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Capítulo 4 de 9

Parte 4 de 9

Cérebro e Pensamento · Ernesto Bozzano

Esta definição constituiu um resumo de sublime sabedoria, que ilumina as penumbras do espírito humano. Podem comparar-se-lhes algumas pequenas definições do mesmo gênero obtidas por via mediúnica como, por exemplo: "viver é compreender" (Cornellier) e "o objeto da vida é reduzir o mistério da vida" (American Journal of the S.P.R., 1916, página 706). Ambas são filosoficamente profundas; encerram uma grande parte da Verdade. Não obstante, não é essa a fórmula do problema que eu desejo examinar aqui, porque nas definições que acabo de transcrever contempla-se a realização do objeto da vida, enquanto que eu desejo falar de um princípio mais profundo, mais fundamental, mais positivo em relação à gênese da vida mesma. Portanto, deixarei de lado numerosos pensadores cujas definições giram em torno da afirmação de que "a vida é uma escola de aperfeiçoamento evolutivo do espírito", o que é tão verdadeiro que sua exatidão surge evidente a todo o mundo.

Farei uma exceção com uma formosa página do doutor Geley, que estabelece uma distinção entre a finalidade realmente primordial da vida e a secundária, que muitas pessoas confundem com aquela. Eis aqui suas palavras: Evoluir é, na verdade, tomar conhecimento do próprio estado real, do estado do mundo ambiente, das relações estabelecidas entre o ser vivo e seu meio, entre seu meio e o meio universal. O desenvolvimento das artes e das ciências, o aperfeiçoamento dos meios empregados para subtrair-nos à dor ou satisfazer nossas necessidades não são, em si mesmos, finalidades da evolução. Não são senão a conseqüência da realização da finalidade essencial, que é a aquisição de uma consciência cada vez mais ampla e todo progresso em geral está condicionado pelo aumento prévio do campo da consciência. Tudo isso não se nega, nem é possível negar e apenas se precisa de uma indução perfeitamente legítima para admitir, no auge da evolução, e na medida em que podemos concebêla, a realização de uma consciência verdadeiramente divina, que comporte a solução de todos os problemas.

(De I’Inconscient du Conscient, pág 310) Faz se apenas necessário anotar quão verdadeiro é o que afirma o Dr. Geley, quando diz que os inventos e os aperfeiçoamentos tecnológicos não representam o objeto da evolução, senão que são somente uma conseqüência da finalidade essencial da evolução mesma, que aquisição de uma consciência de si progressivamente mais ampla, observação que e necessário não esquecer e que nos remete ao nosso tema, porque se e certo que o objeto da vida e a aquisição de uma consciência individual, cada vez mais ampla, devemos reconhecer, então a verdade do que afirmam numerosos pensadores, ou seja, que em última análise “o fim da vida é a individualização das almas”. Esta e a definição a que aludíamos mais atrás, ao expressar nossa intenção de examinar mais intimamente o mistério da vida para descobrir um princípio mais profundo, mais fundamental, mais original, que tivesse relação com a gênese mesma da vida.

Assim tudo contribui para demonstrar que objeto fundamental da existência da vida nos mundos diversos e a individualização das almas através de sua passagem pela escala ascensional de todos os seres vivos até o homem. Daí, todos os seres vivos, desde a mônada até o homem são indispensáveis para realizar a individualização das almas e todas as individualidades humanas, inclusive as más, são, por sua vez, elementos necessários para permitir que a humanidade alcance seu grande fim. Esta idéia está magistralmente expressa em uma comunicação mediúnica aparecida no American Journal of the S.P.K. (1911, pág. 522). A médium era a senhora Edith Wright. Eis aqui a passagem a que nos referimos: Toda existência ativamente vivida deixa uma marca imborrável no mundo. Hoje o mundo é diferente porque você viveu. A vida que parece mais insignificante é, com freqüência, na realidade a que mais influi na evolução do mundo.

E o recém-nascido que não teve tempo de aprender uma só palavra, que passou à outra vida deixando apenas uma terna recordação no coração de sua mãe, fez mais para reformar a história do mundo que tudo quanto possa conceber a mais profundo de nossos pensadores. Jamais viveu um só ser que não tenha deixado sua contribuição útil aa progresso do mundo. O malvado mesmo é um instrumento de Deus para o progresso de seu reino. Graças às faltas se adquirem experiência; a debilidade engendra a força; o bem nasce do mal; a miséria e a dor fazem germinar a alegria; a ignorância dá lugar a ciência. O diretor de Light insiste também no fato de que á natureza não importam as imperfeições humanas, porque seu fim essencial é a individualização das almas, escrevendo: Não há que olvidar que o verdadeiro fim para o qual existe no universo é a individualização do espírito humano. A natureza na pergunta: "És bom? És belo? Tens aspirações elevadas, ideais sublimes?" questiona apenas: "És um homem? És consciente de si mesmo?

És capaz de amar, odiar, aprender, progredir? Se assim é, todas as aquisições são exeqüíveis para ele..."(Light, 1923 pág. 360.) Uma notável circunstância é que o célebre poeta inglês John keats havia formulado há um século uma concepção análoga da vida. Em suas Cartas, publicadas recentemente por Sidney Colvin (Mac Millan), acha-se a seguinte passagem: Se vos apraz, denominai o mundo de "Vale onde se fabricam almas" e compreendereis então qual é a finalidade do mundo. Eu digo: "Fábricas de Almas", com intenção de estabelecer uma distinção entre Alma e a Inteligência - chama do divino - em milhões de seres... mas não serão almas desde que não hajam adquirido identidade, desde que não se convertam em personalidades... E como se pode criar as Almas? Com essas "chispas divinas" poderão adquirir uma identidade individual... de modo que possuam um selo pessoal e especial para cada indivíduo? Fica evidente que só poderia ser conseguido por meio de um mundo como o nosso... Há um sistema para criação de espíritos.

Não vedes, por acaso, a necessidade de um mundo de tribulações e dores para que uma Inteligência se transforme em alma? Belas palavras nas quais se acha disseminada uma grande verdade, que vem em apoio do ditado: "a instituição dos poetas anda a frente do tempo". David Gow, analisando uma conferência científica na qual o autor supunha a existência de uma Inteligência consciente que se manifestaria por mediação da matéria, assim se expressa: Rapidamente se supera o antigo juízo segundo o qual a inteligência não pode se manifestar senão por intermédio de um órgão cerebral. O universo inteiro é não somente a expressão da vida, mas também da inteligência. No homem esta inteligência é consciente de si mesma e o meio de alcançar este resultado é precisamente o nascimento do espírito no mundo da matéria, enquanto que a idéia de que o mundo é uma escola de educação e de prova para adquirir experiência não representa senão uma verdade secundária, embora importante.

O grande fim da Natureza ao criar o mundo físico, tal como disse muito bem recentemente um escritor é o de "fabricar almas". Sua educação poderá se verificar em nosso mundo ou em outra parte, porque os recursos da natureza para isso são infinitos, uma vez que o fim principal (ou seja, a individualização das Almas) foi conseguido. (Light, 1918, pág. 253.) Na passagem que acabamos de transcrever, foi mantido o cuidado de destacar que o fim principal com que a Natureza tem espargido a vida por aqui é o de "fabricar almas" não prover sua educação através de um número adequado de experiências. Este último fim existe, sem nenhuma dúvida, e longe esta de carecer de importância, mas é sempre secundário, pasto que a educação e a elevação das Almas pode se realizar tanto na existência encarnada quanto na desencarnada, enquanto que a individualização das almas não pode efetuar-se senão por meio de sua passagem pelo mundo da matéria. "Fabricar Almas", essa é a verdadeira e grande finalidade da existência dos mundos e das vidas.

Relembrarei que, neste ponto, um grande número de pensadores independentes tem estado de acordo, assim como videntes antigos e modernos, além de personalidades de mortos que se comunicam mediunicamente, o que marca uma convergência de opiniões muito significativa. Assim, por exemplo o célebre vidente norte-americano Andrew Jackson Davis, a pergunta: "Qual é o fim principal da existência terrestre?" responde: "A individualização do espírito, a fim de prepará-lo para a existência espiritual". (The Harbringer of Health, pág. 3). As revelações de Swedenborg, bem como as mais recentes do Rev. Valle Owen fazem também referência ao mesmo assunto e Arthur Wood, comparando todos estes dados conclui nestes termos: A concordância dos ensinamentos a este respeito aparece de maneira notabilíssima, tanto mais quanto que procedem de fontes distintas.

São ensinamentos que abrem um vasto campo de especulações muito importantes, já que esta orientação do pensamento permite perceber um resplendor da Verdade acerca da razão da existência de um universo material, a saber, que não somente é uma condição necessária para a existência do homem, mas também e sobretudo, constitui um fator essencial para a existência individualizada no mundo espiritual. Em outras palavras: o universo material é instrumento necessário para criar a superestrutura de todo "finito", tanto encarnado quanto desencarnado; sem ele não poderíamos ter entidades humanas conscientes dividualizadas... (Light, 1921, pág. 518.) O professor Willian Barret compartilha este modo de encarar a finalidade da vida, escrevendo: Haveria de chegar à conclusão de que o fim da vida é, de um lado, a edificação, a consolidação e a perpetuação de nossa personalidade separada e distinta, e por outro lado o despertar e desenvolver, em cada uma destas consciências individualizadas, uma Unidade interior, que enlaça todas as personalidades separadas a uma Personalidade Sintética mais ampla, na qual todos "vivemos, movemos e existimos".

Em outras palavras: ter consciência do fato de que formamos uma parte integrante e somos todos membros de um Organismo Único... (On the threshold of Unseen pág. 251.) (1) 1 – Não se deve confundir esta teoria com a do panteísmo, segundo a qual as almas evoluem até um ponto em que se integram no Todo Universal, pendendo a sua individualidade. O Panteísmo não é aceito pelo Espiritismo. Tenho comigo outras dezessete passagens de obras de pensadores que chegaram por caminhos distintos às mesmas conclusões. Mas, são tão semelhantes às que já citei que não poderia reproduzi-las sem cair na monotonia. Limito-me, pois, a transcrever uma outra na qual o tema está mais desenvolvido que de costume e que pode servir, por conseguinte, de síntese do que expus até aqui. O Sr. W. H. Evans trata cm um artigo profundo (Light, 1923, pág. 137) o tema da evolução e da sobrevivência do espírito humano, chegando às mesmas conclusões que outros escritores já citados.

Entre outras coisas, disse: O princípio espiritual do homem se desenvolve e se individualiza eternamente por meio de inumeráveis sóis e planetas e graças a regular evolução progressiva dos minerais, vegetais e animais que se acham representados e resumidos na energia, força, simetria, beleza do corpo humano, de seus órgãos, de suas funções... O grandioso mecanismo do universo é, pois, um instrumento destinado a alcançar seu total cumprimento, essa gloriosa finalidade suprema; gloriosa e grande porque graças a ela a estrutura e a imortalidade do espírito humano estarão fixadas de modo imutável. Os milhões de sóis e de planetas que povoam o espaço infinito são, pois, os agentes subordinados e secundários aos quais a Natureza confere a tarefa sublime de produzir e eternizar o espírito humano... e cada reino da natureza é um vasto laboratório no qual estão os diversos elementos necessários ao desenvolvimento evolutivo, até quando um núcleo da vida é colocado em condições de adquirir a consciência de si mesmo.

Assim como os reinos naturais são laboratórios encarregados de cumprir esse grande fim, igualmente cada parte do organismo humano é um laboratório no qual o "corpo espiritual" se constitui e se aperfeiçoa... O organismo humano cumpre a tarefa de conceder a individualidade aos elementos espirituais... o que faz com que, sem o processo da evolução terrestre não haveriam almas individualizadas... Parece-me que o que acabamos de expor responde de maneira filosoficamente adequada à grande pergunta: Qual é o objeto da vida? Fica por responder, do ponto de vista psicofísico, esta outra pergunta, secundária, mas importante, do dor quê do cérebro. Ou seja, por que a Inteligência, chispa divina, necessita, para individualizar-se, de um instrumento carnal e perecível? Para resolver este problema é preciso perceber que se se pode admitir que uma alma individualizada contém uma chispa de Inteligência divina, não é menos certo que essa chispa divina não consegue individualizar-se senão passando do reino do "Absoluto" ao do "Relativo", do domínio do "Noúmeno" ao do "Fenômeno".

Do que resulta que para por-se em relação com as manifestações do universo fenomenal, a "chispa divina individualizada" necessita de um órgão transformador apropriado: o cérebro. Em outras palavras, a verdadeira função do cérebro com relação ao espírito consistiria em colocá-lo em condições de perceber, em ciclos alternados de vidas sucessivas, frações infinitesimais da Realidade Incognoscível, de conformidade com um sistema de aparências "fenomenais", que se manifestam com modalidades sempre diferentes em cada mundo habitado do universo inteiro: aparências fenomenais no meio das quais o espírito esta destinado a existir e a exercitar-se com vistas à sua elevação ulterior no conhecimento da Realidade Absoluta considerada através das modalidades infinitas nas quais se transformam ao manifestar-se no Relativo. Assim se compreende a necessidade que tem o espírito de possuir um cérebro que representa o papel de órgão transformador da Realidade Absoluta em formas de manifestações Relativas e Fenomenais: função de infinita grandeza a que são destinados os enumeráveis mundos que povoam o universo.

Terceira Monografia Em defesa da alma

O espírito humano contribui para construir a Grande Síntese Divina, conservando intacta sua própria individualidade psíquica, do mesmo modo que milhares e milhares de células que, constituído o organismo humano contribuem para criá-lo, guardando integralmente sua individualidade própria.

Na serena e interessante discussão pró ou contra a sobrevivência da alma, que foi desenvolvida pelo professor Charles Richet e o professar Oliver Lodge (Procedings of the S.P.K, 1924), o primeiro deles conclui assim sua argumentação em sentido contrário: O antropomorfismo dos espíritas é de análoga natureza. A verdade que existe sobe o véu misterioso que no-la oculta deve ser muito mais nobre que a velha idéia do que faria consistir na prolongação bem além do túmulo, de nossa miserável intelectualidade. (1) 1 – Advirto que o sublinhado é do professor Richet. Em outro artigo polêmico que apareceu no Journal of the American S.P.R. (1923, pág. 472) Dr. Richet observa também: É uma coisa bastante miserável prolongar para alem do túmulo a pobre existência intelectual que nos anima durante a vida; sequer é atrativo. Por sua parte, o Dr.

H. Jaworshi, em Psychica, observa sobre o mesmo tema: O grande erro da estreita hipótese espírita e querer prolongar no Além a ilusão de nossa individualidade, de nosso pequeno eu que, embora necessário para ação, é em si mesmo um peso e uma limitação...(1921, pág. 146). O eu é uma prisão, um peso, uma inferioridade tal que sua prolongação no Além não pode ser senão uma queda total. Em minha opinião, não somente os espíritos não existem, senão que podem existir, porque isso seria querer admitir a persistência de uma sensação ilusória como a da imobilidade da terra. Passemos agora ao Dr.

William Mackenzie, que na revista Luce e Ombra (1924, pág. 345) assim se expressa: Mas, para um grande número de “metapsiquistas”, e justamente esta ciência do supranormal o que constitui a “ciência espiritualista” por excelência. Toca grosseira de idéias que materializa e rebaixa ao “Espírito” até fazer dele “os espíritos” e se imagina falar nessas pobres larvas a “razão da vida” e das coisas! Eu me oponho sempre a esta troca ilegítima, mas (tal como já provei de nada serve oporse aos impulsos afetivos profundos do espírito humano. O “eu” tão importante dos “metapsiquistas” em questão não pode admitir que um edifício cósmico grandioso, ou seja, físico-psíquico-espiritual, possa subsistir sem que justamente este minúsculo (perdão: este importante) “Eu tenha que sobreviver eternamente – somente ele entre todas as partes caducas do eterno universo! – ou talvez todavia ligado ao seu fiel corpinho “astral”.

E por isso, só por isso, deteria a verdade “razão” da vida! Nesta profissão de fé do Dr. Mackenzie nota-se uma mescla regularmente retorcida e enigmática de materialismoespiritualismo-panteísmo, o que faz com que não se possa dizer com certeza no que é que acredita realmente o autor. Em todo caso, condena claramente a existência e a sobrevivência da alma, do mesmo modo que impugnam o professor Richet e Dr. Jaworski, aos quais se une, por outro lado, para denegrir nossa intelectualidade humana, que eles consideram, os três, miserável a um grau tal que não poderia deixar de julgar impossível e absurda sua sobrevivência a morte do corpo.

Pois bem, não seria inútil recordar que um grande número de individualidades humanas tem sabido elevar-se as mais sublimes alturas do pensamento. Basta-me-á citar Sócrates, Platão, Pitágoras, Spinoza, Kant, Hegel, Herbert Spencer, nos domínios da filosofia; Dante, Shakespeare, Goethe, Victor Hugo, nas obras literárias Michelangelo, Rafael, Rubens, nas artes representativas: Wagner, Beethoven, Chopin, Rossini, Verdi, Gounod, na arte musical; Galileu, Newton na ciência, na ciência; Bruto Menor, Jorge Washington, Mazzini, entre os grandes caracteres; um São Francisco de Assis, um São Vicente de Paulo, na esfera do amor universal. Parece-me que ante tanta profundidade de pensamento, tal esplendor de gênio, tal grandeza moral é injusto, é absurdo, é quase um delito cobrir de vitupérios a individualidade pensante.

Em segundo lugar, os que denigrem a intelectualidade humana parecem esquecer que a evolução biológica da espécie se desenvolve de um modo paralela à sua evolução psíquica, o que determina que ambas as formas de elevação simultânea do indivíduo através dos séculos nos levam necessariamente a prever a chegada de uma época na qual a espécie humana poderia ser considerada como literalmente divinizada em comparação com a humanidade embrionária atual. O mesmo professor Richet a reconheceu em um artigo magistral que publicou nos Annales des Sciences Psychiques (janeiro de 1905), onde escreveu: Não e possível que a espécie humana venha a se extinguir dentro de cem mil anos; e então, o que será da inteligência humana?

Quais serão seus recursos? Não podemos fazer uma idéia sequer aproximada. Sem dúvida, esse tempo chegará. E haverá homens! Existirá ciência!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.