[user_registration_my_account]
Capítulo 6 de 13
I — Pedi e Obtereis
A Prece Segundo o Evangelho · Allan Kardec
Qualidade da prece. — Eficácia da prece. — Ação da prece. Transmissão do pensamento. — Preces inteligíveis. — Da prece pelos mortos e pelos Espíritos sofredores. — INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS. — Maneira de orar. — Satisfação decorrente da prece. (1) QUALIDADE DA PRECE 1. Quando orardes, não vos assemelheis aos hipócritas, que fingem orar conservando-se em pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas, quando quiserdes orar, entrai no vosso quarto e, fechando a porta, orai a vosso Pai em segredo; e o vosso Pai, que vê tudo o que se passa em segredo, vos dará a recompensa.
(1) Uma explanação evangélica, feita de modo completo, sobre as teses que fundamentam as preces, será encontrada em O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, editado pela FEB.
Não afeteis orar muito em vossas preces, como fazem os pagãos, julgando que pela quantidade de palavras serão atendidos. Não vos torneis semelhantes a eles, porque vosso Pai sabe do que necessitais antes de lho pedirdes. (Mateus, cap. VI, 5 a 8.) 2. Quando vos aprestardes para orar, se tiverdes alguma queixa contra alguém, perdoai-lha a fim de que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe também os pecados. Se não lhe perdoardes, vosso Pai, que está nos céus, também não perdoará os vossos pecados. (Marcos, cap. XI, 25 e 26.) 3. Propôs também esta parábola aos que confiavam em si, como se fossem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu, publicano o outro. O fariseu, de pé, orava intimamente desta forma: Meu Deus, graças vos dou por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem mesmo como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que possuo.
O publicano, pelo contrário, conservando-se afastado, nem mesmo ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tende piedade de mim, que sou pecador. Eu vos declaro que este voltou para sua casa, justificado, e o outro não; porque aquele que se exalta será humilhado e aquele que se humilha será exaltado. (Lucas, cap. XVIII, 9 a 14.) 4. As qualidades da prece foram, assim, distintamente definidas por Jesus. Quando quiserdes
orar, disse ele, evitai que vos vejam; orai secretamente; evitai orar muito, pois não é pela multiplicidade das palavras que sereis atendidos, mas pela sinceridade da prece. Se, antes de orar, tiverdes algum ressentimento contra alguém, perdoai-lhe, porque a prece deixa de ser agradável a Deus, quando não parte de um coração puro de todo sentimento contrário à caridade. Orai, enfim, com humildade, como o publicano, e não com orgulho, como o fariseu; examinai as vossas faltas e não as vossas qualidades, e, quando vos comparardes aos outros, procurai o que de mau existe em vós. EFICÁCIA DA PRECE 5. Tudo quanto pedirdes pela prece, crede que obtereis e que vos será concedido. (Marcos, cap. XI, 24.) 6. Há pessoas que contestam a eficácia da prece, fundadas em que, conhecendo Deus as nossas necessidades, é supérfluo que lhas exponhamos. Acrescentam que, encadeando-se todo o Universo por meio de leis eternas, não podem os nossos votos alterar os decretos de Deus. Sem dúvida alguma, existem leis naturais e imutáveis, que Deus não derrogaria conforme o capricho de cada um; mas daí a se crer que todas as circunstâncias da vida são submetidas à fatalidade vai grande distância. Se assim fora, o homem não seria mais que um instrumento passivo, sem livre-arbítrio e sem iniciativa, hipótese em que só lhe restaria curvar a cabeça sob o peso de todos os acontecimentos, sem buscar evitá-los,
sem procurar desviar-lhes os golpes. Se Deus lhe concedeu raciocínio e inteligência, foi para que deles se servisse, assim como lhe deu a vontade para querer, a atividade para ser posta em ação. O homem, pela liberdade que tem de agir em outro sentido, é que faz com que seus atos lhe tragam para si e para outrem conseqüências derivadas do que ele praticou ou deixou de praticar. Da sua iniciativa se originam acontecimentos que escapam forçosamente à fatalidade e que nem por isso destroem a harmonia das leis universais, do mesmo modo que o adiantamento ou o atraso do ponteiro de um relógio não derroga a lei do movimento a que está sujeito o mecanismo. Assim, Deus pode aceder a certos pedidos sem infirmar a imutabilidade das leis que regem o conjunto, dependendo sempre isso do assentimento de sua vontade. 7. Seria ilógico concluir desta máxima: «Tudo quanto pedirdes pela prece vos será concedido», que baste pedir para obter; como injusto fora acusar a Providência por não anuir a todos os pedidos que lhe são feitos, porquanto, melhor que nós, ela sabe o de que necessitamos.
Dessa maneira é que procede o pai prudente: recusa ao filho o que seja contrário ao interesse deste. Em geral, o homem só vê o presente. Ora, se o sofrimento é útil à sua felicidade futura, claro está que Deus o deixará sofrer, como o cirurgião deixa que o doente sofra numa operação que lhe trará a cura. O que Deus poderá conceder, se confiante o homem lha suplicar, é a coragem. Na paciência e na resignação, igualmente encontra ele meios de escapar aos embaraços, pelo auxílio das idéias que os bons Espíritos lhe
sugerem, deixando-lhe, porém, o mérito da ação. Deus assiste os que se ajudam a si mesmos, confirmando esta máxima: «Ajuda-te e o céu te ajudará.» Não auxilia os que tudo esperam do socorro estranho, sem usar das próprias faculdades, sem nada fazer, preferindo a maior parte das vezes ser socorrido por milagre. 8. Exemplifiquemos: Um homem se extraviou no deserto. Sofreu horrível sede, sente-se desfalecer, deixase cair no chão, e pede a Deus assistência. Espera, mas nenhum anjo lhe vem trazer água. Todavia, um bom Espírito lhe sugere a idéia de se levantar e seguir um dos atalhos que vê diante de si. Por movimento maquinal, reunindo todas as forças, levanta-se e caminha ao acaso. Chegando a uma proeminência, descobre ao longe um regato, e, ao vê-lo, recobra a coragem. Ora, se ele tiver fé, exclamará: «Obrigado, meu Deus, pela idéia que me inspiraste e pela força que me deste.» Se não tiver fé, exclamará: Que boa idéia tive eu! Que fortuna em preferir o atalho da direita ao da esquerda; realmente o acaso nos auxilia muitas vezes!
Como me felicito pela minha coragem e por me não haver deixado desanimar! Mas, perguntarão, por que não lhe disse claramente o bom Espírito: Segue este atalho e ao fim encontrarás o que precisas? Por que não se mostrou para guiá-lo e erguê-lo do abatimento? Por esse modo o convenceria da intervenção providencial. Tal não se deu, primeiro, para que ele aprendesse ser preciso ao homem auxiliar-se a si mesmo, fazer uso das próprias forças; segundo, para, deixando-o na incerteza, despertar-lhe a fé. Deus põe em prova a confiança nele depositada e a submissão à sua vontade.
Aquele homem se achava na situação de uma criança que cai e, se percebe alguém, grita e espera que esse alguém venha levantá-la. Se, porém, não vê ninguém, faz esforços e ergue-se sozinha. Se o anjo que acompanhou Tobias lhe houvera dito: «Sou enviado de Deus para te guiar na tua viagem e preservar-te dos perigos», Tobias não teria tido mérito algum. Confiando no companheiro, nem precisaria pensar; por isso, o anjo só se deu a conhecer quando ele regressou. AÇÃO DA PRECE. TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO 9. A prece é uma evocação. Por meio dela pomos o pensamento em relação com o ente a quem a dirigimos. Pode ter por escopo um pedido, um agradecimento, uma glorificação. Quem a faz pode pedir para si ou para outrem, pelos vivos ou pelos mortos. As preces dirigidas a Deus são ouvidas pelos Espíritos encarregados da execução da vontade divina; as que se dirigem aos bons Espíritos são levadas a Deus.
Quando se ora a outros seres, além de Deus, é simplesmente como a intermediários ou intercessores, pois nada se pode obter sem a vontade de Deus. 10. O Espiritismo faz compreender a ação da prece, explicando o processo da transmissão do pensamento, quer o ser por quem se ora venha ao nosso chamado, quer o nosso pensamento chegue até ele. Para compreender o que se passa nessa circunstância, convém imaginar que todos os seres, encarnados e
desencarnados, se acham mergulhados no mesmo fluido universal que enche o Espaço, tal qual o estamos, neste planeta, na atmosfera. Aquele fluido recebe uma impulsão da vontade. É o veículo do pensamento, tal qual o ar é o veículo do som, com a diferença de que as vibrações do ar são circunscritas, ao passo que as do fluido universal se estendem ao infinito. Então, logo que o pensamento é dirigido para um ser qualquer, na Terra ou no Espaço, de encarnado a desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece, de um para outro, transmitindo o pensamento, tal qual o ar transmite o som. A energia da corrente está na razão da energia do pensamento e da vontade. É por esse meio que a prece chega aos Espíritos, estejam onde estiverem; que eles se comunicam entre si; que nos transmitem suas inspirações; que as relações se estabelecem a distância, entre os encarnados, etc. Esta explicação é principalmente dada a quem não compreende a utilidade da prece puramente mística.
Não tem por fim materializar a prece, mas dar-lhe efeito inteligível, demonstrando que ela pode ter ação direta, efetiva, sem que por isso o seu efeito deixe de estar subordinado à vontade de Deus, juiz supremo de todas as coisas, de quem, somente, depende a eficácia daquela ação. 11. Pela prece o homem atrai o concurso dos bons Espíritos, que vêm sustentá-lo nas boas resoluções e inspirar-lhe bons pensamentos. Assim, adquire ele a força necessária para vencer as dificuldades e entrar no bom caminho, se deste se houver afastado. Também
assim, desviará de si os males que por sua culpa atraísse. Por exemplo: um homem vê a sua saúde arruinada pelos excessos cometidos e arrasta, até ao fim de seus dias, uma vida de sofrimentos. Terá razão de se queixar quando não alcançar a cura? Não, porque pela prece poderia ter obtido força para resistir às más tentações. 12. Separando-se os males da vida em duas partes, uma formada pelas tribulações que o homem não pode evitar e a outra pelas que lhe causam sua incúria e excessos, ver-se-á que esta excede de muito àquela. Torna-se, pois, evidente que o homem é o autor da maior parte das suas aflições, e que as evitaria se sempre agisse com prudência e acerto. É igualmente real que essas misérias resultam de infringirmos as leis de Deus, e que, se as observássemos, fielmente, seríamos perfeitamente felizes.
Se não excedêssemos o limite do necessário na satisfação das nossas necessidades, evitaríamos as enfermidades que são a conseqüência dos excessos, e as vicissitudes a que essas moléstias nos arrastam; se limitássemos as nossas ambições, não teríamos a ruína; se não quiséssemos subir além do que podemos, não teríamos a queda; se fôssemos humildes, não passaríamos pela decepção de ver abatido o nosso orgulho; se praticássemos a lei da caridade, não seríamos mendigos, nem invejosos, ou ciumentos; evitaríamos as questiúnculas e as dissensões; se não fizéssemos mal aos outros, não recearíamos as vinganças, etc. Admitindo que o homem nada possa contra os outros males, e que a prece seja ineficaz para deles preservá-lo, já
não será bastante que possa libertar-se de todos os que provêm de si mesmo? Ora, aqui a ação da prece se concebe facilmente, pois tem por fim obter a inspiração salutar dos bons Espíritos e a força para resistir aos maus pensamentos, cuja execução pode ser funesta. Neste caso, não é o mal que eles desviam, mas o nosso mau pensamento que, aliás, nos pode causar grande mal; não embaraçam, em coisa alguma, os decretos de Deus; não suspendem o curso das leis da Natureza; apenas impedem que infrinjamos essas leis dirigindo o nosso livre-arbítrio. Mas fazem-no sem que o saibamos, de modo oculto, para não nos tolher a vontade. O homem ficará, então, na posição de quem solicita bons conselhos e os põe em prática, mas conservando sempre a liberdade de os seguir ou não. Deus assim o quer para que o homem tenha responsabilidade dos seus atos e para lhe deixar o mérito da escolha entre o bem e o mal. Isso, o homem pode ter a certeza de obter sempre, se pede com fervor.
A esse caso é que se aplicam estas palavras do Evangelho: «Pedi e obtereis.» Reduzida mesmo a esta proporção, a eficácia da prece não traria imensos resultados? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar-nos seus efeitos, revelando as relações existentes entre o mundo corporal e o espiritual. Mas aqueles não são os seus únicos efeitos. A prece é recomendada por todos os Espíritos; renunciar a ela é desconhecer a bondade de Deus, é renunciar à sua assistência e ao bem que pode alcançar aquele que ore, e bem assim aquele por quem se ore. 13. Acedendo ao pedido que lhe é dirigido, Deus tem muitas vezes em vista recompensar o intuito, a
dedicação e a fé daquele que ora. Eis por que a prece do homem de bem tem mais mérito aos olhos de Deus, e sempre mais eficácia. O homem viciado e mau não pode orar com fervor e com a confiança que somente a verdadeira piedade inspira. Do coração do egoísta, que apenas pelos lábios ora, só palavras saem, jamais os impulsos caridosos que dão à prece grande poder. É tão real isto, que, instintivamente, os egoístas recorrem de preferência às preces daqueles que, por sua conduta mais agradável a Deus, são mais ouvidos. 14. Uma vez que a prece exerce uma espécie de ação magnética, poder-se-ia supor o seu efeito subordinado à potência fluídica. Mas, assim não é. Os Espíritos, pela ação fluídica que exercem sobre os homens, suprem, se preciso, a insuficiência de quem ora, quer atuando diretamente em seu nome, quer dando-lhe momentaneamente uma força excepcional, quando digno desse favor ou quando a súplica possa ser útil.
Aquele que não se julgue em condições de exercer salutar influência, nem por isso deve abster-se de orar em favor de outrem, acreditando-se indigno de ser ouvido. A consciência de sua inferioridade é uma prova de humildade, sempre agradável a Deus, que leva em conta a intenção caridosa. O fervor e a confiança em Deus são o primeiro passo para o bem, passo que os bons Espíritos se sentem felizes em incentivar. Repelida só o é a prece do orgulhoso que, confiante na sua força e no seu merecimento, crê poder substituir-se à vontade do Eterno.
15. O valor da prece está no pensamento, sem dependência de local, de palavras e de ocasião em que seja formulada. Portanto, pode-se orar em qualquer lugar e a qualquer hora, só ou em comum. A influência do local ou da ocasião depende de as circunstâncias favorecerem ou não o recolhimento. A prece em comum tem ação mais poderosa, quando todos se associam de coração ao mesmo pensamento, objetivando o mesmo fim, porque é como se muitos cantassem, em coro, ao mesmo tempo. Mas, que importa seja grande o número dos que orem, se cada qual orar insuladamente e por conta própria? Cem pessoas reunidas podem orar com o sentimento de egoístas; enquanto que duas ou três, unidas pelo pensamento, podem orar irmanadas em Deus, obtendo a sua prece mais resultado que a daquelas cem.
PRECES INTELIGÍVEIS 16. Se eu não entender o que significam as palavras, serei um bárbaro para aquele a quem falo, e aquele que me fala será para mim um bárbaro. — Se oro numa língua que não entendo, meu coração ora, mas minha inteligência nenhum fruto colhe. — Se apenas com o coração louvardes a Deus, como é que um daqueles que só a sua própria língua entendem dirá amém, quando terminardes a vossa ação de graça, uma vez que ele não entende o que dizeis? — Não é que a vossa ação não seja boa; ela, porém, não concorrerá para a edificação dos outros. (Paulo, 1.ª Epístola aos Coríntios, cap. XIV, vv. 11, 14, 16 e 17.)
17. O que dá valor à prece é o pensamento que se lhe liga. Ora, impossível é que se ligue o pensamento ao que não se compreende, porquanto o que não se compreende não pode tocar o coração. Na sua imensa maioria, as preces feitas numa linguagem que aquele que as faz não compreende, não passam de um agregado de palavras que nada dizem ao Espírito. Para que a prece toque a alma, preciso é que cada uma de suas palavras desperte uma idéia. Ora, se não lhe compreendermos as palavras, ela nenhuma idéia despertará. Será a repetição de uma fórmula cuja maior ou menor virtude dependerá do número de vezes que seja repetida. Muitos oram por obrigação e alguns unicamente em obediência a um costume. Assim, uns e outros se julgam exonerados do dever de orar, desde que repetiram certo número de vezes, em tal ou qual ordem, a mesma oração. Deus, porém, que lê nos corações, conhece o pensamento e a sinceridade de cada um. Julgá-lo mais sensível à forma do que ao fundo é rebaixá-lo.
DA PRECE PELOS MORTOS E PELOS ESPÍRITOS SOFREDORES 18. Os Espíritos sofredores reclamam as preces. Estas lhes são úteis porque lhes mostram que neles se pensa e isso basta para que se sintam menos abandonados, menos desgraçados. Mais direta ação tem ainda sobre tais Espíritos a prece: reanima-lhes a coragem, excita-lhes o desejo de se elevarem pelo arrependimento e pela reparação, e chega mesmo a impedir que pensem no mal. Neste sentido, as preces
logram, não só lhes aliviar, mas também abreviar os sofrimentos. (Vede o livro de Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 2.ª Parte, «Exemplos».) 19. Certas pessoas (1) não admitem a prece pelos mortos porque, segundo a crença que professam, duas unicamente são, para a alma, as alternativas: salvar-se ou ser condenada às penas eternas, sendo inútil a prece, num caso e noutro. Sem discutir o valor dessa crença, admitamos, por um instante, a realidade das penas eternas e irremissíveis, e admitamos, também, que as nossas preces sejam impotentes para lhes pôr termo. Dada essa hipótese, perguntamos: será lógico, será caridoso, será cristão rejeitar a prece pelos réprobos? Por impotentes que fossem para libertá-los, as preces não seriam para eles uma demonstração de piedade, capaz de lhes amenizar os sofrimentos? Quando, na Terra, um homem é condenado à galé perpétua, embora não haja a menor esperança de se obter para ele o perdão, seria defeso a uma pessoa caritativa ir carregar com ele as correntes que o algemam, a fim de aliviá-lo do peso delas?
Quando alguém é atacado de um mal incurável, ser-nos-á lícito, por não haver para ele nenhuma esperança de cura, abandoná-lo, sem que procuremos dar-lhe algum alívio? Lembremo-nos de que entre os réprobos pode encontrar-se alguém que nos seja caro, um amigo, talvez um pai, mãe ou um filho, e digamos se, pelo fato de não podermos esperar haja perdão para ele, lhe recusaríamos um copo dágua para
(1) Os protestantes.
lhe matar a sede, um bálsamo que lhe cure as chagas? Não sereis capaz de fazer por ele o que faríeis por um galé? Não, isso não seria cristão. Uma crença que petrifica o coração não se pode aliar com a de um Deus que, em primeiro lugar, coloca, no rol dos deveres da criatura, o amor ao próximo. O não admitir a eternidade das penas, não implica a negação de uma penalidade temporária, porquanto Deus, na sua justiça, não pode confundir o bem com o mal. Ora, negar, neste caso, a eficácia da prece, fora negar a eficácia do consolo, fora negar que haurimos forças na assistência moral dos que nos querem bem. 20. Outros se fundam em razão mais especiosa: a imutabilidade dos decretos divinos. Deus, dizem esses, não pode mudar suas decisões porque lho peçam as criaturas; não fosse assim, e o mundo careceria de estabilidade. O homem nada tem, pois, que pedir a Deus; só tem que se submeter e adorá-lo.
Há neste modo de pensar uma falsa aplicação da imutabilidade da lei divina, ou melhor — ignorância da lei, no que respeita à penalidade futura. Essa lei os Espíritos do Senhor a revelaram agora, quando o homem já se acha suficientemente maduro para compreender o que, na fé, está conforme ou contrário aos atributos divinos. Segundo o dogma da eternidade absoluta das penas, em nenhuma conta são tidos o pesar e o arrependimento do culpado. Supérfluo lhe é qualquer desejo de se tornar melhor, uma vez que está condenado a permanecer no mal perpetuamente. Se foi condenado por limitado tempo, a pena cessará quando expirar o prazo da
condenação. Mas quem nos diz que, ao se verificar isto, não sejam mais acentuadas as suas disposições para melhorar? Quem nos diz que, a exemplo do que ocorre com muitos condenados da Terra, ao sair da prisão ele não se conserve tão mau quanto antes? No primeiro caso, seria aumentar o castigo continuar a afligir um homem que se converte ao bem; no segundo, seria conceder a graça a um que permaneceu culpado. A lei de Deus é mais previdente do que isso. Sempre justa, eqüitativa e misericordiosa, ela não prefixa duração à pena, seja qual for, e se resume assim: 21. «O homem sofre sempre a conseqüência de suas faltas. Nem uma só infração da lei de Deus deixa de ter adequada punição. «A severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta. «A duração do castigo de uma falta qualquer é indeterminada, depende do arrependimento do culpado e da volta ao caminho do bem. A pena dura tanto quanto a obstinação no mal. É de curta duração se pronto é o arrependimento. «Desde que o culpado brade: Misericórdia! Deus o ouve e lhe manda a esperança.
Mas não basta que o culpado apenas deplore o mal que fez; é necessária a reparação. Daí vem o ser submetido a novas provas, em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito. «Assim, o homem é, constantemente, o árbitro da sua própria sorte. Pode abreviar o suplício ou prolongá-lo
indefinidamente. Sua felicidade ou desgraça dependem da vontade que tenha de fazer o bem.» Tal é a lei, lei imutável e conforme à bondade e à justiça de Deus. O Espírito culpado e desgraçado pode, pois, salvarse por si mesmo; a lei de Deus lhe diz em que condições o conseguirá. O que mais amiúde lhe falta é a vontade, a força, a coragem. Ora, se, por nossas preces, lhe inspiramos essa vontade, se o amparamos e animamos; se, pelos nossos conselhos, lhe damos as luzes de que carece, em lugar de pedir a Deus que derrogue sua lei, nós nos tornamos instrumentos da execução da lei de amor e de caridade, da qual permite Ele participemos, dando nós mesmos, com isso, uma prova de caridade. (Vede: O Céu e o Inferno, citado, 1.ª Parte, caps. VI, VII, VIII.)
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.