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Capítulo 1 de 33

Um Condor no Além

Castro Alves Fala à Terra · Chico Xavier, Waldo Vieira e Jorge Rizzini, pelo espírito Castro Alves

J. de Herculano Pires

Os condores não vivem só na Terra. Eles também têm alma e podem abrir as asas entre as estrelas. E o que nos prova Castro Alves com suas poesias mediúnicas, ora reunidas nesta antologia votiva, destinada a marcar nas letras espíritas o primeiro centenário da passagem do poeta para a outra vida. Colaboram assim os espíritas com as homenagens oficiais e públicas deste centenário.

O problema da literatura mediúnica é ainda um mistério para a maioria dos homens de letras e um desafio para os homens de ciência. “Como admitir – dizia-nos há pouco um poeta – que Castro Alves continue, cem anos após a sua morte, apegado às velhas fórmulas poéticas e ao ímpeto ultrapassado do condoreirismo?" Essa pergunta revela a mais completa abstinência de conhecimentos espirituais. Mas revela também o domínio do preconceito, impedindo a inteligência do interpelante de equacionar logicamente o problema e levá-la à solução.

Só admitimos a poesia mediúnica se pudermos admitir a dualidade relativa de que fala Rhine –, entre espírito e corpo, consequentemente entre vida corporal e vida espiritual. Admitida essa dualidade (proposta por Rhine na área parapsicológica) somos levados a compreender que deve haver uma

dualidade de situações, de condições e de atitudes do ser nos dois planos de existência: o espiritual e o material. E isso é tão evidente que não precisamos de indagações metafísicas para a sua compreensão. Aqui mesmo, na existência terrena, a dualidade relativa de comportamento se manifesta nas mudanças de idade, de ofícios, de situações sociais e locais (como a mudança de clima, de cidade, de país).

Se Castro Alves estivesse na Terra, por um prolongamento de sua vida ou através da reencarnação, acompanharia certamente os movimentos literários modernos. Mas Castro Alves continua, cem anos depois de sua morte, no plano espiritual. Nas condições existenciais de espírito a sua visão das coisas materiais é muito diferente da nossa. O seu objetivo ao fazer poesia não é atingir a virtuosidade poética terrena, mas atingir o coração humano, identificar-se perante os homens que respeitam o seu nome e a sua figura histórica.

Claro que o gênio poético de Castro Alves deve ter atingido, na existência espiritual (ou na quarta ou quinta dimensão, se assim o quiserem...) uma grandeza e um poder de expressão que não podemos sequer imaginar. Mas para se dirigir aos homens, a esses bichos da Terra tão pequenos, como escreveu Camões, o poeta deve descer do Olimpo, como faziam os deuses gregos, e misturar-se com os bichos. Perguntam alguns: "Mas, se é assim, não seria melhor que ele contribuísse para a evolução poética da Terra?" Sim, talvez fosse, mas a Pedagogia nos adverte de que a tarefa do aprendizado pertence a cada um. De nada valeria um professor universitário dar as suas aulas num curso primário. Colocados esses problemas que nos parecem fundamentais, pois constituem a premissa da validade desta antologia, convém tratarmos rapidamente de outro aspecto não menos importante nesta era científica. É o referente à validade do ato mediúnico, particularmente do ato poético mediúnico. Contesta-se a psicografia (escrita espiritual) com a tese cientifica da escrita-automática (escrita psíquica ou anímica) levantada por Pierre Janet.

Essa contestação, porém, é o que de mais superado pode haver em nossos dias, ante o desenvolvimento atual das pesquisas psíquicas e parapsicológicas. Alegar que um médium pode estar simplesmente a serviço do seu inconsciente, ou mesmo do inconsciente coletivo, ou ainda que pode estar captando telepaticamente à distância e em fontes desconhecidas o possível conteúdo poético de alguém (vivo ou morto) é fazer ficção científica e não ciência. Ou, a que é pior, simplesmente buscar uma evasiva para negar a realidade do fenômeno espírita.

O inconsciente, como já o demonstrou o Prof. Sérgio Valle em suas refutações médicas ao Prof. Silva Mello, foi uma descoberta (ou uma revelação) dos Espíritos, antes de Freud. E como o demonstraram Aksakoff e Bozzano (confirmando a tese espírita), a escrita automática corresponde às funções anímicas do médium, sem excluir a possibilidade da psicografia, a qual pode ser também automática ou inconsciente, semiconsciente ou consciente. Claro que não iremos debater aqui o assunto, que as pesquisas parapsicológicas atuais vêm aprofundando, mas convém colocá-la como anteparo a algum pronunciamento de sabichão improvisado, como dizia Richet.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.