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Capítulo 7 de 9

Parte 7 de 9

Cérebro e Pensamento · Ernesto Bozzano

Limito-me a repetir que incidentes como estes são inexplicáveis com as hipóteses naturalistas imaginadas até aqui para explicar os fenômenos mediúnicos, o que lhes confere uma grande importância teórica. No que diz respeito ao episódio em questão, é este tanto mais interessante e instrutivo quanto, e completa de um modo inesperado pelo fato de que o espírito do morto cujo cadáver jazia em seu leito de morte, naquela mesma casa, no momento em que o fenômeno se produziu, assegurou depois ser o autor, o que contribuiu admiravelmente para confirmar a tese que nós sustentamos. Em segundo lugar, o episódio que nos ocupa é interessante também porque as manifestações de telecinesia, que se verificaram algumas horas depois da morte de W.A., são análogas às que se produzem nas "casas assombradas" (ruídos de passos que vão e vêm pela casa, portas que se abrem etc.) quando o espírito de W.A. explica havê-los provocado com o fim de assinalar a seus parentes sua presença espiritual, explicação que confirma o já temos confirmado em nossa obra sobre "Os fenômenos de encantamento", a propósito da vulgaridade de certas manifestações de "duendes", vulgaridade que, em nossa opinião, se explica pelo fato de que os espíritos dos mortos se manifestam como podem, não conseguindo sempre manifestar-se como querem.

Pois bem, as explicações que espontaneamente proporcionou a personalidade mediúnica de W.A. confirmam nossa suposição, já que conduzem à conclusão de que a personalidade de que se trata, desejando assinalar aos que a rodeavam sua presença espiritual empregou o expediente de abrir uma porta e fazer ouvir os ruídos dos seus passos, porque não dispunha de outros meios para alcançar seus objetivos, ou seja, que se manifestou como pode e não como quis. Isto posto, logicamente se chega a outra conclusão de que os fenômenos desta natureza, tal como se produzem nas "casas dos duendes", não são de modo algum absurdos "e sem objetivo", como nossos opositores afirmam para inferir a origem subconsciente dos ditos fenômenos.

Pelo contrario, colocando-nos do ponto de vista de quem os produz, são intencionais e racionais, porque revestem o valor de "sinais" por meio dos quais os mortos se esforçam por chamar a atenção dos vivos. O incidente que acabamos de transcrever não é o único em seu gênero que se acha na obra de Bradley. Há outro análogo que o sucedeu durante o período de seus primeiros experimentos com Valiantine. Assim descreve as impressões que experimentou uma noite, tão logo se deitou: Alguns segundos depois, percebi uma sensação especial. Sentia-me cada vez mais leve sobre a cama, como se alguém tentasse levantar meu corpo.

Naturalmente, eu atribui o fato a um simples trabalho de minha imaginação. Sem dúvida, a curiosa sensação persistia e eu a analisara intimamente, assombrado de que pudesse pensar um só instante que a coisa fosse real. E, não obstante, apesar de tudo, o movimento continuava acompanhado de um sentimento de ligeireza do corpo. A cama então começou a balançar suavemente; era como se se esforçassem em levantá-la um pouco do chão. Observei serenamente este movimento durante mais de cinco minutos.

Tinha a sensação da "presença" de alguém no quarto, mas de alguém invisível aos meus olhos... (Pág. 22.) É importante assinalar que o Senhor Bradley não falou a ninguém das singulares sensações que havia experimentado. No dia seguinte, organizou uma sessão com Valiantine durante a qual se manifestou "Annie", que disse, rindo, a seu irmão: Á noite passada vim buscar-te enquanto estavas só. Tu não te deste conta, mas eu observei que minha presença te punha nervoso. Por que? Não te deves impressionar nunca com minha presença.

Eu te quero eternamente e só desejava demonstrar-te que estava a teu lado. Este segundo incidente é, em essência, idêntico ao primeiro, com a diferença, não obstante, de que o primeiro se identifica com as manifestações de "encantamento", enquanto o outro se parece mais com o que se chama "visitas de mortos". Mas, os dois derivam das mesmas causas e ambos são igualmente sugestivos e instrutivos. Com efeito, neste último exemplo vimos o fato de uma irmã falecida que, desejando assinalar ao seu irmão sua presença espiritual, emprega manifestações telecinésicas à sua volta, o que mostra bem claramente que de sua parte teve de se contentar em atingir o objetivo como pôde, já que não conseguiu como o queria. Do ponto de vista que agora nos interessa fica, pois, plenamente demonstrado que os fenômenos de telecinesia no momento da morte e depois dela (quadros que caem, relógios que param, portas que se abrem, ruídos de passos na casa, objetos que trocam de lugar etc.) são efetivamente provocados pelos espíritos dos mortos, com o fim de assinalar a seus parentes sua presença espiritual.

Por conseguinte, fica igualmente demonstrado que os fenômenos análogos que se produzem nas "casas assombradas", longe de serem "absurdos e sem objetivo" são, por sua vez, provocados por entidades espirituais com a mesma intenção de dar a conhecer sua presença no local. Isto é especialmente exato nos casos dos fenômenos de "encantamento" de caráter objetivo ou físico; os outros, de caráter subjetivo (geralmente de forma visual) podem ser explicados segundo os casos, pela hipótese telepático-espírita, quer dizer, que procederiam do pensamento do morto, dirigido com ansiosa persistência para o meio onde viveu e morreu tragicamente, determinando nos sensitivos que habitam a casa alucinações telepáticas verídicas, de seu próprio fantasma indo e vindo pela casa, tal como ele crê fazer nesse momento. Paro aqui com as citações julgando haver proporcionado uma idéia mais que suficiente do valor teórico excepcional do livro do Sr. Dennis Bradley. Convido, pois, aos opositores da hipótese espírita a renunciarem aos seus argumentos relativos à pequenez miserável do espírito humano e a buscarem a obra citada com fim de submeter à análise imparcial e severa os principais casos de identificação espírita que nela são relatados, esforçando-se por aplicar todas as hipóteses naturalistas de que disponham ou inventando outras novas se as antigas são inferiores à tarefa que se vai cumprir.

Estou convencido de que seus esforços não terão resultado positivo. O Senhor Bradley termina seu livro com a seguinte frase: Minhas investigações alcançaram uma conclusão: já não tenho necessidade de crer; agora sei. Ou seja, todos os que lerem seu livro farão eco de suas palavras. Por isso penso que a situação estratégica de nossos contraditores fica cada vez mais desesperada.

Quarta Monografia Reminiscências de uma vida anterior

Esse caso elimina de um só golpe todas as explicações com as quais psicologia oficial se esforça para conta dos fenômenos de "paramnésia", desde a teoria da "falsa memória" até a sugestão, auto-sugestão, as "coincidências, fortuitas " e a "telestesia durante o sonho ".

Há três anos o engenheiro José Costa publicou na Itália obra notabilíssima de assunto metapsíquico intitulada "Di lá dalla vita" (Do outra lado da vida), na qual as provas da sobrevivência da alma extraídas dos fenômenos mediúnicos são apoiados com argumentos impressionantes, baseados nas ciências físicas e químicas. A obra se divide em quatro partes, a primeira das quais contém as experiências pessoais do autor, que consistem principalmente no sentimento do "já visto" e "já sentido" (paramnésia), sentimento que havia experimentado desde sua infância em presença de quadros, de ambientes, de paisagens que lhe acontecia ver e que com freqüência se lhe produziram na adolescência e na juventude. Por fim, um dia, em conseqüência de uma visão que tivera, conseguiu descobrir alguns documentos históricos particulares, graças aos quais viu agrupar-se em um conjunto coerente e orgânico as distintas impressões de paramnésia que experimentara, conjunto que se apresentava com o aspecto de uma série de acontecimentos vividos por um personagem da Idade Média.

Sem nenhuma dúvida, as impressões de paramnésia experimentadas pelo autor convergem à demonstração do fato de que ele mesmo fora o dito personagem, constituindo uma excelente prova neste sentido. Com efeito, este caso elimina de um só golpe todas as explicações com as quais a psicologia oficial se esforça em explicar os fenômenos de paramnésia, começando pelas diferentes teorias sobre a "falsa memória" e terminando pela hipótese da sugestão, da autosugestão, das "coincidências fortuitas" e da "telestesia durante o sonho", estados psicológicos e supranormais que não conseguiram produzir uma convergência de impressões subjetivas perfeitamente concordes com os acontecimentos vividos por um obscuro e esquecido personagem da Idade Média.

O caso era, pois, digno de ser levado em consideração e estudado. Mas continha alguns episódios muito românticos que, embora não tivessem nada inverossímil podiam deixar perplexo o investigador. Mas ele evitava analisá-lo e dar-lhe uma divulgação maior. Não obstante, um de meus amigos que conhecia pessoalmente o Sr. José Costa desde sua infância e que seguira com interesse os incidentes recolhidos pelo referido autor em sua obra, não se cansava de assegurar-me que minhas perplexidades eram injustificadas, que o engenheiro Costa era um homem positivo, sério e probo e que, por outro lado, havia escrito várias obras muito apreciadas sobre construções navais e matemáticas superiores.

Finalmente, vendo que não conseguia dissipar minhas dúvidas (que não tinham, na verdade, outra causa senão a impressão pessoal já indicada) meu amigo se apresentou um dia em minha casa com o Senhor Costa. Eu fiquei impressionado. Achei me na presença de um gigante de uns quarenta anos com um tórax de Hércules e uma aspecto marcial de antigo guerreiro que se harmonizava estranhamente com suas recordações de uma existência anterior, na qual fora um cavaleiro medieval. Uma vez passado meu primeiro sentimento de surpresa, fiz seguir a conversa sobre o caso de que era protagonista, rogando lhe me proporcionasse informações sobre o assunto. Iniciou, com um semblante frio e mesurado, contando-me a história de suas reminiscências referentes a um passado muito antigo que vivera.

Como acontece geralmente em tais circunstâncias, a palavra sincera e convencida do narrador não demorou em dissipar as desconfianças que havia despertado em mim a leitura dos acontecimentos a que nos referimos. Por esta razão, creio-me no dever de relatar brevemente o caso do engenheiro José Costa. Este relato ocupa umas cinqüenta páginas no livro, pelo que me vejo obrigado a resumi-lo. O autor começa assim: Os fatos que vou relatar tem algo de fantástico e irreal. E, sem dúvida, são verdadeiros.

Mas estão de tal forma em oposição com as idéias da maioria dos humanos, com as teorias científicas mais arraigadas, que eu mesmo não pude subtrair-me a um trabalho de análise para julgar os desacordos entre meu raciocínio, orientado segundo idéias pré-concebidas da vida normal e o testemunho dos meus sentidos, que não podiam ter feito o prodígio de transformar imagens alucinatórias em acontecimentos que se realizaram efetivamente. Não ignoro que ao publicar estes fatos, esperavam-me a incredulidade e a crítica pouco benévola. Mas, sei por outro lado, que se me calasse ocultaria fatos que projetaram estranhos fachos de luz sobre os esses comentários e o dever de contribuir com o desenvolvimento das investigações, um campo cientifico de imenso interesse para a humanidade, não titubeio. A crítica deverá, quanto menos, levar em conta meu ato de valor... As primeiras vagas sensações do “já visto” e do “já sentido” surgiram na mente do autor durante sua primeira infância, passada na pequena cidade de Gonzaga, próxima a Mantua.

Acontecia-lhe isto diante de um pequeno quadro que pendia em uma das paredes de sua casa e que representava Constantinopla e o estreito. O senhor Costa escreve: Tenho presente todavia a profunda emoção despertada em mim por um antigo quadrinho que representava uma paisagem oriental, na luz resplandecente de um pôr de sol, que acendia como relâmpagos nas altas torres e as cúpulas douradas de uma cidade que se estendia de um modo pitoresco na orla de um golfo maravilhoso... Este assunto despertava em mim mil recordações de lugares, fatos, tempos antigos, gravados em minha memória com formas que se esfumaçavam quando eu tentava retê-las e penetrar mais fundo nas lembranças. Em vão me esforçava por buscar nos lugares e nos acontecimentos estritamente relacionados com a imagem, à qual se associava à lembrança de uma multidão de homens de armas, de navios desprendendo ao vento suas velas e suas bandeiras, de lutas, de choques de armas ensurdecedores, de montanhas, de vastas extensões de água esfumando-se no horizonte em linhas indefinidas, de colinas verdes, cobertas de flores, descendo suavemente até verdadeiros espelhos d'água, entre luzes e cores que fundiam harmonicamente os meios tons do céu, da terra e da água. Que eram essas imagens tão vivas, tão claras, tão presentes em minha memória e que contrastavam tanto com as paisagens e a tranqüilidade prosaica da planície de Mantua?

Não se referia certamente a fatos, a acontecimentos de minha vida presente, nem a relatos nem a leituras, pois eu não sabia sequer dar o nome apropriado de navios, lagos, guerreiros nas impressões que me apareciam nessa forma simbólica. Não pude fazê-lo senão alguns anos mais tarde, comparando com descrições ou figuras essas imagens que eu conhecia sem havê-las visto nunca, nem em realidade nem em desenho. O Senhor Costa destaca que estas vivas evocações espirituais de sua infância, provocadas pelo quadrinho colocado na parede, teria se dissipada provavelmente com a idade se uma estranha sucessão de idéias não houvesse enlaçado o quadro de Gonzaga com a cidade de Veneza, quando seu pai o levou até lá. Tinha então dez anos e assim descreve suas impressões: Desde minha chegada, o eco tão característico das vozes e sons da cidade, apagando-se na água dos diques e canais, evocou em meu espírito uma impressão análoga que, ao surgir, me havia surpreendido no mesmo lugar e do mesmo modo, muito tempo antes... E, a sensação que lhe produziu este sentimento "já visto", do "já sentido" foi tão forte que durante a noite se transformou em um sonho vivo.

Sonhei que chegava a Veneza depois de um longo trajeto por rios e canais, por entre pântanos e vales, em barcos cheios de uma multidão de homens armados como na Idade Média. Eu estava no meio deles, mas com aspecto de um homem de uns trinta anos, encarregado do mando. Depois, uma estância em Veneza; logo, o embarque em galeras sobre as quais flotavam estandartes azuis com a imagem sagrada de Maria em meio a estrelas douradas e bandeiras vermelhas com a grande Cruz Branca de Saboya. Sobre o barco-insígnia, mais pintado e decorado que os demais, um personagem a quem todo mundo prestava cortesias, falava-me com afetuosa cordialidade. Depois, a extensão infinita das águas até os limites do horizonte, o desembarque em uma terra fértil, sob céu límpido de cobalto.

Um novo embarque e outro desembarque em uma praia deserta, dominada por uma cidade defendida por altas torres, cheia de guerreiros. Logo o assalto, a batalha, a luta feroz, a vitória, nossa entrada na cidade conquistada. Finalmente a marcha de nosso exército até a cidade das cúpulas douradas no golfo maravilhoso. Era esta a cidade pintada no quadro de Gonzaga: Constantinopla, tal como a revi depois... O autor observa que estas imagens do sonho não eram fantasias nem criações novas; que constituíam os acontecimentos que desde sua primeira infância evocavam em seu espírito o quadrinho que pendia na parede; acontecimentos que, no sonho, foram coordenados em uma sucessão lógica, cronológica, como deveriam se produzir na realidade.

Sua mentalidade infantil foi de tal modo impressionada que acreditou haver sonhado a verdade. Neste sentido falou-lhe seu pai, esforçando-se por tirar-lhe da cabeça estas fantasias. Já adulto, o Senhor Costa sentiu nascer em si uma verdadeira paixão pelas armas, as salas de armas, as ginásticas e os locais de equitação. Entrou para o exercito na qualidade de voluntário. Pouco depois foi nomeado subtenente no regimento da cavalaria "Piemonte-Reale", com guarnição em Verceil.

Viu-se imediatamente em seu meio natural, "como se retomasse costumes e tendências adquiridas em um passado distante". Um dia, atraído por uma solene e misteriosa harmonia sagrada, entrou na igreja de San Andrés, em Verceil, e se sentiu invadido pelo sentimento profundo de uma humilhação sofrida em outros tempos. E se pergunta: Por que transpus com tanto temor o umbral da igreja, como se a voz de um arrependimento já distante houvesse despertado em mim? Por que contemplei com uma dolorosa lembrança as três majestosas naves, os maciços pilares, com sua coroa de colunas ligeiras? Havia entrado no passado nesta igreja?

Estes mármores solenes haviam sido testemunhas de uma cerimônia análoga pela qual minha alma durante muito tempo ficou oprimida? Eu não soube então, nem durante algum tempo, explicar-me logicamente estas lembranças, bem como outras reminiscências que despertavam em mim paisagens e acontecimentos com a nitidez e o colorido das coisas reais... O autor prossegue dizendo que as urgentes necessidades da vida não tardaram a impor-se a ele, levando-o a renunciar a toda investigação que não tivesse como resultado imediato o melhoramento do bem estar de sua família. Nestas condições, as misteriosas reminiscências que nele despertavam, de armas e batalhas, de galeras e cidades orientais, ficariam apagadas ao contato com a realidade, se outros acontecimentos em sucessão incessante não se houvessem projetado e justaposta às sensações da primeira juventude, levando-o a meditar seriamente sobre sua possível origem. Mas o Senhor Costa era um positivista materialista, o que impedia que seu pensamento tivesse uma orientação justa.

Finalmente, aconteceu-lhe um incidente em que esteve a ponto de perder a vida, que modificou radicalmente suas convicções filosóficas. Um noite em que se achava estudando, preparando-se para os exames do diploma universitária, foi vencida pela sono, caindo sobre a cama e provocando a queda de uma lâmpada de petróleo que não se apagou, produzindo uma densa labareda asfixiante. A atmosfera se tornou irrespirável e o Senhor Costa sucumbiria asfixiado se não houvesse sucedido estranho incidente. Viu-se subitamente de pé em meio ao quarto, perfeitamente desperto, mas separado do corpo o qual contemplava diante de si, deitado insensível sobre o leito. E não somente o via exteriormente, mas, também, interiormente, divisando sobretudo os plexos nervosos e os vasos sangüíneos que palpitavam a um ritmo acelerado.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.