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Capítulo 9 de 13

A — Preces Gerais

A Prece Segundo o Evangelho · Allan Kardec

Oração dominical 2. PREFÁCIO. Os Espíritos recomendaram que a Oração dominical fosse posta à frente desta coleção, não só a título de prece, mas também valendo por símbolo. Essa é, de todas as preces, a que eles colocaram em primeiro lugar, já porque provém do próprio Jesus (Mateus, cap. VI, vv. 9 a 13), já por ser de molde a substituir as outras, conforme o pensamento com que a profiram. É o mais perfeito modelo de concisão, verdadeira obra-prima de sublimidade em sua singeleza. Com efeito, debaixo da mais restrita forma, ela resume todos os deveres do homem para com Deus, para consigo mesmo e para com o próximo, encerra uma profissão de fé, um ato de adoração e de submissão, o pedido das coisas necessárias à vida, e o princípio da caridade. Dizê-la na intenção de alguém, é pedir para este o que pediria quem a proferisse para si próprio. Entretanto, mesmo em conseqüência da sua brevidade, à maioria das pessoas escapa o sentido profundo de algumas das palavras que a compõem. Daí vem que muitos a dizem, geralmente, sem deter o pensamento nas aplicações de cada uma de suas partes.

Dizem-na como se se tratasse de uma fórmula, cuja eficácia está na proporção do número de vezes que se repete. E este é quase sempre um dos números cabalísticos, três, sete e nove, buscados na antiga crença supersticiosa da virtude dos números, de uso nas operações da magia. Para suprir o que de vago a concisão desta prece deixa no pensamento, juntou-se-lhe, a conselho e com a assistência dos bons Espíritos, a cada proposição um comentário, que lhe desenvolve o sentido, mostrando suas aplicações. Conforme as circunstâncias e o tempo de que disponha, qualquer pessoa poderá recitar a Oração dominical na sua forma simples ou com o desenvolvimento, que aqui se lhe dá. 3. PRECE. — I. Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome. Cremos em vós, Senhor, porque tudo revela o vosso poder e a vossa bondade. A harmonia do Universo dá testemunho de sabedoria, prudência e previdência que ultrapassam todas as faculdades humanas.

O nome de um ser soberanamente grande e sábio se acha inscrito em todas as obras da Criação, desde a folhinha do arbusto até o mais pequenino inseto, até os astros que se movem no Espaço. Por toda parte vemos a prova de uma solicitude paternal. Cego é, pois, aquele que não vos glorifica em vossas obras, e ingrato aquele que não vos rende ações de graças. II. Venha a nós o vosso reino. Senhor, destes aos homens leis cheias de sabedoria, que os fariam felizes se eles as observassem. Obedecendo

a essas leis, fariam reinar entre si a paz e a justiça, auxiliar-se-iam mutuamente, em vez de se hostilizarem, como o fazem. O forte sustentaria o fraco, em vez de o esmagar. Todos evitariam os males que se originam dos abusos e dos excessos de toda ordem. Todas as misérias deste mundo provêm da violação das vossas leis, porquanto nenhuma dessas violações deixa de ter conseqüências fatais. Destes ao bruto o instinto que lhe traça os limites do necessário e ele maquinalmente se conforma. Ao homem, porém, além desse instinto, destes a liberdade de observar ou infringir aquelas de vossas leis que pessoalmente lhe dizem respeito, isto é, a liberdade de escolher entre o bem e o mal, a fim de que lhe pertençam o mérito e a responsabilidade de suas ações. Ninguém poderá pretextar a ignorância das vossas leis, pois que, com a vossa paternal previdência, quisestes que na consciência de cada um, sem distinção de culto, nem de nações, ficassem elas gravadas. Desconhecem-vos aqueles que as violam. Dia virá, entretanto, conforme prometestes, em que todos as praticarão.

Então, a incredulidade terá desaparecido. Todos vos reconhecerão soberano Senhor de todas as coisas e o reinado das vossas leis estará implantado na Terra. Dignai-vos, Senhor, apressar-lhe o advento, dando aos homens a luz que os guie no caminho da verdade. III. Faça-se a vossa vontade, assim na Terra como no Céu.

Se a submissão é um dever do filho para com o pai, do inferior para com o superior, quão maior não deverá ser a da criatura para com o seu Criador! Fazer-vos a vontade, Senhor, é obedecer às vossas leis, é submeter-se, sem murmurar, aos vossos decretos divinos. O homem se lhes submeterá quando compreender que sois a fonte de toda a sabedoria e que sem vós ele nada pode. Fará então a vossa vontade na Terra, como os eleitos a fazem no Céu. IV. Dai-nos o pão de cada dia. Dai-nos o alimento que mantenha as forças do nosso corpo. Dai-nos também o alimento espiritual para o desenvolvimento do nosso Espírito. O bruto encontra nas pastagens com que se alimentar. O homem, porém, tem que adquirir, com sua atividade e com os recursos da sua inteligência, o alimento necessário, por isso que o criastes livre. Assim é que lhe dissestes: «Tirarás da terra o teu alimento, com o suor do teu rosto.»

Por essa forma lhe fizestes do trabalho uma obrigação, a fim de que ele exercitasse a inteligência, procurando meios de prover às suas necessidades e ao seu bem-estar, uns por meio do trabalho material, outros pelo trabalho intelectual. Sem ter que trabalhar, permaneceria estacionário e não poderia aspirar à felicidade dos Espíritos superiores. Auxiliais o de boa-vontade que em vós confia para obter aquilo de que necessita, mas não auxiliais aquele que se compraz na ociosidade, desejando tudo alcançar sem trabalho, como também não auxilias o que busca o supérfluo.

Quantos sucumbem por sua própria culpa, por efeito da incúria, da imprevidência, da ambição e por não terem querido contentar-se com o que lhe havíeis dado! Esses são os obreiros do seu próprio infortúnio e não têm o direito de se queixar, porquanto se vêem punidos naquilo mesmo que lhes foi causa de pecar. Mas, nem sequer a esses abandonais, porque sois infinitamente misericordioso. Mão protetora lhes estendeis desde que, qual o filho pródigo, se voltem para vós sinceramente. Antes de nos queixarmos da nossa sorte, inquiramos de nós mesmos se ela é obra nossa. Toda vez que uma infelicidade nos suceda, perguntemo-nos se não esteve em nossas mãos o evitá-la. E reconheçamos também que Deus nos dotou de inteligência para que possamos sair do lodaçal e que de nós depende o bom uso dessa Inteligência. Pois que à lei do trabalho está sujeito o homem na Terra, dai-nos coragem e força para preenchermos essa condição.

Dai-nos também a prudência, a previdência e a moderação, a fim de que não percamos o fruto dessa condição. Dai-nos, portanto, Senhor, o pão de cada dia, dando-nos os meios de adquirir, pelo trabalho, as coisas necessárias à vida, visto que a ninguém assiste o direito de reclamar o supérfluo. Se o trabalho nos é impossível, confiamos na vossa divina providência. Se estiver nos vossos desígnios pôr-nos à prova por meio das mais duras provações, não obstante os nossos esforços, aceitamo-las em justa expiação das faltas que possamos ter cometido nesta ou em vida precedente, pois que sois justo.

Sabemos que não há penas imerecidas e que jamais somos castigados sem causa. Preservai-nos, ó Deus, de invejar os que possuam o que não temos, ou sequer os que têm o supérfluo, quando nos falta o necessário. Perdoai-lhes o esquecerem-se da lei, que lhes ensinastes, de caridade e de amor ao próximo. Afastai igualmente do nosso Espírito a idéia de negar a vossa justiça, vendo a prosperidade do mau e a desgraça abater-se por vezes sobre o homem de bem. Sabemos agora, graças às novas luzes que vos aprouve dar-nos, que a vossa justiça se exerce sempre, e que a ela ninguém se esquiva; que a prosperidade material do mau é efêmera qual a sua existência corporal, e que terrível lhe será o reverso dessa medalha, ao passo que eterna será a alegria daquele que sofre resignado. V. Perdoai as nossas dívidas, como perdoamos aos que nos devem. — Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hajam ofendido. Toda vez que infringimos as vossas leis, Senhor, uma ofensa vos fazemos, contraímos uma dívida que cedo ou tarde teremos de saldar.

À vossa infinita misericórdia rogamos que no-la perdoe, sob a promessa de empregarmos esforços por não contrair novas dívidas. Da caridade fizestes para nós uma lei expressa, mas a caridade não consiste apenas em socorrer nossos semelhantes nas suas necessidades; consiste também no esquecimento e no perdão das ofensas. Com que direito

reclamaríamos a vossa indulgência, se não soubéssemos ser indulgentes com aqueles de quem temos queixas? Dai-nos, ó Deus, força para abafar em nossa alma todo ressentimento, todo ódio, todo rancor. Fazei que a morte não nos surpreenda com um desejo de vingança no coração. Se for de vosso agrado retirar-nos hoje mesmo deste mundo, fazei que possamos apresentar-nos, diante de vós, puros de qualquer animosidade, a exemplo do Cristo, cujas últimas palavras foram em favor de seus algozes. As perseguições, que nos movem os maus, fazem parte das nossas provas terrestres; temos que aceitá-las sem murmuração, e assim todas as outras provas, e sem maldizer esse caminho da felicidade eterna, pois que dissestes pela boca de Jesus: «Bem-aventurados os que sofrem por amor da justiça!» Abençoamos, conseguintemente, a mão que nos fere e humilha, visto que as feridas que ela abre em nossos corpos nos fortalecem a alma, e nossa humildade nos elevará.

Bendito seja o vosso nome, Senhor, por nos haverdes ensinado que a nossa sorte não estará irrevogavelmente sentenciada após a morte; que em outras existências se nos depararão meios de resgatar e reparar as faltas passadas, de realizar, em nova vida, em prol do nosso adiantamento, o que nesta não pudemos fazer. Desse modo se explicam todas as aparentes anomalias da vida, e, na luz que aclara o nosso passado e o nosso futuro, vemos o sinal brilhante da vossa soberana justiça e da vossa bondade infinita.

VI. Não nos deixeis entregues à tentação, mas livrai-nos do mal. (1) Dai-nos, Senhor, força para resistir às sugestões dos maus Espíritos, que tentam desviar-nos do caminho do bem, inspirando-nos maus pensamentos. Nós mesmos somos Espíritos imperfeitos, que encarnamos na Terra para expiar erros passados e nos melhorarmos. Em nós está a causa primária do mal e os maus Espíritos não fazem mais do que aproveitar nossos pendores viciosos, em que nos entretêm para nos tentar. Cada imperfeição é uma porta aberta à influência deles, que, entretanto, se mostram impotentes para qualquer tentativa contra os seres perfeitos. Inúteis serão todos os esforços que empregarmos para os afastar, se não lhes opusermos vontade inabalável de permanecer no bem e de renunciar absolutamente à prática do mal. É, pois, contra nós mesmos que devemos dirigir os nossos esforços e, se assim o fizermos, os maus Espíritos se afastarão naturalmente, porquanto, ao passo que o mal os atrai, o bem os repele. (Vede pouco adiante: Preces pelos obsidiados.) Senhor, amparai-nos em nossas fraquezas, inspirainos, por intermédio dos anjos de guarda e dos bons

(1) Algumas traduções dizem: Não nos induzas à tentação (et ne nos inducas in tentationem). Esta expressão faria supor que a tentação vem de Deus, que Ele, por vontade, impele os homens para o mal. Semelhante idéia, sendo blasfema, pois que igualaria Deus a Satã, não pode ser a que Jesus externou. Ela, porém, está de acordo com a doutrina vulgar sobre o papel dos demônios. (Ver: O Céu e o Inferno, citado, 1ª Parte, cap. IX, “Os demônios”.)

Espíritos, o desejo de nos corrigirmos das nossas imperfeições, a fim de tolhermos aos Espíritos impuros o acesso à nossa alma. (Vede adiante o nº 11.) O mal não faz parte da vossa obra, Senhor, porquanto da fonte de todo o bem nada de mau pode emanar. Somos nós mesmos que o criamos, infringindo as vossas leis e fazendo mau uso da liberdade que nos concedestes. Quando todos os homens observarem as vossas leis, o mal desaparecerá da Terra, como já desapareceu de mundos mais adiantados. O mal não constitui para ninguém uma necessidade fatal, e só parece irresistível aos que nele se comprazem. Assim como podemos sentir o desejo de fazer mal, podemos sentir o de fazer bem. Eis por que, ó Deus, pedimos a vossa assistência, e a dos bons Espíritos, para resistirmos à tentação. VII. Assim seja. Permiti, Senhor, que os nossos desejos se realizem! Inclinamo-nos, porém, diante da vossa sabedoria infinita. Em tudo que não nos é dado compreender, cumpra-se a vossa vontade e não a nossa, pois que só quereis o nosso bem e melhor do que nós sabeis o que nos é útil. Dirigimos-vos esta prece, ó Deus, por nós mesmos e também por todas as almas sofredoras, encarnadas ou desencarnadas, pelos nossos amigos e inimigos, por todos os que solicitam a nossa assistência e em particular por N...

Para todos imploramos a vossa misericórdia e a vossa bênção. Nota — Neste ponto se podem formular todos os agradecimentos que se queiram dirigir a Deus e o que se deseje pedir para si mesmo ou para outrem. (Ver adiante as preces n.ºs 26 e 27.) Reuniões espíritas 4. «Onde quer que duas ou três pessoas se achem reunidas em meu nome, eu com elas estarei.» (Mateus, cap. XVIII, v. 20.) 5. PREFÁCIO. Estarem diversas pessoas reunidas em nome de Jesus, não quer dizer que baste se achem reunidas materialmente, e sim espiritualmente, pela comunhão de intenção e de pensamentos, para a prática do bem. Nessas condições, Jesus estará presente à reunião, ou representado nela por Espíritos puros. O Espiritismo explica como podem os Espíritos estar conosco. Eles baixam ao nosso meio com seus corpos fluídicos ou espirituais, sob a aparência mediante a qual os reconheceríamos se se tornassem visíveis. Quanto mais alto é o lugar que ocupam na hierarquia, tanto maior é neles o poder de irradiação. Assim é que possuem o dom da ubiqüidade, que lhes faculta acharem-se em muitos lugares ao mesmo tempo.

Basta, para lhes assinalar a presença, uma irradiação de seus pensamentos. Pelas palavras transcritas, quis Jesus mostrar o efeito da união e da fraternidade. O maior ou menor número das pessoas reunidas não é o que atrai. Em vez de dizer duas ou três pessoas, ele pudera ter dito vinte ou trinta. O que o

atrai é o sentimento da caridade que experimentem umas para com as outras. Ora, sendo assim, basta que elas sejam duas. Mas se cada uma dessas duas faz a sua prece particular, embora ambas se dirijam a Jesus, não haverá entre elas comunhão de pensamentos, principalmente se um sentimento de mútua benevolência não as animar. Ainda mais: se se não virem com bons olhos, se se olharem com ódio, inveja ou ciúme, as correntes fluídicas de seus pensamentos se repelirão, em vez de se unirem por um comum impulso de simpatia. Nesse caso, não estarão reunidas em nome de Jesus. Jesus nesse caso será apenas o pretexto da reunião e não o seu verdadeiro objetivo. Não se infira daí que Ele seja surdo à voz de uma só pessoa. Se não disse: “Virei ter com aquele que me chamar”, foi por exigir, antes de tudo, o amor do próximo. Ora, desse amor mais provas pode o homem dar quando está em companhia de outros, do que quando se acha insulado. Acresce que todo sentimento pessoal o afasta.

Segue-se que se numa assembléia numerosa somente duas ou três pessoas se unem de coração, pelo sentimento de verdadeira caridade, enquanto que as outras se isolam e se concentram em pensamentos egoístas ou mundanos, Ele estará com as primeiras e não com as outras. Assim, pois, não é a simultaneidade das palavras, dos cânticos ou dos atos exteriores o que constitui a reunião em nome de Jesus. Esta se caracteriza pela comunhão de pensamentos, conforme ao espírito de caridade que Jesus personifica. Tal o caráter de que se devem revestir as reuniões espíritas sérias, as em que sinceramente se deseje o concurso dos bons Espíritos. 6. PRECE. (Para o começo da reunião.) — Ao Senhor Deus Todo-Poderoso pedimos que envie bons

Espíritos para nos assistirem, que afaste os que puderem induzir-nos ao erro, e que nos dê a luz de que precisamos para distinguir a verdade da impostura. Afastai de nós também, Senhor, os Espíritos malévolos, encarnados ou desencarnados, que tentem lançar a desunião entre nós e, bem assim, desviar-nos da caridade e do amor do próximo. Se alguns procurarem introduzir-se aqui, fazei, Senhor, que não achem acesso em nossos corações. Bons Espíritos que vos dignais vir instruir-nos, tornai-nos dóceis aos vossos conselhos, isentai-nos de qualquer pensamento de egoísmo, de orgulho, de inveja e de ciúme; inspirai-nos indulgência e benevolência para com os nossos semelhantes, presentes ou ausentes, amigos ou inimigos; fazei, enfim, que, pelos sentimentos que nos animem, reconheçamos a vossa salutar influência. Dai aos médiuns, que encarregardes de nos transmitir os vossos ensinamentos, consciência da santidade do mandato que lhes é confiado e da gravidade do ato que vão desempenhar, a fim de que o pratiquem com o fervor e o recolhimento necessários.

Se entre nós se encontrarem pessoas dominadas por sentimentos que não sejam os do bem, abri-lhes os olhos à luz e perdoai-lhes, como lhes perdoamos, se porventura trazem malévolas intenções. Pedimos especialmente ao Espírito de N..., nosso guia espiritual, que nos assista e por nós vele. 7. PRECE. (Para o encerramento da reunião.) — Agradecemos aos bons Espíritos que anuíram em vir comunicar-se conosco, e lhes pedimos que nos ajudem a pôr em prática as instruções que nos deram e façam com

que, ao sairmos daqui, cada um de nós se sinta fortalecido na prática do bem e do amor ao próximo. Desejamos, igualmente, que as instruções que recebemos sejam proveitosas aos Espíritos sofredores, ignorantes ou viciosos, que hajam assistido à nossa reunião, Espíritos esses para os quais imploramos a misericórdia de Deus. Para os médiuns 8. Nos últimos tempos, disse o Senhor, espalharei de meu Espírito sobre toda carne. Vossos filhos e filhas profetizarão; vossos mancebos terão visões e os vossos anciães, sonhos. A esse tempo, espalharei meu Espírito sobre meus servos e servas e eles profetizarão. (Atos, cap. II, vv. 17 e 18.) 9. PREFÁCIO. Quis o Senhor que a luz se fizesse para todos os homens e que por toda a parte penetrasse a voz dos Espíritos, a fim de que cada um pudesse adquirir a prova da imortalidade.

É com esse objetivo que hoje os Espíritos se manifestam em todos os pontos da Terra, e que a mediunidade, revelando-se entre pessoas de todas as idades e condições, entre os homem e as mulheres, entre as crianças e os velhos, constitui um dos sinais de que são chegados os tempos preditos. Para que o homem conheça as coisas do mundo visível e desvende os segredos da Natureza material, Deus lhe deu a vista do corpo, os sentidos e instrumentos especiais. Com o telescópio ele mergulha o olhar nas profundezas do espaço e com o microscópio descobre o mundo dos infinitamente pequenos. Para que penetre no mundo invisível, deu-lhe a mediunidade.

Os médiuns são os intérpretes encarregados de transmitir aos homens os ensinos dos Espíritos. Ou melhor: são os órgãos materiais, por meio dos quais os Espíritos se exprimem de modo a serem compreendidos pelos homens. Santa é a missão que desempenham, porquanto ela tem por fim rasgar horizontes da vida eterna. Os Espíritos vêm instruir o homem acerca de seus destinos futuros, visando a reconduzi-lo ao caminho do bem, e não objetivando poupar-lhe o trabalho material, que lhe cumpre executar neste mundo, para seu adiantamento, nem lhe favorecer as ambições e a cobiça. Disto devem os médiuns compenetrar-se bem, para não fazerem mau uso da mediunidade. Aquele que compreende a gravidade do mandato de que se acha investido, esse o desempenha religiosamente. A consciência o exprobraria de haver praticado um sacrilégio, se para proporcionar a si próprio ou a outros um divertimento, uma distração, usasse da faculdade que lhe é concedida para tão sério fim, e que o põe em relação com os seres de além-túmulo.

Intérpretes dos ensinos dos Espíritos, os médiuns têm que desempenhar importante papel na transformação moral que se está operando. Os serviços que podem prestar dependem da boa direção que derem àquela faculdade, pois os que se encontram em mau caminho são mais nocivos do que úteis ao Espiritismo. Por efeito das más impressões que causam, retardam mais de uma conversão. Eis por que severas contas lhes serão pedidas do uso que houverem feito da faculdade que lhes fora outorgada para o bem de seus semelhantes. O médium que deseje assegurar-se da proteção dos bons Espíritos deve procurar tornar-se constantemente melhor. O que pretender o engrandecimento e o desenvolvimento da sua faculdade tem de se

engrandecer moralmente, tem que se abster de tudo quanto tenda a desviá-lo do seu objetivo providencial. Se os bons Espíritos, por vezes, se servem de instrumentos imperfeitos, é para lhes dar bons conselhos, procurando reconduzi-los ao bem. Se, porém, encontram corações empedernidos; se seus conselhos não são ouvidos, eles se retiram e o campo fica livre aos maus. A experiência prova que, entre os que não tiram proveito dos conselhos recebidos dos bons Espíritos, as comunicações, depois de haverem durante algum tempo apresentado um certo brilho, pouco a pouco degeneram e acabam caindo no erro, na verbiagem ou no ridículo, sinal indubitável do afastamento dos bons Espíritos. Obter a assistência destes, afastar os levianos e mentirosos, tal deve ser o objetivo dos esforços constantes de todos os médiuns sérios. Sem isso, a mediunidade será apenas uma faculdade estéril, que poderá mesmo redundar em prejuízo de quem a possua, pois que pode degenerar em perigosa obsessão.

O médium que compreenda seu dever, em vez de se orgulhar de uma faculdade que não lhe pertence, visto que lhe pode ser retirada, atribui a Deus as boas coisas que obtenha. Se suas comunicações merecem elogios, não se envaidece por isso, certo de que elas independem do seu mérito pessoal, e agradece a Deus o haver permitido que, por ele, os bons Espíritos se manifestassem. Se dão lugar à crítica, não se ofende com isso, visto não serem obra do seu próprio Espírito. Ao contrário, reconhece não ter sido um bom instrumento e não possuir todas as qualidades necessárias a impedir o intrometimento dos maus Espíritos. Fazendo a si mesmo essa confissão, tratará de adquirir aquelas qualidades, e pede, por meio da prece, a força de que carece.

10. PRECE. Deus Onipotente, permiti que os bons Espíritos me assistam na comunicação que solicito. Preservai-me da presunção de me acreditar resguardado dos maus Espíritos, do orgulho que poderia induzir-me em erro acerca do valor do que obtenho, de todo sentimento contrário à caridade para com os outros médiuns. Se for levado ao erro, inspirai a alguém o pensamento de me advertir, e dai-me humildade para receber, cheio de reconhecimento, a crítica que me façam, para tomar por dados a mim mesmo, e não aos outros, os conselhos que os bons Espíritos hajam por bem ditar-me. Se me vir tentado a abusar, seja no que for, ou a me envaidecer da faculdade que vos aprouve conceder-me, eu vos peço que ma retireis, antes que consintais se afaste ela do seu fim providencial, que é o bem de todos e o meu próprio adiantamento moral.

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