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Capítulo 2 de 10
Editora Feesp — parte 1 de 8
Bezerra de Menezes · Canuto Abreu
Johannes Vermeer - Vista de Delft
Conteúdo Resumido
Este livro representa a condensação de uma série de artigos escritos pelo emérito Dr. Silvino Canuto Abreu, e publicados na revista Metapsíquica, na década de 1930. Esperamos que esta publicação venha ensejar, às novas gerações, o
conhecimento de alguns episódios interessantes que fazem parte integrante da História do Espiritismo, em nosso país.
Sumário Prefácio / 03 Quem foi o Dr. Silvino Canuto Abreu / 06 Bezerra de Menezes / 09 Bezerra de Menezes - Deputado Geral / 16 Os primeiros homeopatas / 18 Olímpio Teles de Menezes / 21 O Grupo Confucius / 23 Augusto Elias da Silva / 28 Federação Espírita Brasileira / 30 Os artigos de Max (Dr. Bezerra de Menezes) / 34 A presidência da FEB / 37 O advento da República / 46 Leopoldo Cirne / 51 Júlio César Leal / 55 "Iremos todos contigo" / 62 As instruções de Allan Kardec / 75
Prefácio
Este livro representa a condensação de uma série de artigos escritos pelo emérito Dr. Silvino Canuto Abreu e publicados na revista Metapsíquica, na década de 1930. No ano de 1950, por ocasião da realização do II Congresso Espírita do Estado de São Paulo, a FEESP publicou-o em forma de opúsculo, dada a relevância dos assuntos nele focalizados e com o objetivo de legar à posteridade um relato histórico do que aconteceu no Brasil, em matéria de Espiritismo, desde os seus primórdios até o ano de 1895. Aquela edição esgotou-se rapidamente por ocasião da realização do aludido Congresso, deixando nos meios espíritas, que se ressente da falta de subsídios históricos, uma imensa lacuna que procuraremos preencher agora com a publicação desta nova edição.
As Edições FEESP, decorridos trinta anos do lançamento da edição anterior, e quarenta e cinco da publicação desse material nas colunas da famosa revista Metapsíquica, publica esta nova edição, aproveitando o ensejo para também divulgar ligeiros traços biográficos da figura exponencial do Dr. Silvino Canuto Abreu, desencarnado em 2 de maio de 1980. Esperamos que esta publicação venha ensejar, às novas gerações, o conhecimento de alguns episódios interessantes que fazem parte integrante da História do Espiritismo, em nosso país. O objetivo da FEESP em lançar esta nova edição foi o fato de se comemorar, em 1981, o transcurso do 150° aniversário de nascimento do grande apóstolo do Espiritismo brasileiro, Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, missionário que deu tudo de si para unir os vários grupos espíritas que viviam esparsos no século passado. Ao manusear a obra, o leitor estranhará o emprego de termos como
kardecistas, místicos, espíritas puros, rustainistas, científicos, swedenborgistas e outros; entretanto, esse era o panorama existente nos últimos anos do século XIX, e não poderemos jamais falsear a História. Na realidade, no século passado muitos espíritas eram de parecer que se deveria estudar apenas O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, devendo a Doutrina ser encarada apenas como ciência; outros eram de parecer que o Espiritismo deveria ser filosófico e religioso. Denominava-se Doutrina Espírita apenas ao que constava de O Livro dos Espíritos; os estudiosos dos demais livros de Kardec, se chamavam Kardecistas. Chegou-se a criar um chamado Espiritismo Puro, eqüidistante de "científico" e "místicos". Além destes existia ainda um grupo que se dedicava com afinco ao estudo das obras de J.B. Roustaing. O quadro era realmente desalentador e representava verdadeira dispersão. Esse panorama perdurou até quando surgiu no cenário espírita a figura apostólica do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, Espírito moderado e pacificador, que, assumindo a presidência da Federação Espírita Brasileira, conseguiu reduzir as proporções da dispersão generalizada, até então prevalecente.
Se ele não conseguiu equacionar os gigantescos problemas com que deparou, pelo menos evitou que eles alcançassem maior amplitude, o que fez até o início do ano 1900, quando adoeceu, vindo a desencarnar no dia 11 de abril desse mesmo ano. Bezerra deixou um movimento espírita com linhas bem mais definidas e com horizontes bem mais desanuviados. Como se pode evidenciar na obra, nem as importantes instruções, recebidas do Espírito Allan Kardec, pelo famoso médium Frederico Júnior, as quais mereceram a aceitação plena de Bezerra de Menezes, conseguiram fazer silenciar as discórdias. No dealbar do século XX, não estando entre nós, em suas vestes carnais, nem Bittencourt Sampaio, nem Bezerra de Menezes, nem por isso eles deixaram de influenciar, como Espíritos, os que estavam à frente do movimento espírita, no sentido de silenciarem as divergências, dirimirem as dúvidas e eliminarem as rivalidades. A história registra que, assumindo a presidência da Federação Espírita Brasileira e permanecendo nesse cargo durante 14 anos, o grande Leopoldo Cirne ensejou uma significativa estabilidade no movimento espírita, sem que isso significasse a tão
almejada pacificação. Nessa altura dos acontecimentos, o Espiritismo já estava alastrando suas raízes pelos Estados brasileiros. Várias entidades de âmbito estadual foram criadas, surgindo grandes vanguardeiros em numerosas cidades brasileiras. O trabalho incomparável desses homens representou um verdadeiro embate de pigmeus contra gigantes, mas eles, com suor e lágrimas, conseguiram implantar a bandeira do Espiritismo em terreno até então árido, fato que contribuiu, de forma decisiva, para que a Doutrina dos Espíritos se firmasse como um dos grandes movimentos de renovação espiritual do mundo contemporâneo, com maior amplitude no Brasil — coração do mundo e pátria do Evangelho. No Estado de São Paulo, pioneiros espíritas da estirpe de Batuíra, Anália Franco e Cairbar Schutel já no início do presente século atuavam no campo da divulgação doutrinária.
Eurípedes Barsanulfo, em Minas Gerais; José Petitinga, na Bahia; e o Major Viana de Carvalho, percorrendo vários Estados brasileiros, fundando federações e centros espíritas, representavam um grandioso esforço para que a Doutrina dos Espíritos se consolidasse de forma definitiva, sem enumerar outros tantos valorosos seareiros que surgiam simultaneamente em todos os quadrantes do Brasil. Tudo isso fez com que se transformasse radicalmente o panorama espírita brasileiro. A conceituação espírita de Ciência, Filosofia e Religião passou a ser consagrada pela imensa maioria dos seguidores da Doutrina. A Codificação Kardequiana passou a ocupar o lugar grandioso que lhe estava reservado desde 18 de abril de 1857, tornando-se paradigma, se não para todos, pelo menos para a esmagadora maioria dos espíritas. Como decorrência, já se eclipsou na voragem dos tempos a época em que imperava, nos meios espíritas, o personalismo e as dissensões. Hoje o movimento espírita está muito mais coeso, já representa poderosa força propulsora e, como afirmou Monteiro Lobato, "já não é mais o pequenino riacho, mas tem tudo da onda que rola." Doutrina Espírita é sinônimo de Espiritismo. A sua estrutura não comporta qualquer outro gênero de ramificação. A Doutrina dos Espíritos, ou Terceira Revelação, foi codificada por Allan Kardec, tem estrutura própria e contornos definidos, jamais podendo ser confundida com
movimentos paralelos ou seitas divorciadas daquilo que o emérito mestre francês estruturou nas obras fundamentais do Espiritismo, e que representa a súmula de tudo aquilo que o Espírito de Verdade, prometido por Jesus Cristo, veio revelar à Humanidade sofredora. Paulo Alves Godoy Quem foi o Dr. Silvino Canuto Abreu
Nascido em Taubaté, Estado de São Paulo, no dia 19 de Janeiro de 1892 e desencarnado em São Paulo, no dia 2 de maio de 1980. Formou-se em Farmácia aos 17 anos de idade pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, na qual também concluiu, em 1923, o curso de Medicina. Bacharelou-se em Direito pela antiga Escola de Ciências Jurídicas e Sociais, depois Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, no ano de 1916. No campo jurídico, começou a advogar aos 22 anos de idade, no contencioso do Banco Hipotecário do Brasil e da Caisse Commerciale et Industrielle de Paris. Especializou-se em Direito Comercial, Assuntos Bancários e Econômicos, trabalhando no Banco do Brasil e outros até 1932. Desempenhou vários encargos particulares do Governo Federal. Esteve no Extremo Oriente cerca de um ano, estudando in loco assuntos pertinentes à imigração oriental para o Brasil. Foi autor do projeto do Banco do Brasil "Comissão do Açúcar", mais tarde transformada no Instituto do Açúcar. No campo da Medicina, cuja ciência sempre estudou e amou, escreveu inúmeros artigos publicados entre 1925 e 1930, emitindo idéias com referência à Medicina Social.
Foi fundador e Presidente da Associação Paulista de Homeopatia. Como clínico, jamais aceitou qualquer retribuição direta ou indireta de seus serviços médicos. Foi membro de várias entidades assistenciais e vicentinas, dedicou-se com afinco ao trabalho em prol da criança abandonada. Fundou no Rio de Janeiro, com outros beneméritos, alguns orfanatos. Tornou-se colaborador a partir de 1934, quando passou a residir em São Paulo, da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, uma das mais antigas instituições de assistência à infância em nosso Estado (fundada em 1901 por Anália
Franco). Juntamente com a Diretora Geral, Cléo Duarte, empreendeu reformas e construções importantes, fazendo dos Internatos Anália Franco, para meninos, e Eleonora Cintra, para meninas, dois estabelecimentos únicos, com capacidade para mais de 300 crianças. Na vida econômica se fez por si. Foi sempre progressista, orientado pelo idealismo de bem servir a coletividade. Em São Paulo associou-se a José Baptista Duarte, nas Indústrias J.B. Duarte, sendo seu Presidente. Na esfera teológica, empolgado desde os 18 anos pelos estudos bíblicos, empreendeu, entre outros trabalhos, a versão direta dos Evangelhos gregos, tomando por base o mais antigo manuscrito do Novo Testamento, até a época. Pesquisou nas Bibliotecas do Museu Britânico, Biblioteca do Vaticano, Biblioteca Nacional de Paris. Profundo conhecedor da História do Espiritismo no Brasil e no mundo, escreveu, em 1936, quando ainda circulava a revista Metapsíquica, órgão da Sociedade Metapsíquica de São Paulo, vários artigos abordando fatos ocorridos no Brasil até o ano de 1895, detendo-se, com profundeza de detalhes, na atuação do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes à frente do movimento espírita em nosso país.
Estes artigos foram publicados, em 1950, em forma de opúsculo, por ocasião da realização do 2° Congresso Espírita do Estado de São Paulo. No ano de 1953, deu início, pelas colunas do jornal Unificação, órgão da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, à publicação de uma série de artigos sob o título "O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária", o que fez até junho de 1954. Esses artigos, de suma importância, foram publicados em livro, pelo Lar da Família Universal, do Instituto de Cultura Espírita de São Paulo. Em abril de 1957, no evento das comemorações do I Centenário de lançamento de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, o Dr. Canuto Abreu, que fazia parte da comissão organizadora das festividades do centenário, fez publicar, em edição bilíngüe, nos idiomas francês e português, o Primeiro Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, reproduzindo o famoso livro na forma em que foi lançado pelo Codificador, no dia 18 de abril de 1857, traduzindo-o também para o vernáculo. Como se sabe, aquela obra básica do Espiritismo foi sensivelmente refundida pelo próprio autor, quando da publicação da sua segunda edição, em 18 de
março de 1860, a qual se tornou definitiva. O Dr. Canuto foi Diretor-Geral da Sociedade Metapsíquica de São Paulo, entidade que posteriormente se fundiu na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Foi expositor da Primeira Turma da Escola de Aprendizes do Evangelho, da mesma Federação, tendo tomado parte na elaboração de alguns dos livros usados naqueles cursos. Ao longo de sua vida laboriosa e de suas numerosas viagens ao Exterior, conseguiu amealhar livros e documentos raros, formando imensa Biblioteca. Durante a II Grande Guerra Mundial, quando os exércitos alemães invadiram a França, tornou-se depositário de alguns documentos históricos que estavam em poder da sociedade que dirigia os destinos do Espiritismo naquela importante nação européia. O Dr. Canuto passou seus últimos anos de vida entre seus livros e documentos, sempre ativo e interessado em tudo. O Espiritismo muito lhe deve, pelo muito que fez em favor da divulgação dos seus postulados e pelo seu incomparável esforço em favor das pesquisas que formam parte da História da Doutrina, no Brasil e no mundo.
Bezerra de Menezes
Canuto de Abreu
No Brasil nenhum outro espírita ainda se destacou mais que BEZERRA DE MENEZES, o consolidador da Federação Espírita Brasileira e o orientador e chefe do Cristianismo espírita entre nós.
BEZERRA DE MENEZES nasceu no dia 29 de agosto de 1831, na freguesia do Riacho do Sangue, Estado do Ceará, recebendo a pia batismal do catolicismo, dias depois, o nome de Adolfo. Aos 6 anos sabia ler, aos 7 iniciava o curso primário, na Vila do Frade, aos 11 principiava o curso de Humanidades, em Imperatriz. Seu aproveitamento era notável, bastando lembrar que aos 13 anos, foi professor de latim na própria escola em que fazia seus preparatórios. Orientava-o, nos estudos, o tio e grande amigo Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra. Decorridos os cinco anos de ginásio, embarcou, em 5 de fevereiro de 1851, com destino à Corte, para se matricular na Escola de Medicina. Chegou ao Rio de Janeiro sozinho, com 20 anos, no bolso 38$000 e no espírito uma esperança imensa. Como todo moço do interior nordestino, trouxe consigo um catolicismo eivado de fatos espíritas. O folclore brasileiro está repleto de crendices espiritóides. Desde criança ele ouvia a narrativa de aparições de almas, de manifestações do diabo, de casas mal-assombradas. Não eram só os sertanejos que lhe contavam essas histórias. Pessoas gradas também. "Quem escreve estas linhas", disse ele (1), "criou-se em meio do povo sertanejo até a idade de 18 anos e guarda daqueles tempos e lugares a mais viva memória, qual não pôde conservar de fatos ulteriores". Aos 7 anos, ouviu de pessoas conceituadas que as almas dos mortos vinham a
este mundo visitar os vivos. Em 1840, em sua casa, na freguesia do Riacho do Sangue, o Dr. Antonio Leopoldino de Araújo Chaves, juiz de direito de Quixeramobim, contou um caso estranho que se passara com conhecida moça. Uma possessão, que durou dias e resistiu ao exorcismo do padre Frutuoso. "Devo declarar", diz Bezerra (2), "que eu era bem menino quando a ouvi; mas, alguns anos depois, tive a ratificação do padre Frutuoso, na Capital. Naquele tempo e principalmente entre gente ignorante, vigorava a idéia de que era o demônio que fazia aquelas artes, por isso, tanto o juiz como o padre contavam o fato como prova do poder do diabo de entrar no corpo de um ser humano". (1) Reformador, I ag. 1890. (2) Idem. Durante os primeiros tempos, continuou na crença e prática religiosas que trouxera do berço, mas na convivência dos colegas, livre-pensadores e ateus, principiou combatendo-os e acabou concorde com eles, "por não ser firmada na razão a minha fé. A mudança, porém, não foi radical: nunca pude banir de todo a crença em Deus e na alma. Tive "dúvida", fiquei "céptico", mas no fundo era deísta e animista" (3). (3) "Reformador", 15-7-92.
Pobre, precisando lecionar para sustentar-se, passando às vezes grandes privações, a fé em Deus e a prece diuturna o amparavam nos momentos mais difíceis. Estudava pelas bibliotecas e comprava livros de segunda mão. Mantinha, entretanto, linha de conduta impecável não só como cidadão, mas sobretudo como estudante. Forte, corado, olhos meigos e inteligentes, sorriso bondoso, gestos elegantes e nobres, palavras meditadas e filosóficas, foi sempre um conselheiro e um guia, desde os primeiros tempos. Preparava-se para ser chefe entre seus pares. Sua nota de exame era habitualmente "optima cum laudare". Apesar de poucos recursos, não gostava de morar em república de estudantes. Vivia comumente só, em quarto modesto, e tinha pequeno número de amigos. "Eu sinto uma saudade", escreveu ele (5), "doce como os eflúvios que arranca do coração o toque da "Ave Maria" no campanário
do sertão, triste como o gemido da rola a prantear a perda do terno companheiro! Eu sinto minha alma, arrebatada nas asas do pensamento, rir e chorar, em êxtase de poética melancolia, toda a vez que me vem à mente uma recordação dos meus tempos de estudante, dessa quadra da vida em que tudo são flores, porque os espinhos estão guardados para o fim. Repassava eu pela memória as cenas desses felizes tempos e eis que de lindo jardim se destacam e vêm a mim dois vultos de moços, que foram meus melhores amigos na Faculdade de Medicina, onde junto estudamos. Já lá vão anos e anos! Já ninguém se lembra mais dos dois astros que fulguravam na ciência e na literatura! Já só guarda lembrança de sua passagem por nossa sociedade este velho perdido para a terra, que parece ter tido por missão cerrar os olhos aos companheiros de jornada, esperando que lhe cerrem os seus os filhos da nova geração.
Antes que chegue esse dia, para tantos pavoroso e para mim auspicioso, quero dizer ao leitor a história dos dois moços, que acudiam à minha evocação do passado, meus caros companheiros, que trocaram as alegrias deste vale de lágrimas pelas lágrimas do vale de alegrias". (5) "Casamento e Mortalha." A esses dois amigos ele emprestou qualidades, pensamentos, atitudes, que foram dele próprio. Através do enredo podemos bem ver o estudante Bezerra, tal como ninguém melhor poderia descrevê-lo: "Separamo-nos exclusivamente preocupado com os preparativos para a viagem e, porventura, com o modo de arranjar dinheiro para fazê-la. Era pelo menos neste ponto que eu sentia o engasgo. Dividindo meu tempo pelo estudo e pelo trabalho de ganhar o pão, tinha por via de regra a bolsa a tocar matinas. O que me valia era o alfaiate, a quem pagava um tanto por mês pela roupa que lhe mandava fazer e que, por minha pontualidade no pagamento, me supria de vez em quando nos meus maiores apuros, uns vinte até trinta mil-réis, que nunca mais do que tanto lhe pedi.
Mas agora precisava de cinqüenta mil-réis, pois tinha de comprar botinas e chapéu e alugar, ida e volta, um rossinante. Oh! como me batia o coração à idéia do homem abanar-me a cabeça! Além do vexame, o pesar de não ir à festa do Cardoso, em casa do tio Anselmo, onde já vi pelo pensamento brilharem duas estrelas: os olhos da prima Getrudinha. Só esta perspectiva me decidiu na tremenda luta de ir ou não ir ao meu banqueiro. À porta ia
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