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Capítulo 4 de 33

Condoreirismo Social

Castro Alves Fala à Terra · Chico Xavier, Waldo Vieira e Jorge Rizzini, pelo espírito Castro Alves

Já se assinalou há muito a distância entre o épico e o lírico em Castro Alves. O poeta social é condoreiro, o amoroso é canoro. Mas o que sobrevive nos poemas mediúnicos de Castro Alves é o épico, é o condor andino golpeando com suas asas de fogo as formas de escravidão moderna. Vemo-lo nesta coletânea em largos remígios, ora para saudar a libertação espiritual do homem, em vias de realização na Terra, ora para clamar a Deus em favor dos sofredores, ora para vergastar com chicotadas verbais, que estalam como raios, os exploradores da miséria humana.

Nos poemas recebidos por Chico Xavier e no único poema recebido por Waldo Vieira o poeta é uma alvorada de fé e esperança, saudando a nova era que desponta na Terra. Veja-se a beleza candente de A Morte e a beleza explendente de Marchemos, que abrem este volume. Note-se a beleza auroral de O Livro Divino, Ante os Novos Tempos e Na Era do Espírito. Mas nos poemas recebidos por Jorge Rizzini o poeta é o anjo vingador, o defensor dos escravos. Sua voz é a primeira a se levantar contra a escravidão sensorial das criaturas humanas pelos verdugos demoníacos do Umbral, das regiões infernais.

O sexualismo desenfreado que avassala a Terra encontra nos versos de Castro Alves redivivo a mesma vergasta que fustigou os algozes do Navio Negreiro. O mural poético da prostituição é escavado no mármore da História a golpes de Miguelangelo. Poemas como O Sexo no Mundo e Sexo e infância valem por clarinadas de luz rompendo as trevas. E que dizer de Piedade, esse grito de dor através do qual o poeta volta a querer apostrofar o próprio Criador? A estrofe de abertura desse poema dá-nos a imagem cósmica de um navio negreiro da era espacial "vagando pelo espaço, embuçado pela noite". Mas nesse poema o que impera é a dor, nota dominante que goteja de cada verso num compasso único, num ritmo de soluço, desde a primeira à última estrofe. Neste poema vemos Castro Alves acabrunhado, vencido pela sua própria piedade, implorando de joelhos a piedade de Deus para a Humanidade terrena. É em vão que o seu verbo de fogo tenta elevar-se nas labaredas da apóstrofe. A dor pesa nas asas do condor e ele se curva humilde, rogando piedade.

Haverá sempre quem aponte defeitos, vacilações, momentos de frouxidão nesta ou naquela estrofe dos poemas que nos chegam do Além. Que importam as possíveis falhas de capitação mediúnica, diante da força e da beleza de cada poema no seu conjunto? A concepção de cada um desses poemas só encontra, em nossa poética de ontem e de hoje, uma fonte possível: Castro Alves. E se eles não existissem, não tivessem sido captados mediunicamente e publicados, a poesia brasileira, num sentido geral (mediúnica ou não) seria mais pobre em seu conteúdo humano.

(São Paulo, 1971)

(1) Os livros em questão foram lançados pelas editoras Lake, de São Paulo, e "Correio Fraterno do ABC".

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.