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Capítulo 6 de 13

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Bezerra de Menezes e Narrativa Iniciática · Osvaldo Polidoro

Chegado, todavia, à cidade, entrou casa a dentro do chefe da Estação, que sabia de ouvido ser espiritista, para rogar o favor de umas palavras. E ali ficou a revelar os acontecimentos que vinham ocorrendo com Séfora, sua irmã, depois da morte de Pantaleão, o irmão de ambos. O chefe da Estação, havendo-lhe feito muitas perguntas, soube dos médicos que haviam consultado e dos medicamentos tomados. — Mal físico — disse Pedro — não pode ser; ela tem tomado remédios a mais não aguentar! — Cada coisa em seu devido lugar: se é mal físico, trate-se fisicamente; se é espiritual, trate-se espirituamente; e se houver simbiose, façam-se os dois tratamentos. A questão, amigo Pedro, é saber onde está o mal, para atacá-lo com as armas e os engenhos necessários. Enquanto saboreavam o café, trazido pela senhora do chefe da Estação, deram de falar sobre a vida de Pantaleão, o recém-morto. E surgiram, então, comentários um tanto extremados, pois sabiam de haver sido ele muito dado a mulherios, chegando a enfrentar situações perigosas, por causa de perseguições a mulheres de responsabilidade. Contaram de algumas vezes trocar tiros, por havê-lo recebido de tocaia, maridos que se propunham a liquidá-lo, julgando-o inimigo de seus lares e de seus brios. Após o café, a senhora do chefe da Estação mandou chamar duas de suas amigas, a fim de fazerem uma sessãozinha. E quando elas chegaram, reconheceu-as Pedro, pois eram as respectivas esposas de dois amigos comuns, o escrivão de paz e o dono do maior empório do local. E disse o chefe da Estação a Pedro, notificando-o: — Faremos aqui uma sessão, a fim de consultar nosso Guia sobre a situação de sua irmã Séfora. Depois, conforme seja o resultado, veremos o que fazer. Depois de comunicados os Guias, deu entrada num dos médiuns um espírito violentamente iracundo, que de um salto avançou sobre Pedro, dizendo-lhe desaforos e pretendendo esganá-lo, chegando mesmo a rasgar-lhe a camisa. Foi um momento de pânico, logo reparado, através das orações e da energia do chefe, que ordenou com firmeza voltasse atrás o espírito. Ele voltou ao seu lugar, mas continuou seus ataques verbais, dizendo que os dois irmãos eram dois míseros perseguidores de mulheres, chegando a eliminar os maridos a fim de ter caminho aberto aos torpes anseios. E acusou-os de ter sido morto a tiros, por Pantaleão, quando pescava certa noite, afirmando também que o mesmo, a seguir, andara perseguindo e iludindo sua viúva, dizendo querer auxiliá-la, visto cair sobre ela tamanha fatalidade. E gritava o pobre irmão: — Somos dois infelizes, mas estamos vingando!... Ninguém nos fará parar, nada nos deterá!... Os miseráveis terão o fim que merecem!... O chefe da Estação, conversando brandamente com ele, falou-lhe de suas obrigações para com as leis de Deus, das quais, uma vez observadas, derivam a paz e libertação final do espírito. Mas o espírito retrucou-lhe, falando como sabia: — Sempre tive as tintas de conhecimento bíblico, pois meu pai fora evangelista, fazendo-nos ler trechos da Bíblia. Eu sei que a Lei de Deus é o Documento Sagrado, é a Lei de Cristo, que veio para dar-lhe cumprimento, para executá-la. O que não admito, entretanto, é que o dinheiro e o poder de uns, tenham mais valor que o direito de outros. Por que nos assassinaram, para depois se aproveitarem de nossas respectivas esposas?!... Pedro interferiu, exclamando: — Não sei das atividades de Pantaleão, mas sei que nunca arredei pé dos meus deveres de cristão! Se tem alguma ou muita razão para perseguir meu irmão, creio que não tem para perseguir minha irmã, que nunca fez mal a alguém, que eu saiba. — Vocês são todos iguais! Todos iguais! — replicou o espírito, fazendo menção de levantar e de atacar. O presidente da mesa ordenou: — Deus é a Divina Autoridade! Deus é Lei e Justiça! Ninguém tem o direito de se fazer vingativo, porque no passado, nas vidas pretéritas, pode ter feito coisas muito piores. Portanto, vamos apelar para Deus, em orações, a fim de por término a estas desgraças. Vamos procurar em Deus o melhor a fazer, pois que raivas e mútuas perseguições nada resolvem em favor da glorificação do espírito. Rebelde, realmente escravo de suas idéias de vingança, bramiu o espírito: — Orações?!... Agora querem orações?!... Eu quero vingança!... O presidente da mesa ordenou: — Orações!... Entrados a orar, foi o espírito rebelde retirado; aqueles Guias que o tinham ido buscar na casa da fazenda, levaram-no a um lugar tenebroso, afirmando que ali o deixariam, caso pretendesse continuar em suas idéias de vingança. Reclamando aquilo que julgava ser direito seu, perguntou o espírito: — Devo, então, ser vítima de Deus e dos homens?!... O Guia que chefiava a comitiva, replicou-lhe: — Nem uma coisa nem outra, pois trata-se de atender os Mandamentos da Lei de Deus, eles que afirmam estar em Deus a plena Justiça, devendo todos os filhos de Deus a ela observância irrestrita, a fim de se tornarem harmônicos e felizes. Se quem erra é contra a Lei, quem pretende vingar o erro não é menos errado. Portanto, façamos questão de seguir o Divino Exemplo do Cristo, que em Deus confiou totalmente, havendo por isso mesmo vencido o mundo. Repito, mais uma vez, que a Lei de Deus é o Documento Infalível; quem lhe der cumprimento, assim como Jesus lhe deu, jamais cairá em trevas, jamais será escravo do erro. O rebelde irmão ficou estático, sem saber o que dizer; e o tal Guia falou-lhe, perguntando: — Não temos tempo a perder... Que devia fazer? Ele, o perseguidor, indagou: — Que me dará o perdão? Solícito, respondeu o Guia: — Aquilo que nós temos, os filhos de Deus que observam a Lei. Repare que somos felizes, iluminados, servidores da Verdade e do Bem; isto é, que estamos na trilha certa, naquele caminho que nos conduzirá à Pureza e à Sabedoria integrais, que constituem o grau crístico, ao estado de libertação total. O espírito encolheu os ombros, permanecendo calado. E o Guia convidou-o: — Venha conosco, para uma escola de trabalho e de paz, de iluminação interna e de indizíveis prazeres espirituais. Ele deixou-se conduzir, e retornou à senhora médium, para dizer: — Eu me considero modificado... Mas lá existe um outro... Ele também foi vítima de assassinato... O presidente fê-lo sair, dizendo que desse atenção aos ensinos dos Guias, a fim de vir a ser, dentro em breve, um Guia a mais. A seguir, volveu a falar o Guia-chefe, avisando: — O próximo trabalho será feito na fazenda, porque o outro perseguidor terá que ser doutrinado através da própria Séfora. Vejam quando poderão fazer isso, pois o caso merece cuidados por vários motivos. Em vista dos termos pronunciados pelo Guia, Pedro indagou: — Minha irmã corre perigo de enlouquecer? Ao que responde o Guia: — Três irmãos encontram-se em perigo: o primeiro é o perseguidor, de vítima tornando-se algoz, por falta de esclarecimento; o segundo é o recém-morto, grande culpado sem dúvida, mas por isso mesmo bastante digno de piedade, pois ao culpado basta o peso da culpa; e o terceiro é a sua irmã, que não sabendo coisa alguma das leis de Deus, insulta a Revelação e com isso comete grave erro, podendo acabar muito mal os seus dias terrícolas. E como não sei ao certo quem seja de todos o mais errado, porque não lhes conheço o Carma, creio que devemos fincar pé no trabalho justo e certo, a fim de ensinar o caminho da Verdade e do Bem. Para isto é que veio Jesus ao mundo: deixar uma Doutrina Viva, capaz de ensinar de fato a lição perfeita, capaz de provar a diferença que há entre o Bem e o Mal. Havendo ponderado a palavra do Guia, murmurou o presidente da mesa: — Sim senhor, bem sábia é a sua palavra. Porque sempre esteve entre os conceitos de Bem e de Mal situado o pensamento religioso. — É isso — comentou o Guia — pelo fato de estar eternamente pronta a parte de Deus, enquanto que cada filho Seu deve aprontar a sua parte, deve realizar o Reino do Céu dentro de si mesmo. Ora, saber discernir entre o Bem e o Mal é saber escolher o caminho certo, a via das boas obras. O presidente da mesa anuiu: — Tenho procurado conhecer a Sabedoria dos Grandes Iniciados, encontrando os conceitos de Bem e de Mal na raiz de todas as cogitações, pelo fato de estarem os filhos de Deus na posse do direito de relativo livre arbítrio, de livre escolha. O Guia adiantou: — A Criação depende do Criador. Ninguém poderia interferir nisso. Mas desde que haja o ser criado, importa conhecer e respeitar as leis de existência, movimento, evolução, responsabilidade, reencarnação, comunicação e habilitação universal. Tudo isto já era conhecido antes de Cristo, porque fora ensinado pelos chamados Grandes Iniciados, que fundaram as Grandes Escolas Iniciáticas. Jesus veio ao mundo para tornar o Conhecimento da Verdade de âmbito geral e para servir de Modelo Integral. Todas as Grandes Revelações tiveram em Jesus o Expositor da Divina Revelação Integral, porque fundamentada na MORAL, no AMOR e na REVELAÇÃO. Quanto ao Espiritismo, constitui a reposição das coisas no lugar, já que a Excelsa Doutrina fora corrompida no quarto século, em Roma. Em seguida, dizendo ter ainda muito que fazer, despediu-se o Guia; e a sessão foi encerrada. Após o encerramento, cuidaram de quando realizar a próxima sessão, tendo havido muitos comentários sobre tudo quanto ocorrera. Pedro estava terrivelmente atarantado, pois jamais tivera conhecimento das atividades criminosas do irmão, nem tão pouco sabendo que uma sessão espírita pudesse dar naquilo tudo. Estava realmente pasmo, receoso e curioso, parece que sem saber como agir. Uma vez combinados para a próxima sessão, despediu-se Pedro, havendo galopado na direção da fazenda.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.