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Capítulo 10 de 13

B — Preces por Si Mesmo

A Prece Segundo o Evangelho · Allan Kardec

Aos anjos de guarda e aos Espíritos protetores 11. PREFÁCIO. Todos temos um bom Espírito que se nos dedica, desde que nascemos, e que nos tomou sob a sua proteção, preenchendo junto de nós a missão que um pai desempenha junto de seu filho — a de nos guiar pelo caminho do bem e do progresso, através das provações da vida. Ele se sente feliz, quando lhe correspondemos à solicitude, e aflige-se, quando sucumbimos. Nada nos adianta saber qual o seu nome, pois bem pode acontecer que não tenha nome conhecido na Terra. Invoquemo-lo, então, como sendo o nosso anjo de guarda, nosso bom guia. Podemos mesmo invocá-lo sob o nome de qualquer Espírito superior que nos inspire mais particular simpatia. Além do nosso anjo de guarda, que é sempre um Espírito superior, temos Espíritos protetores que, embora menos elevados, não são menos bons e caridosos. São Espíritos de parentes ou amigos e, algumas vezes, de pessoas que não conhecemos na existência atual. Dão-nos conselhos e com freqüência intervêm nos atos da nossa vida.

Temos, ainda, Espíritos simpáticos, que se ligam a nós por certa semelhança de gostos e de pendores. Podem ser bons ou maus, conforme a natureza das inclinações pelas quais os atraímos. Os Espíritos sedutores se esforçam por nos desviar do caminho do bem, sugerindo-nos maus pensamentos. Aproveitam-se de todas as nossas fraquezas, como de outras tantas portas abertas que lhes dão acesso à nossa alma. Alguns há que se aferram a nós como a uma presa, mas que se afastam logo que se reconhecem impotentes para lutar contra a nossa vontade. Deus nos deu um guia principal e superior — o nosso anjo de guarda —; e guias secundários — Espíritos protetores e familiares. Erro fora, porém, acreditarmos que temos forçosamente, junto de nós, um mau gênio para contrabalançar as boas influências que experimentamos. Os maus Espíritos se aproximam de nós voluntariamente, desde que verifiquem poder aproveitar-se da nossa fraqueza ou da nossa negligência em seguir as inspirações dos bons Espíritos. Somos nós, portanto, que os atraímos.

Daí resulta que nunca estamos privados da assistência dos bons Espíritos, e que de nós depende o afastamento dos maus. Sendo o homem, pelas suas imperfeições, a causa primária de suas misérias, também é ele próprio, muitas vezes, o seu mau gênio. A prece aos anjos de guarda e aos Espíritos protetores deve ter por fim solicitar-lhes que intercedam por nós, pedir-lhes forças para resistirmos às más sugestões e que nos assistam nas contingências da vida. 12. PRECE. Espíritos sábios e benfazejos, mensageiros de Deus, que tendes por missão amparar os homens e guiá-los pelo bom caminho, sustentai-me nas

provações desta vida; dai-me a força de sofrer sem murmurar; livrai-me de maus Espíritos, que tentem induzir-me ao mal. Esclarecei-me a consciência sobre as minhas faltas e tirai dos meus olhos a venda do orgulho, que me poderia impedir de as perceber e confessar a mim mesmo. Especialmente vós, N..., meu anjo de guarda, que muito em particular velais por mim, e todos vós, Espíritos protetores que por mim vos interessais, fazei que me torne digno da vossa proteção. Conheceis as minhas necessidades: que elas sejam satisfeitas como for da vontade de Deus. 13. (Outra) — Meu Deus, permiti que os bons Espíritos que me cercam venham a mim, quando eu me achar em aflição, e me amparem, se eu tropeçar. Fazei, Senhor, que me incutam fé, esperança e caridade; que me sejam um sustentáculo e uma prova da vossa misericórdia.

Fazei, enfim, que junto deles encontre eu a força que me falta nas provações da vida e, para resistir às sugestões do mal, a fé que salva e o amor que consola. 14. (Outra) — Espíritos bem-amados, anjos de guarda a quem Deus, em sua infinita misericórdia, permite velar pelos homens, sede nossos protetores nas provações da vida terrena. Dai-nos forças, coragem e resignação; inspirai-nos tudo que é bom, detende-nos no declive do mal. Que a vossa suave influência penetre a nossa alma. Fazei sintamos que um amigo dedicado está perto de nós, vendo os nossos sofrimentos e partilhando das nossas alegrias. E vós, meu bom anjo, não me abandoneis. Preciso da vossa proteção para suportar, com fé e amor, as provas que Deus me queira mandar.

Para afastar os maus Espíritos 15. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que limpais por fora o copo e o prato, conservando-vos por dentro cheios de rapinas e de impurezas. Fariseus cegos, limpai primeiramente o interior do copo e do prato, a fim de que pelo interior também fiquem limpos. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que vos assemelhais a sepulcros caiados, mas cheios, por dentro, de toda sorte de podridões, — Assim por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de indignidade. (Mateus, capítulo XXIII, vv. 25 a 28.) 16. PREFÁCIO. Os maus Espíritos vão aonde acham meios de satisfazer a sua perversidade. Para os afastarmos não basta lhes peçamos, nem mesmo lhes ordenemos se retirem. É mister nos expurguemos daquilo que os atrai. Os maus Espíritos farejam as chagas da alma qual o fazem as moscas às do corpo. Assim como se limpa o corpo para evitar a bicheira, também se deve limpar a alma de suas impurezas para evitar os maus Espíritos.

Como vivemos num mundo onde estes pululam, nem sempre as boas qualidades do coração nos põem ao abrigo das suas tentativas, mas nos dão força para lhes resistir. 17. PRECE. Que, em nome de Deus Onipotente, se afastem de mim os maus Espíritos, e que os bons me sirvam de escudo contra eles! Espíritos malfazejos, que aos homens inspirais maus pensamentos; Espíritos embusteiros e mentirosos, que os enganais; Espíritos zombeteiros que mofais da credulidade deles, eu vos repilo com todas as forças de

minha alma e fecho os ouvidos às vossas sugestões, mas suplico para vós a misericórdia de Deus. Bons Espíritos que vos dignais de me assistir, dai-me forças para resistir à influência dos maus Espíritos e as luzes necessárias para não ser vítima de seus embustes. Preservaime do orgulho e da presunção; isentai o meu coração do ciúme, do ódio, da malevolência e de qualquer sentimento contrário à caridade, que são outras tantas portas abertas ao Espírito do mal. Para pedir a corrigenda de um defeito 18. PREFÁCIO. Os nossos maus sentimentos resultam da imperfeição do nosso Espírito e não da nossa organização; pois, se assim não fora, o homem fugiria a toda espécie de responsabilidades. Só de nós depende o próprio melhoramento, pois todo homem que goza de suas faculdades tem em tudo liberdade de fazer e deixar de fazer o que lhe apraz. Para fazer o bem, basta apenas que o queira. 19. PRECE.

Vós me destes, oh! meu Deus, a inteligência nítida para distinguir o que é bom do que é mau; desde que eu reconheça que em qualquer coisa há mal, sou culpado por não evitá-la. Preservai-me do orgulho, que me poderia impedir de lobrigar os meus defeitos, e bem assim dos maus Espíritos, que me poderiam excitar a perseverar nesse caminho. Entre as minhas imperfeições, reconheço ser particularmente inclinado a... e, se não resisto a esses arrastamentos, é pelo hábito que já adquiri e ao qual me escravizei.

Justo como sois, não me criastes culpado, mas me destes igual aptidão para o bem e para o mal; se segui o mau caminho, foi por efeito do meu livre-arbítrio. Mas, pela mesma razão por que possuo liberdade de fazer o mal, possuo a de fazer o bem, e, por conseguinte, tenho a de mudar de caminho. Os meus defeitos atuais são restos das imperfeições conservadas das precedentes existências. Representam o meu pecado original, de que me poderei libertar pela vontade, com a assistência dos bons Espíritos. Espíritos benévolos, que me protegeis, principalmente vós, meu anjo de guarda, dai-me energia para resistir às más sugestões e sair vitorioso da luta. Os defeitos constituem as barreiras que nos afastam de Deus, e cada defeito corrigido é um passo alcançado no caminho do progresso, que dEle nos deve aproximar. O Senhor, em sua infinita misericórdia, dignou-se de me conceder a existência atual para o meu adiantamento.

Ajudai-me a torná-la proveitosa, bons Espíritos, para que não fique perdida para mim, e para que, quando aprouver a Deus ma tirar, eu saia dela melhor do que quando entrei. Para pedir forças a fim de resistir a uma tentação 20. PREFÁCIO. Os maus pensamentos podem originar-se de duas fontes: da própria imperfeição da alma, ou de uma funesta influência que sobre ela atue. No segundo caso, é sempre indício de fraqueza que nos predispõe a receber essa influência e, por conseguinte,

prova de imperfeição da alma. Assim, pois, aquele que falir não poderá alegar, por desculpa, a influência de um Espírito estranho, porquanto esse Espírito não o instigaria ao mal se o julgasse insensível à sedução. Quando um mau pensamento se nos desperta, podemos supor que um Espírito malévolo nos convida ao mal; mas, somos livres quanto a ceder ou resistir, como se se tratasse das solicitações de uma pessoa viva. Devemos igualmente supor presente o nosso anjo de guarda, ou Espírito protetor, que, por sua vez, combate em nós a má influência e com ansiedade espera a decisão que vamos tomar. A nossa hesitação em fazer o mal é resultante da influência do bom Espírito, cuja voz se faz ouvir pela nossa consciência. Reconhece-se que um pensamento é mau, quando se afasta da caridade — base da verdadeira moral; quando tem por objeto o orgulho, a vaidade ou o egoísmo; quando, enfim, nos instiga a fazer a outrem o que não desejaríamos que se nos fizesse. 21. PRECE.

Deus Todo-Poderoso, não me deixeis sucumbir na tentação em que me vejo, de cair em falta; Espíritos benévolos que me protegeis, desviai de mim este mau pensamento e dai-me forças para resistir à sugestão do mal. Se sucumbir, merecerei a expiação da minha falta nesta vida e na outra, porque tenho a liberdade de escolher. Em ação de graças por uma vitória obtida contra uma tentação 22. PREFÁCIO. Aquele que resistiu a qualquer tentação, deve-o, em parte, à assistência dos bons

Espíritos, cuja voz escutou, e por isso deve agradecer a Deus e ao seu anjo de guarda. 23. PRECE. Meu Deus, eu vos agradeço o me haverdes permitido sair vitorioso da luta que acabo de sustentar contra o mal. Permiti que esta vitória me dê coragem para resistir a novas tentações. E a vós, meu anjo de guarda, agradeço a assistência que me prestastes. Possa eu, pela minha submissão aos vossos conselhos, merecer-vos proteção constantemente. Para pedir conselhos 24. PREFÁCIO. Quando estamos indecisos em fazer ou deixar de fazer qualquer coisa, devemos, antes de tudo, dirigir-nos as seguintes perguntas: l.ª — Aquilo que hesito em fazer pode prejudicar a alguém? 2.ª — Pode ser útil a alguém? 3.ª — Se alguém fizesse isso a mim, ficaria eu satisfeito? Se o que queremos fazer só a nós interessa, é nosso dever contrabalançar as vantagens com os inconvenientes pessoais que daí possam resultar. Se interessar a outrem, mas acontecer que, pelo bem feito a um, possa outro ser prejudicado, é preciso igualmente somar o bem e o mal, para agirmos ou nos abstermos de o fazer. Enfim, mesmo no tocante às menores coisas, urge também considerar a oportunidade e as circunstâncias acessórias, porque uma coisa boa, em si mesma, pode ter maus resultados em mãos inábeis, se não for feita com prudência e circunspecção.

Antes de empreendê-la, convém consultemos as nossas forças e os meios de execução de que dispomos. Em todos os casos, pode reclamar-se a assistência dos Espíritos protetores, lembrando esta prudente máxima: na dúvida, abstém-te. 25. PRECE. Em nome de Deus Todo-Poderoso, bons Espíritos que me protegeis, inspirai-me a melhor resolução a tomar na incerteza em que permaneço. Guiai meu pensamento para o bem e libertai-me da influência daqueles que tentarem desencaminhar-me. Nas aflições da vida 26. PREFÁCIO. Podemos pedir a Deus favores terrestres e Ele no-los poderá conceder, quando tais favores tenham fim útil e sério. Mas, como julgamos a utilidade das coisas através do nosso ponto de vista interesseiro, e porque a nossa vista está limitada ao presente, nem sempre vemos o lado mau daquilo que desejamos. Deus, que vê melhor, e vê o nosso bem, poderá recusar o que pedimos, qual um pai recusa ao filho o que lhe possa ser prejudicial. Se o que pedirmos não nos for concedido, nem por isso devemos desanimar. É preciso, ao contrário, supor que a privação daquilo que almejamos nos é imposta como prova ou expiação, e que a nossa recompensa será proporcionada à resignação com que a houvermos suportado. 27. PRECE. Deus Todo-Poderoso, que vedes as nossas misérias, dignai-vos de ouvir favoravelmente os votos que vos dirijo neste momento. Se o meu pedido for inconsiderado, perdoai-me; se aos vossos olhos for justo

e útil, consenti que os Espíritos mensageiros da vossa vontade venham em meu auxílio para a sua realização. Qualquer que seja o resultado, meu Deus, cumpra-se a vossa vontade. Se os meus desejos não forem atendidos, por estar em vossos desígnios experimentar-me, submeter-me-ei sem murmurar. Permiti que não se apodere de mim o desânimo, nem sejam abaladas a minha fé e a minha resignação. (Formular o pedido.) Em ação de graças por um favor obtido 28. PREFÁCIO. Não devemos considerar acontecimentos felizes só os fatos de grande importância: os menores em aparência são muitas vezes mais influentes em nosso destino. O homem esquece facilmente o bem e lembra mais aquilo que o aflige. Se registrássemos diariamente os benefícios que recebemos sem os ter pedido, ficaríamos muitas vezes admirados de haver recebido tanto, e humilhados pela nossa ingratidão. Todas as noites, quando elevarmos a alma a Deus, devemos procurar recordar os favores que nos foram concedidos durante o dia e agradecê-los.

É principalmente no momento em que experimentamos o efeito da sua bondade e proteção que, por um movimento espontâneo, devemos testemunhar a nossa gratidão. Para isso basta que, em pensamento, lhe reportemos o benefício, sem que seja preciso desviar-nos do nosso trabalho. Os benefícios de Deus não consistem somente nas coisas materiais; devemos agradecer-lhe as boas idéias e inspirações felizes que nos são sugeridas. Ao passo que o

homem orgulhoso as atribui a si e o incrédulo ao acaso, o que tem fé rende graças a Deus e aos bons Espíritos. Para isso são inúteis as longas frases. Obrigado, meu Deus, pelo bom pensamento que me inspirastes, diz mais do que muitas palavras. O impulso espontâneo que nos leva a atribuir a Deus o que de bom nos acontecer, testemunhará um hábito de reconhecimento e de humildade que nos granjeará a simpatia dos bons Espíritos. 29. PRECE. Deus infinitamente bom, seja bendito o vosso nome pelos benefícios que me concedestes. Indigno seria eu se os atribuísse ao acaso ou ao meu próprio mérito. Bons Espíritos, que sois os executores da vontade de Deus, e vós, em especial, meu anjo de guarda, aceitai o meu reconhecimento. Afastai de mim o orgulho pelo benefício recebido, e que jamais eu possa fazer mau uso dele. Ato de submissão e resignação 30. PREFÁCIO. Se procurarmos a causa de uma aflição que nos sobrevenha, achá-la-emos muitas vezes na nossa imprudência, em nossa imprevidência, ou em atos anteriores.

Nesse caso, só de nós devemos queixarnos. Se a causa de uma desgraça é independente de qualquer co-participação nossa, representa, então, ou uma prova para esta vida, ou uma expiação de passada existência e, em tal caso, a natureza da expiação pode fazer-nos conhecer a natureza da falta, por sermos sempre punidos naquilo em que pecamos. No que nos aflige, em geral só descobrimos o mal presente e não as conseqüências favoráveis que isso possa ter.

O bem é muitas vezes a conseqüência de um mal passageiro, como a cura de um doente é o resultado dos meios dolorosos empregados para obtê-la. Em todos os casos, devemos submeter-nos à vontade de Deus e suportar corajosamente as tribulações da vida, se quisermos que nos sejam levadas em conta, adotando a sentença do Cristo: Bem-aventurados os que sofrem. 31. PRECE. Meu Deus, vós sois soberanamente justo. Todo sofrimento neste mundo tem, pois, causa e utilidade. Submissamente, aceito a aflição que acabo de sofrer, em expiação das minhas faltas passadas e como prova para o futuro. Bons Espíritos que me protegeis, dai-me alento para suportá-la sem murmurar, aproveitando-a como conselho salutar, que me aumente a experiência e em mim combata o orgulho, a ambição, a tola vaidade e o egoísmo, contribuindo destarte para o meu adiantamento. 32. (Outra) — Sinto, meu Deus, necessidade de orar para ter forças diante das provações que vos aprouve enviar-me. Permiti que a luz se faça intensamente em meu Espírito, para que eu aprecie toda a extensão desse amor que me aflige por querer salvar-me.

Com resignação, meu Deus, curvo-me a tudo, posto que, sendo fraca criatura, temo sucumbir se me não amparardes. Não me abandoneis, Senhor, porque sem o vosso auxílio nada poderei. 33. (Outra) — Levantei os olhos para vós, oh! Pai Eterno, e me senti fortificado. Sois a minha força, não me abandoneis, meu Deus! Esmaga-me o peso das

minhas iniqüidades! Ajudai-me. Conhecendo a fraqueza da minha carne, não afasteis de mim o vosso olhar! Pois que sou devorado por uma sede ardente, fazei jorrar a fonte de água viva e ficarei desalterado. Nunca a minha boca se abra para murmurar das aflições da vida, mas para cantar louvores. Sou fraco, Bom Pai, mas o vosso amor me sustentará. Oh! Eterno! vós sois grande, só vós sois o fim e o alvo da minha vida! Bendito seja o vosso nome, se me ferirdes, porquanto sois o Senhor e eu servo infiel. Curvarei a fronte sem me queixar, pois só vós sois grande, só vós sois o alvo. Em perigo iminente 34. PREFÁCIO. Pelos perigos que corremos, Deus nos adverte da fraqueza e fragilidade da nossa existência. Mostra-nos que em suas mãos está a nossa vida, presa a um fio, que pode romper-se quando menos o esperamos. Sob esse aspecto, não há privilégio para ninguém, porque o grande e o pequeno estão sujeitos às mesmas contingências.

Se examinarmos a natureza e as conseqüências do perigo, observaremos que a maior parte das vezes, se essas conseqüências seguissem o seu curso, teriam sido a punição de uma falta cometida ou de um dever não cumprido. 35. PRECE. Deus Todo-Poderoso, e vós, meu anjo de guarda, socorrei-me! Se devo sucumbir, seja feita a vontade de Deus; se me salvar, consenti que no resto da minha vida repare o mal que pratiquei e do qual me arrependo.

Em ação de graças quando se escapa a um perigo 36. PREFÁCIO. Pelos perigos que corremos, mostra-nos Deus que, de um momento para outro, podemos ser chamados a prestar contas do emprego que fizemos da vida, implicitamente nos advertindo, assim, para refletirmos e nos emendarmos. 37. PRECE. Deus, e vós, meu anjo de guarda, aceitai o meu reconhecimento pelo socorro que me enviastes no perigo de que estive ameaçado. Seja-me esse perigo um aviso, que me esclareça quanto às faltas que para ele me atraíram. Compreendo, Senhor, que em vossas mãos está a minha vida e que ma podeis retirar quando vos aprouver. Inspirai-me, pelos bons Espíritos que me assistem, o propósito de empregar com utilidade o tempo que me concedeis ainda neste mundo. Meu anjo de guarda, sustentai-me na resolução que tomo, de reparar minhas faltas e de fazer todo o bem ao meu alcance, a fim de chegar ao mundo espiritual liberto das minhas imperfeições, quando aprouver a Deus para lá me chamar. No momento de repouso 38. PREFÁCIO. O sono é o repouso do corpo e não do Espírito — que de repouso não tem necessidade. Enquanto os sentidos estão entorpecidos, a alma se desprende, em parte, da matéria e goza das suas faculdades. O sono foi dado ao homem para reparação, tanto das forças orgânicas quanto das morais. Enquanto o corpo recupera os elementos perdidos na atividade da

véspera, o Espírito vai retemperar-se entre os outros e haure, no que vê, no que ouve e nos conselhos que lhe dão, idéias das quais, ao despertar, tem intuição. É a volta do exilado posto em liberdade temporária. Mas, qual ao prisioneiro perverso acontece, o Espírito nem sempre se aproveita desse momento de liberdade para o seu adiantamento, quando possui maus instintos, e então, em vez de procurar a dos bons, busca a companhia de seus iguais e vai visitar lugares onde as suas inclinações possam ter livre curso. Aquele que esteja compenetrado desta verdade, eleve o pensamento no instante em que sentir aproximar-se o sono e faça um apelo aos conselhos dos bons Espíritos, especialmente daqueles cuja memória lhe for cara, a fim de virem ampará-lo no curto intervalo que lhe é concedido. E ao despertar se sentirá mais forte contra o mal, mais corajoso na adversidade. 39. PRECE. Minha alma vai achar-se um instante com os outros Espíritos. Venham aqueles que são bons ajudar-me com os seus conselhos.

Meu anjo de guarda, permiti que, ao despertar, eu conserve desse convívio uma impressão duradoura e salutar. Prevendo a aproximação da morte 40. PREFÁCIO. A fé no futuro e a elevação do pensamento durante a vida, para os destinos vindouros, auxiliam o pronto desprendimento do Espírito, enfraquecendo os laços que o retêm ao corpo, e, muitas vezes, a vida corporal não está extinta de todo e já a alma, impaciente, levantou vôo para a imensidade. No

homem que, ao contrário, concentra todos os pensamentos nas coisas materiais, esses laços são mais fortes, a separação é penosa e dolorosa, e o despertar, no além-túmulo, cheio de perturbação e ansiedade. 41. PRECE. Meu Deus, creio em vós e na vossa bondade infinita, e por isso não posso conceber que ao encarnado tenhais dado a inteligência, que lhe faculta conhecer-vos, e a aspiração do futuro, para em seguida o mergulhardes no nada. Creio ser meu corpo invólucro perecível da alma e que, quando ele houver cessado de viver, despertarei no mundo espiritual. Deus Todo-Poderoso, sinto quebrarem-se-me os laços que unem a alma ao corpo, e que bem cedo irei prestar-vos conta do emprego da vida que deixo. Vou receber as conseqüências do bem e do mal que fiz. Aí não haverá mais ilusão, nem subterfúgio possíveis; todo o meu passado se vai desenrolar diante de mim e serei julgado segundo as minhas obras. Nada levarei dos bens terrenos.

Honras, riquezas, satisfação da vaidade e do orgulho, tudo, enfim, que pertence ao corpo, ficará neste mundo; nem a menor parcela das coisas terrenas me seguirá, pois nada disso me serviria de socorro no mundo espiritual. Comigo só levarei os atributos da alma, isto é, as boas e as más qualidades, que serão pesadas na balança da mais rigorosa justiça, e serei julgado com tanto mais severidade quanto minha posição na Terra me haja facultado ocasiões de fazer o bem que não pratiquei. Deus de misericórdia, oxalá o meu arrependimento chegue até vós. Dignai-vos de estender sobre mim a vossa indulgência. Se for do vosso agrado prolongar-me

a existência, consenti que o resto dela seja empregado em reparar o mal que fiz, tanto quanto estiver ao meu alcance. Se, sem apelo, é chegada a minha hora, levo o pensamento consolador de que me será permitido resgatar as faltas por novas provas, a fim de merecer algum dia a felicidade dos escolhidos. Se me não for permitido gozar imediatamente dessa felicidade sem mescla, que é o quinhão do justo por excelência, sei que a esperança não me fica interdita para sempre e que, com o trabalho, chegarei ao termo, mais cedo ou mais tarde, consoante os meus esforços. Sei que bons Espíritos, com o meu anjo de guarda, se acham junto de mim, para me receberem, e que dentro em pouco os verei tal qual eles me vêem. Sei que tornarei a encontrar aqueles que amei na Terra, se houver merecido. Sei que aqueles que deixo virão juntar-se a mim, quando estaremos todos reunidos para sempre, e que, enquanto os esperar, poderei visitá-los.

Sei também que vou achar os que ofendi; queiram eles perdoar-me os males que o meu orgulho, a minha dureza e as minhas injustiças lhes causaram, e não me acabrunhem de vergonha com a sua presença! Perdôo a quantos na Terra me fizeram ou quiseram mal. Não levo ódio contra eles e peço a Deus que lhes perdoe. Senhor, dai-me coragem para deixar sem pesar as alegrias grosseiras deste mundo, as quais não se comparam às puras alegrias do mundo onde vou entrar. Para o justo, lá não há torturas, sofrimentos, nem misérias; só o culpado sofre, mas a esse mesmo resta a esperança.

Bons Espíritos, e vós, meu anjo de guarda, não me deixeis enfraquecer neste momento supremo; fazei reverberar ante meus olhos a luz divina, a fim de me reanimar a fé, se ela vier a ser abalada. Nota — Vede adiante (pág. 128) a letra “E”: Preces pelos doentes e pelos obsidiados.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.