem mesmo com que construir um pequeno lar. É verdade que esses sonhadores não deixam de ter belíssimos sonhos, tentando tudo quanto é meio imaginável para incitar os outros a correr atrás dessa felicidade. Finalmente, constragidos pela miséria a dar um adeus às suas quiméricas esperanças, acham ainda uma grande compensação em se poderem gabar de ao menos terem formado tão glorioso e nobre projeto. Mas, ao mesmo tempo, censuram a natureza pelo fato de ter dado aos homens uma vida demasiado breve para levar a termo empresa de tamanha importância.

Sinto certo escrúpulo em introduzir em nossa sociedade os jogadores de profissão. Mas, decerto que é uma loucura, oferecendo um espetáculo ridículo os que, de tão apaixonados pelo jogo, sentem bater e saltar o coração dentro do peito, sempre que vêm cartas na mesa ou ouvem o barulho dos dados. Então, quando a enganosa esperança de recuperar o que perderam faz com que percam o resto dos seus bens e quando a sua nau se quebra contra o escolho do jogo, escolho não menos fatal que o de Maléia (71), ainda se julgam muitos felizes por se terem salvo nuzinhos em pêlo desse naufrágio. E o mais bonito é que essa espécie de gente prefere roubar a quem quer que seja, exceto ao que a despojou, pelo receio de passar à conta de pouco honesta. Que deveria eu dizer desses velhos que, quase cegos de tanta idade, chegam a pôr os óculos para jogar e, tendo as mãos atacadas pela gota, pagam a alguém para que jogue os dados por eles?

São tão loucos pelo jogo, e nele experimentam tão extremo prazer que sou levada a considerálos como de minha atribuição. Mas, muitas vezes, o jogo se transforma em raiva e furor, e, então, me inclino a atribuí-lo mais às fúrias do que a mim. Mas, eis que se adiantam algumas pessoas, que sem dúvida vivem sob as minhas leis: são os que se divertem ouvindo ou contando milagres e romanescas invencionices. Não acreditais? Pois esse bom gosto proporciona tal prazer que os sábios são indignos de experimentá-lo.

É preciso, sim, é preciso ter nascido sob um particular auspício dos deuses para poder saborear tão doces quimeras. E o melhor é que nunca se fartam de ouvir semelhantes patranhas. Os milagres, os espectros, os duendes, os fantasmas, o inferno, e mil outras visões dessa natureza, são o assunto mais comum das conversas do vulgo ignorante, sendo que, quanto mais extraordinárias são essas coisas, com tanto maior prazer são elas ouvidas e facilmente acreditadas. E não penseis que tais histórias se contem apenas para iludir as horas de aborrecimento: tornaram-se, na boca dos monarcas e dos pregadores, um meio de tirar proveito da crendice popular. A essa espécie podem agregar-se, a justo título, os ridículos e originais supersticiosos, os quais, toda vez que têm a sorte de ver alguma estátua de madeira ou alguma imagem do seu polifêmico São Cristóvão (72), ficam convencidos de que nesse dia não poderão morrer.

Soldados há que, depois de uma pequena prece diante da imagem de Santa Bárbara, ficam certos de que sairão ilesos da batalha. Alguns acreditam que, invocando Santo Erasmo em certos dias, com certas orações e à luz de certas lamparinas, seja possível fazer uma grande fortuna em pouco tempo (73). E que direi do hercúleo São Jorge, que para esses supersticiosos faz as vezes de um novo Hipólito (74)? Na verdade, não se pode deixar de rir diante de sua devoção, que consiste em ornar pomposamente o cavalo do santo e quase que em prostar-se, diante do animal assim enfeitado, para adorá-lo. Fazem questão absoluta de conservar o favor e a proteção do cavaleiro por meio de alguma oferta, sendo inviolável para eles o juramento que fazem pelo seu penacho.

Mas, porque não falar dos que julgam que, em virtude dos perdões e das indulgências, não têm nenhuma dívida para com a divindade? Com a exatidão de uma clepsidra e da mesma maneira por que, matematicamente, sem recear erro de cálculo, medem os espaços, os séculos, os anos, os meses, os dias, — assim também, com essa espécie de falazes remissões medem eles as horas do purgatório. Outra espécie de extravagantes é constituída pelos que, confiando em certos pequenos sinais exteriores de devoção, em certos palanfrórios, em certas rezas que algum piedoso impostor inventou para se divertir ou por interesse, estão convencidos de que irão gozar uma inalterável felicidade, conquistar riquezas, obter honras, satisfazer determinados prazeres, nutrir-se bem, conservar-se sãos, viver longamente e levar uma velhice robusta. E, como se isso não bastasse, ainda esperam poder ocupar no paraíso um posto elevado, sob a condição, porém, de só passarem ao número dos beatos tão tarde quanto possível. Pensam, então, chegado o tempo de voar por entre as inefáveis e eternas delícias do céu, uma vez abandonados pelos bens da terra, a que se aferram de todo o coração.

Persuadidos dos perdões e das indulgências, ao negociante, ao militar, ao juiz, basta atirarem a uma bandeja uma pequena moeda, para ficarem tão limpos e tão puros dos seus numerosos roubos como quando saíram da pia batismal. Tantos falsos juramentos, tantas impurezas, tantas bebedeiras, tantas brigas, tantos assassínios, tantas imposturas, tantas perfídias, tantas traições, numa palavra, todos os delitos se redimem com um pouco de dinheiro, e de tal maneira se redimem que se julga poder voltar a cometer de novo toda sorte de más ações. Quem já terá visto homens mais tolos, ou melhor, mais felizes do que os devotos, os quais julgam que entrarão infalivelmente no reino dos céus, recitando todos os dias sete versículos, que eu não sei quais sejam, dos salmos sagrados? No entanto, foi um demônio quem fez tão bela descoberta; mas, um demônio tolo, que tinha mais vaidade do que talento, tanto assim que cometeu a imprudência de exaltar o seu mágico segredo com São Bernardo (75), que era muito mais esperto do que ele. E todas essas coisas não serão, talvez, excelentes loucuras?

Ah! como isso é verdadeiro! Até eu, que sou a Loucura, não posso deixar de sentir vergonha. No entanto, não é o público o único a aprovar tão completas extravagâncias. Sustentam a sua prática, dando o exemplo, os próprios professores de teologia. E, já que viajo por esses mares, convém continuar a navegar.

Digamos, assim, algumas palavras sobre a invocação dos santos. É curioso verificar que cada país se gaba de ter no céu um protetor, um anjo tutelar, de forma que, num mesmo povo, entre esses grandes e poderosos senhores da corte celeste, se encontrem as diversas incubências do protetorado. Um cura dor de dentes, outro assiste ao parto das mulheres; aquele faz achar os objetos perdidos, este vela pela segurança e prosperidade do gado; um salva os náufragos, outro confere a vitória nos combates. Suprimo o resto, porque será um nunca mais acabar. Além desses, existem outros santos que gozam de um crédito e um poder universais, encontrando-se entre estes, em primeiro lugar, a mãe de Deus, a quem o vulgo atribui poder maior que o do seu próprio filho.

Ora, as graças que os homens pedem aos santos não serão, talvez, insinuadas também pela Loucura? Dizei-me se, entre tantos votos religiosos de reconhecimento que vedes cobrindo por completo as paredes e as abóbadas das igrejas, já vistes penduradas um único de reconhecimento por cura milagrosa de loucura. Decerto que não: os homens não costumam importunar os santos para obter uma graça dessa natureza. Daí resulta que, por maior que seja a sua devoção, nunca se tornam nem um pouquinho mais sábios. Eis porque, enquanto se vêem, suspensos dos altares, ex-votos relativos a toda sorte de graças recebidas, nenhum se encontra, todavia, que se refira a um caso curado de loucura.

Aquele pendurou um ex-voto por se ter salvo a nado quando julgava naufragar; este, porque não morreu de um grave ferimento recebido numa briga; um outro, porque, enquanto os outros caíam prisioneiros do inimigo, conseguiu subtrair-se ao perigo, graças a uma feliz e valorosa fuga; aquele outro, porque, tendo sido condenado à forca como prêmio às suas boas ações, caiu do laço, graças a algum santo dos larápios, a fim de que, pior do antes e em virtude da caridade do próximo, voltasse a roubar os que tivessem a bolsa muito cheia de dinheiro; um outro, por ter recuperado a liberdade rompendo as grades da prisão; outro por se ter restabelecido facilmente de uma febre muito grave, com grande mágoa do médico, que esperava fazer uma cura mais longa e mais lucrativa; este, porque, em lugar da morte, encontrou remédio no veneno que lhe fora dado, enquanto sua mulher, que já suspirava pelo momento da libertação, ficou na maior amargura por ter falhado o golpe; outro, porque, tendo caído com seu carro, não teve receio algum e pôde reconduzir à casa, sãos e salvos, os cavalos; aquele, porque, tendo ficado soterrado num desabamento, conseguiu salvar-se sem nada sofrer; outro, finalmente, porque, tendo sido pilhado em flagrante pelo marido de sua bela, saiu da enrascada com a maior desenvoltura. Ora, bem vedes que ninguém deu graças a Deus, ou à Virgem, ou a qualquer santo, por ter recuperado o juízo. A loucura tem tantos atrativos para os homens, que, de todos os males, é ela o único que se estima como um bem. Mas, porque engolfar-me nesse oceano de superstições? Se eu tivesse cem línguas e cem bocas, E férrea voz, em vão de tantos tolos As espécies contar eu poderia, E de tanta tolice os vários nomes. (Virgílio, Eneida, livro VI e Homero, III, livro VI.) De tal maneira está a vida de cada cristão repleta de semelhantes desejos!

Bem sei que os sacerdotes não são tão cegos que não compreendam deformidades tão vergonhosas; mas é que, em lugar de purgar o campo do Senhor, eles se empenham em semeá-lo e cultivá-lo de ervas daninhas, com toda a diligência, certos como estão de que estas costumam aumentar-hes as ganhuças. Suponha-se que, em meio a todos esses prejuízos, surgisse um odioso moralista que, em tom apostólico, fizesse esta patética, mas verdadeira exortação: “Não basta ter devoção por São Cristóvão: é preciso, também, viver segundo a lei divina, para não chegar a um mau fim. Não basta oferecer uma pequena moeda para obter perdões e indulgências: é preciso, ainda, odiar o mal, chorar, velar, rezar, jejuar, numa palavra, mudar de vida, praticando constantemente o Evangelho. Confiais em algum santo? Pois segui os seus exemplos, vivei como ele viveu, e assim merecereis a graça do vosso santo protetor”.

Aqui entre nós: esse moralista não andaria mal falando dessa forma, mas, ao mesmo tempo tiraria os homens de um estado de felicidade, para lançá-los na miséria e na dor. Uma palavrinha acerca de uma espécie de doidos, porque seria um grande mal não os pôr igualmente em cena, quando honram tanto o meu império. Quero referir-me aos ricos que, vendo chegar o fim dos seus dias, providenciam grandiosos preparativos para uma passagem magnífica ao túmulo. É com grande prazer que se observa como esses moribundos se aplicam seriamente às suas pompas fúnebres. Estabelecem, artigo por artigo, quantos círios e quantas velas devem arder nos seus funerais, quantas pessoas vestidas de luto, quantos músicos, quantos carpidores devem acompanhar o féretro, como se, depois de mortos, ainda pudessem conservar alguma consciência para gozar o espetáculo, ou soubessem ao certo que os mortos costumam ficar envergonhados quando os seus cadáveres não são sepultados com a magnificência exigida por seu próprio estado.

Finalmente, parece que esses ricos consideram a morte como um cargo de edil, que os obrigue a ordenar festas populares e banquetes. Embora seja fecundíssimo o meu assunto, sendo eu forçada a tratá-lo superficialmente, não poderei, contudo, silenciar sobre esses grandes panegiristas, esses vaidosos apreciadores da própria nobreza. Não é raro encontrar, entre estes, os que, com ânimo abjeto e vilíssimas e plebéias inclinações, vos pasmem à força de repetir: “Sou um fidalgo”. Convém provar a antigüidade de suas estirpes? Um descende do piedoso Enéias; outro remonta ao primeiro cônsul de Roma; este procede, em linha reta, do rei Artur.

Além disso, mostram as estátuas e os retratos dos antepassados: enumeram os bisavós e os tataravós; recordam os antigos sobrenomes e os feitos dos seus maiores. Enquanto isso, pouco diferem eles de uma estátua muda, e eu os diria mesmo quase inferiores às próprias figuras que vão mostrando. Esses idiotas fazem um alto conceito de si mesmos e estão sempre cheios da estéril idéia de sua ascendência. O que é fato, porém, é que imbuídos dessa quimera, levam uma vida contente e feliz. Ora, o que contribui, em grande parte, para que em tão boa conta se tenha esse belo fantasma de nobreza, é justamente o respeito que o vugo insano demonstra por eles, parecendo até enxergar nesse gênero de bestas, nesses nobres sem mérito, outras tantas divindades.

Mas, ao tratar do amor próprio, porque hei de me restringir a uma ou duas espécies apenas de loucura? Quantos meios surpreendentes não possuirá o meu caro amor próprio, que vedes aqui presente, para impedir que o homem fique desgostoso de si mesmo? Olhai aquele rosto: não há macaco mais feio, nem mais disforme; no entanto, julga-se um lindo rapaz. E, perto dele, o outro que traça duas ou três linhas com exatidão, à força de compasso! Intimamente, já se aplaude, julgando-se um Euclides.

E aquele que está cantando, ainda pior que um galo? Não importa: pensa ter uma voz paradisíaca. Todavia, também essa espécie de loucura é verdadeiramente agradável. Alguns possuem um numeroso bando de criados, cada qual com uma boa qualidade, e julgam que essas boas qualidades lhes sejam peculiares. Tal era, segundo Sêneca, aquele rico duplamente feliz que, ao pretender contar alguma história, tinha sempre ao redor os escravos, que lhe auxiliavam a memória, sugerindo-lhe os vocábulos adequados, mesmo os mais comuns.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.