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Capítulo 7 de 13

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Bezerra de Menezes e Narrativa Iniciática · Osvaldo Polidoro

Quando no sábado à tarde, chegaram à fazenda, para realizar a segunda sessão e procurar encaminhar a fazendeira no seu desenvolvimento mediúnico, encontraram ali tremendo reboliço, pois a fazendeira, segundo a opinião de alguns, havia enlouquecido, tendo atacado o seu irmão Pedro a machadadas. A sorte é que ele, estando de olho nos movimentos da irmã, não se deixara apanhar de surpresa. Estava ela trancada em um quarto, amarrada e vigiada, quando a comitiva chegara. — Assim agimos — disse-lhes Pedro — para evitar que fizesse danos aos outros e a si mesma. E tudo faz crer que seja o tal perseguidor, porque ela não fala sem ser em vingança justa e necessária. E assim de fato acontecia, pois o tal infeliz, realmente uma das vítimas de Pantaleão, havia a ela se colado, dominando-a inteiramente. Quanto a Pantaleão, o verdadeiro responsável, pelo menos o responsável do momento, estava escondido na estrebaria, com medo de ser encontrado pelos seus perseguidores. E como não sabia de estar desencarnado, pensava que em tudo aquilo havia loucura, pois via-se atacado por dois homens aos quais havia morto. Ao darem entrada no quarto, onde se encontrava Séfora, não teve ela ímpetos de atacá-los, pois o infeliz que a dominava reconheceu que eram estranhos ao fato, que nada tinham com o crime de que fora vítima. Entretanto, quando a chamaram pelo nome, respondeu prontamente: — Eu me chamo Afrânio e não Séfora. O chefe da Estação, que sabia da ocorrência, foi-lhe dizendo coisas amigas e conseguiu colocar-lhe a mão direita sobre a cabeça. Estando assim, repetia palavras consoladoras, falava em Deus e no Cristo, a fim de aguardar a comunicação de algum Guia; e isso aconteceu imediatamente. — Aqui estamos — passou a dizer o Guia — conforme nos enseja a Soberana Vontade de Deus, para tratar do caso presente. O irmão Afrânio está dominando de todo a irmã, em perfeita ligação mediúnica. É hora de fazê-lo reconhecer o erro em que incide, pois ele sabe que é desencarnado, embora não saiba por que motivo está ligado a ela, tendo abandonado o irmão Pantaleão, que está escondido na estrebaria. Ao ter notícias de Pantaleão, Afrânio deu um arranco e quis ir no seu encalço, tendo atirado Séfora no chão, ela que se achava ainda amarrada. Foi então que o Guia começou a falar-lhe, em tom doutrinador, ao que ele respondeu, irado: — Ele que se lembrasse também de Deus, do Cristo e do Bem! Por que procurou tirar-me a vida, como tirou, a fim de ter livre o caminho e conquistar minha esposa? Agora é tarde, muito tarde! Ele vai morrer mil vezes mais, de medo, mesmo que já tenha morrido! Ele tem um pavor louco de nós dois! Corre que parece um cão danado!... O Guia continuou a doutrinar, em palavras, explicando: — Joaquim, o seu companheiro já está encaminhado. Encontra-se feliz, porque se está recuperando. Quanto a você, reconheça, não é menos obrigado às leis de Deus, que sempre chegam em tempo e fazem-se obedecer. Ele replicou, revelando impaciência: — Eu não aceito conversa alguma! Comigo não tem isso! Deus não soube cuidar de meus direitos, eu que era homem de bem e de muita fé! O Guia limitou-se a perguntar: — Em todas as vidas tem sido homem de bem e de muita fé? O infeliz respondeu: — Eu sei lá de minhas vidas?!... Nunca soube disso!... O Guia informou: — A ignorância e o erro, irmão, sempre fazem com que os homens, encarnados ou desencarnados, mais queiram ensinar a Deus do que aprender com Deus. Entretanto, saibamos, tudo isso não passa de louca presunção, pois a Soberana Lei sempre se cumpre, porque a Deus não faltam recursos para fazê-la prevalecer. Visto sua conduta ser essa, vamos levá-lo e doutriná-lo de outro modo, pois aqui estamos com as prerrogativas da Lei e da Justiça, elas que não podem ser escandalizadas. O Guia-chefe comandou e os servidores deram cumprimento a ordem. Séfora retornou a si, porém com ares abobados. Enquanto isso, deste outro lado as coisas se passavam de modo rigoroso, pois Afrânio defrontava situação dolorosa, vivia momentos de pavor, sujeito a uma forma de doutrinação menos desejável. É que, sendo hora, devia tomar o reto caminho, por conhecimento de causa. E aquilo tudo resumia a lição, a informação que devia ter e estava tendo, uma vez que a Providência tem à mão todos os recursos. — Quem respeita o meu direito?! — exclamou Joaquim, tomado de pavor, por se ver preso de angustia íntima, causada pela pressão do meio tenebroso em que o tinham metido. — Deus faz mais do que respeitar apenas — falou-lhe o Guia — porque a um tempo tudo engendra, sustenta e determina; Deus é tudo, para todos os efeitos; o que porém cumpre saber, Joaquim, é que em Deus tudo é por lei. E assim sendo, ao chegar a hora, tudo se move na direção necessária, porque as leis regentes para isso forçam. Você, pelo que não sabe, confunde a sua ignorância das leis com a Sabedoria Divina, ela que contém os princípios e rege os destinos. E por ser assim, coloca-se em posição contrária, faz o jogo do estulto, desprezando a paz e o progresso, para se colocar na situação de mísero sofredor. E enquanto Joaquim ouvia, talvez sem entender coisa alguma, o Guia continuava a lhe explicar: — Em virtude da finalidade da vida, tudo se resume em lhe forçar Deus, através das leis, para as glórias do porvir. Não se esqueça, porém, que tais glórias estão dentro de nós mesmos, dormem à espera que as acordemos. E isto, tudo isto que sofre, nada mais representa do que avisos e forçamentos. Atenda, pois, ao chamado de Deus, para se encaminhar ao Reino do Céu que traz dentro de si mesmo. Joaquim meditou, havendo comentado: — Assim é que Deus age, então? Por que as religiões não ensinam assim, antes fazem pensar em enigmas e mistérios? O Guia respondeu-lhe: — As verdadeiras Grandes Revelações, ou Sabedoria dos Grandes Iniciados, embora fosse de fundo esotérico ou secreto, continha tudo em matéria de ensinos fundamentais. A seguir, como era esperado, veio o Cristo, cuja função missionária era tornar a Iniciação de caráter generalizado ou público, além de revelar em Si mesmo o espírito modelar, acima da matéria, senhor e não escravo dos mundanismos. O Cristianismo é um programa de superação do reino deste mundo, por isso mesmo que é o programa que concita e convida ao Reino do Céu, à plenitude espiritual, que cada um deve realizar em seu íntimo. Sucede, porém, que Roma inventou o catolicismo, no quarto século, findando ali o Cristianismo; daqueles dias em diante, a MORAL, o AMOR e a REVELAÇÃO tiveram fim, havendo se levantado no mundo o reinado da idolatria, o império dos comercialismos político-econômicos em nome de Deus e do Cristo. E por conseguinte, como não poderia ser de menos, a Humanidade entrou para um período de materialismo e de brutalidades. Joaquim murmurou: — Creio que começo a entender alguma coisa... O Guia prosseguiu: — Algum dia, Joaquim, todos saberão que Cristianismo não é um amontoado de formalismos, de vestes fingidas, de paganismos mercantalizados, etc. Todos reconhecerão no Cristianismo a Súmula Iniciática, a Síntese da Verdade. E se houver já, quem deseje reconhecer isso, basta transformar a Sabedoria dos Grandes Iniciados em alicerce do Cristianismo, dando-se a seguir ao trabalho de cultivar a MORAL, o AMOR e a REVELAÇÃO, de modo ostensivo, assim como Jesus o fêz. Porque o Cristianismo, até o ano de trezentos e vinte e cinco, ano em que Constantino o liquidou, foi simplesmente iniciático e de portas abertas, foi amplo, teve toda a Humanidade por objetivo. Todos os estudiosos de Espiritismo chegarão a esta conclusão — reconhecer que o derrame de Espírito sobre a carne representa rasgar o Véu de Ísis, isto é, transformar o que era secreto em generalizado.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.