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Capítulo 3 de 9

Parte 3 de 9

Cérebro e Pensamento · Ernesto Bozzano

Acontecia em minha juventude de, quando lia e estudava as obras de Herbert Spencer, deter-me em certos capítulos presa de um sentimento de profunda admiração, misturada, não obstante, de certa perturbação ante a grandiosidade apocalíptica do tema. Refiro-me aos capítulos em que o autor contempla a evolução dos mundos e da vida, a extinção desta e a desagregação daqueles ao chocarem-se, entrando em conflito pelo espaço infinito, para transformarem-se em seguida, em nebulosas por conseqüência da espantosa colisão. E as nebulosas por sua vez nesta colossal revolução, estavam destinadas a abrir um novo ciclo de integração evolutiva, análogo aos inumeráveis ciclos que já se haviam encerrado. Era eu então um positivista convencido; lembro-me do sentimento de profundo vazio que estas leituras despertavam em minha alma. Para que – perguntava-me essa perpetua sucessão de processos de evolução sem finalidades?

Como podemos supor que a evolução da espécie tem o seu melhoramento progressivo, o aperfeiçoamento ilimitado das faculdades sensoriais, o florescimento sublime da intelectualidade, cada vez mais capaz de compreender o mistério do ser, se, em última análise, tudo acabará perdido com o aniquilamento final do universo, sem deixar o menor vestígio? Somente a esta atroz ironia se reduzem, pois, os altos ideais altruístas de que se vangloria o positivismo científico que, depois de ter concluído o aniquilamento da personalidade individual, elogia e preconiza a moral do sacrifício, indispensável ao aperfeiçoamento ulterior da espécie? Mas se a espécie tem que desaparecer algum dia do universo inteiro, cm benefício de quais outros idealismos desconhecidos deve sacrificar-se o indivíduo? Um ideal desta natureza me parecia fictício e inexistente: era um escárnio impossível, dizia-me, que o espírito humano possa contentar-se com concepções filosóficas tão absurdas que não podem ser verdade. É não obstante, a cosmogonia de Herbert Spencer se impunha à razão: era a Verdade.

E um vazio desolador descia sobre meu coração e minha inteligência, porque a inteligência não é unicamente razão, mas também intuição. Sem dúvida, ainda hoje, mesmo a uma distância de quarenta anos e apesar de minha maneira de pensar ter mudado radicalmente, o grandioso sistema filosófico de Herbert Spencer se acha presente em meu espírito em suas grandes linhas, como inquebrantavelmente verdadeiro do ponto de vista da razão; ao mesmo tempo, o sentimento de vazio e desilusão que me ficava na alma quando meditava nele, terminou por desaparecer. Agora, muito melhor que antes, sinto que possuo uma síntese verdadeiramente nítida e compreensível do sistema espenceriano, compreendo e aprecio o saber supremo desse gênio que, desejando assentar os fundamentos de um vasto sistema de filosofia positiva excluindo toda especulação mais ou menos metafísica, soube, não obstante, fixar o lugar de honra para os problemas imanentes do ser, postulando, como base de seu sistema, a teoria do "lncognoscível".

Pois bem, se substituirmos pela palavra "Deus" o que o eminente filósofo entende pela palavra "lncognoscível", nada mudará em seu sistema filosófico. O agnosticismo de Herbert Spencer é o vestíbulo do Templo de Deus. A substituição da palavra "lncognoscível" por "Deus" bastaria para assinalar uma finalidade ao universo, para assinalar um objetivo à sucessão de constituições e dissoluções de mundos, para assinalar um desígnio ao progresso humano e à elevação da intelectualidade, dissipando como que por encanto a contradição existente entre os ensinamentos da filosofia de Herbert Spencer e as conclusões irracionais e absurdas que nos arrastariam suas doutrinas sem a interpretação teísta do lncognoscível. Eugênio Nus o destacou em uma página de vigorosa prosa, dizendo: Se a outra hipótese é verdadeira; se a absoluta indiferença se encontra no fundo da natureza, matriz inconsciente da vida submetida a forças fatais ou colocada aos caprichos do azar; se nenhuma inteligência, nem plano, nada que se pareça a uma idéia rege o mundo moral e o mundo físico; se não existe lei do destino senão fatos que se encandeiam ou, melhor ainda, encadeiam e seguem-se, impelidos por um movimento sem finalidade alguma; se de um lado ao outro desta escala de destruição, o indivíduo se sacrifica pela espécie sem remédio, sem piedade, ficando confusamente misturados os sofrimentos físicos, morais e intelectuais ao fim do caminho, no negro e insondável caminho onde tudo acaba por desaparecer, homens e animais, raças e espécies, planetas, cometas e sóis; se é apenas isto o círculo infernal da vida, toda a vida, oh! então é o mal, o mal horrível, indiscutível, imenso, sem fim, sem limites, sem trégua.

A única explicação que se pode conceber de semelhante monstruosidade infinita é que ela é a realização do absurdo e do infame, acima, abaixo, aqui e em todas as partes. Trata-se de admitir ou não essa tontice quintessenciada, como princípio e fim da existência universal. Desesperança ou confiança, pessimismo ou otimismo, disso se há de partir (Eugenio Nus Recherche Del Destinées 256). Eugênio Nus conclui observando que todo pensador dotado de sentido filosófico recusará sempre admitir a possibilidade teórica da existência de um universo sem finalidade. Um naturalista inglês, o coronel Hardwick, chega à mesma conclusão escrevendo: A tese espiritualista tem seus defeitos, mas possui uma força invencível: é verdadeira. Se alguma dúvida a esse respeito fosse possível, que se sugeriria? Qual seria a alternativa? Eis: a extinção. Em outras palavras: este maravilhoso universo, com seus milhões de mundos e sóis girando em perfeito equilíbrio teria sido organizado sem nenhuma finalidade e acabaria onde começou: no caos. O que faria com que a criação do Grande Todo girasse em colossal bancarrota.

Esta grande evolução teria necessitado um tempo infinito, um trabalho sem limites para chegar ao coroamento supremo com o nascimento do homem e de imediato o homem se faz povo... e nada mais. A bolha de sabão estoura e - incrível! - nada continha. Não posso deitar de perguntar-me: um homem que possui equilíbrio mental pode crer em semelhante interpretação do universo? (Light, 1921, página 763.) Certamente, não ignoro a objeção com que se responde aos pensamentos deste tipo, ou seja, que não são senão uma manifestação do sentimento e que a ciência não pode deterse em considerações sentimentais, posto que não deve ocupar-se mais do que à busca da verdade pela verdade. Responderei que essas reflexões, longe de provir somente do sentimento, constituem, pelo contrário, uma indicação imperativa e categórica da razão e da intuição. De fato, o espírito humano - quando não está escravizado por falsas induções científicas - não poderia conceber uma evolução dos mundos, da vida dos mundos, da intelectualidade da vida, que não tivesse uma finalidade.

Quem afirme o contrário poderá ser um naturalista eminente, mas sem nenhum sentido de disputa, carece de sentido filosófico e seria vão discutir com um homem que demonstrasse desta maneira haver perdido a razão intuitiva no abismo sem fundo dos prejuízos de escola. Em todo caso, recordarei que as conclusões a priori da razão intuitiva confirmam admiravelmente a posteriori as manifestações metapsíquicas, tanto as “anímicas” como as “espíritas”, graças as quais se obtém as provas de existências no homem de uma personalidade integral subconsciente, dotada de faculdades de sentido espiritual (animismo) e as provas da supervivência da personalidade (Espiritismo) Abordarei agora mais diretamente o tema deste artigo que pode se resumir na pergunta: qual é o objeto da vida? Do ponto de vista filosófico, seria talvez atrevido formular esta pergunta, posto que as finalidades transcendentais da evolução espiritual do homem seriam sempre impenetráveis. Minha intenção é, sem duvida, mais modesta.

Proponhome unicamente a investigar as finalidades prováveis da atual existência encarnada, como já o fizeram numerosos pensadores, sem contar com o que contêm sobre este assunto as revelações mediúnicas. Cumprirei, pois, com o dever de reproduzir algumas aludidas especulações sobre o mistério do ser e algumas das numerosas revelações mediúnicas concordantes, adicionando algumas considerações pessoais. Em primeiro lugar, eis o pensamento da religião budista, segundo se lê em seus livros: Em primeiro lugar, eis o pensamento da religião budista, segundo se lê em seus livros: Viver é pensar. Viver é estudar Deus, que é O Todo e esta em Tudo. Viver é conhecer, é Buscar, aprofundar, sob todas as formas sensíveis, As inumeráveis manifestações da Potência Celestial Viver é fazer-se útil a si mesmo e aos outros; e ser bom.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.