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Capítulo 11 de 13
C — Preces pelos Encarnados
A Prece Segundo o Evangelho · Allan Kardec
Por qualquer que se ache em aflição 42. PREFÁCIO. Se está no interesse do aflito que a aflição siga o seu curso, ele não será aliviado, a nosso pedido. Demais, praticaríamos um ato de impiedade, mostrando desânimo por não ser ouvida a nossa prece. Todavia, se não se obtém o termo da provação, consegue-se algum outro consolo que lhe mitigue o amargor. O que é útil, realmente, àquele que sofre — é a coragem e a resignação, sem o que o sofrimento não lhe aproveitará, pois será forçado a recomeçar a prova. Portanto, para esse fim todos os esforços devem convergir, quer chamando os bons Espíritos em seu auxílio, quer confortando o moral do aflito por meio de conselhos e encorajamentos, quer assistindo-o materialmente, como for possível. A prece, nesse caso, poderá produzir efeitos diretos, dirigindo sobre a pessoa uma corrente fluídica, a fortificar-lhe o moral. 43. PRECE. Deus de infinita bondade, dignai-vos de suavizar a amargura da situação de N..., se tal puder ser da vossa vontade.
Bons Espíritos, em nome de Deus Todo-Poderoso, eu vos suplico que o assistas em suas aflições. Se para seu interesse não lhe podem elas ser poupadas, fazei-lhe compreender que são necessárias ao seu adiantamento. Dailhe a confiança em Deus e no futuro, que lhas tornará mais suaves. Dai-lhe também a força para não sucumbir ao desespero, que o faria perder os frutos de seus sofrimentos e tornaria a sua posição futura ainda mais penosa. Levai-lhe o meu pensamento em auxílio da sua coragem. Ação de graças por um benefício concedido a outrem 44. PREFÁCIO. Quem não está dominado pelo egoísmo regozija-se com o benefício que sobrevém ao próximo, mesmo quando não o tenha solicitado pela prece. 45. PRECE. Meu Deus, sede louvado pela felicidade que sobreveio a N... Bons Espíritos, contribuí para que ele veja nisso um efeito da bondade de Deus. Se o bem que lhe adveio é uma prova, inspirai-lhe o pensamento de fazer dele bom uso e de não sentir vaidade, para que esse beneficio não redunde em seu prejuízo futuro. Vós, bom Espírito, que me protegeis e desejais a minha felicidade, desviai de mim o pensamento da inveja e do ciúme. Pelos nossos inimigos e por aqueles que nos queiram mal 46. PREFÁCIO. Jesus disse: Amai, mesmo os vossos inimigos. Esta máxima é o sublime da caridade
cristã; mas com ela Jesus não quis dizer que devamos ter para com os inimigos a ternura que temos para com os amigos. Ele nos quis dizer nessa máxima que devemos esquecer as ofensas, perdoar o mal que nos fazem e pagar o mal com o bem. Além do mérito que revelarmos aos olhos de Deus, mostraremos aos homens a verdadeira superioridade. 47. PRECE. Meu Deus, eu perdôo a N... o mal que me fez e o que me quis fazer, como desejo que vós me perdoeis o que eu lhe possa ter feito. Se o colocastes em meu caminho para me experimentar, cumpra-se a vossa vontade. Afastai de mim, Deus meu, o pensamento de o amaldiçoar, e todo o desejo malévolo contra ele. Permiti não sinta prazer com as desgraças que lhe possam advir, nem desgosto com os bens que lhe possam ser concedidos, para não macular minha alma com pensamentos indignos de um cristão. Possa a vossa bondade, Senhor, estender-se sobre ele e inspirar-lhe melhores sentimentos para comigo. Bons Espíritos, inspirai-me o esquecimento do mal e a lembrança do bem.
Dai que o ódio, o rancor e o desejo de pagar o mal com o mal não entrem mais no meu coração, pois que o ódio e a vingança só são próprios dos maus Espíritos, encarnados ou desencarnados. Que, ao contrário, eu esteja pronto a lhe estender a mão fraterna e pagar-lhe com o bem todo o mal que me fez e auxiliá-lo, se isso estiver nas minhas forças. Para experimentar a sinceridade das minhas palavras, desejo que se me ofereça ocasião de lhe ser útil; mas, principalmente, oh! meu Deus, preservai-me de o fazer por orgulho ou ostentação, acabrunhando-o com
uma generosidade humilhante, que me faria perder o fruto da minha ação, porque então mereceria me fosse aplicada esta máxima do Cristo: Já recebestes a vossa recompensa. Em ação de graças pelo bem concedido aos nossos inimigos 48. PREFÁCIO. Não desejar o mal aos inimigos é ser caridoso apenas em parte; a verdadeira caridade manda que lhes desejemos o bem e nos alegremos com a sua ventura. 49. PRECE. Meu Deus, em vossa justiça entendestes de dar um momento de júbilo ao coração de N... Eu vo-lo agradeço por ele, apesar do mal que me fez ou procurou fazer. Se ele se aproveitar desse benefício para me humilhar, eu o aceitarei como prova para a minha caridade. Bons Espíritos que me protegeis, não me permitais conceber, por isso, pesar algum. Livrai-me da inveja e do ciúme, que rebaixam; inspirai-me, ao contrário, a generosidade que eleva. A humilhação está no mal e não no bem, e justiça cedo ou tarde será feita a cada um, segundo as suas obras. Pelos inimigos do Espiritismo 50. Bem-aventurados os ávidos de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque o reino dos céus lhes pertence.
Deveis considerar-vos felizes quando os homens vos sobrecarregarem de maldições e vos perseguirem, quando vos caluniarem por minha causa. — Regozijai-vos, então, porque grande recompensa vos está reservada nos céus, pois desse modo foi que eles perseguiram os profetas que vos precederam. (Mateus, cap. V, vv. 6, 10 a 12.) Não deveis temer os que matam o corpo mas não podem matar a alma; temei, de preferência, aquele que poderá lançar a alma e o corpo na geena. (Mateus, cap. X, v. 28.) 51. PREFÁCIO. De todas as liberdades, a mais inviolável é a de pensar, que compreende também a liberdade de consciência. Lançar anátemas sobre aqueles que não pensam como nós, é querer essa liberdade para si, mas recusá-la aos outros, é violar o primeiro mandamento de Jesus: caridade e amor ao próximo. Persegui-los por causa de suas crenças é atentar contra o mais sagrado direito, que todo homem tem, qual seja o de crer naquilo que lhe convenha e adorar a Deus como entenda. Constrangê-los a praticar atos exteriores, semelhantes aos nossos, é atribuir bem maior importância à forma do que ao fundo, à aparência do que às convicções.
A abjuração forçada jamais despertou a fé; ela só pode produzir a hipocrisia; é um abuso da força material, que não prova a verdade. A verdade tem a clareza de si mesma; convence, mas não persegue, por não ter necessidade disso. O Espiritismo é uma opinião, uma crença. Quando mesmo fosse uma religião, por que não teríamos a liberdade de nos confessar espíritas, como possuímos a de nos confessar católico, judeu ou protestante, partidário de tal ou qual doutrina filosófica, de tal ou qual sistema econômico? Uma crença é falsa ou verdadeira; quando falsa, cairá por si mesma, porque o erro não pode prevalecer contra a verdade, desde que
a luz se faça nas inteligências; se é verdadeira, não pode tornar-se falsa pela perseguição. A perseguição é o batismo de toda idéia nova, grande e justa e cresce com a grandeza e importância da idéia. O encarniçamento e a cólera dos inimigos da idéia estão na razão do temor que ela inspira. É por esse motivo que o Cristianismo foi outrora perseguido e que o Espiritismo o é hoje, com a diferença, contudo, de que o Cristianismo foi perseguido pelos pagãos e o Espiritismo o é por cristãos. O tempo das perseguições sangrentas já passou, é certo; mas, se não se mata mais o corpo, tortura-se a alma, atacam-se até os mais íntimos sentimentos, as afeições mais caras; dividem-se as famílias, excita-se a mãe contra a filha, a mulher contra o marido; ataca-se mesmo o corpo em suas necessidades materiais, tirando-se-lhe o meio de ganhar a vida, para obrigá-lo a ceder pela fome. Espíritas, não vos aflijais com os golpes que vos atiram, pois eles provam estardes com a verdade; do contrário, deixar-vos-iam tranqüilos e não vos perseguiriam.
É isso uma prova para a vossa fé, pois, pela coragem, perseverança e resignação é que Deus vos reconhecerá entre os seus fiéis servidores, cuja relação Ele prepara para dar a cada um a parte que lhe pertence, segundo as suas obras. A exemplo dos primeiros cristãos, sede firmes em carregar a cruz e crede na palavra do Cristo, quando disse: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque o reino dos céus lhes pertence. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma.” Ele também disse: “Amai os vossos inimigos, fazei bem a quem vos fizer mal, e orai por aqueles que vos perseguem.” Mostrai que sois seus verdadeiros discípulos e que boa é a vossa doutrina, fazendo o que Ele disse e o que Ele próprio fez.
A perseguição durará pouco; esperai pacientemente o despontar da aurora, pois que a estrela da manhã já aparece no horizonte. 52. PRECE. Senhor, vós nos dissestes, por intermédio de Jesus, vosso Messias: «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça; perdoai aos vossos inimigos; orai por aqueles que vos perseguem», e Ele próprio exemplificou, orando por seus algozes. A seu exemplo, meu Deus, suplicamos a vossa misericórdia para aqueles que desconhecem os vossos divinos preceitos, os únicos que podem assegurar a paz neste e no outro mundo. Imitando o Cristo, nós vos dizemos: Perdoai-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem. Dai-nos ânimo para suportar com paciência e resignação, como prova para a nossa fé e humildade — o ridículo, a injúria, a calúnia e demais perseguições. Afastai de nós o pensamento de exercer represália, porque a hora da recompensa soará para todos e nós a aguardamos, submetendo-nos à vossa vontade. Por uma criança que acaba de nascer 53. PREFÁCIO. Os Espíritos chegam à perfeição depois de haverem passado pelas provas da vida corporal. Os que estão errantes, esperam de Deus a permissão para retomar uma existência, que lhes forneça meios de adiantamento, seja pela expiação das faltas passadas, através das vicissitudes a que são submetidos, seja cumprindo missão útil à Humanidade. Seu adiantamento e conseqüente felicidade futura serão
proporcionados ao modo por que empregarem o tempo que passarem na Terra. O encargo de lhes guiar os primeiros passos e dirigi-los para o bem, está confiado a seus pais, que responderão perante Deus pelo cumprimento desse mandato. Deus fez do amor paterno, e do filial, uma lei da Natureza, para facilitar a execução desse mandato, e essa lei jamais é violada impunemente. 54. PRECE. (Para ser feita pelos pais.) — Espírito que encarnaste no corpo de nosso filho, sê bem-vindo entre nós. Deus Todo-Poderoso, que o enviastes, sede bendito. Sabemos que um depósito sagrado nos é confiado, do qual um dia deveremos prestar contas. Se ele pertence à nova geração dos bons Espíritos que hão de povoar a Terra, agradecemos, meu Deus, esse favor. Se é uma alma imperfeita, nosso dever está em auxiliá-la a progredir na estrada do bem, pelos nossos conselhos e bons exemplos; se cair no mal por culpa nossa, perante vós responderemos, por não termos cumprido a nossa missão para com ela. Senhor, sustentai-nos nessa tarefa e dai-nos coragem e vontade para cumpri-la.
Se esta criança tiver de ser motivo de provação para nós, faça-se a vossa vontade. Bons Espíritos que viestes presidir ao seu nascimento e deveis acompanhá-la durante a vida, não a abandoneis. Afastai dela os maus Espíritos que tentarem induzi-la ao mal; dai-lhe força para resistir às más sugestões, e valor para suportar com paciência as provas que a esperam na Terra. 55. (Outra) — Meu Deus, já que me confiastes a sorte de um dos vossos Espíritos, tornai-me digno da
missão que me impusestes; concedei-me a vossa proteção, esclarecei-me a inteligência para que cedo eu possa discernir as tendências daquele que devo preparar para entrar na vossa paz. 56. (Outra) — Deus bondoso, uma vez que vos aprouve permitir que um Espírito, nesta criança, viesse de novo passar pelas provas terrestres destinadas a fazê-lo progredir, dai-lhe a luz para que aprenda a conhecer-vos, amar-vos e adorar-vos. Pela vossa onipotência, fazei que esta alma se regenere na fonte das vossas divinas instruções. Dai que, sob a égide do seu anjo de guarda, a inteligência se lhe aumente e desenvolva, fazendo-a ter por aspiração aproximar-se, cada vez mais, de vós; seja a ciência do Espiritismo a brilhante luz que a esclareça, através dos escolhos da vida; saiba ela, enfim, apreciar toda a extensão do vosso amor, que nos experimenta para nos purificar. Senhor, lançai um olhar paterno sobre a família a quem confiastes esta alma.
Possa ela compreender a importância da sua missão e fazer germinar nesta criança as boas sementes, até o dia em que puder, pelas próprias aspirações, elevar-se sozinha para vós. Dignai-vos, Deus meu, escutar esta humilde prece, em nome e pelos méritos daquele que disse: «Deixai que venham a mim as criancinhas, porque o reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham.» Por um agonizante 57. PREFÁCIO. A agonia é o prelúdio do abandono do corpo pela alma. Pode-se dizer que nesse momento o homem tem um pé neste mundo e outro no
Além. Essa passagem é, às vezes, penosa para aqueles que estão muito ligados à matéria, e viveram cuidando mais dos bens deste mundo que dos do outro, ou cuja consciência é agitada por pesares e remorsos. Para aqueles, ao contrário, cujos pensamentos se elevaram para o infinito e se desprenderam da matéria, os laços são menos difíceis de romper e os seus últimos momentos nada têm de dolorosos; a alma, então, está presa ao corpo apenas por um fio, enquanto que, no outro caso, está ligada por profundas raízes. Em uma ou outra circunstância, a prece exerce ação poderosa sobre o trabalho da separação. (Vede adiante — Preces pelos enfermos, e “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, já citado, 2.ª Parte, cap. I: “O Passamento”.) 58. PRECE. Deus potente e misericordioso, eis uma alma que deixa o seu invólucro terrestre para de novo voltar ao mundo dos Espíritos, sua verdadeira pátria; possa ela aí entrar em paz e receber a vossa misericórdia. Bons Espíritos que a acompanhastes na Terra, não a abandoneis neste momento.
Dai-lhe alento para suportar os últimos sofrimentos pelos quais deve passar neste mundo, para seu adiantamento futuro. Inspirai-a para que consagre ao arrependimento de suas faltas os derradeiros reflexos de inteligência que lhe restam, ou possam momentaneamente sobrevir-lhe. Dirigi-lhe o meu pensamento, a fim de que sua ação torne menos penoso o trabalho do desprendimento, levando-lhe à alma, no momento de deixar a Terra, as consolações da esperança.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.