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Capítulo 2 de 9
Parte 2 de 9
Cérebro e Pensamento · Ernesto Bozzano
Basta-me recordar o caso típico publicado pelo Dr. Guépin, em março de 1917: Um jovem, Luis B., hoje jardineiro próximo de Paris, sofreu uma ablação de uma parte considerável de seu hemisfério cerebral esquerdo (substância cortical, substância branca, núcleos cordicais) e, apesar disse, continuou intelectualmente normal, não obstante a privação de circunvoluções consideradas como base de funções essenciais. Casos análogos, alguns dos duais sc tornaram clássicos, foram publicados em todas as partes. As feridas de guerra proporcionam novos e importantes exemplos. O Dr.
Tourde, que possui estudo especial desses casos, não teme concluir com estas linhas: Se a teoria das localizações se faz cada dia mais difícil de defender, não é menos certo que ela arrasta em sua queda a tese do paralelismo estrato. Se é ainda possível crer, embora desgraçadamente não se passa demonstrar, que a todo fenômeno psíquico corresponde uma modificação cerebral, já não se pode sustentar mais que toda modificação cerebral provoca um fenômeno psíquico e, em todo caso, não se tem o direito de pretender que a toda perda de substância encefálica corresponde a um déficit psicológico. Ao mesmo tempo, é preciso renunciar de uma vez por todas, como havia previsto o Senhor Bergson, em 1897, à hipótese do cérebro conservador de imagens-lembranças e adotar outras idéias sobre a natureza de seu papel no processo do ato da memória. Longe de ser condição indispensável do pensamento, o cérebro não seria senão prolongação no espaço, o "acompanhamento motor". Poderíamos considerálo, em relação com ele, como um órgão de "pantomima".
Como se pode ver, o Dr. Tourde é levado pela análise dos fatos a uma conclusão absolutamente concordante com as teorias de Bergson, de James, do Dr. Geley e com a que sustentamos, teorias todas que estabelecem a independência do pensamento em sua relação com o cérebro, embora ligeiramente diferentes entre si na interpretação das atribuições do cérebro com respeito ao espírito. Assim, por exemplo, entre a teoria de Bergson aceita pelo Dr. Tourde e a que sustentamos, existe esta diferença: segundo Bergson, as funções do cérebro se limitariam a ser "um acompanhamento motor do pensamento", o que levaria a reduzir o cérebro a "um órgão de pantomima".
Pelo contrário, parece-nos que os fatos nos autorizam a conceder mais importância funcional ao órgão do pensamento. De qualquer maneira, estas diferenças são teoricamente insignificantes diante da circunstância capital de nos acharmos de acordo para assinalar à consciência individual o lugar que lhe corresponde na Vida. Não ignoramos que os partidários da fórmula de que "o pensamento é uma função do cérebro" têm tentado explicar os casos de que acabamos de ocupar supondo que, nessas circunstâncias, os lóbulos cerebrais que ficam intactos substituíram os que foram destruídos. Mas esta hipótese não é apenas gratuita; contradiz ela a doutrina das localizações e a do "paralelismo psico-fisiológico" e mais, encontra um obstáculo insuperável na circunstância de que são exemplos conhecidos os casos em que o órgão cerebral foi encontrado em autópsias totalmente destruída por um tumor, enquanto o enfermo conservou até o último momento o uso de suas faculdades intelectuais. Eis o primeiro exemplo.
O cavalheiro I e Clément de Saint-Marcq, ex-coronel do exército belga, cita o seguinte caso que lhe foi comunicado pelo médico que o observou: Trata-se de um sub-oficial de guarnição em Amberes que há alguns anos se queixava de violentas dores de cabeça que, não obstante, permitiam-lhe cumprir com todos os deveres de seu cargo. Um dia morreu repentinamente e foi levado ao hospital para que fosse praticada a autópsia. Quando foi aberto seu crânio não se encontrou senão uma papa de pus; não existia ali uma célula sequer de matéria cerebral. E como esta transformação das células em pus, ou seja, sua destruição pela enfermidade, não aconteceu instantaneamente, pelo contrário, era o resultado da lenta evolução de um abscesso, podemos chegar à conclusão de que, durante um tempo bem longo este sub-oficial pode cumprir seu serviço não possuindo mais que resíduos do cérebro. O que é uma boa prova de que o pensamento não está tão intimamente ligado a este órgão como parecem dizer os defensores da tese materialista. (Revue Scientifique et Morales du Spiritisme, 1907, pág. 275-276).
Eis outro exemplo análogo ao anterior, observado pelo Dr. R. Robinson e exposto pelo professor Edmundo Perrier na Academia de Ciências, de Paris: Trata-se de um indivíduo de 62 anos que, em conseqüência de uma ligeira ferida na região occipital, apresentou algumas perturbações visuais que chamaram a atenção; sem dúvida, não se produziu nenhum sintoma alarmante, nem paralisia nem convulsões. Os demais sentidos permaneceram em estado normal. Ao fim de um ano, o enfermo faleceu bruscamente de um ataque de epileptiforme.
Durante a autópsia, o Dr. Robinson comprovou que o cérebro deste homem tinha a forma de uma casca bem delgada que, ao ser cortada, deixou vazar uma enorme quantidade de pus. Como é possível que uma destruição tão completa do órgão cerebral não haja produzido nenhum sintoma grave e característico? O que faz, ante um fato dessa índole, a doutrina das "localizações", que atribui às distintas regiões ou zonas do cérebro funções bem determinadas? O Dr.
Robinson, apoiando-se neste caso singular e nos sábios estudos dos doutores Van Gehuchten e Pedro Marie, chega à conclusão de que esta teoria deve ser revisada. (Annales des Sciences Pychiques, 1914, pág. 29.) A propósito deste último caso, o biólogo professor Ugolini, de Florência, anota, irônico: "Cá entre nós: não se poderia dizer que esse homem sem cérebro gozava de uma saúde extremamente boa e da plenitude de suas faculdades, se sofria perturbações visuais e epilepsia, e se um ano depois de se haver produzido a ferida, morreu miseravelmente" (Annuario Scientífico, 1913, pág. 241). Fácil responder que os comentários do Senhor Ugolini não se referem, absolutamente, à questão das relações entre o pensamento e o cérebro, já que jamais se pretendeu que um homem que sofre de um tumor que invade pouco a pouco todo o órgão cerebral possa gozar de uma saúde excelente.
Eu acrescentaria: ainda que esta pessoa, em lugar de ter prosseguido apta ao trabalho, houvesse caído prostada na cama, gravemente enferma, em nada se modificaria a significação teórica do caso em questão, do ponto de vista que nos interessa, que se refere unicamente ao fato da conservação da inteligência apesar da destruição do cérebro, e não da conservação da saúde apesar do tumor cerebral. Esta última pretensão seria absurda e não tem nada a ver com o assunto que discutimos. Fica, pois, demonstrado que, em circunstâncias excepcionais, a inteligência pode permanecer intacta apesar da destruição do cérebro.
A hipótese gratuita formulada pelos fisiólogos, segundo a qual os lóbulos cerebrais sobreviventes substituem os destruídos se destrói, assim, inexoravelmente. Por conseguinte, os casos deste tipo não são literalmente explicáveis por nenhuma hipótese fisiológica e arrastam para o imenso nada das teorias errôneas aquela que afirma que "o pensamento é uma função do cérebro". Por necessidade nos vemos obrigados a substituí-la pela teoria oposta, segundo a qual o órgão cerebral está invadido e dirigido em suas funções por algo qualitativamente distinto, onde reside a Consciência Individual. Em outros termos, tudo concorre para demonstrar a existência de um "cérebro etéreo" imanente no cérebro físico e, assim, a existência de um "corpo etéreo" imanente ao corpo somático. O mesmo que afirmou o apóstolo Paulo, numa máxima digna do escultor há quase vinte séculos; o mesmo também que em nossos dias afirmava a personalidade medianímica de Georges Pelham, por intermédio da médium Senhora Piper, em uma conversação famosa que manteve com o doutor Hodgson.
Entre outras coisas, a mencionada personalidade respondeu a uma pergunta de Hodgson com esta interessante advertência: "Eu não acreditava na sobrevivência. Era algo que excedia ao meu entendimento. Hoje me pergunto como pude duvidar. Temos um fac-símile etéreo de nosso corpo físico, fac-símile que subsiste depois da dissolução do nosso corpo físico". Depois do que acaba de expor, é quase supérfluo acrescentar que, uma vez admitida a existência de um "cérebro etéreo", base da Consciência Individual, conclui-se que o enigma dos "homens que pensam sem cérebro" é fácil de explicar.
De fato, pode-se logicamente pressupor que, em certas circunstâncias de "sintonização" especial entre o cérebro e o espírito, este pode prescindir parcial ou completamente de seu órgão de relação terrestre. Dito de outra forma: em situações semelhantes, é claro que a única circunstância de fato absolutamente necessária para explicar o mistério de que tratamos é a de reconhecer a existência de uma Consciência Individual independente do órgão cerebral. Uma vez que estamos de acordo com este ponto, torna-se compreensível que se encontrem casos excepcionais semelhantes aos que citamos. A tarefa de investigar as causas não tem pois senão um valor secundário, do ponto de vista teórico, e pode inclusive fornecer uma solução pelos métodos experimentais.
Observarei, de qualquer forma, que reconhecendo a existência de um "corpo etéreo" no homem (existência que contribui para provar os fenômenos de "bilocação" no sonho e de "desdobramento fluídico" no leito de morte), não somente se conseguiria resolver o problema que estamos analisando, como também todos os enigmas inexplicáveis para a fisiologia universitária, desde a misteriosa existência na subconsciência humana de uma "memória integral" perfeita e ao mesmo tempo inútil, até a existência subconsciente de um "Eu integral" muito superior ao "Eu consciente", servido por faculdades de maravilhosos sentidos espirituais, capazes de investigar o presente, o passado e o futuro, sem limite algum de tempo ou espaço.
Sem dúvida alguma, estes formidáveis enigmas da subconsciência, absolutamente inexplicáveis por qualquer hipótese naturalista, mas perfeitamente explicáveis pela hipótese espiritualista, acabarão por provocar um dia a definitiva queda do materialismo científico. Esse dia não está distante, embora não seja difícil prever que deverá desaparecer a atual geração inteira, antes de obter-se a aprovação unânime dos pensadores sopre este ponto. Existe uma lei psicológica inexorável, que impede aos espíritos que exercitaram por muito tempo uma concepção especial da Vida, assimilar idéias que contrastem de um modo absoluto com ela. Em conseqüência, todo movimento intelectual de ordem religiosa, social, moral ou científico demasiadamente radical inovador, sempre foi acolhido com aberta hostilidade por todas as classes sociais e, sobretudo, pelas mais elevadas e cultas. Voltando à questão da impossibilidade em que se encontra a psicologia materialista para explicar a existência subconsciente de faculdades supranormais, quero anotar que o doutor Geley não se cansa de proclamá-la, com a esperança de provocar sobre o tema uma discussão completa e instrutiva.
Mas, sempre em vão. Na Revue Métapyschique de janeiro-fevereiro 1922, pág. 23 e 24, volta ao assunto, dizendo: Não existe paralelismo psico-anatômico, posto que as ações dinâmicas, sensoriais e psíquicas podem ser comprovadas inclusive fora do organismo, por uma verdadeira exteriorização. Não existe paralelismo psicofísico, posto que o "transe", durante o qual o subconsciente supranormal se manifesta em todo seu poder, é uma espécie de aniquilamento da atividade dos centros nervosos (!) que chega às vezes até o coma! Onde achar rastros de paralelismo na visão à distância, através de obstáculos materiais e fora do alcance dos sentidos? E na telepatia, independentemente de todas as contingências que regem as percepções sensoriais?
E na lucidez?... Os fatos subconscientes são igualmente contrários à velha noção clássica segundo a qual não existe outra memória que a cerebral. A memória cerebral é, como se sabe, limitada, infiel, caduca. Não encerra mais que uma ínfima parte das impressões-lembranças do Ser. A maior parte destas lembranças parece perdida.
Mas, nos estados subconscientes vê-se surgir outra memória diferente, infinitamente extensa, fiel e profunda. Damo-nos conta, então, de que tudo quanto foi impresso no campo psíquico persiste completa e indestrutivelmente na memória subconsciente... Os exemplos desta prodigiosa criptominésia são inumeráveis e provam que acima da memória cerebral, estreitamente unida às vibrações das células cerebrais, existe uma memória subconsciente, independente de todas as contingência cerebrais. De sorte que a memória, assim como a consciência, é dupla. Existe uma consciência e uma memória estreitamente associadas ao funcionamento dos centros nervosos, que somente constituem uma pequena parte da individualidade pensante.
Mas existe uma consciência e uma memória independentes do cérebro. E a maior parte da individualidade pensante, que não está circunscrita aos limites do organismo e que, conseguinte, pode preexistir e sobreviver a ele. A morte, em lugar de ser o fim da individualidade pensante, não faz mais que libertá-la da limitação cerebral e determinar sua expansão. Todas estas induções - não será demasiado repetir - não são postulados metafísicos. Estão baseadas em fatos exatos.
A argumentação em que se apóiam e estritamente racional e não se observou nenhuma refutação do mesmo. O doutor Geley fez bem em terminar lembrando que nunca foram refutados os argumentos que demonstram a existência no homem de uma consciência e uma memória independentes do cérebro. Assim, fica demonstrado o erro da teoria do paralelismo psicofísico estrito. E se insisto em recordá-lo é porque parece incontestável que os adversários evitam sempre penetrar na essência íntima do debate, limitando-se a repetir por sua conta os argumentos habituais fundados no paralelismo entre os fenômenos do pensamento e a atividade morfológica do cérebro, esquecendo que esses argumentos perderam todo seu valor em conseqüência de novas circunstâncias de fato, de ordem psicológicoexperimental, que são colocados pelos defensores da independência do pensamento em relação ao cérebro. Facilmente se compreende a razão pela qual os opositores evitam sempre discutir diretamente os argumentos que se lhes colocam: é que não podem refutá-los.
Mas sua impotência não lhes impede de permanecer sinceramente inarredáveis em suas convicções materialistas, como se não conseguissem se convencer sobre a flagrante contradição lógica que existe em uma situação semelhante. Por causa disto, assistimos à repetição perpétua de raciocínios invalidados. Podemos ajuntar que sua atitude não deve ser atribuída a uma "parti pris", mas unicamente ao embaraço em que se encontram frente uma situação bastante curiosa: a de sentir-se ao mesmo tempo impotentes para refutar os argumentos dos adversários e firmemente seguros de sua fé materialista. Como já fizemos notar, esta atitude contraditória obedece a uma lei psicológica que, embora desalentados do ponto de vista da razão humana, é normal e necessária à evolução ordenada das idéias, por causa da influência moderadora e benfeitora que exerce sobre a difusão excessivamente rápida de qualquer movimento social inovador. É o estado de espírito a que se denomina, na terminologia psicológica, "misoneísmo".
Nestas condições, seria inútil querer convencer aos que não podem compreender. Cabe unicamente prosseguir com serenidade o caminho que se abre a todos nós. Finalizo, pois, chamando a atenção dos leitores sobre o fato de que os casos de indivíduos que conservam sua inteligência apesar da destruição parcial ou total do cérebro, contemplados conjuntamente com as circunstâncias notabilíssimas da existência na subconsciência humana de uma "memória integral" perfeita e de uma consciência individual superior, dotada de faculdades de sentido espiritual, conduzem logicamente a reconhecer a existência no homem de um espírito independente do organismo corporal, provido de um organismo espiritual ou "corpo etéreo", base da memória integral e das faculdades sensoriais supranormais. Por outro lado, demonstramos que as conclusões que alcançamos, parecem perfeitamente conciliáveis com a teoria do "paralelismo psicofísico", sobre o qual insistem justamente nossos opositores. E afirmo "justamente", porque não pode haver dúvida alguma a respeito da verdade intrínseca dos fatos observados pelos fisiólogos.
Mas estes fatos, se examinados à luz das modernas investigações sonambúlicas e metapsíquica, mudam radicalmente de significação. Faz-se, pois, necessário limitar o alcance teórico que abusivamente lhes assinalam, reconhecendo que, longe de demonstrar que o pensamento é uma função do cérebro, provam somente a existência de uma correlação, pela lei de equivalências, entre as atividades morfológicas e psíquicas, opostas entre si; correlação que poderia ser presumida a priori de tal modo parece natural e indispensável para bem compreender a função real e grandiosa confiada ao órgão do pensamento, função que é dupla: por um lado, a de registrar as vibrações físicas que chegam através dos sentidos, a fim de transformá-las de imediato em vibrações psíquicas perceptíveis para o espírito, e por outro lado, a de registrar as "imagens psíquicas" com as quais o espírito responde as vibrações específicas que chegam do meio terrestre, traduzindo-as e transmitindo-as à periferia em forma de ações apropriadas.
Pois bem, é evidente que tudo isto não pode se realizar sem uma dispersão de energia nervosa em perfeita equivalência com a natureza e intensidade das atividades psíquicas em função. Os físicos tem, pois, razão, deste ponto de vista limitado. Ao contrário, o acabamos de dizer demonstra que fisiólogos estão equivocados quando impregnam a legitimidade da hipótese espírita, apesar da convergência imponentemente de todas as provas em seu favor, e que a combatam em nome do eterno, sem dúvida efêmero obstáculos do paralelismo que existe entre as funções morfológicas e psíquicas do cérebro.
Como se a existência de um instrumento que ao ser acionado consome energia, não fosse compatível co a do obreiro que o faz funcionar. Ao contrário! Os dois termos de maior problema de ser se conciliam admiravelmente entre si, são inclusive indispensável para resolvê-lo. Os espíritas proclamam, pois, solenemente, que a teoria do "paralelismo psicofísico" é legítima, incontestável, inquebrantavelmente verdadeira, e que é preciso unicamente modificar sua interpretação para fazê-la compatível com a nova psicologia supranormal que foi revelada pelas investigações sonambúlicas e metapsíquicas.
Segunda Monografia O objeto da vida
Tudo contribui para demonstrar que o objeto fundamental da existência da vida nos mundos diversos é a “individualização das almas”, por intermédio de sua passagem na escala ascensional de todos os seres vivos até o homem.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.