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Capítulo 17 de 18
Declamação De Erasmo De Rotterdam — parte 1 de 1 — parte 14 de 14
Elogio Da Loucura
Para melhor distinguirmos esses graus, estabeleçamos um princípio incontestável. Embora todos os sentimentos da alma tenham uma correspondência necessária com o corpo, há contudo duas espécies: uns são materiais, como o tato, a audição, a vista, o olfato e o paladar; outros têm menor relação com os órgãos, como sejam a memória, o intelecto e a vontade. Disso resulta que a alma tem maior ou menor forca à proporção que se aplica mais ou menos a esses diversos sentimentos. Raciocinemos, agora, sobre essa suposição. Assim como os que se abandonam totalmente à piedade se tornam o quanto podem superiores aos sentidos do corpo, mortificando-o a tal ponto que acabam perdendo toda sensibilidade, — como São Bernardo, por exemplo, que, segundo a lenda, bebia óleo por vinho sem perceber, — assim também os sensuais têm um grande vigor de ânimo pelos sentidos do corpo e uma fraqueza extrema pelos da alma.
Além disso, há algumas paixões que afetam o corpo mais de perto, como o amor, a fome, a sede, o sono, a cólera, a soberbia, a inveja, contra as quais movem os verdadeiros devotos, se é que os há, uma perpétua guerra, ao passo que os adeptos da natureza acham que não podem viver sem essas coisas. Existem ainda outras que têm um lugar intermédio e são consideradas naturais, como sejam: amar a pátria, os parentes, os filhos diletos, os vizinhos, os amigos. Quase todos os homens possuem algo dessas paixões, mas as pessoas pias fazem tudo para extirpá-las do coração ou ao menos espiritualizálas. Um filho, por exemplo, ama seu pai: julgais que ele honre a paternidade e ame de fato aquele de quem recebeu a vida? — Ora essa!
Que foi que me deu meu pai, — diz o devoto, — a não ser esse corpo miserável, que é o meu pior inimigo? Aliás, também isso eu o devo a Deus, único e verdadeiro autor do meu ser. Amo meu pai como um homem em quem resplende a imagem daquela suprema inteligência que é o bem supremo e fora da qual nada existe de amável nem de desejável. — É também com essa regra que as pessoas de mortificação misturam todos os deveres da vida, de modo que, quando não desprezam em geral todas as coisas visíveis, pelo menos as põem infinitivamente abaixo das invisíveis. Chegam mesmo a dizer que, nos sacramentos e nas outras funções do culto, não existiria a matéria sem o espírito.
Nos dias de jejum, acreditam que seja quase nada a abstinência das carnes e da ceia, se bem que a maioria faça consistir nesses dois pontos toda a obrigação do preceito. Os devotos vos dizem que é preciso jejuar com o espírito, dominar as próprias paixões, suprimir a cólera e o orgulho, a fim de que a alma, mais desembaraçada da massa do corpo, possa melhor gozar dos bens do céu. O mesmo acontece em relação à missa: — Se bem que não desprezemos — dizem eles — tudo o que é visível nesse sacrifício, todavia, os sinais não seriam menos inúteis que as cerimônias, quando não perniciosos, se não fosse o socorro do espirito. — Representando esse mistério a paixão do Salvador, faz-se mister que a representem também os fiéis, dominando, extinguindo e sepultando suas paixões, a fim de ressurgirem numa nova vida e se unirem a Cristo e aos seus membros. Os devotos costumam assistir à santa misa com a referida diposição, mas o mesmo não acontece com a maior parte dos homens, que, não reconhecendo nesse sacrifício senão a obrigação de comparecer, contentam-se em olhar, ouvir, prestar atenção ao canto e às cerimônias.
Mas, não é só no que diz respeito às coisas que acabo de vos referir a título de exemplo que os anjos mortais rompem toda relação com os corpos e com a matéria: para se elevarem aos bens eternos, e invisíveis e espirituais, fazem o mesmo com tudo o que acontece no curso da vida. Vós mesmos não podereis negar, quando eu vo-lo tiver brevemente demonstrado, que a infinita recompensa desejada que buscam com tanta ansiedade não é senão uma espécie de furor, Confirmo o meu sentimento com um oráculo do divino Platão: O furor dos amantes — diz o entusiasta filósofo — é de todos o mais feliz. Com efeito, um amante apaixonado não vive mais em si mesmo, mas na pessoa que se apoderou do seu coração, e, quanto mais sai de si mesmo para transfundir-se no objeto do seu amor, tanto mais sente redobrar-se o seu prazer. Não teremos igualmente razão de qualificar com o nome de furor o próprio estado de uma alma devota que arde de desejo por alcançar a perfeição evangélica e que não procura senão sair do seu corpo pelo desprezo dos sentidos? Trazei à vossa memória os modos de dizer freqüentemente usados: Está fora de si...
Voltou a si... Caiu em si... Além disso, segundo a idéia de Platão, pelo grau de amor é preciso medir a grandeza do furor e da felicidade. Qual será, pois, a vida dos beatos no paraíso, vida pela qual suspiram as almas devotas com tanto transporte? Como, naquele estado de gozo perfeito e sempre novo, a alma vitoriosa e triunfante absorverá o corpo, resulta que esse absoluto domínio, bem longe de causar o menor sofrimento, torna-se natural, e o espírito se achará como no seu reino e gozará o fruto dos esforços feitos para reduzir o corpo a uma perfeita escravidão.
Além disso, a alma verá de maneira incompreensível, como que absorta naquela suprema inteligência por que é infinitamente superada. E assim é que o homem ficará fora de si e não será feliz senão quando, não se achando mais em si mesmo, receber uma inexprimível felicidade daquele supremo Bem que tudo atrai a si. Mas, como essa felicidade só pode ser destruída pela união da alma com o corpo, e sendo a vida dos santos na terra uma contínua meditação e uma sombra das alegrias inefáveis do paraíso, resulta que principiam a gozar antecipadamente, neste mundo, a recompensa que lhes é prometida. É bem verdade que, em confronto com a felicidade eterna, não passa de uma gota e de uma sombra a que experimentam os devotos nesta terra. Não obstante, essa gota, essa sombra é incomparavelmente superior a todos os prazeres dos sentidos, mesmo que se pudessem gozar todos ao mesmo tempo, porque todas as coisas espirituais superam infinitamente as materiais e os bens invisíveis ultrapassam de muito os visíveis.
É, aliás, o que promete um profeta, quando diz: Os olhos não viram, os ouvidos não escutaram, o coração do homem não sentiu ainda o que Deus preparou para os que o amam. É esse gênero de loucura que, bem longe de se perder quando se passa da terra ao céu, alcança, ao contrário, seu último grau de perfeição. Para vos falar novamente daqueles aos quais Deus, por um favor todo especial, concede a graça de gozar antecipadamente as delícias da beatitude dir-vos-ei que são eles em número muito reduzido e que, além disso, estão sujeitos a certos sintomas que muito se assemelham aos da loucura: suas palavras são desconexas e fora do uso humano, ou, mais claramente, não sabem o que dizem; sua fisionomia transforma-se a cada momento, e ora estão alegres, ora melancólicos; choram, riem, suspiram, numa palavra, estão inteiramente fora de si. Acontece que voltam os seus sentimentos? Protestam que positivamente não sabem de onde vêm nem se existem somente na alma ou também no corpo, nem se estarão acordados ou dormindo.
E de tudo depois que viram, ouviram, disseram, ou não se recordam ou fazem uma idéia tão confusa como se tivessem sonhado. Só sabem de uma coisa: que se acham felicíssimos no seu delírio. Eis porque sofrem a convalescença do cérebro e tudo sacrificariam de bom grado para serem perpetuamente loucos nessas condições. No entanto, toda essa felicidade não passa de uma tenuíssima migalha da mesa celeste: imaginai, agora, o que não será o eterno banquete! Mas parece que, sem refletir no que sou, vou ultrapassando há bastante tempo todos os limites.
Por conseguinte, se tagarelei demais e com demasiada ousadia, lembrai-vos de que sou mulher e sou a Loucura. Ao mesmo tempo, porém, não vos esqueçais deste antigo provérbio dos gregos: Muitas vezes, também o homem louco fala judiciosamente. E não ser que pretendais que, nesse provérbio, não estejam incluídas as mulheres, pois eu disse homem e não mulher. Esperais um epílogo do que vos disse até agora? Estou lendo isso em vossas fisionomias.
Mas, sois verdadeiramente tolos se imaginais que eu tenha podido reter de memória toda essa mistura de palavras que vos impingi. Em lugar de um epílogo quero oferecer-vos duas sentenças. A primeira, antiquíssima, é esta: Eu jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo. E a segunda, nova, é a seguinte: Odeio o ouvinte de memória fiel demais. E, por isso, sedes sãos, aplaudi, vivei, bebei, oh celebérrimos iniciados nos mistérios da Loucura.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.