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Capítulo 15 de 18
Declamação De Erasmo De Rotterdam — parte 1 de 1 — parte 12 de 14
Elogio Da Loucura
Em compensação, confere seus bens aos loucos e, por fim, ao vê-los dormindo, derramalhes no seio os seus tesouros. Decerto já ouvistes falar de um certo Timóteo, capitão ateniense, cuja fortuna foi tal que, mesmo dormindo, conquistou e saqueou cidades. Quando, porém, começou a atribuir tanta fortuna ao próprio mérito, foi abandonado pela deusa e caiu na maior miséria. Pois não se costuma dizer que os tolos são felizes e que até o mal se converte para eles num bem? No entanto, é justamente o contrário o que costuma suceder aos sábios.
Já diz o provérbio: Quem, como Hércules, nasceu no quarto dia da lua, só pode esperar sofrimentos: montado no cavalo de Sejano, quebrará a perna; tendo dinheiro de Tolosa, pouco proveito terá. Mas, deixemos os provérbios, pois pode parecer que me apropriei de todos os comentários do meu Erasmo. Volto, pois, ao meu assunto, e digo que a Fortuna só ama as pessoas que não pensam em nada, gostando de beneficiar os aturdidos e os temerários, isto é, os que dizem como César no Rúbicão: Alea jacta est. A sabedoria só pode inspirar temor, o que faz com que a condição de um verdadeiro filósofo chegue a causar piedade aos homens de bom senso. Com o cérebro repleto de belíssimas e sólidas especulações, quer físicas, quer morais, sente o estômago doer de fome e nem sequer sabe onde encontrar o necessário.
Além disso, é abandonado, desprezado, odiado, evitado por todos, enquanto os tolos, verificando que o precioso metal que os anima constitui o móvel maior da sociedade civilizada, são elevados aos empregos públicos e em tudo favorecidos pela fortuna. Eis porque os que se consideram felizes quando acolhidos pelos grandes e quando conversam com esses deuses queridos, que são os meus escravos diletos, não têm necessidade alguma da sabedoria, que é a coisa mais detestada nas cortes e nos paços. Quereis enriquecer-vos no comércio? Renunciai à sabedoria, porque, do contrário, como poderíeis fazer um falso juramento sem vos sentirdes dilacerar por um horrível remorso? Como poderíeis deixar de enrubescer quando surpreendidos numa mentira?
Como sufocaríeis os ásperos e tormentosos escrúpulos que sentem os sábios pelo furto e pela usura? Como poderíeis deixar de travar convosco uma contínua guerra íntima? Ambicionais as dignidades e os bens eclesiásticos? Um burro e um búfalo poderiam consegui-los mais facilmente que um filósofo. Amais a volúpia?
As mulheres que a têm como principal escopo procuram os tolos e fogem dos sábios como dos escorpiões. Quem, finalmente, deseje gozar os prazeres da vida, deve cortar qualquer relação com os sábios e preferir tratar com a escória popular. Em suma, para resumir tudo numa única idéia, voltai-vos para todos os lados, e verieis que os papas, os príncipes, os juízes, os magistrados, os amigos, os inimigos, os grandes, os pequenos, todos, sem exceção, agem em virtude do ouro sonante. E, como o filósofo, fora do estritamente necessário, considere como esterco esse metal, não é de admirar que todos desprezem a sua intimidade. *** Mas, embora o meu elogio seja uma fonte inesgotável, não é justo abusar da vossa paciência entretendo-vos ainda mais com esta minha declamação, razão por que vos livrarei logo da fadiga de vossa atenção. Apenas vos peço um pequeno favor, necessário à minha glória.
Talvez haja aqui presentes (uma vez que os maus costumam imiscuir-se sempre entre os bons), alguns sábios que digam ser eu bela somente aos meus próprios olhos, e não faltarão senhores legistas que aleguem o fato de eu não haver citado nenhum texto em meu favor. Citemos, pois, como fazem eles, a torto e a direito. Antes de mais nada, não se pode pôr em dúvida o conhecido provérbio que diz: Quando falta uma coisa, é preciso representá-la, o que é inteiramente confirmado por esta sentença que se costuma ensinar até aos meninos: Procura-se muita sabedoria para se poder passar por louco. Julgai, pois, se a loucura deve ou não ser incluída entre os maiores bens, quando os próprios sábios tributavam louvores à sua imagem e à sua sombra falaz. Mas, Horácio, que a si mesmo se chama o lúcido e bem nutrido porco de Epicuro, exprime a coisa com maior naturalidade, quando aconselha a temperar a loucura com a sabedoria.
Ele desejaria, é certo, que essa loucura fosse de curta duração, mas, a esse respeito, revela, a meu ver, pouco critério. O mesmo poeta diz nas suas Odes: É um grande prazer ser louco quando se deseja sê-lo. Em outro lugar, diz preferir parecer estranho e ignorante a parecer sábio e furioso. Homero, que por toda a parte louva muitíssimo o seu Telêmaco, não deixa de o chamar várias vezes de menino tolo; e os trágicos gostam de dar aos jovens o epíteto de tolo e imprudente, como um epíteto de bom augúrio. Qual é o argumento da divina Ilíada?
Não serão, talvez, os furores e as loucuras dos reis e dos povos? Cícero nunca se orientou tão bem, por mim, como quando disse: Todas as coisas estão cheias de loucura. Ora, convireis que, quanto mais extenso é um bem tanto mais excelente é ele. Mas, é possível que os autores citados tenham pouca autoridade para os cristãos. Pois bem: apoiarei, se julgais conveniente, ou, para exprimir-me teologicamente, fundarei o meu elogio no testemunho das sagradas escrituras.
Permiti que o faça, senhores nossos mestres, é o que vos peço humildemente. A empresa é bastante difícil e exigiria pelo menos uma boa invocação às musas; mas, por outro lado, seria uma indiscrição fazer descer pela segunda vez, do monte Helicão, essas nove virgenzinhas, pois bem vedes que o caminho é muito longo. Além disso, a matéria que devo abordar nada tem que ver com Apolo. Portanto, seria melhor que, dispondo-me eu a me arvorar em teóloga e a correr sobre os espinhos teologais, se dignasse o espírito de Scot a passar da sua Sorbonne para o meu ânimo. Ah! queira Deus que esse beato espírito, mais pungente que o ouriço e mais agudo que o porco-espinho, inflame a minha mente!
Depois, quando eu tiver acabado, que voe por onde mais lhe agradar, inclusive entre os corvos. Praza igualmente aos céus que me seja permitido mudar de aspecto, vestindo um hábito teologal! Vou, porém, experimentar, e, quando me ouvirdes impingir tanta teologia, não suspeiteis que eu tenha forçado e espoliado as arcas dos nossos mestres. Mas, afinal, não me parece surpreendente que, tendo mantido por tantos séculos uma estreita amizade com os teólogos, tenha eu sido atacada por um pouquinho da sua sublime ciência. E porque não poderia acontecer-me tal coisa?
Não será, talvez, verdade que até o irrequieto Príapo, embora sendo um deus de curto entendimento, ao escutar o mestre ler grego em voz alta, guardou algumas palavras na memória e as reteve como um doutor? E que diríamos do galo de Luciano? Como se sabe, depois de ter vivido longo tempo com os homens, articulou inesperadamente a lingua e falou como eles. Mas, dito isso, comecemos sob os auspícios da Fortuna. O Eclesiastes, capítulo primeiro, versículo... versículo... esperai um pouco... oh! meu Deus! não me recordo mais, e assim também a página, a linha, etc. (pois que, para citar teologicamente, é preciso dizer tudo).
Mas, no Eclesiastes está escrito que o número dos loucos é infinito. Ora esse número infinito não abrangerá a todos os homens, com poucas exceções, se é que já houve alguns? Mais ingenuamente, porém, o confessa Jeremias: Todos os homens — diz ele no capítulo X — tornaram-se loucos à força de sabedoria. E atribui a sabedoria somente a Deus, deixando aos homens a loucura como predicado. Um pouco antes, diz ele: O homem não deve gabar-se da sua sabedoria.
Mas, porque dizeis isso, oh santo, oh divino oráculo do futuro? É porque (assim me parece ouvi-lo responder) o homem não tem nenhuma idéia da sabedoria. Voltemos ao Eclesiastes. Quando Salomão, esse grande monarca iluminado do céu, faz aquela patética exclamação moral: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! — não vedes, senhores, que, sem gaguejar, ele declara que a vida humana, como também eu já vos disse tantas vezes, não é outra coisa senão um divertimento da Loucura?
E não foi também isso o que Cícero, com grande honra para mim, repetiu muito depois, isto é, que tudo está cheio de loucura? E quando o citado Eclesiastes diz ainda que o louco muda como a lua e o sábio é estável como o sol, — que imaginais que isso signifique? Não significará, talvez, que todos os homens são loucos e que somente a Deus pertence o título de sábio? Com efeito, por lua entendem os intérpretes a natureza humana, e por sol a fonte da verdadeira luz, que é Deus. Também o Salvador apoia essa verdade quando diz, no Evangelho, que o epíteto de bom só cabe a Deus.
Ora, segundo os estóicos, sábio e bom são dois sinônimos; portanto, todos os homens, sendo maus, são também, por uma conseqüência necessária, todos malucos. Diz ainda Salomão no capítulo XV: A tolice é a alegria do tolo, o que significa que, sem a loucura, nada se acha de agradável na vida. E em outra passagem: Progredir na ciência é o mesmo que progredir na dor, e, onde há muito sentimento, há também muita contrariedade. Não repetirá esse mesmo excelente pregador, no capítulo VII, o mesmo pensamento? — A tristeza — diz ele — mora no coração do sábio, e a alegria no do tolo.
Não contente de ter conhecido a fundo a sabedoria, teve ele o desejo de conhecer também a mim. Pensais que eu esteja gracejando? Ouvi o oráculo, capitulo I: Apliqueime ao conhecimento da prudência e da doutrina, dos erros e da loucura. É preciso notar que, nessa passagem, sou citada em último lugar, a fim de me ser conferida a honra que mereço, como posso prová-lo. De fato, foi o Eclesiastes que o escreveu: ora, na ordem eclesiástica, segundo o cerimonial em uso, o primeiro em dignidade é o que ocupa o último posto, de acordo com o preceito de Cristo.
Que a loucura é realmente superior em dignidade à sabedoria prova-o, à evidência, o autor do Eclesiastes, seja ele quem for, no capitulo XLIV. Mas, meus caros ouvintes, antes de citar essa passagem, quero fazer um pacto convosco: juro-vos por Hércules que nunca mais vos falarei disso, se não responderdes favoravelmente às minhas perguntas, a exemplo daqueles que, segundo Platão, discutiam com Sócrates. Dou, pois, início à minha indução. Dizei-me, por favor, o que será melhor ocultar: as coisas raras e preciosas, ou as vis e triviais. Como, não respondeis?
Porque permaneceis imóveis como se não passásseis de estátuas? Mas, não será o vosso silêncio que me fechará a boca. Os gregos responderão por vós e dirão que a bilha se deixa sem receio à porta, ao passo que as coisas preciosas se conservam escondidas. Receando, porém, que profaneis essa sentença, rejeitando-a, acho conveniente advertir-vos que é de Aristóteles, o deus dos nossos mestres. Continuemos: haverá aqui alguém bastante louco que, de bom grado, seja capaz de abandonar na rua o seu dinheiro e as suas jóias?
Não o creio, naturalmente! Todos vós, ao contrário, me pareceis, se não me engano, desses homens que costumam ocultar muito bem tudo o que possuem de precioso e que só se descuidam das coisas que pouco ou nada importa perder. Assim, pois, exigindo a prudência que se escondam as coisas de valor e que não se deixem expostas senão as coisas de pouca valia, a minha causa venceu, triunfou! O Eclesiastes ordena que se manifeste a sabedoria e se oculte a loucura. Textualmente: O homem que esconde a própria loucura é melhor que o que esconde a própria sabedoria.
Mas, isso não basta. As sagradas escrituras atribuem ainda ao louco a candura de ânimo, da qual não é suscetível o sábio, embora se julgue sempre melhor do que os outros. É, pelo menos, como interpreto a seguinte passagem do Eclesiastes, capítulo X: Ao passear, o louco supõe que todos os que encontra sejam loucos como ele. Quem pode deixar de admirar essa candura e essa sinceridade? Naturalmente, todos os homens fazem um alto conceito de si mesmos, mas a loucura torna o homem tão humilde que procura dividir a sua virtude com todos os outros homens e comunicar-lhes a glória do seu mérito.
Salomão julgava ter chegado a tanta perfeição, dizendo no capítulo XXX: Eu sou o mais louco de todos os homens. São Paulo, esse evangelista, esse apóstolo das gentes, não passou sem atribuir-se o meu nome, pois disse aos coríntios: Como louco, eu afirmo que sou o maior de todos (de tal maneira considerava ele vergonhoso ser superado em loucura). Mas, enquanto isso, insurgem-se contra mim certos teólogos grecistas, impingindo como novidades coisas rançosas e antigas e se esforçando por cegar o vulgo com anotações que, além do mais, são pensamentos roubados aqui e ali: entre eles, encontra-se, se não em primeiro, pelo menos em segundo lugar o meu caro Erasmo, que freqüentemente cito para lhe prestar uma homenagem (98). — Oh Loucura! — exclamam eles, — tu te mostras verdadeiramente digna do teu nome, tanto em tuas interpretações como em tudo mais!
O pensamento do apóstolo é bem diverso daquele que tu sonhas: não há a intenção de persuadir que ele seja mais louco que os outros; depois de ter dito que eles são ministros de Cristo e eu também o sou, como se não bastasse igualar-se aos outros, acrescenta, corrigindo-se: E o sou mais do que eles, sentindo-se não somente igual aos outros apóstolos no ministério do evangelho, mas ainda um tanto superior. Para evitar o escândalo que semelhante declaração poderia provocar, São Paulo chama-se louco, pois só os loucos têm o direito de dizer tudo sem risco de ofender alguém. Mas, seja qual for a interpretação que se dê ao que escreveu São Paulo, deixo que o discuta quem quiser. Quanto a mim, prefiro ser atacada pelos fogos desses grandes, desses enormes, desses gordos, desses célebres teologastros, com os quais a maior parte dos doutores prefere correr o risco de enganar-se a conhecer a verdade ocultada por esses séquito de pessoas de três línguas (99), às quais se dá tanta importância como às gralhas. Além disso, tenho em meu favor glorioso teólogo, que prudentemente julgo não dever nomear, pois sei muito bem que as nossas gralhas não deixariam de me citar a fábula do Asinus ad lyram (100).
Esse doutor assim explica magistralmente, teologicamente, essa passagem: Eu o digo com menor sabedoria, eu o sou mais do que eles. Faz disso um novo capítulo — e assim é quem exige uma dialética consumada — que vos acrescenta uma nova secção. Eis, não só quanto à forma, mas também quanto ao fundo, as palavras do meu teólogo: Eu o digo com menor sabedoria, isto é, se vos pareço louco quando me igualo aos falsos apóstolos, mais tolo vos parecerei ainda se quiser preferir-me a eles. Depois, como que divagando, passa de repente a outro assunto. Mas, como sou louca ao querer atormentar meu cérebro com a interpretação de um só teólogo!
Pois não conquistaram os nossos teólogos o direito público de esticar o céu, isto é, as escrituras, como se fossem uma pele? Se devemos dar crédito ao douto São Jerônimo, que possuía cinco línguas, o próprio São Paulo usava do referido direito, encontrando-se em suas obras coisas que parecem opostas às sagradas escrituras. Por essa pia fraude do apóstolo das gentes, podemos julgar todas as outras. Tendo São Paulo observado, certa vez, uma inscrição que os atenienses tinham posto sobre um altar, na qual se lia: Aos deuses da Ásia, da Europa e da África, aos deuses ignotos e estranhos, — trancou a inscrição e, tomando somente a parte julgada vantajosa à religião cristã, suprimiu o resto. E até as palavras: ao deus ignoto, que formam o texto do seu discurso, bem se vê que não foram citadas com fidelidade.
Os teólogos modernos mostram ter aproveitado bastante esse exemplo, pois freqüentemente, da passagem de um autor costumam tirar cinco ou seis palavras e alterar-lhes o sentido, como lhes convém. E assim é que, ao se confrontar a cópia com o original, ou quando se compara a citação com o desenvolvimento do raciocínio, fica patenteado que o autor citado não teve a intenção de dizer o que se pretende, ou então disse justamente o contrário. Pois é o que fazem os nossos mestres, e o fazem com tão feliz impudência que os próprios legistas, que tanto se divertem em citar a torto e a direito, ficam com muita inveja deles. E como poderiam deixar de sair-se bem com essa astúcia os guerreiros espirituais? Tudo podem esperar depois do primeiro sucesso do grande teólogo de que há pouco vos falei.
Oh! que bom! Estou com o nome na ponta da língua! Receio, porém, que me citem outra vez o provérbio grego do Asinus ad lyram. Esse doutor, no evangelho de São Lucas, interpretou tão bem uma passagem, que o seu senso, como o de Jesus Cristo, desperta como o fogo com a água. Julgai-o, pois.
Por ocasião de um extremo perigo, ocasião em que os bons clientes mais assiduamente se acham em torno dos seus protetores, oferecendo-lhes todo os seus serviços, o Salvador, querendo tornar os seus discípulos superiores à esperança de qualquer socorro humano, fez aos mesmos a seguinte pergunta: — “Quando vos enviei pelo mundo, faltou-vos alguma coisa?” — Eles não tinham nem dinheiro para a viagem, nem sapatos para garantir-se contra as pedras e os espinhos, nem alforges a que pudessem recorrer em caso de fome. Como os apóstolos lhe respondessem que tinham sempre encontrado o necessário, o Salvador acrescentou: — “Agora, aquele de vós que tiver um saco, pequeno ou grande, deve deixá-lo; e aquele que não tiver espada, venda a túnica para comprá-la”. Como toda a doutrina evangélica aconselha a mansidão, a tolerância e o desprezo pela vida, seria preciso ser cego para não perceber o sentido e a intenção de Cristo nessa passagem, O divino legislador queria preparar os seus convidados para o ministério do apostolado e, por isso, impunha-lhes que se destacassem de todas as coisas desta terra. Não bastava largar os sapatos e os alforges. Eles deviam ainda despojar-se dos hábitos, o que significa, sem dúvida, o perfeito desprendimento de coração com que deviam entrar na carreira do apostolado.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.