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Capítulo 4 de 11
Parte 4 de 10
A Vida no Outro Mundo · Cairbar Schutel
A morte é o grande mistério que tem ensombrado as gerações, a esfinge devoradora das almas, o titã invencível, o hiante absorvedor de todas as luzes, o obscurecedor das inteligências, o indecifrável enigma das religiões. Não foi sem razão que o Apóstolo Paulo, o doutro dos gentios, desse que o maior e o mais terrível inimigo que teríamos de vencer, era a morte. Quando a pusermos sob o tacão das nossas botas, poderemos, então, entoar o grande hino da vitória: “Ó morte! Onde está teu aguilhão? Ó morte! Onde está tua vitória?”
Pois bem, esse mistério, indecifrável para as religiões; esse inimigo que os sacerdotes não ousaram enfrentar; essa esfinge que causa pavor aos crentes de todas as Igrejas, que se limitam a cantar para as suas vítimas o “De profundis”, é que o Espiritismo veio enfrentar e desvendar, mostrando-se já vitoriosos na grande luta. _ O que é a Morte? _ No que consiste esse fenômeno, que muitos julgam ser o aniquilamento da vida? _ Como se produz ela? _ Quem poderá responder a estas terríveis interrogações? _ Qual a ciência, a filosofia, a religião capaz de enfrentar essa questão? _ Qual nos dá, positivamente, a solução para este mistério? O Espiritismo, mas tão somente o Espiritismo, exclusivamente o Espiritismo! Para saber o que se passa no momento da morte, como se desenrola esse fenômeno, podemos recorrer à descrição de muitos clarividentes, que observaram a crise da morte, assistindo a moribundos. Vamos reproduzir os testemunhos de alguns deles. O mais notável de todos foi um grande cultor do Espiritismo em seus primórdios, e que nos legou obras de inestimável valor: Andrew Jackson Davis. Essas obras, publicadas em
inglês, constam de cinco volumes, que se vendem separadamente e encerram cada um, uma especialidade: _ O Médico; _ O Professor; _ O Reformador; _ O Pensador; _ E O Vidente. Nesta última é que se encontram as pesquisas de Jackson Davis, “no leito da morte”. Davis era dotado de poderosos dons psíquicos e duma espécie de segunda-vista, que se denomina clarividência; além de tudo possuía grandes conhecimentos médicos. Eis alguns trechos do seu livro O Vidente: “A morte é uma modificação – não da personalidade, mas da constituição dos princípios superiores do ser humano”. “Tudo quanto vive se transforma, e cada transformação é acompanhada de uma morte aparente; nunca, porém, há extinção de vida ou destruição de um princípio material ou espiritual no Universo. Assim, se modifica ou se desenvolve um germe qualquer, oculto na Terra; morreu sua forma primitiva e seu modo de existência aparente; porém, depois dessa morte aparente, brota do germe uma nova organização ou um novo corpo”. “As minhas faculdades de vidente permitiram-me estudar o fenômeno psíquico e fisiológico da morte à cabeceira duma agonizante. Era uma senhora de cerca de sessenta anos, a quem frequentemente eu prestara cuidados médicos. Quando soou a hora da morte, achava-me eu, felizmente, em perfeito estado de saúde, o que permitia o pleno exercício de minhas faculdades de vidente.
Coloquei-me de modo a não ser visto ou interrompido nas minhas observações psíquicas, e pus-me a estudar os misteriosos processos da morte. Vi que a organização física não podia mais bastar às necessidades do princípio intelectual; diversos órgão internos pareciam, porém, resistir à partida da alma. O sistema muscular procurava reter as forção motrizes. O sistema vascular debatia-se para reter o princípio vital; o sistema nervoso lutava quanto podia para impedir o aniquilamento dos sentidos físicos, e o sistema cerebral procurava reter o princípio intelectual. O corpo e a alma, como dois esposos, resistiam à separação absoluta. Estes conflitos internos pareciam, a princípio, produzir sensações penosas e perturbadoras. Foi com satisfação que percebi que tais manifestações físicas indicavam – não a dor ou o sofrimento, mas apenas a separação da alma do organismo.
Pouco depois, a cabeça ficou carcada duma atmosfera brilhante; em seguida, de repente, vi o cérebro e o cerebelo estenderem sus partes interiores e suspenderem o exercício de usas funções galvânicas, tornando-se saturados de princípios vitais de eletricidade e magnetismo, que penetravam nas partes secundárias do corpo. Por outras palavras: _ O cérebro e o cerebelo estenderam suas partes interiores para além do estado normal. Esse fenômeno precede invariavelmente à dissolução física. Constatei, depois, o processo por meio do qual o Espírito se destaca do corpo. O cérebro atraiu os elementos de eletricidade e de magnetismo, movimento, vida e sensibilidade espalhados em todo o organismo. A cabeça como que se iluminou, e, ao tempo
que as extremidades do corpo se tornavam frias e obscuras, o cérebro tomava um brilho particular. Em torno dessa atmosfera fluídica, que cercava a cabeça, vi formar-se outra cabeça, que se desenhou cada vez mais nitidamente. Tão brilhante era, que eu mal podia fita-la, à medida, porém, que ela se condensava, desaparecia a atmosfera brilhante. Deduzi daí que esses princípios fluídicos que tinham sido atraídos pelo cérebro, de todas as partes do corpo, e eram, então, eliminados sob a forma de atmosfera particular, antes se achavam somente unidos, segundo o princípio superior de afinidade do Universo, que se faz sempre sentir em cada parcela da matéria. Com surpresa e admiração, segui as fases do fenômeno. Do mesmo modo porque a cabeça fluídica se desprendera do cérebro, vi formarem-se, sucessivamente, o pescoço, os ombros, o tronco, enfim, o conjunto do corpo fluídico. Tornou-se evidente, para mim, que as partes intelectuais do ser humano são dotadas duma afinidade eletiva que lhes permite reunirem-se no momento da morte.
As deformidades e os defeitos do corpo físico tinham, quase inteiramente, desaparecido do corpo fluídico. Enquanto esse fenômeno espiritualista se desenvolvia diante das minhas faculdades particulares, aos olhos materiais das pessoas presentes no quarto, o corpo da moribunda parecia experimentar sintomas de sofrimento, os quais eram fictícios, pois, apenas provinham da partida das forças vitais e intelectuais, que se retiravam de todo o corpo para se concentrarem no cérebro e, depois, no organismo novo.
O Espírito (ou inteligência desencarnada) elevou-se verticalmente acima da cabeça do corpo abandonado; porém, antes da separação final do laço, que por tanto tempo reuniu as partes intelectuais e materiais, vi uma corrente de eletricidade vital formar-se sobre a cabeça da moribunda e sob o novo corpo fluídico. Deu-me isto a convicção de que a morte é apenas um renascimento do Espírito, que se eleva dum grau inferior a um estado superior, e que o nascimento duma criança neste mundo e a formação dum Espírito no outro, são fatos idênticos; nada realmente faltava no fato que eu observava par que o símile fosse completo, nem mesmo o cordão umbilical, que era figurado por um laço de eletricidade vital. Por algum tempo subsistiu esse laço entre os dois organismo. Descobri então (o que não notara ainda nas minhas investigações psíquicas) que uma pequena parte do fluido vital voltava ao corpo material, logo que o cordão ou liame elétrico se quebrava.
Este elemento fluídico, ou elétrico, espalhando-se por todo o organismo, impedia a dissolução imediata do corpo. Não é prudente enterrar o corpo antes de começar a decomposição. Muitas vezes, antes da inumação, o cordão umbilical fluídico, de que falei, ainda não está quebrado. É por isso que pessoas que parecem mortas voltam à vida no fim de um ou dois dias e narram as sensações que experimentaram. Esse estado foi denominado Letargia, Catalepsia, etc. Quando, porém, o Espírito é detido no momento em que deixa o corpo, raramente se recorda do que se passou. Este estado de inconsciência pode parecer semelhante ao aniquilamento, quando observado superficialmente, e, muitas vezes, se recorre ao
argumento que resulta dessa como que obliteração momentânea da memória, para negar a imortalidade da alma. Logo que se desprendeu dos laços tenazes do corpo, o Espírito da pessoa que eu observava, constatei que o seu novo organismo, fluídico, era apropriado ao seu novo estado, mas que o conjunto se assemelhava à sua aparência terrestre. Não pude saber o que se passava na inteligência que revivia; observei, porém, a sua calma e a profunda admiração que lhe causava a dor daqueles que choravam em volta do seu corpo. Pelas minhas experiências, posso afirmar que, quando a pessoa morre naturalmente, nenhuma sensação penosa experimenta o Espírito. O período de transformação, que acabo de transcrever, dura cerca de duas horas, tempo que não é o mesmo para todos os entes humanos. Se pudésseis ver com os olhos psíquicos, perceberíeis, perto do corpo rijo, uma forma fluídica tendo a mesma aparência que o ente humano que acaba de morrer; porém, essa forma é mais bela e está como que animada de uma nova vida mais elevada.”
Este testemunho seria suficiente para fazer desaparecer nossas apreensões e nos revelar, com clareza singular, o mistério da morte; mas vamos aproveitar a oportunidade para apresentar aos leitores mais dois testemunhos admiráveis de pessoas honradas e dotadas das mesmas faculdades mediúnicas. A primeira é o de Mrs. Florence Marryat, que escreve o (O Mundo dos Espíritos) que segue no seu livro The Spírit World: “Conto, entre os meus caros amigos, uma jovem, pertencente à alta classe da aristocracia, dotada de maravilhosas faculdades
mediúnicas. Teve ela, há alguns anos, a infelicidade de perder sua irmã mais velha, então com vinte anos, em conseqüência de uma forte
pleurisia. “Edith (designarei por este nome a jovem médium), não quis afastar-se um só instante da cabeceira de sua irmã, e, aí, em estado de clarividência, pôde assistir ao processo de separação do Espírito, da parte material. Contava-me ela que a pobre doente, em seus últimos dias de vida terrestre, tinha-se tornado inquieta, sobre-excitada, delirante, voltando-se, incessantemente, no leito, e pronunciando palavras sem sentido. Foi então que Edith começou a perceber uma espécie de ligeira nebulosidade, semelhante à fumaça que, condensando-se gradualmente acima da cabeça, acabou por assumir as proporções, as formas e os traços da irmã moribunda, de modo a se lhe assemelhar por completo. Essa forma flutuava no ar, a pouca distância da doente. A medida que o dia declinava, a agitação da enferma minorava, sendo substituída, à tarde, por prostração profunda, precursora da agonia. Edith contemplava, avidamente a irmã: o rosto tornara-se lívido; o olhar se lhe obscurecera, mas, ao alto, a forma fluídica purpureava-se e parecia animar-se gradualmente com a vida que abandonava o corpo. Somente alguns espíritos encarnados tem a capacidade de auto desligamento, ou seja, de desligar os laços que o prendem ao corpo
5A pleurisia, também conhecida como pleurite, é uma condição na qual a pleura, que é a membrana que cobre os pulmões e o interior do tórax, fica inflamada, gerando sintomas como dor na região do peito e costelas, tosse e dificuldade para respirar.
físico. A grande maioria precisa de ajuda e amparo, pois o processo de desligamento é difícil para nós, que ainda estamos ligados "vibratóriamente" ao planeta. Por esse motivo existe na espiritualidade equipes especializadas no desligamento. Elas realizam suas tarefas de acordo com o merecimento dos espíritos que estão desencarnando. A aura parecia, pois, continuamente em fluxo e refluxo, Assisti a esse espetáculo durante doze dias e doze noites e, se bem que ao sétimo dia já o corpo tivesse dado sinais da sua iminente dissolução, a flutuação da vitalidade espiritual, em via de exteriorização, persistia. Pelo contrário, a cor da aura tinha mudado; essa última tomava, além disso, formas cada vez mais definidas, à medida que a hora da libertação se aproximava para o Espírito. Vinte e quatro horas, somente, antes da morte, quando o corpo jazia inerte, foi que o processo da libertação progrediu. No momento supremo vi aparecer em formas de “anjos de guarda”, que se chegaram ao moribundo, e, sem nenhum esforço, separaram o Espírito do corpo consumido.
Quando, enfim, se quebraram os cordões magnéticos, os traços do defunto, nos quais se liam os sofrimentos experimentados, serenaram completamente e se impregnaram de inefável expressão de paz e de repouso”. A morte, como se vê, nada mais é que uma crise, mudança para um outro estado, uma passagem da vida da matéria para a vida do Espírito, das trevas para a luz, da aparência para a realidade.
No Outro Lado da Morte
Da importante revista inglesa Beyond colhemos a seguinte mensagem espírita, que é do nosso dever adicionar a esta obra, pois, se acha de plena conformidade com o que sabemos sobre a vida no outro mundo. Apreciem-na os leitores: “Consigo estar agora mais perto de ti do que há um ano atrás, e posso ver as coisas mais detalhadamente. Tenho estado contigo diversos vezes, quando, talvez, não o suspeitavas, e apanhei teus pensamentos sobre diversos assuntos. Estive a teu lado quando te divertias com aqueles belos jogos; presente estava teu tio e ambos nos regozijamos com o jogo. Aqui também nos divertimos, nós que para isso temos inclinação. Esta é uma vida absolutamente natural, com todos os melhores elementos da Terra, excluídos os elementos heterogêneos (contrários), e com muito mais vasta capacidade de gozo. Isto torna os acontecimentos, mais ordinários e de todos os dias, cheios de delícia e dá à vida aquele frescor que promana da sensação de eterna juventude, que todos nós sentimos e do conhecimento de nossos poderes crescentes. Aqui sentimos o desdobrar de nossas faculdades, somente com uma sensação de prazer e de admiração.
A antiga sensação de esforço e de constrangimento. Bem com depressão após a queda, não existe mais, porque há tantas coisas belas a fazer e mirar e temos grande coragem e esperança, bem assim um seguro sentimento de alcançarmos sucesso em todos os nossos empreendimentos, no sentido de aprimorar o nosso caráter. Se me fosse possível comunicar-te somente uma pequena parte dessa
sensação, estarias apto a realizar as coisas com mais entusiasmo e veemência. Naturalmente, devido à nossa saúde perfeita, tudo nos parece favorável. Fazer tanto quanto se queira, sem sentir fadiga, é um grande prazer, e, também, temos tempo para tudo, em abundância, para todas as coisas. Não há precipitação ou pressa; sempre uma perfeita sensação de segurança relativamente ao tempo, bem como a respeito de qualquer coisa. Naturalmente desejamos assistir a reuniões importantes ou conferência, quando elas se realizam, mas se não for possível estar presente em certo dia, podemos, facilmente, satisfazer nossos desejos depois, e se não for possível hoje, então, sê-lo-á amanhã. Aquela radiante sensação de dias intermináveis para coisas intermináveis, unida à sensação de eterna juventude, saúde perfeita e entusiasmo, torna a vida realmente digna de ser vivida. Certamente há aqui pessoas que não tiveram um temperamento desejoso por natureza, ou não o desenvolveram quando na Terra; porém, são um tanto parecidas aos frívolos, aos quais nada oferece verdadeiro prazer.
Essa sorte de natureza acha difícil a adaptação, e penso que se torna necessária outra vida terrestre para alterar semelhante temperamento. Quando aqui chegamos, sentimos que temos toda a sorte de característicos inesperados e dons que só sentíamos obscuramente quando na Terra e, daí, vemos que podemos escolher qualquer carreira interessante de trabalho, impelindo-nos para frente aos longo daquela linha particular, ou, se assim o desejardes, desenvolvendo, em completa perfeição, o florescimento daquele
pequenino botão que rebentou no passado e que está dentro do caráter de cada um. Isto nos dá o mais formoso sentimento de grandes responsabilidades, independência e poder para empreender qualquer espécie de trabalho ou divertimento a que nos sentimos inclinados. Sabes quantas vezes, na Terra, desejei dedicar-me à pintura; mas, faltava-me o dom; vejo agora que o possuía, adquirido no passado, de modo que, agora, se o desejasse, eu poderia tornar-me um célebre artista numa outra vida terrestre. A mim tudo isso desperta um desejo maior do que a meu pai, que não tem o mesmo pendor, e que antes está mais ligado à Ciência, conquanto, na vida física, passada, não tivesse oportunidade de desenvolvê-la. Agora ele está grandemente interessado, em companhia de grandes cientistas, e, devido ao seu entusiasmo nessa direção, absorveu rapidamente grande quantidade de conhecimentos, e, agora, em nova existência terrestre, poderia ser um sábio de primeira ordem e fazer conferências primorosas a auditórios terrestres. Ele tem vastos conhecimentos dos reinos animal, vegetal e mineral, porque também aqui a alma de qualquer ser está vivamente representada.
Há maravilhosas rochas, cristais de rocha, joias, ouro e prata, somente usados pela sua beleza e não desmoralizados, como meio de corrupção, como acontece na Terra. Algumas pessoas se comprazem em fazer casas dessas coisas encantadoras. Temos maravilhosos edifícios, salas para conferências e assim por diante, que são admiráveis de serem vistos, como essas visões que o Evangelista João descreve nas Revelações, com paredes de pedras preciosas, portões de pérolas e
ruas de ouro. Esses lugares maravilhosos são muito interessantes para serem visitados, como, na Terra, se vai ver belos e notáveis palácios; naturalmente os daqui são muito mais belos para conferências, reuniões e música do que qualquer edifício por mim visto na Terra. Para mim, porém, as belezas naturais das árvores, montanhas, flores e rios, que são todos tão perfeitos, dão mesmo mais encanto e eu sempre gosto de procurar esses lugares gloriosos da Natureza, quando me sinto inclinado a ficar pesaroso, como algumas vezes me acontece. O admirável e agradável efeito da luz através das árvores, ou brilhando sobre as ondas prateadas de gloriosos mares, ou brincando nos rios, como nunca tive a dita de ver na Terra, é tudo tão maravilhoso! Os rios são gloriosos, tão perfeitamente puros e incorruptos, que dentro deles, podemos andar, sentar na água e senti-la cobrir-nos e dela sairmos refrescados e revigorados, e, ainda mais, a água, evaporando-se em contato com o brilho solar, não deixa sensação nenhuma desagradável. Tudo isto é tão deliciosos que só afago um desejo: a vossa participação em tudo que desperta o prazer de viver intensamente a vida celeste”.
Perturbação da Morte
Toda transformação ocasiona uma perturbação; uma simples mudança, seja de uma cidade para outra, seja unicamente de residência, não deixa de causar uma desorganização psíquica que só cessa com a adaptação ao novo meio.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.