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Capítulo 8 de 9

Parte 8 de 9

Cérebro e Pensamento · Ernesto Bozzano

Ele se sentia livre, ligeiro, etéreo, mas ao mesmo tempo oprimido por uma angústia inexplicável; é que estava ligado ao corpo material que naquele momento sofria horrivelmente. Pensou em levantar a lâmpada e abrir a janela, mas se deu conta de que não tinha ação sobre a matéria. Pensou então em sua mãe que dormia no quarto ao lado e, imediatamente, através da parede, viu-a dormindo em sua cama, rodeada de uma atmosfera radiante que não tinha seu próprio corpo. Chamou-a, pedindo-lhe socorro e viu como despertava sobressaltada, deixava rapidamente a cama e corria a abrir a janela, como se executasse automaticamente a última exortação expressa por ele. Viu-a em seguida sair do seu quarto, precipitar-se para o do seu filho, abrir a janela e buscar o corpo inanimado.

Ao contato com as mãos maternais, o espírito exteriorizado do filho se sentiu atraído para seu corpo, que revivesceu, despertando pouco depois, com gravíssimos sintomas de asfixia. Este fenômeno de "bilocação" que acorreu com ele mesmo, no qual seu espírito havia abandonada o corpo que pôde contemplar à distância, como se já não lhe pertencesse, enquanto permanecia vivendo e mais consciente que antes, serviu par convencer o paciente da existência e da sobrevivência da alma e, conseqüentemente, serviu para orientar corretamente o seu pensamento na busca de uma hipótese capaz de explicar as sensações do "já visto" e do "já sentido", que se renovavam nele com tanta freqüência. Alude a tudo isto na seguinte passagem: Jamais experimentei tão fortemente a sensação de viver como no momento em que me senti separado do corpo. Perguntei a minha mãe pouco depois do incidente e ela me confirmou que primeiramente abriu a janela de seu quarto como se experimentasse ela mesma uma sensação de asfixia, antes de correr em meu auxílio. Pois bem, o fato de havê-la visto fazer isto, apesar da parede que nos separava, enquanto eu estava deitado, inanimado, sobre a cama, excluía a hipótese de uma alucinação ou de um pesadelo durante um sonho que transcorria em circunstâncias fisicamente anormais.

Não me vinha nenhuma outra dedução lógica senão supor que meu "Eu" pensante havia trabalhado fora do meu corpo... Tivera, pois, a prova evidente de que minha alma se separara do corpo durante a existência corporal, tivera, em suma, a prova da existência da alma e até da imortalidade. Porque se e verdade que se desprendeu, sob a influência de circunstâncias especiais, da envoltura material do corpo, atuando e pensando fora dele, é natural que volte a encontrar depois da morte a plenitude de sua liberdade e o desprendimento de todo laço material. Uma vez admitida esta explicação (que a lógica dos fatos confirma), eu vi por fim dissipar-se a meus olhos a névoa que envolvia as causas e as origens dessas lembranças distantes e esfumaçadas que caracterizaram minha infância e minha juventude. Deviam remontar a outra existência, a outra personalidade, a outro corpo que minha alma tivera sabe Deus em que época e em que circunstâncias.

Eu devia guardar uma vaga lembrança desses acontecimentos, em virtude de uma disposição psíquica especial. Esta disposição devia ser bastante rara, tão rara como os fenômenos que eu havia comprovado em mim mesmo... Como se pode ver, o incidente da "bilocação" que experimentara o Senhor Costa, ao proporcionar-lhe a convicção da existência e da sobrevivência da alma, fez lhe pensar pela primeira vez que suas impressões subjetivas, tão freqüente e claras, procediam de lembranças de uma existência vivida anteriormente. Tratava-se, sem duvida, de uma suposição puramente intuitiva que, pra que tivesse um valor demonstrativo, exigiria que o autor conseguisse descobrir no passado um personagem ao qual se adaptassem todos os acontecimentos que correspondiam às sensações diversas e complexas do "já visto" e do "já sentido", que emergiam tenazmente de seu subconsciente. Tamanho esforço parecia praticamente irrealizável.

E, sem dúvida, certas circunstâncias a tornaram possível. Um dia o Senhor Costa, com dois amigos, os senhores Alberico Barbiano de Belgioioso d'Este e Eneas Silvio Piccolomini partiram para uma excursão no Vale de Aosta. Assinalemos que a presença do primeiro dos referidos senhores, descendente de uma antiga família patrícia, poderosa na Idade Média, constitui outra curiosa coincidência no conjunto dos fatos, pois o nome de um dos seus antepassados desempenha importante papel nos acontecimentos históricos que correspondem às impressões "paramnésicas" experimentadas pelo autor. A visita a alguns dos famosos castelos antigos do vale de Aosta constituem uma nova fonte de impressões do "já visto" e do "já sentido" para nosso sensitivo. Por isso, pergunta-se: Por que razão misteriosa experimentei um sentimento de tristeza infinita e de repulsão à vista do castelo de Ussel, como se uma vaga lembrança de dolorosos acontecimentos estivesse estreitamente vinculada a seus muros?...

Entre os resplendores do crepúsculo vespertino me parecia ver manchas de sangue nas muralhas de Ussel. As ruínas do castelo, a tristeza e o silêncio do lugar me oprimiam a alma como um arrependimento inapagável... O castelo de Fenis, muito melhor conservado que o de Ussel, não desperta no Senhor Costa sensações subjetivas; ele o observa e estudava artisticamente seus interessantes detalhes. O mesmo já não acontece com o castelo de Verrés, que se apresenta cheio de reminiscências do passado, vibrantes de emoção, de paixão, de dor. Decide voltar a vê-lo à noite, sozinho, ao clarão da lua.

Nessas circunstâncias se desenvolve o episódio culminante de suas recordações de uma vida anterior vivida por ele. O castelo foi edificado em 1380, por Iblet de Challant, o personagem mais ilustre da família de Challant, conselheiro do "Conde Verde" (Amadeu VI) e do "Conde Vermelho" (Amadeu VII), da Casa de Sabóia. Enquanto nosso sensitivo se achava no interior do castelo, desencadeou-se uma furiosa tormenta. O Senhor Costa observa a este respeito: Uma estranha lucidez de espírito parecia opor-se àquelas profundas trevas, fazendo-me entrever, em meio aos relâmpagos, as salas restauradas com seu antigo esplendor; as abóbadas rotas se compunham, acendiam-se os fogos nos imensos queimadores das chaminés, a chuva se confundia com o alegre sussurro de várias vozes reunidas, passando na praça em torno do fogo. Não lamentei que a chuva violenta me houvesse impedido de regressar a Verrés, porque não desejava subtrair-me àquele caudal de imagens e visões.

O cansaço terminou por vencê-lo e acabou dormindo no grande salão em ruínas do segundo piso. Eis aqui como o autor descreve a cena de seu despertar: Quis levantar-me. Tinha os membros entumecidos pela prolongada imobilidade e o corpo trêmulo de calafrios por causa do frio noturno, quando a sombra mais escura da parede não iluminada pela lua pareceu iluminar-se com um resplendor fosforescente. Fixei meus olhos, bem abertos, na misteriosa luz que parecia restringir-se e condensar-se, aumentando a intensidade, de maneira que do pronto adquiriu o aspecto de uma forma material cada vez mais visível na sombra negra. Na luminosidade difusa se divisava lentamente um corpo humano, com contornos progressivamente mais pronunciados, destacando-se em meio de uma auréola mais tênue que o rodeava, até que todos os seus átomos se condensavam em uma imagem de mulher, ainda imprecisa em sua forma espectral, mas perfeitamente visível...

Eu estava como que preso ao chão, com os membros paralisados pela emoção... Mas foi só um instante. A razão se sobrepôs em seguida ao vil temor da matéria e me levantei. Pareceu-me então que aquela forma espectral se apequenava ao dominá-la eu com minha manta gigantesca. Fui a ela para saber quem era, para prendê-la como matéria, para obrigá-la a revelar o mistério de sua aparição.

Mas, ao avançar fiquei deslumbrado pela luz da lua que me veio em pleno rosto. Ao penetrar de novo na sombra de onde o fantasma saíra, nada vi. Sonhara? Seria uma alucinação original do sonho e que a vivacidade da impressão retera durante este estado de semi-sonho, no qual sumira o sino de São Gil? Mas, não!... no umbral da porta entrevejo a forma do fantasma que me convida a segui-lo.

Eu o faço tropeçando nas ruínas, nos degraus da escada, enquanto a figura parece planar, roçando apenas o chão. De pronto, volta-se para mim do patamar da escada e vejo-a lá em cima, sobre o arco de círculo que une as duas paredes, muito bela em sua imagem olímpica como se fosse a estátua do ideal... Já não será mais um fantasma para mim: é a lembrança de um amor profundo o que persigo neste momento. Mas, quem é ela? Eu o ignorava e pouco me importava saber.

Sentia um divino desejo imaterial, o sublime sentimento espiritual que se desprende ao contacto de dois seres que se amam. Eu a via agora maravilhosa, com seus grandes olhos que devo ter contemplado cem vezes em um êxtase divino, com sua boca sorrindo, que eu devo ter beijado tantas vezes, unindo nossas almas... Quando me acerquei dela, na contemplação extática de sua etérea figura, tive a impressão de ouvir que me dirigia a palavra, devendo tratar-se sem dúvida da transmissão de pensamento, de sua alma para a minha. E assim falou-me: "Iblet! Tenho desejado ver-te antes do grande dia em que a morte divina nos reunirá outra vez, para que retires de minhas lembranças a fé que se distância de ti, de modo que te seja cada vez mais duro o laço da vida...

Li, próximo da torre de Albenga, algumas lembranças de teu passado terrestre... Guarda as lembranças de meu rosto e de minha alma que foi boa e que tem falado à tua, Iblet, a alma gêmea que espero na hora solene!!! Vi-a então esfumar-se, dissolver-se, perder-se na luz cada vez mais diáfana... Podia repetir, palavra por palavra, o que ela me disse, mas não conseguia lembrar do timbre nem do som de sua voz, sequer conceber de que modo aquela voz havia chegado a mim... Aquele nome de Iblet pelo qual me chamara era, pois, o nome com que me designavam em uma existência anterior, da qual eu guardava tão vagamente a lembrança?

O destino havia-me conduzido àquele lugar, que havia sido minha morada? As impressões que eu havia experimentado à vista do castelo de Verrés não pareciam confirmar, por acaso, essa suposição? Tais são as passagens essenciais do relato da visão notabilíssima que apareceu para nosso autor, no castelo de Verrés. A persuasão de haver visto um fantasma autêntico ficou firmemente gravada nele durante vários dias. Logo sua razão começou a rebelar-se contra esta idéia ao mesmo tempo em que se rebelava contra si mesmo por admitir a possibilidade de uma alucinação.

Finalmente, chegou às seguintes conclusões, que parecem incontestáveis: Que eu haja visto realmente um fantasma ou que haja sonhado vê-lo, não é menos certo que eu sei agora, sem que ninguém me haja falado disso e menos ainda que o haja lido, que há na torre de Albenga documentos nos quais poderia inteirar-me de muitas coisas sobre a vida de uma tal “Iblet de Challant” Uma vez esclarecido este ponto, restava apenas ao Sr Costa trasladar-se a Albenga, próximo de Savona, para assegurar-se do que havia de realidade na manifestação de Verrés. Nosso autor foi até lá, fez-se apresentar ao proprietário da torre de Albenga, o Marques Del Carreto di Balestrino e solicitou-lhe autorização para efetuar algumas investigações nos arquivos da família, com o pretexto de haver sido informado de que naqueles arquivos particulares se conservavam alguns documentos relativas a um certo Iblet Challant, pelo qual se interessava do ponto de vista histórico. O Marquês Del Carreto lhe concedeu amavelmente a autorização solicitada e não demorou em achar um feixe de documentos que se referiam efetivamente à casa de Challant. Pode verificar que em 1694 estes documentos foram retirados furtivamente do castelo de Issogne e depositados nos arquivos Del Carretto, em Albenga. Entre aqueles papéis, achou uma biografia de Iblet de Fenis.

O Senhor Costa observa a propósito disso: Tocava assim outra prova material evidente da realidade dos acontecimentos daquela inolvidável noite no castelo de Verrés. Aqueles acontecimentos não eram, pois, produtos de minha fantasia alucinada, posto que me haviam levado a pôr a mão em documentos que ninguém no mundo, afora o Marques Del Carretto (cuja existência eu ignorava) podia conhecer nem dizer-me onde se achavam, ninguém que não estivesse provido de um poder transcendental, como a aparição de castelo de Verrés... Aqui estão as principais passagens da vida de Iblet de Challant, em que se observam concordâncias impressionantes com as sensações do "já visto" e "já sentido" que havia experimentado o autor, o qual escreve: Iblet de Challant foi o Senhor de Montjovet, São Vicente, Challant, Graines, Verrés e Issogne. Nasceu em 1330 e esteve durante sua juventude na Corte do Conde de Sabóia, Amadeu VI, o "Conde Verde", que teve por ele uma estima e uma amizade fraternais. Começou então um episódio novelesco que pesou consideravelmente sobre a natureza e os acontecimentos de sua vida.

Segundo parece, uma ardente paixão recíproca uniu os corações de Iblet e Branca de Sabóia (o fantasma de Verrés?), irmã do "Conde Verde", mas, que razões de Estado levaram Amadeu VI a romper aquele amor, concedendo a mão de sua irmã ao feroz Duque de Milão, Galeas Visconti? Isso explica a vacilação de Iblet em casar com Jacqueline de Châtillon, que seu pai, Juan de Challant, lhe havia destinado, e sua decisão de acompanhar o Conde Verde na expedição ao Oriente, em 1366. Esta expedição partiu de Veneza e se compunha de 16.000 homens (Quem sabe se referiam a este acontecimento minhas impressões do “já visto” quando me encontrei pela primeira vez em Veneza? Procediam do mesmo acontecimento as reminiscências simultâneas de armas e guerreiros, de caravelas e galeras que formigavam confusamente em minha memória e que se reorganizaram em sonho) Ao chegar às costas de Morea, a expedição se reorganizou e tomou de assalto Gallipoli, que domina a entrada do mar de Mármara, em cuja ocasião se distinguiu Iblet por seu valor. Por fim, trasladou-se para Constantinopla (o quadro de Gonzaga?)...

Tudo isto sc refere, sobretudo, às lembranças Oriente. Passando às reminiscências da Itália, nosso autor achou estas outras passagens que têm relação com elas: A crueldade de Juan Galeas Visconti e sua avidez de conquistas determinaram aos príncipes italianos a juntaremse sob as ordens do Conde Verde (1371). Iblet toma parte na expedição comandada pelas forças de Sabóia e organiza um golpe de mão para penetrar, com seu sobrinho Bonifácio e um punhado de homens de confiança no castelo de Milão. O manuscrito não explica o objetivo principal de tão arriscada empresa, mas é possível que se tratasse de conseguir que Iblet falasse com Branca de Sabóia e a induzisse a fugir. Iblet é descoberto e teria pagado sua audácia com a vida não fosse a nobre intervenção de Alberico de Barbiano, que se achava às ordens de Galeas Visconti e o salvou.

Que misteriosa relação entre este acontecimento e o encontro estranhamente fortuito com aquele outro Alberico de Barbiano, descendente seu, que visitou comigo os castelos do vale de Aosta! Há outros pontos de contato entre Iblet e Alberico, ambos falecidos no curso do mesmo ano de 1409.) Iblet volta à frente das forças de Sabóia na expedição empreendida pelo Conde Verde (1377) para liberar Biella do senhorio de Juan Fieschi, bispo de Vorceil, ajudado e incitado este por Galeas Visconti. Suas tropas obtêm uma brilhante vitória e, inclusive, tomam prisioneiro o Bispo, confinado no castelo de Montjovet. Por causa disso, Iblet foi excomungado pelo papa Gregório XI. A excomunhão pesa dolorosamente sobre a alma de Iblet e em suas relações com seus vassalos...

Depois da morte de Gregório XI, ao ser nomeado papa Urbano VI, Iblet consegue que seja revogada a excomunhão, mas sob a condição de realizar um ato de humildade respeitosa para o bispo na Basílica de Santo André, em Verceil... (Este acontecimento se relaciona talvez com a estranha sensação que me fez penetrar na dita Basílica, para unir de imediato a ela a evocação de um ato, doloroso, de humilhação oprimente, realizado por mim?) Estas são as notabilíssimas concordâncias que se encontram entre as impressões, as reminiscências as visões do engenheiro José Costa e os acontecimentos que caracterizaram a existência pessoal de um cavaleiro da Idade Média. É indispensável ir mais longe na vida aventureira de Iblet de Challant, que, desiludido pela ingratidão que para com ele tiveram os poderosos, terminou por se retirar, indignado, ao seu castelo de Verrés, que embelezou com altíssimo sentimento artístico. Morreu em 1409, vivamente lamentado por sua família seu país. Outra coincidência de caráter distinto, mas notavelmente sugestiva, consiste em que Iblet de Challant era de estatura gigantesca e compleição atlética, exatamente como o Sr. José Costa!

E ainda mais: existe um retrato de Iblet de Challant que apresenta com 30 anos. O Senhor Costa publicou uma fototipia do mesmo, colocando frente a ela seu próprio retrato de quando tinha mais ou menos a mesma idade. Pois bem, ambas as fotografias se parecem a um ponto tal que se colocasse na cabeça de Iblet de Challant o capacete de oficial da cavalaria que leva o Senhor Costa em sua foto, pareceria que os dois retratos representam a mesma pessoa. Depois do que acabo de dizer, e levando em consideração o que me declarou pessoalmente o Senhor Costa, de que não tem nenhuma dúvida sobre haver vivido outra vida, na qual foi um cavaleiro medieval chamado Iblet de Challant, é preciso convir que tem ele boas razões para o fazer. Do ponto de vista cientifico, o detalhe que é preciso levarem em consideração especial é o do fantasma do castelo de Verrés, que revela ao sensitivo-vidente que nos arquivos privados de um patrício da Ligúria acharia a biografia de um esquecido personagem da Idade Média, que nasceu e viveu em outra província da Itália, biografia cuja existência ninguém no mundo conhecia, salvo, talvez, o proprietário dos arquivos onde estava guardada.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.