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Capítulo 9 de 10

Editora Feesp — parte 8 de 8

Bezerra de Menezes · Canuto Abreu

podem, não segundo a vontade dos homens, mas da Inteligência que dirige o mundo. Dependesse ela embora só dos homens a ainda assim seria grande erro admitir que os Espíritos por amor de um centro humano, se submetessem todos ao regulamento autoritário que o centro lhes ditasse. Tampouco se devia supor que os homens aceitassem facilmente uma tal sujeição de consciência. Não se podia olvidar que são justamente os rebelados contra as disciplinas religiosas, contra o autoritarismo infalível, contra o Crê ou Morre, contra a prisão da fé, os que se tornaram espíritas. Como impor novo jugo a essa gente revoltada, - que já lançou fora a canga antiga? Como sujeitá-la a um novo báculo depois que abandonaram o de seu primeiro pastor? Em derradeiro lugar, "ordem bem regulada" haveria de ser um código de ética espírita. Sua eficiência dependeria das sanções. Quem as imporia aos faltosos? Em que consistiriam elas? Naturalmente, um pontífice. Naturalmente, a excomunhão. Ainda que um dia, para castigo dos homens, um código dessa natureza viesse a ser decretado, as leis naturais, que regulam o comércio com os Espíritos, não seriam alteradas, como não o foram no passado. As manifestações continuariam, como sempre, formando-se, no silêncio e na penumbra, as dissidências ocultas, muito mais perigosas para as ortodoxias, porque arrebanham pela qualidade e não pela quantidade.

"Sem harmonia de ação, sem o concurso harmônico dos grupos entre si, o Espiritismo não fará mais progresso no Brasil, não passará de uma crença sem base, variante de indivíduo a indivíduo." A variabilidade do Espiritismo segundo a pessoa e o meio, tão natural e necessária à harmonia geral, não podia agradar aos sectaristas. Os místicos investiram contra ela, mirando apenas à harmonia particular mais conveniente à sua seita. O progresso, a que se referiam, não era do Espiritismo antigo, kardeciano, mas do neo-Espiritismo, que desejavam divulgar. Esse, na verdade, tendo uma base invariável, não se poderia propagar "sem harmonia de ação, sem o concurso harmônico dos grupos". Qualquer divergência na propaganda provocaria o fracasso do sistema, ou criaria heresias. O neo-Espiritismo dos místicos, para fazer progresso no

Brasil, teria de contar com uma disciplina figa rosa, capaz de fazer de cada adepto um fanático. E que base invariável seria essa, afinal? Os místicos não a revelaram expressamente porque toda a gente sabia que era o Evangelho. "A união faz a força. Organização e organização, é a palavra que parte de todos os lábios, é a idéia que paira em todos os pensamentos, porque é chegada a hora de passarmos da fase sincrética à fase analítica, como acima indicamos." Estavam resolutos. Era verdade que, desde há muitos anos, se falava numa organização do Espiritismo entre nós. É, aliás, a preocupação de todos os que se agrupam: universalizar o seu grupo. Todas as sociedades querem a união em torno de si. Por quê? Para adquirir a força. Seria um erro, pois, supor que estava generalizada a idéia de se liquidar com o ecletismo doutrinário. O que se queria era acabar com a liberdade alheia de entender e praticar o Espiritismo. Os místicos supunham chegada a hora de suplantar o ecletismo com a sua nova síntese.

Mas sabiam que a própria solidariedade entre os crentes, tão útil para enfrentar os inimigos comuns, não podia deixar de ser partidária. A harmonia entre os espíritas pela mútua tolerância, tão necessária à vitória da causa comum, não era admissível com "adversários". Na hora da luta não se pensa em paz. Só os vencidos a pedem. O povo espírita não clamava a una voce que o privassem da experiência pessoal, que lhe restringissem o direito de investigar, que o proibissem de discutir, recusar ou aceitar o que quer que fosse. Os místicos queriam, entretanto, tentar a execução de seu plano e não podiam deixar de apelar para a necessária união. Estavam no seu direito.

"Aceitamos, pois, de boa vontade, como nos cumpre, as inspirações que nos dão os prepostos do Senhor, incumbidos de desenvolver o Espiritismo no Brasil. Organizemos". Neste trecho final encontrava-se o busílis da plataforma. "Aceitavam de boa vontade a missão que supunham ter recebido dos prepostos do Senhor. Estava o busílis porque todos sabiam que, desde o Grupo

Confucius, se anunciava haver um certo número de Espíritos encarregado do desenvolvimento do Espiritismo em nossa terra. Esses prepostos, chefiados por Ismael sustentavam que o Brasil era a terra eleita do Evangelho e, portanto, nenhum Espiritismo poderia nele dar bons frutos se não tivesse como base a Palavra Eterna. Muitos aceitaram essa revelação. Outros a recusaram, considerando-a sectária e oposta à finalidade universalista da Doutrina Espírita. Os que a aceitaram apegaram-se ao estudo dos Evangelhos. E como o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Kardec, era um comentário, não aos evangelhos, mas aos princípios basilares da doutrina de Jesus mais conformes aos ensinos dos Espíritos, e não era, além disso um comentário feito pelos Espíritos e sim uma aplicação devido ao gênio do autor, buscaram uma obra mais vasta e mais espirítica. O livro de Roustaing chegara ao Brasil muito cedo, quase ao mesmo tempo que os livros de Kardec.

Os espíritas evangélicos mais cultos, à frente dos quais se achava o mais erudito de todos — Bittencourt Sampaio —, tomaram Os Quatro Evangelhos como vade-mécum e o levaram à altura de última palavra sobre doutrina de Jesus. O livro de Roustaing apresentava o mesmo valor doutrinário de "O Livro dos Espíritos", isto é, ambos atribuíam o que estava escrito a uma revelação ditada. Mas tinha sobre a obra de Kardec uma vantagem para o crente: todas as explicações eram dadas como advindas dos próprios evangelistas, assistidos pelos Apóstolos e estes, a seu turno, assistidos por Moisés. Os crentes dispensam em regra as provas. Contentam-se com a presunção de boa fé. O rustanismo pôde assim, graças à tolerância dos Espíritos evangélicos, ganhar adeptos entre os místicos. Se jamais os prepostos e muito menos o seu Chefe afirmaram que na obra de Roustaing estava o verdadeiro sentido da vida e doutrina de Jesus, também jamais fizeram uma assertiva em contrário. Mesmo porque, se tal fizessem, perderiam o tempo e a simpatia do fanático, e apagariam uma fé bruxoleante, que cumpre alimentar cuidadosamente.

A obra de Roustaing concorreu, entretanto, para dividir os crentes e criar dificuldades invencíveis à desejada harmonia de vistas. Os espíritas cristãos passaram a formar dois grupos bem distintos: os kardecistas e os rustanistas. Os primeiros tinham Deus como único Senhor, causa primeira de todas as coisas, e recebiam Jesus como irmão, a quem denominavam Espírito Verdade. Não davam

ao Cristo quaisquer característicos de deidade, não o consideravam, absolutamente, como os rustanistas, "a maior essência espiritual depois de Deus". Os outros, porém, consideravam Jesus o Senhor, igualando-o a Deus. Distinguiam o Pai e o Filho, mas lhes atribuíam uma única deidade, ainda que rejeitando a consubstanciação dos teólogos. Veneravam, além disso, uma Senhora, a cuja intercessão apelavam de preferência. Além dessa divergência capital, alimentavam outras, entre as quais avulta a que discutia a natureza da carne de Jesus. Os kardecistas negavam e os rustanistas aceitavam a hipótese dos docetas (35). (35) A primeira heresia do cristianismo foi o docetismo, nome com que Serapião, bispo da Antioquia, no século segundo, designou os adeptos da teoria da vida aparente de Jesus, em oposição aos sacorgenistas, que acreditavam no nascimento, vida e morte humana do Messias. Foi também a primeira heresia do Cristianismo espírita.

Ora, como a Federação ia ficar nas mãos dos adeptos do rustanismo, compreenderam os kardecistas e os espiritistas puros que teriam, mais cedo ou mais tarde, de se retirar e lutar contra ela por causa da desinteligência de princípios. A plataforma foi, por essa razão, recebida como um sinal de guerra. Com a promessa de formar um novo Espiritismo baseado do Evangelho, o que naturalmente os místicos iriam impor com o tempo pela propaganda sistemática e regulamentada seria, nem mais nem menos, o rustanismo. O célebre editorial, que tantos comentários provocou, como procuramos mostrar, terminava com estas palavras: "Para organizarmos é preciso, primeiro, ligar em uma grande falange os trabalhadores; secundo, regularizar metodicamente o seu trabalho. No próximo número daremos o plano de organização." Foi ao seu tempo, como dissemos, um aviso de luta. Na opinião geral, se os místicos conseguissem ligar uma grande falange, adeus Espiritismo científico!

No dia 3 de agosto de 1895, realizou-se, na sede social, às 8 horas da noite, uma assembléia geral com a presença de vinte místicos e dois

científicos. A reunião havia sido convocada, não só para a eleição de Bezerra de Menezes, mas, por proposta deste, para o exame da situação financeira da casa e conhecimento da nova orientação na propaganda. Bezerra de Menezes presidiu a sessão. Discutindo a crise monetária da Casa, um dos científicos procurou ferir a probidade de um dos mais dignos sustentáculos e ornamentos da Federação antiga, a quem se devia em grande parte o seu ressurgimento. Era uma clamorosa injustiça. A revolta geral abafou o orador, que perdeu o entusiasmo com que viera talvez para combater a nova orientação. Serenados os ânimos, foram aprovadas as medidas de emergência praticadas pela anterior administração e dados poderes discricionários ao novo presidente. A eleição foi simples e rápida. Bezerra de Menezes obteve 19 votos e, por proposta de Elias da Silva, foi considerado empossado. O presidente expôs o seu pensamento. Recebia a Federação, do ponto de vista material, despida dos recursos mais urgentes, sem verba sequer para o aluguel. Queria recebê-la também, do ponto de vista espiritual, sem quaisquer compromissos de ordem doutrinária.

Era, portanto, no duplo sentido, uma reorganização, que lhe cabia fazer. Precisava de carta branca, mas lhe era indispensável o concurso de todos os seus amigos. Contava com a dedicação dos crentes e apelava para que nenhum desertasse na hora em que se ia travar uma luta por Jesus. Não só a Federação, mas o Espiritismo, no Brasil, precisava de um chefe. Que chefe maior, mais seguro, mais infalível poderiam todos almejar do que Jesus, o Senhor e Mestre de quem seria mero servidor? A liberdade de ação, que lhe era outorgada, não serviria jamais para impor a sua vontade pessoal, nem para exercer uma autoridade, que não tinha. Dado o novo rumo que ia imprimir à Casa, os estatutos estavam praticamente abrogados. A vida social teria de ficar subordinada à nova era, que raiava para a Federação. Ficavam extintas as sessões de puro academicismo, em que eram discutidas teses glaciais, que só serviam para enfraquecer os laços de solidariedade entre os homens, laços que surgem quando há interesses doutrinários comuns.

Voltava a ter lugar, uma vez por semana, a sessão pública, que instituíra em 1890, destinada ao estudo sistemático e graduado da Doutrina Espírita, sobretudo do Evangelho. A sessão seria às sextas-feiras, às 9 horas da noite. Todas as deliberações seriam publicadas

no Reformador, quando tivessem um interesse geral. Por fim, agradecendo a boa vontade dos companheiros, fez uma prece de graças a Deus, a Jesus e a Maria, encerrando a sessão. E assim como um dia sucede ao outro, mudou-se o rumo da Federação. O Reformador, no "Noticiário" de 15 de agosto concluiu a nota sobre a assembléia com estas palavras, cujo sentido hoje pode ser bem compreendido pelos que consideram os homens meros instrumentos da Grande Vontade invisível: "A Federação tem tudo a esperar do seu novo presidente e pensa que, se o apoio e a boa vontade dos nossos irmãos se fizerem efetivos e reais, em breve tempo ela se terá firmado e engrandecido, nesta nova fase em que em boa hora entrou." Era a fase dos místicos, que dura até hoje.

As instruções de Allan Kardec

A 5 de fevereiro de 1889 manifestava-se Allan Kardec através do médium Frederico Pereira da Silva Júnior, mais conhecido por Frederico Júnior, dizendo: "Eis que se aproxima para mim o momento de cumprir minha promessa, vindo fazer convosco em particular e com os espíritas em geral um estudo rápido e conciso, sobre a marcha da nossa Doutrina nesta parte do planeta. E natural que a vossa bondade me forneça para isso ensejo, na próxima sessão prática, servindo-me do médium com a mesma passividade com que o tem feito das outras vezes. A ele peço, particularmente, não cogitar da forma da nossa comunicação, não só porque dessa cogitação pode advir alteração dos pensamentos externados, como ainda porque acredito haver necessidade, sem ofensa à sua capacidade intelectual, de submeter a novos moldes, quanto à forma, aquilo que tenho dito e vou dizer em relação ao assunto. Realmente, na sessão seguinte, na sede da "Sociedade Espírita Fraternidade", no Rio de Janeiro, manifestou o Espírito do Codificador, dando as seguintes Instruções aos espíritas brasileiros, que na época viviam em constantes dissensões e rivalidades:

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