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Capítulo 5 de 33

A Morte

Castro Alves Fala à Terra · Chico Xavier, Waldo Vieira e Jorge Rizzini, pelo espírito Castro Alves

No extremo pólo da vida Diz a Morte: - Humanidade, Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou; Sou a balança do destino, O fiel desconhecido, Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo!

O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida; Sou morte – origem da vida, Prêmio ou gládio vingador. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes, Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor!

Também sou braço potente Dos déspotas e opressores, Que trazem os sofredores No jugo da escravidão; Aos bons, sou compensação, Consolo e alívio aos precitos, E nos maus aumento os gritos De dores e maldição.

Sepultura do presente, Do porvir sou plenitude, Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. Sou águia libertadora Que abre, sobre as descrenças, O manto das trevas densas, E sobre a crença o esplendor.

Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas, E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou; Meu verbo é a lei da Justiça, Meu sonho é a evolução; Meu braço – a revolução Austerlitz e Waterloo.

Homem, ouve-me; se às vezes Simbolizo a guilhotina, Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz; E por trabalhar com Deus, Na absoluta equidade, Sou prisão ou liberdade Nova aurora ou nova cruz.

Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver, Oásis – dou-te o repouso, Estrela – estendo-te lume, Flor – oferto-te perfume, Luz da vida – dou-te o ser!

Mas, também se a tirania Arvora-se em lei na Terra, Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir; Arremesso a minha espada, Ateio fogo aos canhões, Faço cair as nações Como fiz Roma cair.

Foi assim que fiz um dia, Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito; Busquei Danton, Mireabau... E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove, E fiz oitenta e nove Quando a França me ajudou. Então, implacavelmente, Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada, Diante de tanto horror. Das cidades fiz ossuários, Dos campos Saaras ardentes, Trucidei réus inocentes, Apaguei a luz do amor.

Até que um dia o Criador, Sempre amoroso e clemente, Que jamais teve presente, Nem passado nem porvir, Bradou do cume dos réus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta, Morte, Agora é reconstruir.”

Portanto, homem, se tens Por bússola o Bem na vida, Olha o Sol de fronte erguida, Espera-me com fervor. Abrir-te-ei meus tesouros, Serei tua doce amante, Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor.

Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa, Horrenda, fria, orgulhosa, Que espedaça os teus heróis, Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos, E mostra bilhões de mundos, E mostra bilhões de sóis.

Conduzo seres aos Céus, À luz da realidade; Sou ave da Liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos, Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas, Dou almas para a amplidão!”

A Morte é transformação, Tudo em teu seio revive: Esparta, Tebas, Ninive, Em queda descomunal, Revivem na velha Europa; E como faz às cidades; Remodela humanidades, No progresso universal.

Médium: Frâncico Cândido Xavier Da obra “ Parnaso de Além Túmulo

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.