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Capítulo 6 de 9

Parte 6 de 9

Cérebro e Pensamento · Ernesto Bozzano

Dada à gênese do fenômeno, assim como sua realidade objetiva, resultaria que a continuidade da vida depois da morte do corpo ficaria com isso definitivamente estabelecida. Devo declarar, não obstante, que, pelo que diz respeito à minha experiência pessoal, não pude comprovar nunca um caso desta natureza que pudesse considerar satisfatório. (American Journal of the S.P.A., 1924, pág. 265.) Parece evidente que se pudesse comprovar o fenômeno de uma "voz direta" falando com o tom e as inflexões de voz que eram peculiares da morta que se diz achar presente, este fenômeno equivaleria, então, a uma prova de identificação pessoal tão patente e incontestável que não seria precisa pedir nada melhor em apoio da hipótese espírita.

Pois bem, se é assim, que se deveria dizer nas circunstâncias que acabamos de citar, em que a personalidade comunicante não só se expressou constantemente com as características inimitáveis de entonação e inflexões vocais que a distinguiam na vida, senão também que conversou com a mesma maneira de falar seleta e elegante, que enquanto vivia a diferenciava entre mil e falou sobre assuntos familiares íntimos que somente conheciam o Senhor Bradley e ela? Se a prova de identificação pessoal por meio da "voz direta" é suficiente para dar validade à hipótese espírita, esta confirmação foi alcançada e ultrapassada no caso de que nós ocupamos, já que a prova em questão se acha nele completa por todos os detalhes acessórios, de maneira que pode satisfazer todas as exigências da investigação científica. E, no momento, tomemos nota de tudo isto, enquanto prosseguiríamos ocupando-se de depor fatos, porque nas experiências de Bradley se acham provas mais decisivas que a transcritas atrás.

Depois que Annie se retirou, manifestaram-se sucessivamente outras cinco entidades espirituais e cada uma delas se expressou com um tom de voz e um acento distintos das demais. Vou assinalar, entre elas, o espírito de um ministro protestante cujo falecimento acontecera há alguns dias, sem que o supusesse nenhum dos presentes e que proporcionou excelentes provas de sua identidade pessoal. A propósito dessas manifestações o Senhor Bradley anota: As vozes ressoavam por todas as partes, dentro da casa. Às vezes vinham do teto ou dos mais distantes pontos do quarto. Outras vezes ressoavam a vinte pés de distância do médium, pelo que seria absurdo falar de ventríloqua...

De outra parte, uma circunstância basta para descartar definitivamente esta hipótese: amiúde Valiantine falava ao mesmo tempo em que as “vozes” espírita. A segunda sessão foi ainda mais extraordinária que a primeira. Um dos experimentadores, Joseph Dasher, havia regressado a N.I. e para substituí-lo o Senhor Wyckoff propôs que tomassem parte na sessão sua cozinha e o ajudante da cozinha, com o fim de ver se produzia algo novo. A cozinheira era espanhola e fazia apenas alguns meses que estava nos Estados Unidos; ignorava o inglês. Assim que a sessão começou, ouviu-se a voz de um dos "espíritos guias" do médium, que dirigiu umas frases de saudação a Bradley.

Depois, falando a todos em geral, anunciou a presença de vários espíritos que desejavam comunicar-se com os assistentes. Logo, manifestou-se Annie e a conversação com seu irmão, que se prolongou por mais de vinte minutos, foi mais extraordinária, mais maravilhosa e impressionante que a primeira vez; mas, renuncio a resumi-la, pois hei delimitarme a expor incidentes que constituam provas diversas de identificação pessoal. Passo, pois, a transcrever a manifestação que se refere à cozinheira Anita Ripoll. Eis aqui como a descreve o Senhor Bradley: O que se seguiu me deixou estupefato. Quando a buzina tocou em Anita Ripoll, esta deu um grito.

Então, uma voz saiu da buzina, repetindo com acento emocionado: “Anita, Anita!” – Ela respondeu: “Sim, sim!” – E a voz, falando em espanhol, aduziu: “Sou eu, sou eu quem está aqui” – A cozinheira cheia de alegria, exclamou então! “É ele! É Jose e José!” – Era o espírito de seu marido. Entabulou-se então uma conversa animada, volúvel, agitada, em língua espanhola, entre a mulher e seu marido falecido. Eu não podia segui-la porque não sei o espanhol, mas todos podíamos compreender os sentimentos que se expressavam.

O Senhor Wyckoff seguia o diálogo sem perder palavra e em certo momento se misturou a conversa falando espanhol; Em seguida, Anita e José trocaram de linguagem e começaram a falar em seu dialeto, uma derivação do basco segundo soubemos depois.. De vez em quando José se dirigia ao Senhor Wyckoff em espanhol e continuava logo falando com Anita em seu jargão, incompreensível para todo mundo. A conversa continuou assim durante dez ou dois minutos, nos quais estas almas sensíveis esgotaram provavelmente quanto unham de se dizer... Tal é a parte substancial do episódio, cujo alto valor teórico em favor da interpretação espírita dos fatos não escapará a ninguém. Nas sessões que o Senhor Bradley realizou posteriormente em Londres, com o mesmo médium, produziram-se outras conversações mediúnicas análogas as que acabamos de expor, em línguas e dialetos que o médium ignorava e, especialmente, um diálogo em língua italiana (com o senador Marconi, inventor da telegrafia sem fios), outra em alemão, dois em russo, outro em dialeto gaulês.

Limitar-me-ei a citar este último incidente que é teoricamente tão fascinante e probatório como o que me referi mais atrás. A décima quarta das sessões a que aludimos, assistia, entre outros, um novelista e artista dramático conhecido, o Senhor Carador Evans, nascido no País de Gales. Em um dado momento, uma "voz" que o Senhor Carador mesmo descreve como surgindo do solo, entre seus pés, colocou-se frente a ele e lhe dirigiu a palavra. Eis aqui a primeira parte do diálogo que então começou: Carador Evans - Tens algo a me dizer? voz - Sim. Carador Evans - Quem és?

A voz - Teu pai. Carador Evans - Tu, meu pai? Não é possível? Como soubeste que eu estava aqui? Quem te disse?

A voz - Soube-o por Eduardo Wright. Carador Evans - Bem, escuta, se tu és meu pai, siaradunch a fy ddweyd (fala-me em nosso dialeto). A voz - Beth i chwi am i fy ddeyd? (Diga-me o que é que queres que te fale?). E este extraordinário diálogo, mantido em um dialeto muito difícil e incompreensível até para os ingleses, prosseguia no mesmo tom de interrogatório judicial. O cético Carador perguntou ao espírito que se comunicava quais eram seus nomes e apelidos; depois, que lhe indicasse em que país havia falecido; logo, que descrevesse a casa que havia habitado na vida e a paisagem que a rodeava etc.

E o espírito respondia rápida, minuciosa e veridicamente de tal modo que o ceticismo do perguntador acabou por desaparecer. Que provas melhores que esta podem desejar em favor da interpretação espírita dos fatos? Não será, pois, ocioso que nos detenhamos a analisar mais profundamente seu valor teórico? O malogrado Dr. Geley, que estava convencido dos fundamentos da idéia espírita, julgou que devia fazer aos contraditores algumas concessões teóricas importantes que, na realidade, não tinha nenhuma razão de fazer.

Admitiu que, como hipótese, se postula a existência de uma "criptestesia omnisciente", que não ignorasse nada de quanto já aconteceu no passado, nem de quanto acontece no presente, então a hipótese espírita se faz supérflua, posto que já não seria necessária para explicar os casos de identificação pessoal de defuntos. Alude que, em todo casa, em semelhantes circunstâncias, já não seria passível distinguir os casos verossímeis espíritas daqueles que não o são. Pois bem, estas concepções devem ser anuladas, posto que os fatos as contradizem. Existem categorias de manifestações mediúnicas que de nenhum modo poderiam se explicar pela "criptestesia omnisciente", quer dizer, que não poderiam se explicar nem ainda postulando a existência nos médiuns de uma percepção supranormal completa das mais pequenas e insignificantes vicissitudes presentes e passadas de todos aos indivíduos que hajam vivido e vivam neste mundo; entre as categorias de fatos que resistem a esta prova está a que ocupa maior a mesma atenção. De fato como aplicar com a hipótese aludida os casos de personalidades de mortos que falam por "voz direta" na língua e no dialeto ignorados pelo médium e pelos assistentes?

A “criptestesia”, ou seja a “clarividência” pode somente explicar o fato de um médium que compreendeste todas as línguas, todos os dialetos em que lhes falassem, porque neste caso se pode observar, e não sem razão, que o médium clarividente não compreende palavras, senão que lê no cérebro do consultante o pensamento que este expressa com palavras. O pensamento, em sua modalidade psico-física de "estado vibratório" da substância cerebral (ou do "perispírito") deve ser idêntico, naturalmente, em todas as personalidades pensantes, fora de toda relação com a língua que a individualidade pensante utiliza para traduzi-lo ao exterior. Resulta disso que esse fenômeno é suscetível de explicar-se inteiramente pela lucidez do médium, sem que seja preciso recorrer a outra hipótese. Mas a coisa é totalmente distinta quando se trata de um médium e, menor ainda, de uma "voz direta" independente do médium - que conversa longamente com o experimentador na língua ou no dialeto deste, que o médium ignora.

Efetivamente, se para compreender uma língua não é necessário que o médium a conheça, posto que lhe basta perceber o pensamento do agente, o mesmo não acontece quando se trata de falar uma língua; aí é absolutamente necessário ao médium conhecer a língua, posto que a "clarividência" é impotente para torná-las conhecida; e esta impotência deriva do fato de que a estrutura orgânica de uma língua é uma abstração pura, que não se pode ver nem perceber no cérebro dos demais.

Não se poderia sustentar o contrario sem admitir que o médium, graças a sua própria lucidez, é capaz de aprender de repente o valor de todos os vocábulos de uma língua, assim como todas as regras gramaticais para agrupá-los, dispô-los e coordená-los em frases racionais; variá-los segundo o gênero, número, declinação e conjugação e, enfim, que é capaz ele aprender instantaneamente a fonética especial de cada palavra, o acento característico de cada língua, de cada dialeto, as inumeráveis alocuções e idiomatismos que constituem o "fermento vivente" de cada idioma. Isto é possível? Eu não posso imaginar que se achem contraditores que, com o fim de evitar outra explicação sensível e natural que se deduz espontaneamente dos fatos, se atrevam a sustentar uma tese extravagante e absurda. Em conclusão: os casos em que as personalidades mediúnicas falam em línguas que o médium ignora e conversam por "voz direta" não podem ser explicados de outra maneira que não seja recorrendo a hipótese espírita, ou seja, reconhecendo que as personalidades mediúnicas que se manifestam são efetivamente do espíritos dos mortos que afirmam estarem presentes. Por conseguinte, devemos convir que o Dr.

Geley foi excessivas concessões aos contraditores, concessões que devem se ser consideradas nulas e inexistentes, posto que carecem de fundamento e são contraditadas pelos fatos. De outro ponto de vista, quero fazer outra pergunta a certos contraditores que nunca perdem ocasião de proclamar que os defensores da hipótese espírita fundam suas inferências em circunstâncias de fato puramente supostas, mas que não são, na realidade, senão atos de fé. Eu quero perguntar-lhes se as conseqüências deduzidas de episódios como os que expusemos, nos quais as personalidades dos mortos se expressam em voz alta, com o tom, as inflexões, de acento que as caracterizavam em vida e se expressam em seu dialeto, que o médium ignora, conversando sobre acontecimentos íntimos de sua existência terrestre, quero perguntar-lhes se as conseqüências deduzidas de tais incidentes, repito, devem ser consideradas gratuitas, arbitrárias, semelhantes a um ato de fé, ou trata-se, pelo contrário, de conseqüências sensíveis, normais, evidentes rigorosamente lógicas, necessárias, cientificamente inquebrantáveis. Parece-me, em resumo, que neste debate deveriam inverter os valores representativos das partes adversas, colocando os acusadores no banco dos réus e viceversa. Porque na verdade nossos contraditores é que se entregam aos atos de fé, alimentando a ilusão de que, para demonstrar quão bem fundamentada está sua tese, basta cunhar sonoros neologismos.

Alucinados pelos preconceitos de escola, acusam aos demais de usar argumentações sofísticas, quando são eles mesmos os que as usam. Para terminar com a tese que mantemos, recordaremos que não se pode explicar tão pouco com as hipóteses naturalistas (telepatia, clarividência, criptestesia), os casos de "aparições de defuntos no leito de morte", os de "telecinesia no momento e depois da morte", nem os de música transcendental no leito de morte e depois da morte". As razões pelas quais não se explicam com as mencionadas hipóteses me parecem de tal modo claras que é inútil expôlas aqui. De todo modo, remetemos os que desejam se informar sobre este assunto às monografias em que discuto as manifestações a que nos referimos. Voltando ao nosso tema, dou-me conta perfeitamente de que para não ultrapassar os limites de um artigo, devo renunciar a outras citações das sessões do Senhor Bradley com o médium Valiantine, sem poder estender-me tão pouco sobre as outras sessões, notáveis por certo, que realizou com as médiuns Senhora Osborne Leonard, Senhora Esther-Smith e Sra.

A.V.E., sessões nas quais se encontram incidentes tão extraordinários como os que citamos. No conjunto, as experiências do Senhor Bradley contêm uma nova série de casos de identificação espírita, muito superiores aos melhores obtidos com a Senhora Piper, sem excluir os famosos de "Georges Pelham" e de "Bennie Junot". Os caso mais extraordinários e completos da série são os de "Annie" e de WA. (este último era parente próximo do Senhor Bradley) nos quais as personalidades espirituais se manifestaram por três médiuns diferentes e a cada troca de médium repetiram ao Senhor Bradley o que haviam dito e feito anteriormente com auxílio de outros médiuns, com o fim de demonstrar sua identidade imutável, apesar da troca dos instrumentos de que se serviam para se comunicar. Destaque-se que quando se produziram os incidentes que relatamos e que são tão importantes teoricamente, o Senhor Bradley não era conhecido dos médiuns com os quais experimentava, aos quais se havia apresentado com nome falsa. Surpreendeu-se, pois, vivamente quando comprovou que as mesmas personalidades espirituais se lhe manifestavam, aumentando ainda mais a surpreso quando as citadas personalidades lhe mostraram que se recordavam do que haviam dito e feito na América e em Londres por intermédio de outros médiuns.

Decido-me a citar ainda dois rápidos incidentes, que se prestam a importantes considerações. A personalidade mediúnica de W.A. no curso de uma de suas primeiras manifestações por intermédio da mediam Senhora Osborne Leonard, recordou minuciosamente os acontecimentos últimos de sua própria existência terrena, com a fim de provar ao Senhor Bradley sua identidade pessoal. Depois de haver descrito os últimos instantes de sua vida, ela ajuntou: "Depois de meu falecimento, tenha tentado em várias ocasiões abrir as portas dos quartos... Ter-me-ás ouvido caminhar pela casa? Entre outras coisas, tenha tentado despertar a Mabel (a esposa de Bradley) abrindo as portas do quarto onde dormia, mas em seguida me arrependi, ao pensar que poderia assustar-se tornando-me por um ladrão".

Eis aqui os comentários de Bradley: Pouco depois do falecimento de W.A., minha senhora dormia no quarto contíguo ao que estava o, defunto. De repente, à noite, a porta de seu quarto se abriu de par em par. Minha esposa levantou-se da cama e a fechou com cuidado, mas pouco depois a porta se abriu novamente. Fechou-a de novo minha senhora, sacudindo-a fortemente para assegurarse de que estava bem fechada. Ao voltar ao leito, deixou a luz acesa, pois a repetição do fato a havia posto um pouco nervosa.

Mas, a porta se abriu novamente, pela terceira vez. Minha esposa ficou fortemente impressionada e teve de abrir mão de todo o seu orgulho para deixar a cama outra vez e ir fechar a porta (pág. 53). Este incidente é interessante sob distintos pontos de vista. Em primeiro lugar, é importante por si mesmo, dado seus rasgos característicos de telecinesia em relação com os casos de morte, tendo se produzidos depois de uma morte, rasgos características que o tornam inexplicável sob qualquer hipótese naturalista das imaginadas até aqui para explicar os fenômenos mediúnicos, inclusive o da "criptestesia omnisciente". Em honra à exatidão, destaca que um contraditor de talento, o Sr.

René Sudre, tem tentado resolver esta dificuldade explicando que nestes casos podia tratar-se de um impulso telepático que teria sido produzido no momento da morte, percebida subconscientemente por alguns dos assistentes e em seguida surgido da consciência de alguns destes, transformando-se e objetivando-se em fenômenos de "telecinesia". Como se pode ver, esta pretensa explicação, que representa o esforço supremo dos opositores em defesa de sua tese, não podia ser mais forçada, gratuita e complicada. E a contradizem também os fatos, como o já o provei ao Senhor Sudre num artigo publicada na "Revue Spirite" e no qual cita um caso em que o fenômeno telecinésico se produziu e se realizou de acordo com uma promessa feita pela pessoa quando vivia, iniciando-se três dias depois da morte e repetindo-se durante cinco dias consecutivos, até o momento em que o agente conseguiu cumprir integralmente o fenômeno prometido em vida, como prova de sua presença espiritual. E, preciso destacar que estas circunstâncias, em comparação a fantástica inverossimilhança, absolutamente gratuita da hipótese do Senhor Sudre, bastam para explicar sua tese do número das cientificamente legítimas. Não e, pois, coisa para se discutir agora.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.